17 de junho de 2011

ANA CAROLINA - quando a música casa a poesia


Conheci a Ana Carolina por Chatterton, quando um amigo ma deu a ouvir, dizendo ser muito fixe. Acho que o ponto mais alto de Chatterton, ou pelo menos a razão por que me foi passado era o “puta que pariu” e o “foda-se” que o Seu Jorge dizia. E falando nisso a música foi-me dada como sendo de Seu Jorge. Só depois, quando eu quis mais e pedi ao meu colega o resto do repertório do artista eu descobri, que eram dois, não conhecia Seu Jorge e pensava que era ele quem desdobrava a voz fazendo-a ora grave ora aguda atingindo aquela diapasão, até uma amiga me ter dito que eram duas pessoa e a outra era a Ana Carolina.

Para escrever isto, escutei alguns álbuns de estúdio, e outros ao vivo, da Ana Carolina, contudo, vou falar apenas de quatro: Ana Carolina (1999), Ana Rita Joana Iracema e Carolina (2001), Estampado (2003) e N9ve (2009).

chatterton (ana & jorge)



Ana Carolina tem uma voz espectacular que dobra e articula magistralmente, ok!, por vezes, parece que não aguenta os agudos, quando de repente sai de graves para lá, soando a meio desafinada, porém, a frequência com que faz isso não parece que seja de desafinação mas de intenção, ou seja dá a ideia de que ela também tem as suas limitações vocais mas usa-as para enriquecer o seu trabalho, se não considerarmos as músicas em que ela grita querendo quebrar cristais.


ANA CAROLINA, o disco de estreia, começa logo por arrebatar, com o Tô Saindo, que realmente tira a artista, merecidamente, do buraco de anonimato onde muitos bons artistas passam a vida enterrados. O álbum é bastante introvertido e pessoal, aliás, o seu título não engana a ninguém, ou pelo menos ela expressa-se muito no EU. E o álbum fecha também competentemente com Tô Caindo Fora, fechando assim o livro. Porém, entre a abertura e o fecho, há algumas músicas que não convencem, e algumas outras que precisam de repetidas audições para serem gostadas; porém o que interessa mesmo é que a quantidade das músicas que arrebatam logo à primeira suplanta a destas.

que sera (ana rita joana iracema e carolina)
pena que os vídeos oficiais dela não permitam incorporações, talvez devesse cumprir a vontade dela e não usar estes vídeos alternativos, mas... vou pensar nisso

ANA RITA JOANA IRACEMA E CAROLINA, hum, se calhar devia ser chamado Ana Carolina .2, porque parece que metade das músicas foram feitas para o disco anterior. A vertente é a mesmo, intimista, porém pareceu-me um bocado mais descontraído, mais animado que o disco anterior, porém, como qualquer artista, Ana Carolina tem os seus vícios, neste caso, sonoros, e aqui isso é bastante sentido. Há algumas músicas que parecem a mesma, apenas tocadas em chaves diferentes. Tem músicas neste álbum que gostei mais do que muitas do álbum anterior, mas considerando o conjunto este é o pior trabalho dela. No entanto, aqui também a primeira música e a última parecem fazer um prólogo e epílogo (talvez seja impressão minha).

ESTAMPADO definitiva Ana Carolina como grande música. Os seus vícios continuam presentes, mas quem se rala?, passa a ser o seu toque de marca. O álbum é melhor que os dois anteriores, o que é muito bom, mostrando que a artista evoluiu bem. Atenção, quando falo de evolução, não quero dizer que antes ela não sabia fazer, mas que agora ela faz melhor do que o bom que fazia antes. A sonoridade do estampado é também diferente dos álbuns anteriores, mostrando-se mais ousada e experimental.

dois bicudos (estampado)

N9VE, nove para os menos atento… o que é que se pode dizer do 9? Nove é quase perfeito, quase porque o Torpedo não me convence muito. É verdade que são só nove músicas em contraposição aos 15 de cada um dos três álbuns supracitados, e tem mais participações que todos esses juntos, mas, fogo!, foram nove muito bem desenhados, e dos 9 no 9, destaco 8 Estórias e 10 Minutos, com menção honrosa a Era, com aquela musicalidade e estrutura que me remetem a Mirah (da qual, há coisa de seis meses, quero aqui falar). N9ve, como álbum, é uma obra-prima.

10 minutos (n9ve) 


Ana Carolina é uma artista e pêras, não só tem música e voz, como poesia e alma (e letras que apesar de ser em português não lhe apanho os porquês, coisa da qual já estou habituado nos poetas), uma força interpretativa que hipnotiza visual ou audiomente, ela é demais.

Não sei precisar o género musical da Ana Caronlina que bate no pop, samba, funk (americano, é claro), bossa nova, e ritmos brasileiros que não sei identificar, e por vezes, fusões desses ritmos, porém as músicas dela que mais gosto são os tangos, gosto de todos os tangos dela. De 2008 para aqui, Ana Carolina deve ter sido a artista que eu mais escutei.

Quem nunca ouviu Ana Carolina… Deus do céu!, está à espera de quê. Porém, não faça como eu, compre antes os discos.



15 de junho de 2011

MISTÉRIO DA RUA 7, 2011 (Vanishing on 7th Street)


Stephen King tem uma história no seu livro Meia Noite e Dois chamado Os Langoliers, que por acaso ganhou uma minissérie (The Langoliers) má po cará… ok!, bastante má, como 90% dos filme feitos à base do trabalho do autor. Nessa história, as personagens passam por uma fenda no tempo e todas desaparecem, sobrevivendo apenas as que se encontravam a dormir, e depois há o nada, que me lembra História Interminável (grande filme da minha infância), que faz desaparecer tudo.

No entanto, não vou aqui falar d’ Os Langoliers, e se comecei por ele foi pela semelhança que encontrei com o filme Mistério da Rua 7, que inicia com as pessoas a desaparecerem numa sessão de cinema, ficando só coisas inorgânicas: roupas e etéceteras, consumidas pelo nada, ou melhor pela escuridão. Vi o filme atraído pela sinopse e lembrei-me do mestre ali em cima. Por isso mal o desaparecimento aconteceu, comecei a procurar semelhanças para poder identificar por que razão alguns não desapareceram, sobreavisado pelo enredo da estória supracitada, e foi fácil: a luz, o que me foi confirmado uns tantos minutos depois, querendo dizer que o argumentista leu a mesma história.

Quando acabei de ver Mistério da Rua 7, fui ler as críticas e não houve nenhuma boa, todos falam mal do filme, queixando-se ou dos actores (que de facto andaram por lá aborrecidos), ou do enredo com muito por explicar (quando muito explicado também se queixam) ou da falta do propósito da história, e ainda houve um que disse que a intenção do realizador era satanizar o Adam Sandler e enaltecer a religião, comparando o filme com O Livro de Eli.

Pois bem, eu aqui gostei do filme, não que isso interessa. E a quem disse que não encontrou propósito ou mensagem eu recomendo ver de novo. E aviso desde já, isto vai carregado de spoilers.


trailer



Mistério da Rua 7 começa num cinema, como já dissera, o projectista conversa com alguém, falando com nariz torcido do filme de Sandler que estava a ser projectado, razão: o enredo é sempre o mesmo e as mesmas piadas fáceis, mas as pessoas estupidamente continuam a ver esse mesmo filme, aliás, a prova disso é o The Hangover II acabadinho de estrear, que não mais nada que o recalibrar do primeiro, segundo os que viram. Ou alguém já viu o filme Professora Baldas?, só vi o trailer, ali ela põe os alunos a ver filmes em vez de ler, advogando que os filmes são os novos livros. Aqui o projectista do cinema é mostrado a ler e mais tarde percebemos que é um nerd, com todos os clichés: muito conhecimento, desejo e medo de mulher. É o único instruído, o único que lê, apesar de ser aquele que põe o cinema a funcionar, porém, só tem teorias não age. E para o cinema acontecer tem de haver escuro, mataforando, as trevas, o emburrecimento, digamos assim. De repente acontece um apagão e todo o mundo desaparece. E mais tarde percebemos que a escuridão (que parece vindo de Ghost - Espírito de Amor) é que consome as pessoas e as tornam em nada mais que sombras.

Depois vemos outra personagem, uma enfermeira, a procurar pelo filho no hospital, para contextualizar que a luz, o esclarecimento, a razão (metaforando outra vez), é que salva. Como vemos ainda na sequência seguinte quando nos é mostrado um apresentador de televisão todo cheio de si mesmo, que sai de um edifício de vinte ou mais pisos (imaginem a quantidade de pessoas que vivem ou trabalham num edifício desse tamanho) e vai até a rua sem dar conta de que as pessoas desapareceram. Primeiro pensei, que merda de distracção forçada, mas depois compreendi a mensagem logo a seguir quando ele nega ajuda a uma pessoa em risco de vida: aquele só quer saber de si mesmo e acha que o mundo gira à sua volta, por isso demorou a notar que os outros já não existem.

Depois aparece, cada um por sua ordem, duas crianças cujos maiores propósitos só são mostrados no fim.

Quatro dessas pessoas vão acabar num bar que tem um gerador auxiliar a funcionar e mostram ali as suas personalidades de uma maneira mais explícita: o projectista é cheio de teorias, mas só fica nisso; a enfermeira é uma crente e acha que Deus está a punir o mundo pelos pecados; o apresentador é egocêntrico, não lhe importa um corno do porquê daquilo, só quer sobreviver; a criança é uma criança um vaso para encher e que todos eles enchiam. A outra criança que sobreviveu, conseguiu-o afastando-se dos adultos.

Quando as personagens são ameaçados pela escuridão põe-se todas a declamar: eu existo!, eu existo!, repetidamente. E quem se lembrar de Cogito, Ergo Sum, de Descartes, talvez note que eu existo quer dizer eu penso, eu penso quer dizer tenho luz, porque a burrice é a escuridão; e tenho luz, segundo Kant, quer dizer eu ajo, e eu ajo passaria por eu pondero. E aquilo pelo que o nosso planeta está a passar demonstra tudo menos ponderação: destruímos o mundo em nome do lucro, temos o aquecimento global, a poluição, as guerras, a fome, males de toda a sorte em nome do egoísmo, das crenças, tanto científicas como religiosas, e ainda assim dizemos: somos racionais. Sempre gostava de saber quem definiu o homem como racional, Oscar Wilde.

Devo ter sido o único que encontrou mensagens no Mistério da Rua 7, o único que esteve atento ao facto das personagens terem sido salvas por energia fotovoltaica, ou que ouviu referências à cidade verde e às usinas nucleares. Ainda temos o sol, está tudo bem, mas e quando perdermos o sol e quando queimarmos o céu (The Animatrix, alguém se lembra?)? A menininha do filme salvou-se porque tinha uma lâmpada que nunca apagava porque funcionava com o Sol (a fonte da luz), e a escuridão não conseguia apagá-la como fez com as outras fontes de luz, o rapaz salvou-se por causa de pequeno grão de fogo, querendo dizer que a luz (o eclarecimento), mesmo que em pequena dose ajuda-nos a livrar da escuridão. Ou alguém notou que os animais não desaparecem? Ainda no fim, temos um novo Adão e Eva, não brancos, mas preto e branca, uma referência à miscigenação anti-racista. O filme não é religioso (quer dizer se ignorarmos os 3 dias, o número 7, os triângulos que insistiam em aparecer), mas político, filosófico e ideologista.


Ok! Agora a parte má: Mistério da Rua 7 tem um tanto de parvoíces, dos quais cito: a enfermeira a procurar o filho no hospital quando o tinha deixado em casa, ou depois de 3 dias ainda andava aos berros por causa dele, como se não tivesse visto o mundo todo a desaparecer. Queria então dizer que o amor dos pais é sempre estúpido e cheio de esperança? Ainda essas pessoas dizem terem sido apanhadas pela escuridão mas que escaparam, um deles disse que a sua luz voltou e foi por isso, ou seja talvez todos eles dever tem escapado por causa de alguma fagulha, mas isso ficou por explicar porque esse mesmo ainda disse ter estado preso na escuridão durante 3 dias (o número mágico do esoterismo, comparação com os dias que Cristo viveu na escuridão, ou andou na escuridão quando morto?), e depois mandado para a luz. E mais a lenda de Croatoan só faz perder o carácter de seriedade do filme, principalmente quando a palavra aparece escrito, deitando abaixo a seriedade das mensagens antes passadas.

É certo que para ser um filme de terror falta-lhe muita acção, e apesar do arrastar um tanto desnecessário de algumas sequências, o filme foi suficientemente rápido. Podia ser melhor trabalhado para agradar tanto aos gregos como aos troianos, mas este troiano aqui não reclama. A parte técnica também mandou bem, particularmente destaco a fotografia (que lembra muito a The Walking Dead, principalmente na cena final). Eu gostei e encontrei mensagens, por isso fecho assim: O Mistério da Rua 7 é recomendável, mas se queres acção e susto, fácil ou difícil, e não usar o cérebro, passa longe.


Actualizado: vi o filme de novo no início de 2017, era muito mau. Nem sei onde tinha a cabeça quando o vi pela primeira vez e que motivou este post. 



13 de junho de 2011

PANDA DO KUNG FU 2, O, 2011 (Kung Fu Panda 2)



Por que prefiro animações aos filmes real motion(?)? Ora, simples, porque a maior parte dos filmes para… não vou dizer adultos, para não ser confundido com pornográfico… portanto, os filmes para gente graúda tratam-nos como miúdos, enquanto a animação para miúdos tenta tratar-nos (sim, nós, também me considero criança) como graúdos, e quando vamos a eles, não o fazemos à espera de construções grandiosas ou profundas, personagens complexas, etecétera, porém de fábulas simples e directas, bastante óbvia e de fácil digestão.

Nesse espírito é que fui ao Panda do Kung Fu 2, em 3D, e senti-me bastante realizado. É claro que o primeiro PANDA foi muito mais divertido em termos de comédia, pois estivemos cinco pessoas (só?) na sala, três eram crianças, e fui o único que me ri o sessão todo, e, por incrível que pareça, das piadas mais óbvias e pastéis. Houve aqui piadas forçadas como o Louva-a-Deus que insistia na história de uma fêmea para lhe comer a cabeça, o que talvez tivesse graça se o público soubesse que as louva-a-deus matam os seus machos depois da cópula, arrancando-lhe a cabeça (o quê? pensavam que só as aranhas, viúva-negra, faziam isso?). Como comédia ficou aquém do primeiro, mas no que se refere à acção é muito melhor construído e mais divertido que o primeiro, com uns toques a Jackie Chan, não apenas como actor de voz, mas também na coreografia das lutas e na mímica do panda, e que coreografia!

trailer

A história do Panda de Kung Fu 2 é esta: Po, depois de no primeiro filme nos mostrar que podemos ser o que queremos se não limitarmos o espírito e a vontade, aqui ensina que o passado é apenas um lugar e o hoje é que nos constrói, e no hoje o que conta não é o que fomos ou o que poderíamos ter sido, mas o que somos e quem são os que nos amam e apoiam. Acho que contei a moral do filme, em vez de fazer uma sinopse… Avante… Houve um regresso às origens, contando como Po foi parar à responsabilidade do seu pai adoptivo e tudo o que estava por detrás disso, apresentando um inimigo ainda mais mortal que o tigre do primeiro filme, por ser inteligente, tecnólogo e belicista, o qual só podia ser vencido conquistando a paz interior. Será que é uma metáfora dos argumentistas para dizer que neste mundo materialista cultivar a espiritualidade nos ajudará a viver melhor? Eu sei lá.

Tecnicamente, bem, qualquer filme em 3D, quer dizer, modelado no computador, que se preze apresenta os seguintes elementos: luz (clareiras, alvoradas, ocaso, nevoeiros, poeiras, etc…), água (ou líquidos, ou vidros) - abusando da cáustica - e, recentemente, detalhes. E Panda de Kung Fu 2 apresenta com maestria os três elementos, ficando atrás da Lenda dos Guardiões, de Zack Snyder, quanto à água e luz, e talvez perdendo para o Carros 2 no que se refere a detalhes (neste caso, os elementos do envolvente). No entanto, ver os pelos do Shi-fu ou de Po, seco ou molhado, cria uma vontade de lhe acariciar tamanho é o realismo. E a técnica usada na abertura do filme e nos flashback também funcionam muito bem e são visualmente atraente pelo kitsch.

Em resumo e conclusão: Panda de Kung Fu 2 cumpre competentemente a sua função: entretém. Apesar de alguns erros de edição e da normal dificuldade de trabalhar com estereoscopia no que se refere à questão de distância, que provavelmente só incomoda a uns pouquíssimos, não se fica indiferente durante a sessão. Não me parece o melhor filme actualmente no cinema, mas é uma boa opção e um bom filme de acção, com lutas a filmes de Hong Kong, com perseguições que reduzem Ong Bak a uma miséria, com direito a nitro e tudo, não estivéssemos ainda na era de Velocidade Furiosa, e para melhorar, com uma maior carga dramática para melhor humanizar as personagens.
Panda de Kung Fu 2 quase cumpre o que promete, porque se tem o dobro da acção, do drama(?),  apenas possui metade da comédia.

P.S.: Depois do cliffhanger no final, fiquei curioso sobre o que vai sair no terceiro filme.


12 de junho de 2011

SE EU NÃO EXISTISSE... (poema)

E SE EU NÃO EXISTISSE...

E se eu não existisse
mas sempre actuasse
Nos palcos e socalcos 

desta vida incerta,
E marcas imprimisse 

em quem me aceitasse,
Em charcos não parcos 

lhe punha na certa…

E se eu não existisse 

e apenas vivesse,
Urdindo e fruindo 

de sonhos bem tinto
De quem me seguisse 

e me recebesse
Benvindo e luzindo 

de modo distinto…

E se eu não existisse e ninguém me visse
Mas gentes contentes cantassem-me hinos…
E se eu não existisse, mas mentes ferisse.
Eu crentes ardentes tinha e até assassinos…

E se eu não existisse, mas obtivesse posse
Das armas que as almas no dentro transportam,
Das crenças e crendices, de qualquer fé que fosse,
Das karmas e dharmas que em tít’res as tornam…

E se eu não existisse... e o desejo me aguce
P'ras rédeas sem lérias tomar deste mundo,
Mentiras, sem crise, que o vero encarapuce,
Com sérias ideias espalhava facundo.




Parte da letra de DEUSdaRIMA - o rapper metido a poeta ou o poeta metido a rapper.


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Nota de rodapé:

Quando comecei a cantar hip-hop, como todo o mundo, arranjei para mim um pseudónimo, mudei umas tantas vezes, até escolher XS O GURU. E quando, numa conversa, um amigo referiu-se às estruturas rímicas das minhas letras em contraposição às de muitos rappers que se apelidavam "Reis da Rima", dizendo que nesse sentido eu seria "deus da rima", adoptei, com toda a arrogância inerente ao título, o nome deus da rima, que grafo DEUSdaRIMA. 

10 de junho de 2011

KADHAFI, O VIOLADOR DE MULHERES

ANTERIORMENTE, em EUA vs KADHAFI:

A 26 de Março, Iman al-Obeidi acusou a tropa de Kadhafi de terem-na violado, nessa altura noticiou-se que ela tinha sido conduzida pelos seguranças alegadamente para o hospital, porque desconfiava-se que Kadhafi iria mandar silenciá-la, e provavelmente era para o seu silêncio que a levaram. Porém, afinal tinha sido detida durante uns dias e libertada sob a ordem de não abandonar o país (só estou a repetir a média). 

A 2 de Maio, os netos, filhos de Kadhafi e civis libaneses foram bombardeados pela NATO.

A 5 de Maio, Iman al-Obeidi tinha conseguido fugir da Líbia e do regime de Kadhafi (temos de falar dela para mostrar que há coisas piores que a morte dos filhos de Kadhafi e que esses provavelmente mereciam morrer pelos pecados do pai; mas ninguém ouviu, o Bin Laden mandava na média).

Ainda em Maio (segundo a Lusa), Donatella Rovera, representante da Amnistia Internacional em Benghazi, disse ter feito invetigações e reunido provas contra Kadhafi que fariam dele um criminoso de guerra, dizendo pérolas como estas:
  1. As tropas de Kadhafi estão a usar armas de forma indiscriminada, como os mísseis russos Grad (de longo alcance) e projécteis de artilharia e morteiros, que têm uma grande margem de erro. 
  2. Nas últimas duas semanas e de forma cada vez mais intensa, os ataques estão dirigidos especialmente ao porto de Misrata, além de continuarem os bombardeamentos indiscriminados que estão a matar e ferir civis.
Ainda em Maio, dois soldados da força de Kadhafi que foram presos revelaram a Andrew Harding, um jornalista da BBC,  que aquele os mandava, através dos respectivos comandantes a violarem as mulheres, a troco de 10 dinares, qualquer coisa como 6 euros, e um deles ainda afirma que não queria e que foi a primeira vez que teve sexo. Ainda Andrew disse que: alguns rebeldes estão a oferecer-se para casar com as as vítimas para "livrar a família da vergonha".


AGORA, em EUA vs Khadafi:

Junho, eis algumas notícias que podem ser encontradas no site da RTP:
  1. Os investigadores têm provas de que o líder líbio Muammar Kadhafi ordenou violações em massa e distribuiu estimulantes sexuais [como o viagra] aos soldados, revelou hoje o procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI). 
  2. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prometeu hoje "intensificar a pressão" contra o líder líbio Muammar Kadhafi até que ele abandone o poder.
  3. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, chegou quarta-feira a Abu Dhabi para participar hoje numa reunião internacional sobre a Líbia, que deverá preparar a situação do país pós-Kadhafi, indicou um responsável norte-americano.


REVIEW DA SÉRIE

Os argumentistas ou estão a brincar com a nossa inteligência ou então consideram-nos de antemão estúpidos. Se já puseram as cartas todas na mesa, mostrando com claridade a sua intenção, por que raio ainda se metem em enrolações quando nós já sabemos mais ou menos como vai ser o desfecho de EUA vs Kadhafi?

Não pretendo que não tenham ocorrido violações, nem estou a defender a impunidade dos violadores, o que não compreendo é o furor ocidental de defender a honra das mulheres, principalmente os americanos, quando os EUA tem um dos maiores índices de crime sexual. 

Um bocado recentemente foi Julian Assange a quem pescaram com esse isco, e mais recente ainda foi o Bin Laden que usou a esposa com escudo humano, agora é o Kadhafi que manda violar as mulheres. Pelo que sei de Kadhafi ele é, digamos assim, doido, mas duvido que seja desse tipo de doidice (mas eu sei lá), no entanto isso não justifica a invasão. 

No post que escrevi sobre a morte de Bin Laden, referi que haveria de acontecer alguma ligação entre ele e o Kadhafi, de maneira a que os americanos encontrassem uma desculpa para a Invasão à Líbia (parte 2 daquele filme de Chuck Norris), mas enganei-me não foi preciso relacionarem as duas coisas. Se no Iraque entraram por causa das armas de destruição massiva, na Líbia vão entrar pelas armas de violação massiva.

Há um par de anos apareceu notícia sobre soldados da ONU que abusaram sexualmente de crianças na África e América do Sul, mas: ah, que é isso?, são apenas danos colaterais!; ninguém culpou a organização, só houve uma desculpa formal. Soldados americanos violaram iraquianas, ninguém se lembrou de culpar a Bush. E ainda os soldados do Vaticano são constantemente acusados de abuso sexual e os EUA não reagem e o máximo que acontece é, novamente, uma desculpa formal por parte do Vaticano.

Kadhafi vai ser um criminoso de guerra também porque os seus soldados mataram civis líbios numa guerra civil, mas a NATO vai ser glorificado porque os civis líbios que matou foram apenas danos colaterais. 

As pessoas violadas merecem justiça? Sim, merecem. Mas quem deve aplicá-la, os EUA? Pelo amor de Deus. 

Epá, apenas invadam lá a Líbia, antes que dêem à China o petróleo, e não arranjem desculpas ridículas.

8 de junho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - pt. 4


THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Adão já está a passar das marcas. Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
Através de bocas alheias, Adão soube que Eva foi passear no Jardim Proibido e foi vista na companhia da serpente. Desconfiou que algo estava errado, e foi avisar a Deus:
- Pai, a serpente anda muito a falar com Eva, eu vou escamá-la. 


NOW

- Adão, não podes escamar a serpente. Não se pode destruir nenhuma criatura viva.
- Pai, eu já Te disse, se eu vir a serpente de novo a falar com Eva, escamo-a. É melhor que a avises, não quero problemas com ninguém. Que está ela a dizer a Eva? Pataratas apenas. Se as vir juntas de novo, mato-a.
- Por que não matas antes a Eva? - provocou Deus.
- Porque... ora, porque... Por que raio fazes essa pergunta, se acabaste de dizer que não se pode destruir criaturas vivas? Por que queres que eu mate a Eva?
- Eu não quero que a mates, não quero que mates nada. Mas não achas que seria injusto matar só a serpente se ambos prevaricaram?
- Mas prevaricou o quê? Quem falou em prevaricação, só quero a serpente longe da minha fêmea, ela tem a sua, que vá conviver ela.
Adão estava com medo que Deus tivesse alguma intenção oculta, e da forma como desconfiava de tudo ultimamente resolveu não arriscar a descobrir essa intenção e por isso desconversou e foi-se embora. 
Entretanto, por causa do seu aviso, Deus falou com a serpente, avisando-a para não se aproximar de Eva.
- Mas como poderei fazer o meu trabalho, pai, se não posso aproximar-me dela?
- Não sei. Se quiseres fazer o teu trabalho, arranja maneira de o fazeres. Nunca deves desistir por falta de meios, antes pelo contrário. Quem encontrou foi porque buscou.
A serpente, aconselhada, buscou e encontrou. Descobriu que Eva gostava de ir ao cybercafé do arcanjo Gueites para entrar no chat e requisitou um computador para poder manter conversação com Eva.
Foi assim que lhe falou da emancipação da mulher e dos direitos cívicos igualitários para todos os géneros humanos. Rematava assim: a espécie é única, nasceste da costela, para mostrar que és igual ao homem, não superior nem inferior. Blá-blá-blá. O emudecimento da verdade foi quebrado, blá-blá-blá, a verdade já saiu do seu alforge, querendo ser hasteada para que todos a vejam.
Eva não compreendia essa última parte, não lhe via sentido, mas parecia bem construída, portanto tinha de ter algum. Talvez estivesse mesmo a precisar de inteligência se até mesmo a serpente sabia mais do que ela. Raios! Imprimiu tudo e levou para Adão, para que este a ajudasse. Adão leu e releu, nada entendeu, mas deu a Eva uma explicação tosca, que não a convenceu, apenas para não mostrar a sua ignorância. Depois, foi buscar um dicionário, mas nem por isso conseguiu traduzir a ideia. Teve que ir procurar Cristo para este lhe ajudar.

Eva, impressionada pelas palavras da serpente, passou a gastar mais tempo no chat, em conversas com ela. Gostava muito de ouvi-la, inda mais porque era com a mulher da serpente que falava agora, e esta era mais expressiva, uma feminista. Quanto menos compreendia, mais Eva admirava o que lhe era dito: confirmava sempre dizendo que era verdade e mais que certo tudo o que a serpente lhe dizia, não obstante não percebesse patavina.
Adão agora andava sem cuidados, não havia motivos para pensar que Eva tocaria na fruta, pois que desde que lhe ensinou a usar Internet, ela andava colada ao computador. Adão não sabia a verdadeira verdade do perigo, não sabia que a serpente instigava Eva a comer a fruta, incutindo-lhe muitas pataratas na mente. Eva tinha muitas outras coisas para fazer, era claro, já nem mesmo ia passear ao Jardim Colorido; se não estava na cybercafé do arcanjo Gueites, então estava na oficina da DIABO a pedir novas coisas que a divertissem muito como aquele espelho. Adão passara muito tempo a procurar um espelho para Eva, porque ela não lhe contara o nome certo, chamara-o espedo. E aquilo era a única coisa de que Eva não se enfastiava, passava eternidades a mirar-se nele.
O que mais dava paz a Adão, convencendo-o que Eva nunca tocaria na fruta, era o facto dde ter pedido a Cristo para vigiá-la, salvando-a de se perder. No entanto, um dia...
- Adão! - disse Eva, correndo ao seu encontro com uma fruta na mão. - Morde isto, é uma delícia.

- Merda!.. - gritou Adão, sobressaltado, depois de ter reparado na fruta. - Eva, por que foste tocar nessa fruta?
Eva estacou, admirada com a cara furiosa de Adão, e com um trejeito que invocava arrependimento.
- Eu queria experimentar, Adão - justificou.
- Eva, não sabes o que fizeste.
- Sei muito bem, Adão - disse Eva, recuperando a confiança, a sorrir. - A serpente explicou-me tudo, Adão, acabei de ganhar poder igual ao pai. Agora sou até superior, pois poderei negar a sua existência, mas ele não pode negar a minha.
- Acabaste de ganhar poder, o caraças. Acabaste mas é de perder o Éden.
Eva perdeu a confiança.
- Por quê? - perguntou.
- Desobediência, Eva. Desobediência. Não mexer significa não mexer. Não vês aquelas placas onde se escreve não mexer e se desenha uma criança com um pé cortado pela mina? Aquilo é o resultado de mexer onde se diz não mexer. Por que merda fizeste orelhas moucas ao meu aviso?
- Adão, estás a assustar-me - disse Eva, visivelmente aterrorizada.
- A assustar-te? Vês-me zangado, Eva? Eu estou apenas triste. Triste por ti e pelo teu acto. Eras a minha fêmea, eu tinha o dever de proteger-te, mas deitaste tudo a perder.
- Mas, Adão - comecou Eva a chorar -, por que estás a falar no pretérito?
- Será que não entendes, Eva? Vais ser expulsa daqui.
Eva rompeu em pranto. Gritos e mais gritos. Histeria.
- Que posso fazer, Adão? Que posso fazer? - perguntava ela, desesperada.
Adão abraçou-a, movido por um sentimento recém-descoberto. A compaixão era grande dentro dele e uma antecipada saudade de Eva o tinha dominado, pois sabia que os seus destinos iriam se descruzar desde essa altura.
- Se eu soubesse, Eva - respondeu-lhe. - Se eu soubesse.
Eva encostou a cabeça no seu ombro e molhava-lhe o corpo com lágrimas. Adão não gostava, mas era o seu último dia com ela, tinha de aceitar. Pensou um pouco mais que o normal e resolveu:
- Onde está a fruta?
- Está aqui - mostrou Eva.
Adão tomou-a da sua mão. Eva, intrigada, levantou a cabeça para ele.
- Que queres fazer, Adão? - perguntou, sobressaltada.
Adão ficou fascinado pela nova cara que via nela. Cara preocupada, olhos rasados de lágrimas, um pouco inchados, músculos da face distendidos. Era uma beleza. Um outro sentimento que nunca experimentara antes apossou-se dele. Instintivamente, segurou Eva pelo queixo e colou a sua boca à dela. Foi o primeiro beijo do mundo. Beijos e beijos, como animais, começaram a descobrir, um no outro, novos talentos. Quer dizer, Adão descobria, porque Eva parecia mais à vontade, talvez fosse do instinto que tinha comprado a Adão.
Depois da confirmação da sua descoberta, Adão ficou ainda mais resoluto a nunca se afastar de Eva. Afinal era ela o verdadeiro Paraíso.
- Mas não sangraste? – disse ele a Eva.
- Mas tu também não – retorquiu ela. – E por que devia ter sangrado?
- Eu sei lá quem pôs essas palavras na minha boca. Na Bíblia eu não as disse.
Eva não entendeu, acho que nem Adão entendeu o que disse, mas não se preocuparam, porque ultimamente havia muitas coisas que não entendiam. Adão fez uma espécie de saia com folhas de árvore – ainda não tinha vendido o engenho - para cobrir as partes, a partir de então, íntimas dele e de Eva. Estava nisso quando ouviu Deus a assobiar, vindo na sua direcção. Envergonhado com as partes íntimas, empurrou Eva para uma moita, tratando ali de tapá-la e de tapar-se a si mesmo.
- Adão, Adão! - chamou Deus. - Onde estás?
- Estou aqui na moita - respondeu Adão. - Ouvi os teus passos e como estava nu, escondi-me.
- Como soubeste que estavas nu? - perguntou Deus. - Por acaso comeste a fruta proibida?
- Não, não comi - respondeu Adão.
- Como soubeste então que estavas nu?
- Como soube? Merda! Não sou cego. - Deus engoliu em seco, não esperava por isso. - Espera um pouco - pediu Adão -, já venho. É só dar um ajuste nisto. Pronto. Já está.
Adão saiu da moita acompanhado de Eva, com uma saia de folhas que provocou gargalhadas em Deus.
- Pelo menos nós estamos vestidos - disse Adão a Deus, irritado com a gozação.
Deus pôs-se sério então. Sabia que a sua ordem não fora cumprida.
- Um de vós comeu a fruta - acusou.
- Foi Eva... - aprontou-se Adão a responder.
- Foi a serpente que me enganou - justificou Eva, rapidamente, olhando para Adão com uns olhos a dizer: linguarudo.
- Eva comeu a fruta? - exclamou Deus, fingindo-se admirado.
- Estás surdo? - perguntou-lhe Adão. - Não foi o que acabaste de ouvir?
- Sabes o que significa isso, Adão? - perguntou Deus.
- Sei sim.
- Ela vai ser expulsa...
- Já disse que sei - gritou Adão, cortando-lhe a palavra.
Deus olhou para ele dentro dos olhos. Adão perguntou:
- Será que ela não tem perdão?
- Não, Adão. Ela infringiu a primeira regra, obediência, e esta era a fundamental. Quebra-se ela, de nada valem as outras...
- Compreendo, pai. Mas só que...
- Só que... - ecoou Deus.
- Só que, ou ficamos os dois ou saímos daqui juntos.
- Como? - Deus não sabia Adão capaz desse sacrifício, ele que sempre fora bruto com todos, não se importando com ninguém. - Não estou a perceber.
Adão mordeu o resto da fruta, que tinha na mão, para lhe mostrar do que estava a falar.
- Não é esta merda o motivo para cartão vermelho? Expulsa-nos! - Olhou para Deus com desafio e alguma pena de si mesmo, e acrescentou: - Se um dia quiseres saber por que fiz o que vou fazer, lembra-te destas palavras: foi a mulher que me deste.
Deus estava surpreso pela atitude de Adão. Ficou irritado, porque começou a ver que os seus projectos estavam a ir por água abaixo, ou melhor, foram. Adão estava a culpá-Lo, atribuindo o erro ao facto dele lhe ter construído a mulher, visto que não a queria no começo; a mulher culpava a serpente e ele, Deus, culpava-me a mim de tê-lo feito pôr aquelas frutas na Árvore Morta. Queria tirá-las dali, mas como não mudava a sua palavra, isso tornou-se impossível. Contudo, esperava que pudesse reconstruir tudo, incluindo remodelar Adão e Eva, para que a ordem reinasse. Conseguira conter a greve; embora alguns dos anjos tivessem ido comigo para o Inferno, muitos outros ficaram, então decidiu que esses não seriam molestados por Adão. Já não precisava expulsar Adão do Paraíso, nem Eva, e se eles não tivessem tocado na fruta, seriam eternos ali.
No entanto, fez-se uma luz no cérebro dele, e Deus lembrou-se dos códices, afinal não precisava expulsá-los, sempre havia uma chance.

6 de junho de 2011

ESTRELAS O MEU DESTINO, Alfred Bester (1956) - por que somos limitados


Há oito anos, indo visitar uma pessoa, ao passar junto a um monte de lixo vi um livro, tinha a capa intacta, mas não conservada, e estava seco, apanhei-o, faltavam-lhe umas tantas páginas no fim, e não sei por que não o deitei fora, pois aquilo era um bom portador de bactérias, o título era Estrelas O Meu Destino, escrito por Alfred Bester. Não encontrei a pessoa que tinha ido visitar, não tínhamos telemóvel na altura, por isso só me restava esperar por ela, e aí fiz o maior erro daquele período, comecei a ler o livro, jactando-me de tê-lo achado.  Depois estive muito doente, quase às portas da morte, mas não foi por causa do livro, foi porque apanhei sarampo.

Estrelas O Meu Destino, conta a história de Gulliver Foyle, um homem amoral e mentalmente, hum!, reduzido, que deixado no espaço para morrer resolve vingar-se destruindo a nave que não lhe deu socorro. Gulliver é mentiroso, devasso, abutre, cancro ambulante, mas, pudera!, a sua época , como começa o livro, era uma idade de ouro, uma época de grandes aventuras, de desafios constantes e de morte violenta... mas ninguém pensava assim. Era um futuro de fortunas e de roubos, de pilhagens e de saques, de cultura e de vício... mas ninguém o admitia. Era um século de extremos, com todo os fascínio da extravagância e da excentricidade... mas ninguém o amava. 

E nesse seu intento ele entra em contacto com o dono da companhia que, obviamente, não quer a sua nave destruída e que além disso tem outros interesses em Gulliver, Gully Foyle, pois ainda que o próprio não saiba, é o melhor jauntador de sempre. Jauntar foi assim nomeado porque a primeira pessoa que o fez e o documentou chamava-se Jaunte, mas para nós, hodierno, ainda é conhecido por teleporte. Gully consegue teletransportar-se a distâncias inimagináveis tanto no tempo como no espaço e isso faz dele a pessoa mais especial da sua época; e isso acaba por mandá-lo para uma "prisão", onde o "reduzido" Gulliver trata de aprender para poder efectuar a sua vingança (cheira a Dumas, não cheira?).

Estrelas o meu destino é um livro arrebatador, ritmo rápido, quase cinema, entre arriscado e seguro, e uma crítica às corporações e o seu sistema, que não hesitam e tirar vidas em nome de lucro, corporações essas que podem vestir-se de diferentes maneiras, tanto como multinacionais como governos. Se tivesse 500 páginas e fosse relançado hoje seria um best-seller.

Estrelas O Meu Destino, também conhecido por Tigre! Tigre! é um dos meus livros de ficção de sempre, principalmente porque não o acabei de ler, devido às páginas que faltavam, o que causou o meu arrependimento, visto que tenho desde essa altura procurado por ele, para ver se o conseguia acabar, tanto em bibliotecas como na net. Hoje encontrei um pdf em espanhol, e oito anos depois… uffffa, vou acabá-lo.

O livro é muito bom, e por ser simples, sem aparentes mensagens profundas, lê-se com bastante facilidade, principalmente pelo humor e leveza da pena do autor. E por referir-se ao espírito humano e às barreira que impomos a nós mesmos, ou que a descrença dos outros nos impõem, às nossas vanidades e veleidades que temos como a razão da existência, merece, contudo, um outro olhar. Recomendo-o a quem o consiga achar. Eu vou relê-lo, mesmo que em espanhol, para, talvez, depois voltar a falar nele.