3 de junho de 2011

HOMEM DA TERRA, O, 2007 (The Man From Earth)


Definir The Man From Earth (o título em português não é oficial) é muito fácil: estonteante. É um dos melhores filmes que vi este ano.

O seu realizador, Richard Schenkman, ou por ser muito simpático ou por saber que este não é um filme que triunfa no cinema (o filme é independente), deu autorização para ser pirateado e baixado na net por quem quiser, por isso, sem crise de consciência, deixo aqui o link para um site onde o encontrei: download aqui.

A história é formada sobre esta pergunta básica (e insana mesmo para Matusalém, convenhamos): E se alguém pudesse viver 14000 anos?

Sempre gostei de ficção científica, e quase todos os filmes de ficção que eu via ou eram ambientados no futuro ou tinham computadores super-inteligentes, ou aliens, ou armas que cuspiam luz, e a maior parte deles não tinha nenhum outro assunto realmente científico e podiam ser localizados em qualquer outro sítio que não fariam diferença nenhuma. Entretanto, The Man From The Earth (como alguns poucos) consegue ser exactamente o oposto: uma ficção científica que podia acontecer na nossa sala, ou na casa do vizinho, que não recorre a nenhuns efeitos especiais para dar a ideia de sofisticação, aliás, muito pelo contrário a fotografia ora granulada parece muitas vezes amadora e filmada a luz natural e com uma câmara descartável.

São oito pessoas no filme (os sete dias mais Deus, remetendo a Chesterton?), quatro cientistas, uma estudante, uma religiosa, uma amante, e o nosso homem. Entretanto, em hora e meia, todas essas pessoas são definidas e ganham dimensão, conseguimos saber como são e conseguimos isolá-los do grupo e decidir se queremos criar empatia com eles, não há (talvez tiremos a estudante) uma única personagem sem personalidade e clichet, se não contarmos com as características inerentes ao tipo de trabalho de cada um.

trailer

Eis o resumo: um professor universitário, depois de dez anos decide mudar de cidade, e recebe uma visita de despedida dos seus melhores amigos e ali conta-lhes que tem 14000 anos e que veio do paleolítico. A partir daqui segue o drama, a comédia, a filosofia, a psicologia, a História e o homem (a ciência e a fé, ora fundidas, ora divididas).

O cenário é bem resumido, mas o campo abarcado pelo filme é bastante, bastante extenso, e o filme cativa desde os primeiros minutos, principalmente porque começa com o essencial, o resumo acima acontece nos primeiros cinco minutos, o resto é do melhor. Raras vezes me diverti, me emocionei e aprendi ao mesmo tempo como com este filme. As suas falhas (como o facto de ele ter conhecido todas as pessoas notórias da antiguidade), e algumas soluções fáceis, são bem desculpáveis considerando o quadro geral. Além de ser uma prova de que não é uma carrada de dinheiro que faz um bom filme.

Conclusão: altamente recomendável.





1 de junho de 2011

X-FACTOR E A QUESTÃO DA DIFERENÇA

A banda desenhada é, injustamente ou não, considerada literatura menor (não sei dizer a minha opinião sobre isso, porque, em verdade, ainda não gastei dias a pensar no assunto). Talvez o facto de misturar palavras com imagens, e apresentar uma dinâmica diferente da literatura habitual é que o desclassifica no patamar literário, aliás, ela pertence a um grupo artístico diferente, a nona arte. E talvez por isso, muitos autores, destaco Alan Moore, escrevam novelas gráficas, para elevar o respeito ao seu trabalho no plano literário.

Porém, por vezes, essa consideração inferiorizada da banda desenhada como literatura, é, frequentemente, muito injusta, porque dependendo do autor, a banda desenhada consegue ser mais rica e literária que muitas pseudo-literaturas que andam por aí impressas entre duas capas e por vezes mais pobres que uma bula farmacêutica.

Todavia, este post, não pretende falar da banda desenhada em si, mas de um título da banda desenhada: a X-Factor da Marvel. É um assunto que chama mais atenção aos geeks e nerds, do que à gente comum, portanto… vamos em frente.

A Marvel tem sido chamada de pró-direitos humanos, porque nas suas páginas tem escrito sobre a liberdade, a diferença, a aceitação e outros tantos problemas sociais, inclusive o seu grupo mais icónico os X-Men, são um bando de mutantes que tentam sobreviver aos ataques por todos os lados, porque são diferentes. Porém, isso não quer dizer que a Marvel não seja preconceituosa e americanamente panfletária como os outros tantos títulos recentes americanos, por exemplo a recente mini-série Xenogénese, da X-men, é tão preconceituosamente racista que tira todo o gozo da leitura.

No entanto, hoje, talvez por ser mais adulto, ter lido e visto muita coisa, ou talvez porque os argumentistas e escritores tenham maior dificuldade em surpreender um leitor mais ou menos lido, as histórias do universo da BD desenhada têm vindo a sofrer. Ultimamente tenho lido mais a Marvel, e acho que única linha que permanece consistente é a do X-Factor.

Na X-Factor #217, fiquei fascinado com o tratamento que deram à história, houve um diálogo sobre as diferenças e a minoria entabulado entre um grupo de manifestante e J.J. Jameson (sim, conhecem-no do Homem-aranha, talvez não saibam que agora ele não é editor, mas o Presidente da Câmara de Nova Iorque), que, apesar dos lugares-comuns, arrebata. Por quê? Porque Jameson é um hipócrita que persegue o Homem-aranha por esse ser diferente e superior a ele; e porque Jameson incarna o governo americano, que apesar de falar em nome da liberdade é quem vota projectos, como a lei patriótica e toma as decisões que vincam mais as diferenças; a quem na minha terra atribuiríamos o título de sanguessuga, beija enquanto morde.

Porém, para não prolongar-me mais, deixo aqui algumas páginas (a tradução não é das melhores, por causa do meu limitado inglês):


Povo: América para os americanos!… Estrangeiros fora!... Precisamos proteger as nossas fronteiras!... Não precisamos de mais terroristas muçulmanos aqui!... Sim eles são tão maus como os mutantes.
Monet: A sério?… Eu sou muçulmana e sou mutante.



Povo: Já te ocorreu que a tua gente só leva tragédia e morte para onde quer que vá?
Monet: Qual gente? Mutantes ou muçulmanos?
Povo: Escolhe tu!… Sim, as pessoas morrem onde quer que a tua gente apareça.
Guido: A nossa gente? Deixem-me falar-vos da nossa gente. É claro que temos algumas ovelhas negras, pessoas que apenas querem matar os outros. Mas a maioria de nós são pessoas normais que querem uma vida normal. E gostamos dos que as pessoas más fazem tanto quanto vocês. Então como pensam que sentimos quando nos põem nesse grupo?
Monet: Ele tem razão, já é suficiente mau ser condenado por aquilo que és, imaginem ser odiado pelo que não é.
Povo: Não nos enganas! “Eu ouvi” [aspas minhas, as pessoas só ouvem e acreditam sem pensar] que todas os mutantes querem dominar o mundo, ainda que queiram ou não admiti-lo!... Os muçulmanos também! É o que manda os vossos textos sagrados! Vocês estão em guerra com o cristianismo!... E as vossas mesquitas são, na verdade, campos secretos de treinar terroristas…! O quê?
J. J. Jameson: E se elegerem um presidente católico ele vai ser uma marioneta do Vaticano.


J. J. Jameson: Pelo menos foi o que disseram em 1960 para que o povo não votasse em JFK. É claro que isso é uma visão extremista. Engraçado, pensem: extremistas de todos os tipos ganham mais atenção.
Povo: Olha a panela a dizer à chaleira que está tisnado.
J. J. Jameson: Eu não sou panela, puto, eu mexo na panela.
Povo: Olha, eu estou apenas farto das pessoas lutarem pelos direitos dos estrangeiros e não darem uma mínima para os verdadeiros cidadãos.
J. J. Jameson: Da maneira que a multidão te dá atenção, eu digo que estão farto das pessoas como tu dirigindo o debate.
Povo: As melhores ideias dirigem o debate, não as pessoas. Nota de rodapé: só queremos o nosso país de volta.
J. J. Jameson: Engraçado: continuo a ouvir isso de todos de ambos os lados [suponho que seja uma referência aos democratas e aos republicanos]: “queremos o nosso país de volta. Onde é que foi [o país], se nenhum de vocês o tem? Adivinhem uma coisa: eu tenho-o.



J. J. Jameson: Eu e os meus grandes ancestrais brancos. Viemos aqui e tomamo-lo dos que estiveram cá antes. E logo depois de o tomarmos, raptámos pessoas da África para nos ajudarem a construi-lo. E agora estamos todos preocupados que o karma nos venha a morder o traseiro. Então temos de lutar contra porque de outra maneira daqui a cem anos, pode acontecer sermos aqueles a viver nas reservas e a morrer de varíola. Podemos fazer isso. Manter afastados todos aqueles de quem temos medo. Mandar os intrusos de volta a onde vieram… ou talvez, pô-los num campo de concentração com na segunda guerra mundial [América também tinha campos de concentração, só que ninguém fala disso – pelo menos foi o que li num livro de Pearl S. Buck, e no Focus de Arthur Miller], porque temos medo que sejam terroristas. Ou talvez… é uma ideia absurda, eu sei… mas talvez possamos parar de tratar a toda a gente como uns malditos inimigos.
Povo: Diz o gajo que odeia os super-heróis.
J. J. Jameson: Diz o gajo que acredita que as acções têm consequências, que há leis que deveriam proteger a todos… mesmo às pessoas de quem não gostamos… gentes de quem discordamos não são traidoras, e se elas são novas aqui talvez elas mereçam o tipo de desconto que não damos a outros. Agora, queres discutir os factos, situações e impactos na economia? Bora dançar.




Enfim, eis o discurso por si. E queria falar das suas linhas ou da reacção manifestada pelo povo, ou da própria sátira de J. J. J., porém receio que o post já seja longo o suficiente e acho os discursos bem explícitos para que cada um faça a sua leitura tanto os "supernacionalistas" como os "abolicionistas".




30 de maio de 2011

MOBY DICK, Herman Melville (1851) - como pescar baleia e empatar a vida


Esta, como boa parte das minhas observações sobre os livros, já tem idade, escrevi-a, em 2006, e é por ela que o publico, como um conselho para não falar nem bem, nem mal de livros que não tenhas lido e concluído (quer dizer, se não o conseguires concluir, julgo que podes falar mal). Vai ela:


Quando eu tinha 14 anos li Moby Dick de Herman Melville na versão juvenil, e não gostei lá muito, aliás, não gostei nada, pois não via piada nenhuma num tresloucado que saía do seu território para ir arpoar uma baleia no território desta, parecia-me o abuso dos colonizadores, hoje parece-me o abuso americano; era como ler uma tourada.
 
Mas como sempre deparo com Moby Dick como uma das obras-prima dos clássicos da literatura, tanto em outros livros, como em filmes, achei que devia lê-lo de novo, acreditando que hoje estou mais maduro, literariamente falando. Entretanto, o livro era volumoso, 660 páginas, o que me mete medo logo à primeira, e de uma certa maneira parece-me um desperdício, pois posso ler seis livros no mesmo espaço de tempo que vou gastar para ler esse, o que é mais económico e frutífero (se os seis não forem livros de Paulo Coelho[1]).

Entretanto, resolvi não economizar e ler o Moby Dick. O que dizem na síntese sobre o livro é que se trata da história de um pescador que tenta a todo custo caçar a baleia que lhe comeu a perna (e foi isso que mais fez com que eu não tivesse decidido a lê-lo), porém, essa descrição é uma injustiça para o livro, pois que Moby Dick é muito mais profundo que uma história de ódio e obsessão.

Ainda estou a ler o livro... ainda só li dois sexto dele, mas garanto-vos que é uma leitura que vale a pena. Parece um manual de pesca, mas tirando essa parte técnica, está a revelar-se uma viagem no espírito humano.

E para acrescentar mais palavras digo que a prosa do autor é esplendida, às vezes simplista, outras arranjada, mas apanhando-lhe o ritmo é cativante.

P.S.: Só não gostei que tivesse chamado a um preto de anjo das trevas (mas perdoo-lhe isso, porque ele é um fruto da sua época).

…………………


Bem, uns dois dias depois larguei a obra, porque tornou-se chata pa caramba, não parecia um manual de pesca, era mesmo um manual de pesca, tinha uma parte onde ele falava de peixes que parece um piscis-zoólogo (ou lá como os doutos os diriam), eu julgava que lhe tinha apanhado o ritmo, mas cansei-me a meio. Definitivamente para mim, não é um bom livro, mas se se procedesse a cortes no livro, deixando para lá o dispensável, para mim seria realmente uma obra, talvez não prima, mas sobrinha.

Apesar de não ter gostado do livro, reconheço a sua profundeza e a sua atemporalidade, séculos sobre séculos amontoarão e o homem continuará sempre a correr atrás das suas baleias, alguns por ódio, outros por ilusão, outros porque têm de participar na corrida, afinal somos todos Ahabs, laborando energicamente para atingirmos as nossas metas; a essa leitura chegamos se olharmos Moby Dick por uma outra vertente e não a explícita do livro. 


Por alguma razão Moby Dick é um clássico considerado obra-prima, mas não é um livro que eu recomendo.



____________________________
[1] Depois de tanta recomendação e bem-falação de alguns dos poucos amantes de livros que eu conhecia, meti-me a ler Paulo Coelho, O Alquimista para abrir, não entendi o tanto entusiasmo acerca do livro, porém continuei a ler o autor, e li cinco títulos e gostei apenas de Monte Cinco, mas até que era capaz de salvar metade de Verônica Decide Morrer; eu sei que os críticos invejam qualquer artista que comece a ter visibilidade, por isso decidi ler todo o Paulo Coelho que me fosse parar às mãos, depois do primeiro, para poder dizer com alguma isenção que não gosto dele ou para encontrar aquela chama que fascinava os outros, para não ser como os ateus que desprezam toda a Bíblia sem nunca o terem lido. No entanto, prefiro Paulo Coelho a Hemingway.

27 de maio de 2011

SAIAN SUPA CREW - dos melhores do hip-hop

Em 2000 (o ano em que o mundo devia acabar), havia um programa da RDP África que eu costumava ouvir, CP – Estação dos Novos, onde apresentavam músicas e faziam-se votações para os 10 +, foi ali que ouvi Angela, de Saian Supa Crew, fartei-me de mandar mails para votar nela. Foi o primeiro contacto que tive com o grupo, e não o conhecia bem, chamava-o Satan Super Creole, até anos depois ter visto um vídeo deles na TV, A Demi-Nue, e lido o nome correctamente para fazer as contas e saber que andei por anos a chamá-lo de forma errada e a recomendá-lo com o nome errado. Hoje, afirmo com convicção que Saian Supa Crew é o melhor grupo de Hip-Hop que já ouvi.

angela (krl, 1999)


Saian Supa Crew é um agrupamento francês composto por membros de três outros grupos (mas quem quiser saber disso que vá a wikipedia), são seis pessoas (Feniksi, Vicelow, Sir Samuel, Sly, Specta, Leeroy - este dois últimos deixaram o grupo), e fazem tudo para que se lembrem deles, porque passam o tempo a dizer os seus nomes na música, todos eles diferentes na forma de cantar, com algumas aproximações entre alguns, é claro. Lançou três álbuns e um monte de singles, vinte, se não estou em erro. Saiu da França, onde parecia só existir o Mc Solaar, pelo menos para os de fora, para o mundo, carimbado com diferença.

Entretanto, eu vou ficar aqui apenas pelos álbuns, sendo eles: KLR (1999), X-Raisons (2001) e Hold-Up (2005). O último trabalho discográfico deles foi há meia dúzia de anos (porque fizeram um single em 2008, C'Est Nous Les Aliens) , portanto podia ser mais que natural que já houvesse um grupo que o batesse hoje, mas, eu sei lá, ninguém bateu os Queen.

KLR não foi um álbum muito feliz, claro que colocou o Saian Supa Crew no mapa, e os seus defensores referem-se à lírica do grupo, porém para um não-falante de francês, essa parte não é muito útil. No entanto, nota-se a vertente experimental de Saian, começando ainda em 99 a romper com o tradicional hip-hop, aventurando-se, como poucos ousavam (e ainda ousam) fazer, por mares dantes nunca navegados (ok!, talvez não assim tão não-navegados, SSP - que vai ganhar aqui um post - andava a fazer a mesa coisa aqui nas bandas lusas, mas prossigamos). Contudo, ao contrário do segundo álbum onde tenho de escolher as músicas insípidas, no "insípido" KLR tenho de escolher as boas, no entanto, cada vez que o ouço (sim, apesar de tudo continuo a ouvir), acabo por tirar alguma música da lista das más.

la preuve par trois (krl, 1999)


X-RAISONS mostrou toda a veia transformativa de Saian Supa Crew, definitivou o estilo supacrewiano, ou seja, o seu não-estilo, porque não está definido, eles misturam beat-box, ragga, reggae, jungle, dancehall, salsa, afro, e ainda outros estilos. Tudo isso já tinha começado no álbum anterior, mas talvez por falta de prática ou por medo, não carregou muito. X-raisons é um bom álbum, divertido, musical e um tanto estranho, sendo essa sua estranheza o seu ponto alto.

a demi-nue (x-raisons, 2001)

HOLD-UP é um álbum flawless. Entretanto, isso não quer dizer que tenho todas as músicas de Hold Up na minha lista top +, não, embora quase todas sejam boas, há sempre as melhores, o que não é nada fácil de escolher logo à primeira. Hold-Up é um trabalho intenso com músicas uma a seguir a outra cada vez melhores; porém, considerando que os artistas costumam por na segunda faixa a melhor música do álbum (ou que assim a editora considera), aqui La Patte talvez seja a melhor (para eles), mas desconfio mais que é por ter a participação de Will.I.Am, ou seja uma garantia de venda.


O primeiro álbum de SSC me parece mediano, mas o segundo, melhorando para o terceiro, são os argumento que faz achar Saian Supa Crew o melhor grupo do hip-hop, e parece que não só eu porque até RZA, um dos membro de Wu Tang Clan, convidou-o para um trabalho com o título Saian (e alguém me diga que isso não é uma homenagem). Pelo youtube encontra-se várias participações de SSC com outros rappers, alguns lusófonos, propriamente do Brasil.

Saian Supa Crew é um grupo que vale a pena ouvir.


bónus
a co' mow (hamisow boh)

25 de maio de 2011

DISTRITO 9, 2009 (District 9)


Se me perguntassem qual foi o melhor filme que vi em 2009, eu nem hesitaria em responder: Distrito 9.

Quando fui vê-lo, não tinha lido nada sobre ele, nem visto trailer, a única coisa que sabia dele era ser produzido por Peter Jackson e ter extraterrestres, mas eu sempre desconfio quando usam nomes de pessoas que já fizeram bom trabalho para vender mercadorias. Porém, um dia resolvi ver Distrito 9, estava à espera de uma comédia, porque o cartaz lembrava-me da Arma Infrutífera, com Samuel Jackson e Emílio Estevez, e o título remetia-me ao B13, aquele filme francês de parkour. Com uma expectativa assim tecida, por ser o Distrito 9 como é, apanhou-me totalmente desprevenido e chocou-me sobremaneira.

O início do filme, com aquele carácter de reportagem, criou logo a sensação de algo real, comecei a pensar que talvez o filme é sobre um desses tantos loucos que proliferavam nos anos 70 jurando terem sido abduzidos por aliens. Não sabia bem do que estava à espera, mas ainda contava com uma comédia, mas uma comédia muito realista. Não pude não me sentir parte daquele universo, por estar acostumado às notícias na TV. Além de passar a mensagem: apareceu na TV, é verdade.

No filme (cuidado com spoilers!) temos um grupo de alienígenas que vieram refugiar na terra, provavelmente porque o Titanic deles afundou. Não se pôde especificar bem do que estavam a fugir (se é que estavam) ou para onde iam, mas pelo menos, vemos um deles a planear voltar para a casa para ir buscar ajuda, ou seja, a estrutura social do planeta deles continuava ainda intacta. Sobre o aliens, chamados gafanhotos pelos humanos não se sabe muita coisa.

Para começar os aliens foram parar à África do Sul, país que ainda está a tentar curar-se do Apartheid. E… pausa para os problemas raciais, e abertura para os problemas especiais (leia-se de espécie), alguém dizendo no filme: ao menos fossem humanos. É, pois é! Até mesmo Aristóteles quando definiu a ética não contemplou outra vida senão a humana, porque aparentemente as outras são despidas de psique. Tal como ao longo da História os europeus consideraram os africanos desprovidos de alma.

É curioso ver que os aliens apesar da sua supremacia tecnológica e bélica deixaram-se ser abusados pelos humanos, confinados a um campo de concentração. Outro paralelo para os diversos campos de refugiados espalhados pelos países vizinhos a países em guerra, onde as pessoas são arrebanhadas, sem direito, sem consideração, onde têm filhos que crescem nesses mesmos campos até à idade adulta, mas sem cidadania (situação que abunda pela África), ou então paralelo aos bairros sociais e favelas espalhados pelo mundo inteiro, onde as pessoas são estereotipadas e estigmatizadas, proibidas de uma certa maneira, de relacionar normalmente com a “sociedade da elite”. E mais, como vizinhos, nesses campos, têm apenas um monte de pretos.

Sem falar da manipulação da verdade em nome do poder, das relações hierárquicas, da necessidade de domínio, que são umas das tantas imagens que vemos no Distrito 9, só a relação entre as pessoas, como o herói e a sua esposa, é uma ideia já forte que o filme trata. Mostra que, por vezes, os casais criarem conchas para se protegerem até que não é mau de todo. E as imagens metafóricas são também várias, como a "comida de gato", uma droga usada para controlar o comportamento dos gafanhotos, como a televisão e outras drogas nos controla a nós, ou, por exemplo, o símbolo da organização vilã do filme que remete para a águia do emblema americano.

trailer

Queria escrever isto há uns dias atrás, logo depois de ter revisto o filme, mas fui adiando, adiando, até hoje, e praticamente todas as notas mentais que fiz durante o visionamento perderam-se, mas lembro ainda vivamente de uma cena: os heróis, o terrestre e o alienígena invadem o laboratório, e imitando John Connor, o terrestre ordena ao outro para não matar ninguém. E quando o terrestre dispara sobre uma pessoa, o alien pergunta qualquer coisa como isto: “então não era para ser sem morte?”, ao que o terrestre responde: “ele tentou me matar”. Pois então a sobrevivência legitima o tirar a vida aos outros? Sim, se a vida for humana (leia-se dos poderosos) as restantes merecem ser sacrificadas para a preservação dessa.

O filme tem alguns buracos no argumento e tem cena estúpidas, como a parte final em que os aliens que durante 20 anos levaram dos humanos e sempre se mantiveram quietos mesmo quando um deles era morto abusivamente, resolveram se rebelar por causa de um mestiço (o herói hibrído).

Distrito 9 é um filme de ficção, um ensaio sobre a ética, e porque não podia deixar de ser, um filme de acção. A dada altura teve que largar a viagem no psique humano para se tornar apenas num filme de acção, afinal nem todos são Christopher Nolan ou Vincenzo Natali, mas nem por isso perde o seu poder e é um filme para ver e reflectir. 

23 de maio de 2011

VASSALOS PÕEM-ME A MIM A VASSALAR


A civilização, hoje, relaciona-se mais com a capacidade tecnológica e não com o que lhe deu origem civita, cidade, ou seja aglomerado de pessoas. Aliás, lembro-me de um professor meu, que para ele, a cidade não se refere a aglomerado de pessoas que vivem segundo umas determinadas leis morais, sedentárias, abrigadas e fazendo uso de estruturas e infra-estruturas que facilitem a sedentarização, mas sim a quantidade de pessoas, de maneira que para ele, Lisboa não é uma cidade, porque não tem os milhões de pessoas que Nova Iorque ou Tóquio abrigam; ou seja, pelo número dos habitantes, Lisboa seria uma aldeia, e seguindo a ideia, Guiné-Bissau seria um país sem cidades porque o número da sua população é quase igual, ou pode ser menos ou mais (não sei), do que a população de Lisboa. Hoje a definição da cidade mudou, daí que temos vilas, aldeais, tabancas, entre outras denominações.

Entretanto, apesar das diferentes denominações que o aglomerado pode receber, ainda continua a ser o cumprimento das regras de um civita a fazer um civil, ou um bom civil, um civilizado e com civilidade. É claro que os europeus julgavam que a civilidade era rezar padres- nossos, e quando foram escravizar a África, disseram que lhes estavam era a levar a civilização. Hoje, mais do que antes, a civilidade define-se pelas regras europeias e não pelas regras civis de qualquer aglomeração civita.

Pois bem, depois da longa introdução vou ao ponto, ontem estava a passar na TVI o seu novo programa, Perdido na Tribo, ainda achei que talvez valesse a pena ver pela sua componente antropológica, porém rapidamente me apercebi que a maioria dos participantes estavam ali apenas para fazer figura e ganhar dinheiro do que propriamente interessada em aprender uma cultura diferente, e toda aquela cambada julga que a sua cultura é melhor do que a do povo com quem convivem, e nenhum parecia saber que não há melhor ou pior em termos culturais  – quando éticos – sendo que estes são sistematizações de regras, e a partilha de uma cabaça de água para beber pode ser tão ridícula como a missa do Natal e o Coelho da Páscoa, ou tão porca como uma partilha de germes pelo beijo.




É certo que todos os concorrentes ficaram fora da sua zona de conforto e nenhum deles é antropólogo, mas eu julguei que pelo menos teria recebido um preparação mínima para se comportarem como convidados da tribo com quem conviviam e não como os seus senhores. E foi de extrema incivilidade os participantes vomitarem e fazerem esgares de nojo, depois de provarem um pitéu oferecido pelos nativos. Julgaram eles que o sentimento de mágoas que a repulsa provoca é exclusiva dos europeus? Eu, pelo menos, quem entrar na minha casa para torcer o nariz pelas minhas práticas não será bem-vindo e será posto fora, e aposto que eles fariam a mesma coisa.

A expressão máxima da incivilidade desses participantes foi José Castelo Branco, que na verdade, pelo seu estilo (não estou a falar da sua sexualidade, mas da sua extrema finece), não sei o que foi ali fazer, mas ele resumiu bem esse sentimento europeu de serem os mais civilizados e donos do mundo quando ao lhe ser ensinado a apanhar a água correctamente, veio com esta (a partir do minuto 4): vassalas me põem a mim a vassalar. Ai, meu deus!, como os tempos mudaram. Ai, sim, ai, bom, com que então os pretos são vassalos, não importa se estão na sua casa ou não?

É extremista usar o exemplo de Castelo Branco para caracterizar todos os participantes, mas se ele assim falou, a maioria assim agiu (não consegui mais ver o programa depois disso, já estava farto da estupidez e teimosia dos europeus, e essa foi a gota de água). E seria, também extremista, ilustrar com isso o facto de boa parte dos portugueses acharem que os pretos cá em Portugal deviam era apenas servi-los, fazer os trabalhos que eles não querem e ainda por cima irritarem-se por estes estarem a ganhar migalhas por esses trabalhos (mas isso é para um outro fórum).

De antropologia, antropologia, esse programa da TVI só tem fogo-de-artifício, está mais centrado nos europeus do que nas culturas onde estes foram inserir, melhor é voltar para os documentários feitos pelos verdadeiros antropólogos que participam nas actividades das tribos mais estranhas sempre respeitando as suas normas e não mostrando-se superiores. 

21 de maio de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - pt. 3


THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Adão já está a passar das marcas. Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
– Isso não pega, é apenas uma cura temporária, se me permitis dizer, o mal corta-se pela raiz.  Lembrai-vos daquela árvore do meio do jardim, a Árvore Morta? 
– Meu caro Lúcifer, estarás na mais baixa posição que as minhocas que perfuram a terra.
– Sabes, Eloim, mais vale morar no Inferno do que servir de alvo no céu.
– Adão, não estás a ver as frutas sumarentas, redondinhas e deliciosas naquela árvore? Não vais oferecer-me uma? – perguntou Eva, ao mesmo tempo, convidando.
– Não, não vou, porque esta história não está bem contada. Mas vou tirar o pano a isto.  


NOW

– Pai! Que história é esta daquelas frutas na Árvore Morta?
– São as frutas da ciência, homem. Não comas delas. Estou a avisar-te. As frutas vivas da Árvore Morta fazem a morte.
– Não percebo, pai. O que é a morte?
– A morte, homem... hmmm… quando desligas o computador e ele apaga-se, não funciona desligado e não liga por si, é a mesma coisa a morte. Depois vem até aqui, temos muito que falar.
Desligou.
Adão contou a Eva o que ouviu de Deus.
– Mas isto é pecado! Por que fazer frutas tão vistosas e cunhá-las de maldade. Semear a morte na delícia. O pai está a pedir a nossa desobediência.
Adão ouvia Eva sem dizer palavra, remoía no seu cérebro as palavras de Deus, tentava descortinar a razão daquelas frutas estarem ali. Sentiu que lhe tinham estendido uma armadilha e estava disposto a não tocar nela, mesmo que isso lhe custasse outra costela. Notou que estava sentado na boca de lobo e, portanto, tinha que tomar cuidado, porque mesmo que o tal lobo fosse manso, os seus dentes eram duros.
Adão não conseguiu entender o porquê daquelas frutas. Como a sua própria consciência não lhe ajudava muito na sua procura, bruto, cortou a relação com ela durante duas semanas; quando quis reatar o laço, a consciência, que tinha descido ao inconsciente, não veio toda, estava a curtir mais a onda de ser inconsciência, o que o levou depois a falar quase sempre com o arcanjo Freud, para ver se recuperava as lembranças que foram para a inconsciência.
Depois de Adão ter ido falar com Deus, disse a Eva:
– Por favor, não te aproximes daquela árvore. Tenho um pressentimento negativo.
– Vai ao estúdio, lava-o e vê a fotografia.
– Não estou a brincar, Eva. Não te aproximes da árvore.
– Por quê? Nem para ver?
– Oh, oh! Eva, não sabes o que significa, não te aproximes.
– E se eu me aproximar? – desafiou Eva.
– Eu não perguntei isso a Deus. Limitei-me a obedecer. Por isso, por favor, tenta fazer o mesmo. Mas, para responder a tua questão, se eu te vir a mexer naquela fruta vais saber como sou bruto, vou dar-te uma porrada do caneco.
Acobardada pela ameaça, Eva aceitou imediatamente:
– Está bem, querido. Está bem. Não vou aproximar-me.
Se ele pensa que não vou aproximar-me daquilo, está tremendamente enganado. Não sabe que eu só lhe disse o que ele queria ouvir. Basta desaparecer daqui, vou apanhar sombra naquela árvore... E talvez leve alguns querubins comigo.
Adão: Não acredito nesta ronhosa. Basta virar as costas, ela vai lamber-me a nuca. Não vou afastar-me dela. Aconteça o que acontecer, naquela fruta ela não toca. Porra! Já não se consegue descansar nem no Paraíso.
Adão vigiava a Eva constantemente, não a deixava muito tempo só, com receio que ela fosse mexer na fruta proibida. E Eva, chateada com tanta vigia, acabou mesmo por perder o interesse pela fruta. Que coisa melhor podia fazer para intrujar a vigilância de Adão? Ela já nem passava perto da Árvore Morta, no jardim proibido, e quando Adão aludia ao assunto, bocejava de chatice. Adão começou a acreditar que ela não queria nada com a fruta. Ah, se soubesse...

- Lúcifer... o teu plano é uma merda.
- Credo, Deus! Por quê?
- Adão nem liga à fruta.
- E então, a fruta já tem telefone? - trocei primeiro e depois fiz-me sério. - Mas estás à espera que seja Adão a comer aquilo? Fica descansado, ele é mais inteligente do que Tu...
- Lúcifer, mais respeito.
- Desculpa, mas não acabei. Ele é mais inteligente do que Tu… possas pensar. Quem tocará naquilo não será ele, chama-se Eva.
- Eva?
- Exacto, ela mesma.
- Não pode ser. Adão era apenas um esboço, construí Eva com mais perfeição.
- Excesso de perfeição, excesso de fragilidade e de ambição, e a inteligência não se submete à mediocridade.
- Lúcifer, pela última vez, mais respeito.
- Se quiseres acelerar as coisas tens de dizer a verdade a Adão.
- Eu sempre disse a verdade a Adão. Sabes que não gosto de mentira.
- Oh, Deus! Vai pregar para outra freguesia. Eu estive sempre contigo, os esquissos dos teus projectos foram todos meus, só te limitaste a assinar porque eras o dono do atelier, e ambos sabemos que falsifiquei os dados do relatório da criação de Eva, para manter insuflado o ego do Adão e ele não descobrir que o barro da Eva era bem melhor. Por isso não me venhas com essa de não gostar da mentira.
- Porra! - exclamou Deus, para mudar de conversa. - Todo o meu projecto saiu ao avesso.
- Foi porque não projectaste nada. Além de mais, resolveste fazer tudo em apenas seis dias.
- Mudando do assunto - disse-me, em nova tentativa de desviar a crítica -, como vão por lá, no Inferno?
- Nunca estivemos melhor, Deus. Acredita que sim. Um dia eu Te convido para nos vires ver.
- Ah, não, nunca. Deus me livre.
Rimo-nos ambos da piada.
Deus nunca se ressentiu por eu ter ido criar um outro reino, deixou-me toda a liberdade. Sentia que agora que estávamos a governar cada um a sua parcela deste sistema do Universo, ficámos mais amigos. Agora, divertíamo-nos mais. Há coisas que eu Lhe digo agora, mas que tinha perdido antes a coragem de dizer. Quando conheci Deus, tratava-o por tu, Eloim, mas ele tornou-se arrogante depois d’O Grande Projecto, desenho meu, por acaso, e passei a tratá-lo por Vossa Magnificência; agora voltei ao tu, e recuperámos o espírito de antes. Deus adora-me. Basta sentir-se só para discar os números do Inferno. Eu O diverto à brava.
- Voltando à vaca fria...
- Eh, Deus! Não uses essa expressão, é medonha. Vaca fria é vaca morta.
- Como queiras - riu-se Deus. - Mas, se como dizes, será Eva a comer a fruta, por que raio ainda não a comeu?
- Não sei! Deve estar a ser vigiada por Adão, ou talvez lhe falte a motivação necessária.
- Que raio pode motivá-la?
- Como toda a alma perfeita, o poder. Ela adora o poder.
- O poder!, como não pensei nisso?  
Porque ultimamente já não pensas, disse eu para mim.
– ­Obrigado, Lúcifer. Tu pareces conhecer melhor do que eu as minhas obras.
- Hey, sou eu quem faz os desenhos.
- Convencido! Eu é que digo como fazê-los… Olha, tchau, tenho coisas para pôr em dia ou em eternidade.
- Até depois.

Eva continuava a manter distância da árvore, e Adão acabou por se sentir seguro e deixá-la em paz. Eva não se precipitou em ir tomar sombra debaixo da árvore, para não provocar alarme. Depois de algum tempo de quarentena, diga-se, começou a frequentar o jardim proibido. E foi lá que encontrou a serpente. Ela estava estendida, num recanto, ao sol, secando as escamas. Ao ver Eva, levantou-se de um salto, e deslizando, aproximou-se dela, fez uma saudação [não sei dizer como] e falou:
- Avé Eva, cheia de curvas... quer dizer... de graça, bendita és tu pois não tens rival, nem sogra.
Eva não compreendeu a saudação e ficou zonza a olhar para a serpente.
- Não tenhas medo, ó Eva, vim dar-te uma boa notícia: engravidarás e terás um filho que se chamará Eman... Ops! Desculpa, declamei a frase errada... - cortou a serpente atrapalhada. Refez-se e recomeçou, sob a estupefacção de Eva: - Bom... Não tenhas medo, ó Eva, vim dar-te uma boa notícia: comerás a fruta e ficarás inteligente.
- Queres que te parta as trombas? - disse Eva furiosa à serpente. - Estás a dizer que sou burra. Não sou loira, não. O meu cabelo é oxigenado.
- Ah! Estou a ver - concordou a serpente. - Burrice artificial.
- Queres ter de começar a andar com muletas? - ameaçou Eva. Volta a chamar-me burra e parto-te as pernas.
- Mas eu não tenho pernas.
- Arranjo-tas e parto-tas - explodiu Eva. - E sai perto de mim.
- Mas Eva...
- Sai!
- Olha, Eva, espera só. Deixa-me fazer o meu trabalho. Tenho de falar contigo.
- Falar sobre quê? A inteligência? Quem te disse que não sou inteligente?
- Ninguém me disse. Mas não é bem assim. Deixa-me explicar. Nunca leste a Bíblia?... Estás a ver. Eu também nunca li, mas correm rumores de que na Bíblia a serpente tentou a mulher.
- Estás a faltar-me ao respeito ou quê? Eu sou tua mulher? Vai tentar a tua mulher e deixa-me em paz.
- Eva, não queres a inteligência?
Eva pegou a serpente pelo pescoço e apertou-o até ela tirar a língua. Com as suas unhas compridas, rasgou-lhe a língua deixando-a bífida. Depois atirou-a para o chão. A resmungar afastou-se da Árvore Morta, dizendo:
- Burrice artificial, hem? Já aprendeste. A inteligência? Eu sou inteligente. Já viste, já aprendeste.
A serpente, refeita da dor e pondo em ordem todos os seus sentidos, afastou-se, a resmungar também:
- Bolas! Hoje em dia, já ninguém pode fazer o seu trabalho sem chatice. Estas mulheres de hoje! Julgam que sabem tudo. Mas, pelo menos, ficou claro que isto da inteligência não pega com ela.
Eva já estava farta do Jardim Colorido, o recanto mais bonito do Paraíso, o seu coração. Conhecia de cor a decoração daquele coração, queria que se mudasse aquilo. Sabia onde começavam e acabavam as flores vermelhas, as azuis, amarelas... conhecia a disposição das cores das flores de cor. O prazer que tinha quando se sentava naquele canto para descansar esfumara-se. Já não sentia nada, a contemplação daquele sítio tornara-se monótona e sem alegria, precisava de coisas novas.
O espírito de Eva estava sempre insatisfeito, ela buscava sempre pela perfeição, a decoração do Jardim Colorido já tinha sido mudada trezentas e duas vezes, mas mesmo assim enfastiava-se dela. Decorara todas as mudanças decorativas feitas e só pedia novas mudanças, nunca as que já tinham usado. Por isso é que se dirigiu para a DIABO, para resolver a questão da ornamentação do Jardim Colorido, o seu cantinho preferido. Também queria que trocassem os pássaros daquele local, porque os que lá estavam já lhe pareciam desafinados apesar da sua sinfónica melodia, até mesmo os pássaros mozart e beethoven ela não queria mais ali.
Ao entrar na sede da DIABO, Eva deu de caras com uma mulher, bela que se farta, e pensou: Que mulher bonita! Se Adão a ver, vai deixar-me! Sem olhar de novo para a mulher, exclamou para os arcanjos que viu:
- Que criatura tão horrível! Raios! Como Deus pode permitir que coisa igual esteja no Paraíso?
Eva começou a falar, menosprezando a dita. De repente, um anjo muito jovem, cadete de arcanjo, começou a rir e Eva estranhou.
- Que estás a rir? - perguntou, desconfiada.
- Aquilo ali é um espelho, senhora Eva, aquela não é ninguém, é tua imagem. Tu és tão burra...!
- Ah, sou! Estás despedido - disse Eva, irritada. - E pensas que eu não sabia que aquilo era espedo e que estava a ver a minha imagem?
Eva saiu da DIABO furiosa, esquecendo-se do que a levara lá.
- Estou mesmo despedido? - perguntou o anjo cadete ao arcanjo Loos, novo chefe da DIABO, Olmsted tinha vindo comigo para o Inferno.
- Receio que sim, meu caro anjo.
- Mas não é Adão o dono disto?
- Mas é ela a dona de Adão, o resto é fachada.


Já na rua, um tanto distante da DIABO, Eva sorriu:

- Oh! Como sou bonita! - exclamou. - Vou ter de arranjar um espedo para mim. Cristo!
Um relâmpago acendeu e apagou:
- Chamaste-me, estou aqui - disse uma voz. - Sou o salvador dos homens.
- Não te chamei, apenas exclamei. Mas como já cá estás, eu queria um espedo.
- O que é isso? - perguntou Cristo.
- Uma coisa para ver a minha imagem. Cristo - perguntou Eva -, achas que sou bela?
- Olha, Eva, não sei dizer. Tu és a única mulher, não tenho com quem te comparar. Não sei se és bela.
- Sou - disse Eva. - Deus fez-me perfeita.
- Pode ser perfeitamente feia - atreveu-se Cristo a dizer.
- Cristo, vai-te embora. Já não preciso que me arranjes espedo, Adão arranja.
- Mas eu é que devo - reclamou Cristo. - Sou o salvador dos homens.
- Vai-te congelar, Cristo. Não és salvador de nada.
- Mas já te salvei duas vezes quando estavas a nadar.
- Salvaste-me, sim, mas eu não sou homem, eu sou mulher. Tu não podes ser salvador dos homens porque aqui só há um homem, Adão. Vai, vai-te congelar.
Eva não gostara nada que Cristo lhe tivesse dito que era feia, por isso é que se vingava.

Através de bocas alheias, Adão soube que Eva foi passear no Jardim Proibido e foi vista na companhia da serpente. Desconfiou que algo estava errado, e foi avisar a Deus:
- Pai, a serpente anda muito a falar com Eva, eu vou escamá-la.