19 de maio de 2011

MÁGICO, O, 2010 (L'Illusioniste)


Tenho escrito sobre filmes, e embora opine e seja absolutamente o meu ponto de vista, não são críticas, pelo menos no modo tradicional, aliás tento focar-me mais no filme em si, e na mensagem que transmite (ou na sua ausência), ou seja, leio os filmes como se fossem livros.

Comecei por dizer isso acima, porque acabei de ver um filme, uma animação, que não tenho a certeza se entendi, e que não tenho a certeza de saber explicar, mas que apesar disso acho soberbo, e não estou nem aí para a mensagem que me escapou. O Mágico, eis o título (não entendi por que o traduziram assim, se o original é: L'Illusioniste... ou será que é para o diferenciar d'O Ilusionista, com Edward Norton?).

O Mágico mostra a história de um ilusionista francês que por motivos financeiros vai parar na Escócia onde conhece uma jovem órfã, suponho, uma Pele-de-Burro, com quem faz amizade, esta acaba por abandonar o lugar onde estava hospedado para seguir o ilusionista, e este adopta-a. A jovem julga que o ilusionista é um mágico (para quem não sabe, apesar de popularmente as duas parecerem a mesma coisa, não são iguais: um mágico – mago - cria do nada, o ilusionista, este trapaceia - o que faz a tradução do título impróprio, principalmente porque isto é uma das mensagens do filme). E o ilusionista, decepcionado com a sua vida gris resolve criar cores para a vida da órfã, mimando-a de maneira exagerada, satisfazendo-lhe todos os caprichos; e, talvez para dar mais significado à vida, mesmo as pequenas coisas ele fazia em grande, como se quisesse dizer até o mais ínfimo pormenor, ampliado, pode dar um quadro. Por exemplo, se tivesse de passar à órfã nem que fosse uma colher, não a apanhava simplesmente e estendia, mas fazia uma de mágico e uma grande cena e pantomina para no fim resumir-se a entregar a colher.

O filme é sem diálogo, lembrando-me do Idiotas e Anjos, ou melhor há diálogos, mas as palavras são imperceptíveis e, porque os dois falavam línguas diferentes, mas entendiam-se bem, julgo que foi uma maneira do realizador dizer que o amor é a língua universal.


trailer


Pelo meio cruzam-se personagens um tanto caricatos, mostrando a antítese da vida, todos são personagens circenses, três malabaristas (que só pensam ir para cima, mesmo quando descem), um palhaço triste e suicida, um ventríloquo cuja única companhia é o boneco do seu espectáculo. Todos os três, inclusive o ilusionista, são pessoas cuja arte é o divertimento e o riso, mas cuja vida é cinza e triste. Aliás, (spoiler!), vemos que o ventríloquo, desesperado acaba por pôr no prego o seu único amigo e depois vemos que esse amigo só para ele tem valor, ou seja o amor que lhe dirige é que lhe faz importante. E uma outra personagem é um folgado, beberão (suponho), que passa a vida a gaiatar, talvez a personagem mais feliz de todo o filme.

O Mágico é uma animação muito bem feita, as personagens movem-se graciosamente pela história, e graficamente, não atingindo o realismo de um Reinassance, ou de um A Valsa com Bashir, mas parecendo coreografados para o ritmo do filme. A banda sonora, com a música principal que parece tirada de uma caixa-de-música e cria um vazio algo melancólico que faz com absorvamos com mais alma o filme, foi bem escolhida e confere à história uma estrutura sólida e embaladora.

Digo de novo, ainda não sei bem do que falou o filme, ou do que pretende falar, tem umas cenas que não consegui ler bem (algo a Édipo e Jocasta), mas isso nada importa, eu gostei do filme e recomendo. O Mágico é uma história do amor simples (a história, não o amor) e muito bem contada, um filme que deve ser visto.

17 de maio de 2011

UMA QUESTÃO DE... PERSPECTIVAS

Fiz esta crónica em 2004, mas por não acreditar nela, não cheguei a apresentá-la ao jornal Kansaré, para o qual escrevia, para ser publicada, porque esperava que os meus textos causassem sempre impacto e procurava escrever sobre algo realmente impactante para o meu contexto social.


perspectiva de sapo
Muitas vezes ouvi dizer às pessoas, principalmente aos jovens, em termos de desprezo ou de admoestação: és uma pessoa sem perspectiva. Ouvi-o tanto que comecei a recear ser considerado nesta mesma tabela classificativa e tentei tornar-me num jovem com perspectiva. 

Todavia, como perspectiva é razoavelmente plurissignificativo, embaralho-me por vezes e não consigo saber se sou perspectivado ou se não sou. E piorou quando descobri que ter perspectiva, o primeiro passo da caminhada, pode ser bom mas não resolve os problemas, sem falar que dependendo da perspectiva pode causar problemas até, porque há uma grande possibilidade de ter uma perspectiva errada.

Uma perspectiva errada não deixa de ser perspectiva, todavia, é errada. Então, como dizer a uma pessoa com uma perspectiva errada que ela está num bom caminho? E pensando ainda mais sobre a questão da perspectiva errada, cheguei à outra que é a da errada perspectiva, ou (para simplificar em termos de adjectivações) a má perspectiva.

Se parece que é melhor não ter perspectiva do que ter uma errada, é melhor ter uma perspectiva errada do que ter uma má perspectiva, caso a posse de alguma perspectiva seja mesmo obrigatória ou necessária. No entanto, por poder parecer difícil a diferenciação entre as duas perspectivas, vou fazer o possível para esclarecer isso, e começarei pela perspectiva errada.

A perspectiva errada, como é fácil notar, não é uma má perspectiva, e pode até ser uma boa perspectiva (não confundir com uma perspectiva boa), porém é errada conforme a nossa perspectiva, ou seja, a perspectiva com que perspectivamos uma coisa influi nessa perspectiva e molda-a conforme a nossa perspectivação… Bem, parece que estou a usar um rol de palavras gratuitas sem, no entanto, me explicar bem. Talvez seja mesmo ilustrar com um exemplo:


Estive a ler o livro de Poe, Aventuras Extraordinárias de Gordon Pym, e apesar de ter visto na contracapa que era um livro de aventura, aliás o próprio título o patenteava – quer dizer, já tinha sido pré-estabelecido uma perspectiva pela qual eu devia fazer a leitura –, depois de algumas páginas, entrei numa cena de cama tão escaldante e cheia de metáforas constituídas de puro erotismo, porém leves e pueris; pueris pela forma como Poe usava os termos para se referir a certos aspectos. E o livro ter sido escrito em mil e oitocentos e tanto, numa época de muita censura e pseudo-purismo, fazia-me admirar como é que escapara da guilhotina dos censores essa aventura que descrevia folguedos homossexuais na cama (bem, Satíricon também escapou, mas Petronius viveu numa época diferente, e provavelmente menos hipócrita em relação ao sexo), porém, mais me admirava ainda que o livro fosse considerado um clássico universal, com recomendação à juventude.

Eu estava ensonado quando comecei a ler essa obra de Poe, mas era interessante a forma com ele descrevia, porque, em boa verdade, a história não me dizia nada – culpa do sono, como depois vim a confirmar ­-, por isso, depois de algum bocado a insistir na leitura resolvi desistir e fechar o livro, não antes de ter anotado a página (mentalmente, pois não gosto de dobrar folhas dos livros, nem de escrever nelas, porque, embora os livros possam ser nossos, considero-os transmissíveis, mas com a ideia do autor a levar o futuro leitor a fazer as próprias interpretações do livro, sem a nossa interpretação escrita nos cantos da página a servir de ruído).

No dia seguinte, logo que tive tempo para ler, ataquei o livro com voracidade, não porque era um clássico, mas por causa do seu conteúdo erótico e da perspectiva que tinha dele. Na verdade, quem vai ler Memórias de Bill Clinton tendo ao lado Memórias de Monica Lewinski

Ataquei o livro, sem me preocupar com as páginas já lidas, retomei na página onde tinha parado, porém, vinte e sete páginas depois, não encontrando nenhuma alusão ao erótico, nenhuma passagem com conteúdo do género, senti-me despistado. Afinal qual era o livro que estava a ler ontem? As personagens eram as mesmas, no entanto, algo estava diferente. Voltei então para as primeiras páginas e comecei a reler. Maior confusão me fez ainda, porque já tinha lido aquelas páginas, mas não reconhecia nada... então entendi, apenas julgara tê-las lido; no entanto, continuei pacientemente a percorrer as linhas, sorvendo as passagens até chegar de novo aquela cena de cama. Afinal, no dia anterior, só tinha passado vista em cima das letras e identificado as palavras, no verdadeiro sentido de ler não lera mesmo nada. A cena de cama contava um história bem diferente.

Durante minha primeira leitura, o sono e outros pensamentos misturaram-se com as palavras lidas e criaram uma outra perspectiva sobre o livro de Poe, e vou transcrever o texto, usando supressões e acréscimos meus que me levaram ao logro.


Uma noite (…) August e eu estávamos razoavelmente tocados. Como costumava fazer em casos destes, em vez de voltar para a casa preferia compartilhar a cama dele. Adormeceu muito tranquilamente sem dizer uma palavra sobre o seu assunto preferido. (…) eu ia justamente dormir quando ele acordou e blasfemou. (…) Não sei o que se apoderou de mim, mas logo que lhe ouvi as palavras, senti um arrepio de uma excitação, o maior ardor de prazer e achei que a sua ideia louca era uma das mais deliciosas e razoáveis do mundo.
Saltei da cama, contudo, numa espécie de demência, e disse-lhe que me sentia tão decidido (…) e pronto a dar todas as voltas do mundo com todos os August Barnard de Nantucret. Envergámos os nossos fatos [de Adão] – tinha lido Tchekov à tarde –, August pegara o leme, e eu instalara-me perto do mastro (…). Corríamos a direito com grande velocidade e nem eu nem outro havíamos (…) desamarrado o barco do cais. (…) virando os olhos para ele, logo me percebi de que (…) estava perto de uma forte agitação (…). A mão tremia-lhe tanto que mal podia segurar o leme (…). Nessa época eu não era muito forte em manobras e achei-me completamente à mercê da ciência [erótica] – metáfora de Pitigrilli ­– do meu amigo (…) contudo, sentia uma vergonha de deixar transparecer o mínimo receio. Todavia não pude suportar por mais tempo e falei a August na necessidade de voltarmos para a terra. (…) permaneceu um minuto sem me responder e disse: “daqui a bocado… temos tempo… em nossa casa… daqui a bocado”.


perspectiva de pássaro
Foi mais ou menos aqui que parei de ler, e mesmo assim transcrito o texto continua pueril, no sentido erótico, mas apesar da perspectiva do livro, a minha perspectiva mental levara-me a confundir as perspectivas e a ver tudo consoante essa minha perspectiva. Ou seja, é algo como isto que chamo de perspectiva errada, é errada, não porque seja má, mas porque não corresponde à realidade e muito menos ao que está à mostra, errada porque perspectivamos-lhe à luz dos nossos próprios desejos e ficamos com a razão obnubilada e iludimos o real.

Entretanto, uma má perspectiva não funciona assim, uma má perspectiva ou perspectiva má é do tipo Hitler ter a perspectiva de que assar todos os judeus faria do mundo um lugar melhor. Talvez debruce depois sobre o que é a má perspectiva. Aliás, como disse alguém de quem não me lembro o nome: não são as pessoas que não pensam bem as coisas que me preocupa, mas sim as que pensam bem as coisas más.

14 de maio de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - pt. 2

THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Eu não quero esta mulher de merda.
– Ficas com ela. Não a vou desfazer.
– Remodela-a. E quanto mais cedo, melhor.
– Muito bem, vou refazê-la com menos língua, menos persistência, em suma, com menos tudo.
– Menos cabelo, carinho, fala doce e beleza?
Afirmativo.
– Sabes, pai, que tal adiares a data da remodelação? 



NOW

Adão sentia um cheiro agradável a penetrar-lhe as narinas; nunca experimentara sensação igual. Aquele odor fazia-lhe crescer involuntariamente água na boca, sentia-se como o Arcanjo Pavlov, o Salivador. Nunca tinha sentido um perfume igual. As flores do Paraíso cheiram bem, mas aquela coisa era mais cheirosa que elas, ou melhor tinha um tipo de cheiro diferente, até provocava reflexos de fome. Aproximou-se para ver a fonte daquele cheiro e os ouvidos, que não estavam adormecidos, aperceberam-se de uma voz melodiosa a que os pássaros faziam coro e que cantava uma melodia linda e alegre. Adão sentou-se sobre os calcanhares, a ouvir e admirar o espectáculo: Eva, de pé diante de um fogão a gás, estava a cozinhar; na mão tinha uma colher de pau, com que mexia o conteúdo da panela. Era esse seu cozinhado que cheirava tão bem. Cantava, tendo como coro os pássaros mais musicais do Paraíso, os beatles, uns mozarts e algums mamadjombos, e alguns querubins apaixonados pela bela voz dela, que acompanhavam-na com harpas e liras, enquanto outros dançavam, tudo coreografado pelo anjo Disney. Era um espectáculo digno de um Óscar, quer dizer... de um deus.

Quando Eva acabou a canção, Adão irrompeu em aplausos, a gritar: Bis! Bis!
Eva deixara-o terrivelmente maravilhado. Aproximou-se dela:
– Que estás a fazer? Cheira tão bem!
– Um guisado; e sabe também tão bem.
– Para que serve?
– Ora! Para comer.
– Posso experimentar?
– Experimentar o quê? Estás xoné. Só se me deres a tua perspicácia.
– Porra, Eva! Não sejas má. Achas que podes comer esta merda sozinha?
– E tu queres comer a minha merda?
– Desculpa, foi uma força de expressão. Mas... queres a perspicácia?
– Quero!
– Venha lá então o guisado e fica com ela.
Negócio feito. Trocaram. Adão, movido pela gulodice, aceitou a troca. Deixou a perspicácia com Eva em troca de uma bruta congestão, por aquilo ser uma novidade no seu estômago e ingerido em quantidade não moderada.

– Vossa Magnificência – relatei -, temos sérios problemas com a estrutura da ordem. Correm boatos de que o sindicato dos arcanjos está a preparar uma greve...
– Uma greve?! – admirou Deus. – Por que raio de motivo?
– Ainda não sei bem. Tudo começou na sede da DIABO (Direcção Interna dos Artistas das Belezas Ornamentais) e alastrou-se até à sede da SATANAS (Sociedade Amiga de Todos os Animais Não Alados e Semelhantes). Parece que os répteis da SATANAS, fartos de comer poeira, foram queixar-se à DIABO para que mudasse a decoração do solo. E, ao que tudo indica, quando a DIABO estava a modificar o solo, o vosso filho, Adão, mandou parar a obra, com palavras ordinárias, como costuma fazer, dizendo que o alvará da DIABO estava fora de prazo e que não havia o comprovativo do licenciamento do projecto. E quando o arcanjo Olmsted, chefe da DIABO, lhe apresentou a licença, disse-lhe que a fosse meter naquele buraco...
– Que buraco? – perguntou Deus.
– Aquele buraco – expliquei, gestualizando para Lhe fazer perceber… mas não percebeu. – Posso ter a liberdade de chamá-lo pelo seu nome? – Deus fez que sim. – O buraco do cu.
Deus riu-se, divertido.
– Esse Adão! Ah, esse Adão! – disse. – Continua.
– O arcanjo Olmsted foi queixar-se ao Sindicato, acompanhado de muitos outros que já tinham sido ofendidos por Adão, mas que se calavam apenas porque sabiam que não haveria justiça, sendo ele o senhor de tudo.
«O Sindicato está furioso, exige ao parlamento novos decretos que afectem igualdade para todos, com o fim a evitar certos enlevos a que alguns têm direito e outros não, como no caso de Adão que não pode ser contestado e está a ameaçar a ordem das coisas. Por que carga de água, pergunta o Sindicato, devem os répteis continuar a comer poeira só porque Adão quer o solo seco e sem mais enfeites? Os répteis habitavam a zona florida, mas ele expulsou-os dali, alegando que lhe estavam a estragar o jardim; agora que foram para a zona deserta, ele não quer que essa zona seja melhorada.
«O Sindicato mandou uma queixa ao parlamento, acompanhada de um abaixo-assinado, mas quando Adão tomou conhecimento disso, ameaçou dissolver o parlamento porque a Constituição lhe permite isso. Os parlamentares, com medo da decisão de Adão, decidiram levantar a queixa, até porque ele fez novas nomeações no Templo Supremo da Justiça. Os parlamentares, impotentes, abandonaram o parlamento, advogando falta de razão para lá estarem se não podem cumprir as suas funções.
«Sentindo-se impotente, o Sindicato deu um ultimato: ou resolve Vossa Magnificência a questão de Adão ou abandonam os trabalhos do Paraíso.
«Vossa Magnificência, está tudo em risco; se essa greve começar, vamos ter atrás dos anjos os arcanjos, os querubins, os serafins, os vinte e quatro anciãos, as quatro criaturas hediondas e até mesmo o vosso cordeiro...»
– O quê? O meu cordeiro?
– Sim! Não sabíeis que Adão prometeu a lã do cordeiro sagrado a Eva? Imaginai a vergonha, o vosso cordeiro todo tosquiado. E, pior que tudo, Adão até prometeu a Eva um casaco feito com a pele do cordeiro.

– Adão já está a passar das marcas.
– Ah! Agora estais a notar? Tendes de tomar uma decisão. Mais vale tarde que nunca...
– Mais vale a calma do que... Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
– Quinhentos quê? Isso não pega, é apenas uma cura temporária, se me permitis dizer, O mal corta-se pela raiz. Poderei dar-vos um conselho? Lembrai-vos daquela árvore do meio do jardim, a Árvore Morta? Pois bem... Poderei ter a liberdade de vos falar ao ouvido?
Ele anuiu e aproximei-me.
– Que tal usardes aquela árvore como bz... bzz... bzzz...
– Boa ideia – gritou Deus. Depois emendou: – Excelente ideia!
Uma coisa que admiro em Deus é que o gajo não é de demoras, começou imediatamente a preparar a execução do plano, do meu plano, outra vez.
– Vossa Magnificência – chamei. Voltou-se para mim. – Como paga quero o lugar do porta-estandarte... Não. Quero o de vice-governador.
– Pretendes que devo exonerar Cristo do seu cargo?
– Não, Vossa Magnificência! Pretendo que me promovais.
– Lúcifer, vai-te matar, és demasiado ganancioso.
– Ouve lá, Eloim, e ouve muito bem – disse eu, já não pensando na praxe -, tu e o teu filho maçaram-me por muito tempo. Trabalho como burro, sob insultos pelos dois lados; agora chegou a hora de me recompensares dos males que me fizeram tu e o teu filho; sem dizer que não me reconheces pelos meu projectos.
– Meu caro Lúcifer... – começou Deus com calma para depois explodir: – Nem o lugar do soldado raso terás. Quem quer ser o primeiro será o último, estarás na mais baixa posição que as minhocas que perfuram a terra.
– Sabes, Eloim – disse eu -, vai pro Inferno. – O sangue subiu-me à cabeça. – Inferno?! Não, não vás para lá, vou lá eu. Mais vale morar no Inferno do que servir de alvo no céu. E juro-te que farei um reino melhor, onde a liberdade será a regra primeira.
– Vai-te matar, Lúcifer. Tu assim o quiseste, assim o terás; tudo o que acontecer de desagradável, a partir de agora, irá para cima dos teus ombros; para começar, a expulsão de Adão do Éden e as suas consequências.
– E isso me importa? Pensas, Eloim, que irei para o Inferno sozinho? Não! A comissão de greve, o Sindicato dos Trabalhadores, o ESPIAO (Empenhado Serviço de Protecção da Igualdade dos Animais e Outros), a classe baixa, a todos mobilizarei para levar comigo... E aviso-te, como amigo, se não expulsares a mulher do teu reino, terei mais pessoal no meu.
– Por quê? Como assim?
– Não vês que os teus perfeitos anjos estão sempre a brigar por um sorriso dela?
– Os anjos que fizeram isso irão contigo.
– De bom grado. Quanto mais gente, maior a festa. E, meu Deus, em nome dos longos anos como teu assistente, e dos bons velhos tempos, quando ainda não tinhas todo este ego, se algum dia precisares de mim, sabes onde me encontrar.
Saí do seu gabinete, deixando-o a passear de um lado para outro, preocupado... não comigo, é claro.

– Adão, querido, vem ver! – chamou Eva.
Adão correu logo. Depois de alguns dias perto de Eva, já não conseguia afastar-se dela por muito tempo.
– Ver o quê? – perguntou
– Não estás a ver as frutas sumarentas, redondinhas e deliciosas naquela árvore?
Ainda não as tinha visto. Quando Eva lhas apontou, franziu a testa e dobrou a ponta do nariz, num gesto de análise.
– Não me vais oferecer uma? – perguntou Eva, ao mesmo tempo, convidando.
– Não, não vou – respondeu Adão, secamente, recusando a oferta.
– Por quê? – quis saber Eva.
– Porque esta história não está bem contada – disse Adão, que tinha a razão aguçada porque não a vendeu a Eva, embora ela também não a quisesse, porque lhe estragaria os prazeres.
– Estás a duvidar do pai? – ralhou Eva.
– Não, mas estou a fazê-lo dos servos do pai.
– É a mesma coisa. Achas que um servo do pai teria a ousadia de fazer algum mal ao Paraíso?
– Por que não? Da forma como o Paraíso está, todos lutando para alcançar a supremacia, ou a liberdade, sei lá, dá na mesma, esqueceram-se já do que é gratidão. Não me faria surpresa se isto fosse obra de qualquer um desses arcanjos. Mas vou tirar o pano a isto.  

9 de maio de 2011

K'NAAN - Nas errou, hip-hop still living


No ano passado, praí em Setembro, saído da faculdade, estava sinal vermelho, eu no passeio a conversar com uma pessoa, um carro parado ao lado, com o som muito alto tocava wavin flag, a versão Coca-cola. Não conhecia a música, mas prendeu-me a atenção e só consegui guardar algumas palavras para depois procurar a letra no Google e chegar assim ao cantor. Não conhecia K’naan, e acho que ele teve muita sorte por ter trabalhado com a Coca-cola, porque se não fosse o mundial, mais dificilmente seria projectado e o bom trabalho que tem feito continuaria nas sombras.

waving flag coca-cola celebration (2010)


Eu passei quase um dia todo a ouvir wavin flag, em todas as versões que encontrei, porque não só gostava do ritmo e da melodia como também da poesia. E tirando a versão original, secundada pela versão dos Young Artists for Haiti (uma réplica canadiana do agrupamento que fez We Are the World), gostei mais daquele com David Bispal (versão coca) e odiei a versão brasileira.

Ok! Wavin Flag fez-me dar atenção a K’naan (Keinan, como ele o pronuncia) e baixei todos os quatro álbuns dele: My Life Is a Movie (2004), The Dusty Foot Philosopher (2005), The Dusty Foot on the Road (2007) e Troubadour (2009).

waving flag (troubadour - versão original)

Em My Life Is a Movie percebe-se logo a veia diferente de K’naan, o seu rap não convencional, meio reggae, às vezes roçando a ska, com muita influência africana (a wikipedia disse-me que ele é somali), aliás, não parecia hip-hop com influência africana, mas música africana com influência hip-hópica. O que desgostei foram as introduções em praticamente todas as músicas em que ele falava e também aquela forma de cantar nasalada que ele usou. Porém, o mais agradável de tudo é que K’naan antes de músico é poeta (li as suas letras) e a métrica da sua poesia, mesmo quando não cantada é agradável.

The Dusty Foot Philosopher, muito enérgico e divertido, vincando ainda o tom de experimentação de K’naan, abrindo com o wash it down, onde ele usa como o instrumento de percursão, imginem… água; uma música “verde”, em homenagem à água. E o álbum continua com uma alguma instrumentalidade e musicalidade não convencional no universo do hip-hop, porém mais homogéneo ao convencional que o álbum anterior.

The Dusty Foot on the Road, parece ter sido gravado num concerto, razão porque o álbum além de ter um título que parece continua a ideia do anterior, contém músicas do álbum anterior, abrindo também com o wash it down (e a vocalização do artista é mais natural), ou então foi gravado para assim parecer. Este álbum é como um regresso às raízes, tendo com o principal instrumento percursivo (fundamental no hip-hop), o tambor africano, ou djembé. Eu gostei do álbum por essa vertente, por voltar a transformar a música africana em hip-hop. E destaco a faixa My God, não por ser o melhor do álbum, mas por ter Mos Def (dois em um).


my god (knaan & Mos Def, ao vivo)

bons músicos conseguem ser minimalistas, sem com isso fazer sofrer a qualidade

Em Troubadour, como qualquer undergrounder que se preze começa logo por atacar a C.I.A., aliás a T.I.A., e fecha com People Like Me, onde se refere à guerra do Iraque, onde só combatem os comuns. Bem, mas não é isso que faz do álbum bom, o bom é que consegue agradar tanto aos gregos como aos troianos, é o álbum mais dançavel e mais convencional do conjunto, mais comercial, com mais participações, tendo nomes como Adam Levine e Damian Marley, entre outros, portanto mais aberto ao público,  ou seja tem alguns temas leves pelo meio. E volto a destacar… bem Wavin’ Flag está sempre superdestacado… mas, destaco America, que tem outra vez Mos Def, e por metade dele ser cantado para os americanos em somali (ou seja por obrigar o monoidiomáticos americanos a ouvir uma música em língua estranha).


T.I.A. (troubadour)

Tinha prometido que ia inevitavelmente falar de K’naan e acabei de o fazer. Em notas de fecho, K’naan está actualmente entre os meus melhores rappers, não só pelo tipo de música, ou pela maneira como musicaliza, mas por ter alguma coisa para dizer e por o dizer, é um rapper não difícil de ouvir e com alguma mensagem série, sem referir que tem um boa dicção, que até com o meu mau inglês consigo compreendê-lo. Por isso, está recomendado.


bónus 
waving flag (versão, Knaan & mos def, ao vivo)

quase a melhor versão de todas

6 de maio de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - pt. 1

Sexta-feira, dia treze, Deus quer fazer uma fêmea para Adão. Tudo o que fizera era perfeito, fora de uma certa árvore que nasceu morta e que foi apelidada de Árvore Morta. Deus queria completar a sua obra, e foi ter com Adão:
– Vou fazer para ti uma fêmea, para que dividas tudo o que tens com ela.
– Olha bem, pai – disse Adão – não quero dividir o que tenho com uma fêmea.
– Não sejas egoísta, homem, precisas de um par. Todos têm.
– Tu não tens.
– Eu sou aquilo que sou. Não me canses, precisas de um par. Vá lá, dá-me o raio da costela – disse Deus, perdendo a paciência -, ou então tiro-ta à força.
– Como? – inquiriu Adão, gozador.
– Mando amarrar-te pelos meus anjos e arranco-ta.
– Não me faças rir, pai. Qual dos teus anjos pode amarrar– me? – Contraiu os músculos.
Deus olhou para a sua constituição física e amaldiçoou-se por tê-lo feito tão musculado. Queria usar Cristo para neutralizá-lo, mas optou por usar clorofórmio. Adão caiu em sono profundo. Deus tirou-lhe uma costela e moldou uma figura: mulher.




Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante. E, para se vingar por Adão não ter cedido a costela, fê-la com muita língua, dois ouvidos e uma boca (duas entradas e uma saída), e muito cabelo. E, para fazer Adão se aproximar dela, fê-la de corpo liso, sem pêlo; assim seria alvo do frio e Adão abraçá-la-ia para a aquecer com o seu corpo. Fê-la frágil para que Adão a protegesse.
E como Adão tinha esgotado por completo a paciência de Deus e, porque o osso trabalhado não fora cedido, mas sim tirado contra a vontade do dono, Ele não conseguiu uma alma perfeita para a mulher. Também, como o resto do barro usado na feitura de Adão tinha acabado só no molde do corpo da mulher e não havia mais para fazer a cabeça, para não suspender o projecto, Deus amassou um pouco de argila com a caca dos répteis e moldou uma cabeça para a mulher. Quando ia soprar-lhe o fôlego da vida, um pouco de pó entrou-lhe pelas narinas e espirrou. Em vez de dar à mulher um sopro da vida, deu-lhe um espirro de vida, por isso as mulheres são explosivas.
Não tendo feito mais nada o dia todo, Deus fechou a sessão.
Este relatório foi autenticado por mim que o elaborei.

Arcanjo Lúcifer


Quando Adão acordou, viu a mulher ao pé de si, a sorrir. Admirou-lhe muito aquele belo sorriso, sentia-se cativado por ele, mas ela era uma coisa não desejada, não iria abaixar-se diante de Deus dizendo-lhe que gostava do sorriso da fêmea. Não, isso nunca!
Adão passou semanas a tentar evitar a mulher, mas em vão. Ela sabia bem como localizá-lo.
Um dia, andava com ela no encalço, Diabos, pensou, esta mulher é difícil pra burro. Nem tempo para peidar me dá. Está a toda hora atrás de mim, a falar, a falar, a falar, sempre a falar. Acho que o pai não lhe regulou muito bem o aparelho, parece um rádio avariado e chateia-me com os seus solilóquios.
Enquanto Adão pensava assim, Eva estava na sua, pensando: O pai cometeu um erro ao fazer deste bruto o senhor do Paraíso. Se até a mim, que sou igual, não liga, que será com estes pobres animais? Nem sei por que razão continuo atrás dele... Bem, tenho de continuar, é ele o senhor e eu não sou tola ao ponto de não querer um.
Adão virava-se de vez em quando e dirigia-lhe um sorriso falso e amarelo. Ela já começava a ficara farto deles, e ele da tanta insistência da parte dela em segui-lo. Depois de um cento de tentativas de despistagem sem resultado, Adão arriscou uma outra. Subiu a uma árvore com folhas espessas e muito grandes. Ela não subiu, Deus não a fez trepadora, ficou de pé olhando para Adão totalmente empenhado em subir. Notara muito bem que Adão tinha poucos olhos para si, mas decidira fazer valer a sua reputação de mulher; enquanto não o tivesse nas mãos, não desistiria. Sentou-se debaixo da árvore, horas e horas, esperando que aquele bruto descesse, mas em vão. Chateada, jurou que a partir daquele dia, quer Adão gostasse quer não, nunca mais chegaria pontualmente a um encontro. E nunca mais lhe mostraria que o queria ver. E nunca mais ele saberia se lhe provocava anseio. E nunca mais... E nunca mais... E infinidade de nunca mais.
Adão, lá em cima, depois de estar bem escondido pela folhagem, passou de um ramo para outro, até atingir a extremidade da árvore, e dali passou para a árvore vizinha. E assim, de árvore em árvore, afastou-se da mulher. O homem possuía artifícios. Muito longe, desceu. Foi esconder-se numa caverna. Pegou no telemóvel e marcou uns números.
– Secretaria Geral do Paraíso. Bom dia! – perguntei no outro extremo do fio. [Fio? Não havia fio nenhum, telemóveis não levam fios.]
– Não te interessa saber – disse Adão com brutaleza.
– Que queres? – inquiri, tentando ser educado.
– Falar com Ele – respondeu Adão.
– Tens audiência marcada? Não tens, deves marcar. Motivo da visita?
– Qual visita, qual porcaria! Só quero falar com Ele, faz a merda da conexão e diz-Lhe que estou na linha.
– Olha que corro o risco de ser despedido – expliquei, tentando ser profissional. – Mas quem porra és tu? – rematei, irritado com a linguagem dele. Ainda não sabia quem era.
– Sou Adão Júnior – identificou-se.
– Oh! Mil desculpas, Vossa Alteza, pensei que fosse mais um desses répteis que ligam constantemente para cá a reclamar que estão fartos de rastejar.
– Olha bem, meu... quem és tu?
– Arcanjo Lúcifer, o Arcanjo dos Arcanjos e dos Anjos, secretário particular de Adão Sénior, vosso pai – expliquei, tentando evidenciar a minha alta posição.
– Que me importa isso? Mesmo que fosses o irmão do meu pai, se eu quisesse lambias-me o cu.
– Não faleis assim, Vossa Alteza – supliquei, azedo.
– Falo o que quero. E se não fizeres imediatamente o que quero, ponho-te em mais baixa posição que as patas desses tais répteis de que falavas.
Entre a espada e... a espada, não pude fugir de ir acordar Deus.
– Onde saíste com a ousadia de me acordar? – berrou Deus.
– Majestade, o vosso filho quer falar convosco.
– É ele que te paga o salário?
– Não, mas insultou-me muito e fez ameaças graves, Majestade – aproveitei para me queixar. – Ele anda sempre a insultar-me. Não só a mim, mas a todos os outros.
– Onde está ele? – perguntou Deus.
Fiquei contente, pensei que Deus ia raspar a Adão. Mas o filho sem pai nem mãe de Deus não fez o caso.
– Ele está ao telefone – respondi.
– Então, anjo, não deixes o meu filho pendurado. Faz a conexão. E nunca mais tornes a deixá-lo à espera. Ele é meu filho.
Cumpri o mandado, ainda mais irritado que antes.
– Alô pai!
– Adão, qual é a crise?
– É a mulher a crise. Vai dar comigo em doido. Anda sempre atrás de mim, a perseguir-me o dia inteiro, sempre a falar; e fala tanto quanto os cabelos que tem e de coisa importante tanto quanto os pêlos que não tem.
Deus riu-se e disse:
– Adão, tens de saber compreender a Eva. Ela tem muitos méritos que ainda não descobriste.
– Ah! Ela se chama Eva? Ela tem muitos defeitos que já descobri. Eu disse-Te que não precisava de um par...
– Olha, homem, todos os animais têm par. Se eu não te tivesse feito, não precisaria fazer a mulher.
– Então eu sou animal? – gritou Adão.
– O pior de todos – gritou-lhe Deus, por sua vez. – Se me tivesses dado a costela, terias tido uma boa companheira.
– Eu não quero esta mulher de merda.
– Ficas com ela. Não vou desfazê-la.
– Tu és mentiroso, disseste que eu era o senhor do Paraíso, portanto não quero cá a mulher...


– Não me insultes, Adão, a mim não, toma tento na língua – gritou Deus, superirado; no entanto, olhando para a careta triste de Adão (estava a observá-lo pelo monitor), disse: – Está bem, ganhaste, vou remodelar a mulher, pois desfazer não a desfaço.
– Remodela-a. E quanto mais cedo, melhor.
– Muito bem, vou fazê-la com menos língua, menos persistência, em suma, menos tudo.
– Com menos cabelo?
Afirmativo.
– Menos carinho?
Afirmativo.
– Fala doce?
Afirmativo.
– Menos beleza?
Afirmativo.
– Sabes, pai, que tal adiares a data da remodelação? 

4 de maio de 2011

SETE FACES DO DR. LAO, AS, 1964 (7 Faces of Dr. Lao)


Estava à espera de uma comédia do género Balbúrdia no Oeste, algo sem sentido e com muita piada, quando me surgiu uma coisa muito diferente.

O uso do circo como elemento chave, como um terreno onde a sátira e a realidade se confundem (aliás, como referiu Erasmus, não é por acaso que só os bobos da corte podem falar ao rei da forma que bem entendam), e portanto estique as fronteiras do credível, podendo parecer fantasiosamente real, foi o ponto mais forte do fabulista, fazendo-me lembrar constantemente d'O Imaginarium do Dr. Parnassus (que vi primeiro) e saber onde Gilliam fora buscar as referências.

Eis As Sete Faces de Dr. Lao (chamado na tradução pt-pt, O Misterioso Dr.Lao, mas aqui prefiro a pt-br) e a sua história: uma cidade do oeste americano é quase toda comprada por um fulano, passando a restar às pessoas como hipótese deixar a cidade, e os únicos oponentes desse comprador é um jornalista e uma bibliotecária, e que, apesar de tudo, não conseguem abrir os olhos do povo. Eis então que surge na cidade um chinês misterioso, com um circo cheio de figuras lendárias, que leva as pessoas numa viagem em descoberta de si mesmas.

spoiler visual

Os efeitos especiais em stop motion não são nenhum King Kong, mas lá conseguem aguentar para dar ao filme o necessário. Os diálogos são soberbos, poéticos (não chegando a um Alexandre Herculano) e filosóficos, acompanhando cada metáfora ou alegoria que o filme mostra. Sim, o filme é um conjunto formado de partes, partes que tentam retratar cada um dos aspectos da vida e dos hábitos humanos. Tem alguns discursos muito à americana, mas que são desculpáveis pela época, por exemplo, quando um deles se refere a um índio mais ou menos neste termo: os avôs deste viveram aqui antes do homem branco sequer pensar em conhecer esta terra; agora se nós formos embora o que vai ser deles? Sim, aqui não se lembraram que o índio não dependia do homem branco e portanto poderia viver novamente sem depender. Infelizmente esta atitude dos americanos de tomar as dores dos outros, o que desgraça ainda mais o protegido, não mudou nem um bocado.

Como tinha começado a dizer, o filme tenta retratar cada um dos aspectos da vida humana, através de sete personagens fantásticas; sem falar do diálogo ficando apenas pelas personagens, temos o filme completo, ou seja estas personagens podiam desfilar apenas com uma placa com o seu nome, que já fariam sentido:

  • Apollonius de Tyana, cego que vê o futuro (com o fardo adicional de só saber dizer a verdade).
  • Pan, o deus meio homem, meio bode, que encarnou depois o luxurioso fauno dos romanos, e aqui representa o nosso desejo, a nossa libido, e como isso não é um dos aspectos secundários da nossa vida.
  • Médusa, a górgona que transforma quem a olhar em pedra, que talvez seja uma alegoria à curiosidade mórbida e à cegueira da busca incessante que nos deixa mais frio e afastados da nossa humanidade, tornando-nos simples autómatos.
  • Merlin, o mágico, que tem o poder de criar e não apenas de iludir, mas que precisa de crédito dos outros e da sua atenção para poder mantê-lo vivo.
  • Serpente gigante, que é nada mais do que, provavelmente, a serpente que enganou Eva, representado um espelho da nossa alma, os nossos próprios desejos e o nosso egoísmo.

As outras duas faces do Dr. Lao só fazem sentido pelo contexto do que são mostradas e pelos diálogos. Uma delas é o próprio Dr. Lao, um filósofo com sete mil e trezentos e tantos anos (mais velho que a humanidade segundo os judeus), e o Abominável Homem das Neves, que tanto tem de abominável como de tímido e discreto. Um exemplo da filosofice do Dr.Lao: ele pesca num lago seco, onde não há peixes, por isso não tem necessidade de usar isca.

Ok! Filosofias, sátiras e fábulas à parte, As Sete Faces de Dr. Lao, simplesmente como filme, é por vezes inconsistente, como no caso de um par de bêbados a cambalear que de repente ficam lúcidos, ou da criança com duas mães que sai à noite sem ninguém dar conta, e não investe muito em determinadas personagens, conferindo-lhe apenas o carácter necessário para o desenrolar da história.

A ideia central do filme talvez fosse isto: não viver nos extremos, nem do idealismo nem do pragmatismo absurdo, mas procurar os meios; e, por vezes, às pessoas são mais porque ficaram desiludidas, mas continuam a ser más porque as deixamos e encorajamos (por medo de sermos politicamente incorrectos, por medo de uma reacção exagerada, enfim, sempre por medo de algo).

As Sete Faces do Dr. Lao é um filme tremendamente divertido, pode ser visto tanto em modo simplex como complex, que funciona sempre. Não se deixem enganar pela sua idade (considerando o universo fantasioso e o estado actual dos efeitos especiais), o filme é tão sábio quanto o seu protagonista. E como mais-valia tem a boa  representação do actor principal, Tony Randall.

2 de maio de 2011

BIN LADEN NA ÁREA - A Morte do Prevaricador

Todos os jornais estão a noticiar a morte do Bin Laden, herói extremista e ídolo inconfesso de muitos ganzados pseudo-revolucionários neo-cheguevaristas anti-americanos.

Pode ser que Bin Laden esteja morto, mas duvido que tenha sido ontem que o mataram, aliás acredito mais na versão do American Dad de que ele está a trabalhar nos Estados Unidos. E, por isso mesmo, nem vou referir ao recém-proclamado dia do orgulho mundial pela "morte" dele, comentado com tanta jactância que mete inveja ao próprio Satã pela popularidade perdida (acho que vamos ter a partir de hoje dois feriados mundiais seguidos).

E é também por isso que nem irei falar dessa ridícula história do corpo deitado ao mar, por nenhum país muçulmano o querer, principalmente, quando ainda no ano passado diziam que ele era protegido pelos iemenitas e até tinha casado uma mulher iemenita. E nem referir ao facto de os americanos, por serem os maiores cavaleiros e protegedores das mulheres do mundo, terem um motivo para odiar que Bin Laden tenha usado a sua como escudo humano, uma razão por que devia ser mesmo morto. 


Quem prestar um bocadinho de atenção vai lembrar-se de que ontem foi noticiado a morte do filho e netos de Kadhafi, bombardeados pela NATO, e como todos sabem, esse ditador é um super-anti-américa-imperialismo, e, por ser lixado da cabeça, todos temem uma retaliação dele pela morte dos filhos contra o Ocidente e a sua coligação. 

Então o que fazem os americanos? (atenção: spoilers!) Mais uma armação: 
  • primeiro, vamos desviar a atenção sobre a morte dos entes de Kadhafi, mandá-la para as páginas secundárias; 
  • segundo, vamos pôr todo o mundo a falar de Bin Laden, que por nos ter magoado a nós, fizemos com que todos eles o odiassem, e embora façamos aos outros pior do que ele (se é que foi ele) nos fez, somos considerado heróis;
  • terceiro, vamos criar um enredo que ligue Kadhafi a Bin Laden, tecer as duas tramas numa apenas, promover alguns ataques suicidas pela Europa fora, de maneira a podermos culpar Kadhafi de coligação com os terroristas (o que sempre temos vindo a fazer), e assim com a benção (ou mesmo sem ela) do mundo, invadirmos e depormos Kadhafi, e conquistarmos a Líbia. Bem, se funcionou com Saddam, se temos depostos pelo mundo inteiro presidentes que não gostamos, por que não vai funcionar agora?
a horrível foto do corpo de Osama Bin Laden
Estou agora à espera de dois filmes e best-sellers: A MORTE DE BIN LADEN ou OBAMA E A LIMPEZA DA CAGADA DE BUSH, e outro dos grandes adeptos de teoria de conspiração, que vão mostrar como um homem pode representar uma ideologia e ser culpado pelos pecados da humanidade.

Bin Laden é para os americanos o equivalente do Hitler para os judeus, podem fazer ao mundo e aos palestinos o mal que quiserem, mas basta dizerem esses dois nomes aos revoltosos para toda a gente baixar a bola por comiseração e empatia.

Uma amiga falou-me da baixa do preço de petróleos relacionada com a morte de Bin Laden e... deus!, sem comentários.

Eu sempre me pergunto: há alguém que ainda se deixe enganar pelos americanos?