4 de maio de 2011

SETE FACES DO DR. LAO, AS, 1964 (7 Faces of Dr. Lao)


Estava à espera de uma comédia do género Balbúrdia no Oeste, algo sem sentido e com muita piada, quando me surgiu uma coisa muito diferente.

O uso do circo como elemento chave, como um terreno onde a sátira e a realidade se confundem (aliás, como referiu Erasmus, não é por acaso que só os bobos da corte podem falar ao rei da forma que bem entendam), e portanto estique as fronteiras do credível, podendo parecer fantasiosamente real, foi o ponto mais forte do fabulista, fazendo-me lembrar constantemente d'O Imaginarium do Dr. Parnassus (que vi primeiro) e saber onde Gilliam fora buscar as referências.

Eis As Sete Faces de Dr. Lao (chamado na tradução pt-pt, O Misterioso Dr.Lao, mas aqui prefiro a pt-br) e a sua história: uma cidade do oeste americano é quase toda comprada por um fulano, passando a restar às pessoas como hipótese deixar a cidade, e os únicos oponentes desse comprador é um jornalista e uma bibliotecária, e que, apesar de tudo, não conseguem abrir os olhos do povo. Eis então que surge na cidade um chinês misterioso, com um circo cheio de figuras lendárias, que leva as pessoas numa viagem em descoberta de si mesmas.

spoiler visual

Os efeitos especiais em stop motion não são nenhum King Kong, mas lá conseguem aguentar para dar ao filme o necessário. Os diálogos são soberbos, poéticos (não chegando a um Alexandre Herculano) e filosóficos, acompanhando cada metáfora ou alegoria que o filme mostra. Sim, o filme é um conjunto formado de partes, partes que tentam retratar cada um dos aspectos da vida e dos hábitos humanos. Tem alguns discursos muito à americana, mas que são desculpáveis pela época, por exemplo, quando um deles se refere a um índio mais ou menos neste termo: os avôs deste viveram aqui antes do homem branco sequer pensar em conhecer esta terra; agora se nós formos embora o que vai ser deles? Sim, aqui não se lembraram que o índio não dependia do homem branco e portanto poderia viver novamente sem depender. Infelizmente esta atitude dos americanos de tomar as dores dos outros, o que desgraça ainda mais o protegido, não mudou nem um bocado.

Como tinha começado a dizer, o filme tenta retratar cada um dos aspectos da vida humana, através de sete personagens fantásticas; sem falar do diálogo ficando apenas pelas personagens, temos o filme completo, ou seja estas personagens podiam desfilar apenas com uma placa com o seu nome, que já fariam sentido:

  • Apollonius de Tyana, cego que vê o futuro (com o fardo adicional de só saber dizer a verdade).
  • Pan, o deus meio homem, meio bode, que encarnou depois o luxurioso fauno dos romanos, e aqui representa o nosso desejo, a nossa libido, e como isso não é um dos aspectos secundários da nossa vida.
  • Médusa, a górgona que transforma quem a olhar em pedra, que talvez seja uma alegoria à curiosidade mórbida e à cegueira da busca incessante que nos deixa mais frio e afastados da nossa humanidade, tornando-nos simples autómatos.
  • Merlin, o mágico, que tem o poder de criar e não apenas de iludir, mas que precisa de crédito dos outros e da sua atenção para poder mantê-lo vivo.
  • Serpente gigante, que é nada mais do que, provavelmente, a serpente que enganou Eva, representado um espelho da nossa alma, os nossos próprios desejos e o nosso egoísmo.

As outras duas faces do Dr. Lao só fazem sentido pelo contexto do que são mostradas e pelos diálogos. Uma delas é o próprio Dr. Lao, um filósofo com sete mil e trezentos e tantos anos (mais velho que a humanidade segundo os judeus), e o Abominável Homem das Neves, que tanto tem de abominável como de tímido e discreto. Um exemplo da filosofice do Dr.Lao: ele pesca num lago seco, onde não há peixes, por isso não tem necessidade de usar isca.

Ok! Filosofias, sátiras e fábulas à parte, As Sete Faces de Dr. Lao, simplesmente como filme, é por vezes inconsistente, como no caso de um par de bêbados a cambalear que de repente ficam lúcidos, ou da criança com duas mães que sai à noite sem ninguém dar conta, e não investe muito em determinadas personagens, conferindo-lhe apenas o carácter necessário para o desenrolar da história.

A ideia central do filme talvez fosse isto: não viver nos extremos, nem do idealismo nem do pragmatismo absurdo, mas procurar os meios; e, por vezes, às pessoas são mais porque ficaram desiludidas, mas continuam a ser más porque as deixamos e encorajamos (por medo de sermos politicamente incorrectos, por medo de uma reacção exagerada, enfim, sempre por medo de algo).

As Sete Faces do Dr. Lao é um filme tremendamente divertido, pode ser visto tanto em modo simplex como complex, que funciona sempre. Não se deixem enganar pela sua idade (considerando o universo fantasioso e o estado actual dos efeitos especiais), o filme é tão sábio quanto o seu protagonista. E como mais-valia tem a boa  representação do actor principal, Tony Randall.

2 de maio de 2011

BIN LADEN NA ÁREA - A Morte do Prevaricador

Todos os jornais estão a noticiar a morte do Bin Laden, herói extremista e ídolo inconfesso de muitos ganzados pseudo-revolucionários neo-cheguevaristas anti-americanos.

Pode ser que Bin Laden esteja morto, mas duvido que tenha sido ontem que o mataram, aliás acredito mais na versão do American Dad de que ele está a trabalhar nos Estados Unidos. E, por isso mesmo, nem vou referir ao recém-proclamado dia do orgulho mundial pela "morte" dele, comentado com tanta jactância que mete inveja ao próprio Satã pela popularidade perdida (acho que vamos ter a partir de hoje dois feriados mundiais seguidos).

E é também por isso que nem irei falar dessa ridícula história do corpo deitado ao mar, por nenhum país muçulmano o querer, principalmente, quando ainda no ano passado diziam que ele era protegido pelos iemenitas e até tinha casado uma mulher iemenita. E nem referir ao facto de os americanos, por serem os maiores cavaleiros e protegedores das mulheres do mundo, terem um motivo para odiar que Bin Laden tenha usado a sua como escudo humano, uma razão por que devia ser mesmo morto. 


Quem prestar um bocadinho de atenção vai lembrar-se de que ontem foi noticiado a morte do filho e netos de Kadhafi, bombardeados pela NATO, e como todos sabem, esse ditador é um super-anti-américa-imperialismo, e, por ser lixado da cabeça, todos temem uma retaliação dele pela morte dos filhos contra o Ocidente e a sua coligação. 

Então o que fazem os americanos? (atenção: spoilers!) Mais uma armação: 
  • primeiro, vamos desviar a atenção sobre a morte dos entes de Kadhafi, mandá-la para as páginas secundárias; 
  • segundo, vamos pôr todo o mundo a falar de Bin Laden, que por nos ter magoado a nós, fizemos com que todos eles o odiassem, e embora façamos aos outros pior do que ele (se é que foi ele) nos fez, somos considerado heróis;
  • terceiro, vamos criar um enredo que ligue Kadhafi a Bin Laden, tecer as duas tramas numa apenas, promover alguns ataques suicidas pela Europa fora, de maneira a podermos culpar Kadhafi de coligação com os terroristas (o que sempre temos vindo a fazer), e assim com a benção (ou mesmo sem ela) do mundo, invadirmos e depormos Kadhafi, e conquistarmos a Líbia. Bem, se funcionou com Saddam, se temos depostos pelo mundo inteiro presidentes que não gostamos, por que não vai funcionar agora?
a horrível foto do corpo de Osama Bin Laden
Estou agora à espera de dois filmes e best-sellers: A MORTE DE BIN LADEN ou OBAMA E A LIMPEZA DA CAGADA DE BUSH, e outro dos grandes adeptos de teoria de conspiração, que vão mostrar como um homem pode representar uma ideologia e ser culpado pelos pecados da humanidade.

Bin Laden é para os americanos o equivalente do Hitler para os judeus, podem fazer ao mundo e aos palestinos o mal que quiserem, mas basta dizerem esses dois nomes aos revoltosos para toda a gente baixar a bola por comiseração e empatia.

Uma amiga falou-me da baixa do preço de petróleos relacionada com a morte de Bin Laden e... deus!, sem comentários.

Eu sempre me pergunto: há alguém que ainda se deixe enganar pelos americanos?

29 de abril de 2011

FOGO FÁCIL, Marinho de Pina (2006)



Que tipo de escritor e bibliófilo seria eu se aqui falasse de muitos livros e não falasse do meu? E seria modéstia não inclui-lo na lista do 100 Títulos Para  Ler Antes de Morrer? Hum, talvez!, no entanto, considerando que a modéstia no curriculum vitae é nada mais do que estupidez, acho que devo valorizar-me o suficiente para auto-incluir-me nessa minha lista, álias, se o próprio Ed Wood achava que fazia bons filmes... além do mais, essa lista é também pessoal.

Bem, de qualquer maneira eu falar do meu livro seria bastante suspeito e muito pedante, razão por que vou convidar outra pessoa para o fazer, e não vejo ninguém melhor para isso do que o conceituado escritor angolano José Eduardo Agualusa, sendo que foi ele quem lhe fez o prefácio, e ei-lo:



Prefácio de Fogo Fácil

Num contexto como o da Guiné-Bissau, de grande pobreza literária, a emergência de um novo escritor é sempre de saudar. O lançamento desta recolha de contos de Marinho de Pina, “Fogo Fácil”, merece contudo uma maior atenção. O que mais me impressionou, logo no primeiro conto, foi a sensação de me encontrar num território autónomo, um universo próprio, feito de um conjunto de referências e de uma soma de obsessões muito particulares. A isto chama-se estilo, e está para a literatura como o tempero para a culinária. O estilo de Marinho de Pina faz-se se sábia mistura entre humor inteligente, uma pitada de tradição oral, outra de suave erudição literária, nunca pretensiosa, e a paixão pela retórica.

Lúcio, o pícaro personagem do conto “A Alavanca do Cérebro” exemplifica estas características: “Estávamos nesses palavreado quando um rapaz caiu ao rio, e começou a ser arrastado pela corrente. Segundo a teoria de Lúcio, o rapaz estava no mesmo sítio, a cena é que se desenrolava. Se conseguisse entrar na frequência do mundo, iria ao sítio onde o rapaz estava, antes de cair na água, e mudava a cena”. E Lúcio, de facto, serve-se apenas do pensamento, da retórica, para alcançar os seus objectivos – e descobrir a alavanca do cérebro. Há aqui um prazer pela efabulação, uma energia e sinceridade, que não é muito fácil de encontrar, nos nossos dias, em literaturas mais sofisticadas.

Marinho de Pina leva-nos a conhecer uma outra Guiné-Bissau. Não aquela que julgávamos conhecer, através das notícias, quase sempre funestas, que nos chegam pela rádio e pela televisão, mas uma outra, infinitamente mais complexa e interessante: com os seus mitos, os seus dramas e inquietações, e, sobretudo, a sua atenção ao mundo e ligação à modernidade.

"Fogo Fácil" (eis um título feliz!) parece-me um raro primeiro livro, anunciador de um mundo mais vasto. É por ele que aguardo agora, que aguardamos todos, na certeza de que mais do que um escritor da Guiné-Bissau, Marinho de Pina se revela, nos contos que se seguem, como uma esperança de literatura em língua portuguesa.

José Eduardo Agualusa

27 de abril de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - Contextualizando


Quando tinha 12 anos, dois anos após descobrir a minha primeira biblioteca, fizera várias tentativas de escrever, acabando por desistir por diversas razões.

Confiante de que dominava melhor as palavras, aos 16 anos, ainda estávamos em guerra na minha terra, e o sítio onde eu me encontrava era mais entediante que o Paraíso, para me divertir só tinha uma caixa com 40 CDs de música clássica (o que me fez criar ouvidos para esse género), comecei a escrever, para ocupar o tempo, levando-me, no entanto mais a sério nessa arte. O caderno que comecei acabei por perdê-lo depois de uns três meses a riscar nele, na pressa de encontrar um lugar mais seguro, quando a cidade foi atacada, e para dizer a verdade, a minha escrita não ia muito bem, era difícil escrever do nada.

Acabou a guerra, eu tinha 17 anos, e pude voltar para a minha casa de novo, e um encontro com um livro de contos de Mark Twain foi um momento bastante feliz. Mark Twain tem um conto sobre Noé, com ele a ter problemas com um fiscal portuário; inspirei-me nisso, e escrevi uma história com Aladin e o seu tapete que não cumpria nenhuma regra aeronáutica. 

Mas isso não me satisfez, porque era um decalque ridículo, resolvi então usar o Noé Bíblico, misturando-o com outros Noés mitológicos para fazer uma história, acreditando que seria mais fácil, pois tudo o que tinha de fazer era reescrever, visto a linha já estar toda montada. Afinal o próprio Pitigrilli tinha escrito um final alternativo para A Dama das Camélias de Alexandre Dumas, sem que isso se considerasse plágio.

Escrevi Noé - O Primeiro Messias, e foi mais fácil do que as minhas primeiras tentativas. E decidi usar a Bíblia como fonte e reescrever o Génesis. E como os autores que mais gostava na altura eram humoristas, e como aquelas histórias só teriam sentido se fossem contado pelo ridículo, não pude escapar de tentar fazer humor com elas. Então escrevi Adão e Eva - O Mundo Perdido, (referência a Jurassic Park) depois soube que Mark Twain tinha escrito também um conto chamado Adão e Eva, li esse conto e imprimi a sua conclusão na conclusão do meu Adão e Eva. 

Quando acabei de reescrever o Génesis, sob a perspectiva de Lúcifer, usando com guias livros de Robert Charroux e A História de Deus de Karen Armstrong, ainda criei uma história que explicasse a descoberta do seu diário, e envolvia anjos e demónios que tentavam matar e proteger a prostituta drogada que deveria sofrer inseminação artificial da esperma divina para dar à luz um novo messias, que finalmente resolveria a questão do Apocalipse. Eu estava muito herético na altura, culpa do filósofos que andava a ler.

Entretanto, tive uma recaída religiosa e senti que tinha ofendido gravemente a Deus, e disse a mim mesmo que não acreditava no que escrevi, mas isso não aplacou a minha consciência, fiz então o que qualquer bom cristão faria: apaguei os ficheiros do computador, queimei os manuscritos e parti as disquetes que os continham, para não cair na tentação. Foi difícil, porém senti-me em paz quando acabei de o fazer, tinha 19 anos nessa altura e acabara de mandar para o diabo dois anos de trabalho.

Umas duas semanas mais tarde (não durou muito), ao reler A História de Deus, a minha fé ateia renasceu e quase fiquei louco por causa da asneira que tinha cometido (na altura sentia-me mais à-toa do que ateu). De todo o trabalho, só consegui salvar dois que tinha impresso e dado a um amigo para ler, felizmente ele não os tinha destruído (quando lhe pedi para o fazer, foi mais sensato e disse que ficaria com eles para se rir) e algumas partes das outras que ficaram em computadores onde tinha trabalhado. Depois tentei reescrever de novo a reescrita do Génesis mas já não tinha piada, refiz José - O Pesadelo dos Irmãos (lembrando-me do Freddy Krueger), todavia, ficou seca, portanto desisti; e a história do Apocalipse que serviria de ligação às outras também morreu.

No entanto, como acho que devo completar essas partes que tinha salvo, pois depois de 10 anos, talvez consiga dar um novo sumo às suas piadas (ou não), sem dizer que estou numa crise escrítica (durante 5 não conseguindo escrever ficção, largando sempre as histórias na página 20), e espero que a fórmula funcione de novo e liberte-me a veia literária, vou postar Memórias de Lúcifer, parte a parte, obrigando-me assim a, quando chegar às historias deixadas ao meio, conclui-las. 

24 de abril de 2011

SANDRA NKAKÉ - garganta de ouro

Simplesmente F O R M I D A V É L.

Há duas maneiras que os artistas entram na nossa vida: ou forçam o caminho suavemente, ou, como os violadores, apenas se instalam e ponto final. Sandra Nkake usa o segundo método.


Em 2009, conheci Sandra Nkake por Happy, aqui, e apaixonei-me imediatamente, a sua garra vocal não deixa a ninguém indiferente. Aquela manifestação soul, que, não sei porquê, me faz lembrar Neneh Cherry, aquela voz que às vezes orienta a Nina Simone, ou aquele autodesafio vocálico a Erykah Badu, fizeram de Sandra Nkake um achado.

De Happy passei logo para o álbum todo, Mansaadi (2008), até onde sei o único trabalho discográfico dela; depois encontrei algumas pérolas suas em sessões jam, e outras onde interpreta outros artistas, que me deixaram ainda mais apaixonado.

happy (maansadi, 2008)
gostei também do conceito do vídeo, que joga com a dualidade de qualquer relação, mesmo as supostamente benéficas, atráves do jogo de luz e sombra, aqui reforçando com uma metade da cara da artista maquilhada e "perfeita" e a outra metade natural e crua.

Gosto imenso da maneira e da certeza com que Sandra usa a sua voz, da maneira como usa o beat-box para criar um veio de diferença ao seu género, e da forma como musicaliza. E por ser um único álbum, espero que venha a haver mais, e catorze faixas, vou falar rápido das mais relevantes (entenda-se que todas as observações aqui são puramente pessoais). E como sempre digo, não sou muito bom a identificar géneros musicais, o que quer dizer que talvez poderei cometer equívocos no que vou dizer em seguida. 


The Way You Walk – acústica, a faixa que abre o disco, começa com muita energia, com o habitual fundo desse género, ela mostra que o seu cantar não é só emissão de voz, mas também, verdadeiramente, uma interpretação vocal.


H.A.P.P.Y. – No bom tom soul, já foi a música dela que mais eu gostava, concorrendo para essa posição talvez com Stay True (mas como o meu género preferido varia por épocas e como Sandra é pluri-generalista[?]...).

I Miss My Land – um jazz bem definido, bem divertido, bem animado.

Stay True – Reggae, calmo e pausado, animado, com uma letra sobre ela mesma e sobre a sua procura, muito agradável.

La Mauvaise Reputation – acompanhado com beat-box, vocal loops e uma guitarra baixo apenas, é enleante e sentido; o melhor cover desta música que já ouvi.



Ya Ya Ya - Funk, perdido entre RnB e Soul, só confirma mais a solidez do álbum e das capacidades músico-intrepretativas de Sandra.

I Believe - A música que fecha o disco, também acústica, mas com mais intervenção de instrumentos melódicos (?), com um toque a gospel, encera magistralmente o álbum, fazendo dele consistente e coerente. 


Listei as primeiras seis músicas de Maansadi porque mostram toda a pluri-generalidade de Sandra e fazem um resumo da sua habilidade.

bónus 
Sandra Nkake + Erik Truffaz + Sly Johnson (de Saian Supa Crew)

Sandra, como já disse, não canta apenas, interpreta, mesmo não vendo os seus vídeos, ouve-se isso nas suas músicas, com os risos, os murmúrios e outras coisas. Ouvindo Maansadi e as mesma música "ao vivo", acho que faz-se um melhor quadro de quem é Sandra.

Em notas de fecho, Sandra Nkake é provavelmente  (com Ana Carolina - que ganhará aqui um post) uma das artistas que mais ouvi nos últimos dois anos. E... há um easter egg na faixa I believe, também soberbo.


PS:
E para quem vier aqui parar à procura das letras das músicas de Sandra, recomendo que escreva lyrics em vez de letras (por exemplo sandra nkake lyrics, se adicionar o título da música ou algo que nela se disse, fica ainda mais fácil), seja da música de que artista for...



21 de abril de 2011

SETE MINUTOS, OS, Irving Wallace (1969) - sexo não é crime

Os Sete Minutos de Irving Wallace é uma obra simplesmente soberba e avassalante, capaz de abalar até mesmo os menos conservadores, na medida em que autopsia comportamentos sociais que sabemos que existem, mas que talvez nunca tenhamos gastado o tempo a observar para lhes entender os porquês. 

A obra fala de um livro chamado Os Sete Minutos, que lhe deu o nome, considerado o mais obsceno de todos os tempos (mas é ficcionário), porque usa linguagem franca para explicar episódios de cama. Sete minutos é o tempo médio do orgasmo feminino, ou melhor que a mulher leva para chegar ao orgasmo, (não sei comprovar essa afirmação e nem para aqui importa) e o livro dentro do livro descreve o que passa na cabeça da autora durante esses sete minutos; e como agravante o facto do prazer sexual ser negado à mulher naquela altura, onde boa parte considerava o orgasmo feminino um mito, e quando verdadeiro um perigo à estabilidade social.

O livro estava à venda por um livreiro que foi preso acusado de vender pornografia [a pornografia só foi legalizada nos EUA por volta de 1974]. A acusação é feita por um Promotor público que espera com isso conseguir projecção política, pois é sabido que todo o mundo, quando se fala abertamente do sexo, fica com um pé atrás, embora com os ouvidos distendidos. E para complicar a situação, um rapaz comete uma violação e alega que foi incitado a isso pelo livro. E, por fim, um advogado ambicioso arrisca-se a sacrificar um futuro promissor para defender o livro. Eis a base para uma das mais esplêndidas leituras que fiz este ano [foi em 2006 que escrevi isto]. Li o livro com um pantagruelismo que eu mesmo nem conhecia, 600 páginas em 2 dias. 

O autor, Irving Wallace, revela conhecimentos profundos (para mim que sou leigo) sobre a posição do sexo no sistema judicial americano e o mecanismo do sistema em si, e parece ter feito um belo trabalho de base antes de se lançar à escrita d’ Os Sete Minutos. Uma das frases mais sonantes e reveladoras sobre a questão sexo que aparecem no livro é: assassinato é crime [e imoral e antiético], mas escrever sobre assassinato não é crime [nem imoral, nem antiético], sexo não é crime [nem imoral(?), nem antiético], mas escrever sobre sexo é crime [e imoral e antiético]. É verdade que hoje falar sobre o sexo não é crime, mas continua a considerar-se imoral e antiético, pelo menos quando não leva o cunho de científico.  
recentemente, em 2009, um livro que reproduzia esta imagem de um pintor francês na capa foi apreendido e proibido de vender pela PSP, porque foi considerado ofensivo, quando qualquer  banca de jornais que se preze expõe revistas pornográficas ou eróticas sem que isso seja considerado atentado ao pudor
Durante a leitura, dei-me por mim a consolidar a minha opinião acerca das perguntas que já tinha vindo a fazer: será o sexo sujo? Será que a forma de agir que consideramos a melhor não foi simplesmente estipulada por uma cultura exsicada e hipócrita? Até que ponto somos manietados e outorgamos nós mesmos aos mais poderosos o direito de nos usarem como joguetes? Até que ponto o nosso receio de não sermos aceite ou de sermos ridicularizados nos levam a agir por conveniência e a destruir o melhor de nós? Podem crer que fazemos mil outras perguntas durante a leitura. 


Ainda vemos no livro como é que as pessoas sacrificam tudo para defender aquilo em que acreditam (as corajosas e são raras), ou outras para esconder-se da vergonha (a maioria)... e vemos também como é que por causa de terceiros se lixam os… quartos.


Embora o sexo esteja tão banalizado hoje na literatura, noutras formas de artes, e na nossa própria vivência, não pensem que o livro esteja desactualizado ou que não ira trazer nada de novo, pois embora o livro fale de sexo em particular, no geral trata da liberdade individual. Acreditem que o livro (foi escrito nos anos 60) é ainda bastante actual e continuará actual por muito tempo, e chocante. Chocante porque embate contra a forma como aceitamos imposições no nosso plano sexual e como ainda sacralizamos o sexo.


Para não me perder em tergiversações baratas, (pois para falar de tudo o que o livro mostra e ensina, eu precisaria de escrever outro livro) digo que depois de ter acabado de ler Os Sete Minutos, senti-me mais inteligente e mais livre e encorajado a enfrentar certos preconceitos que já vinha a considerar estupidez. 

17 de abril de 2011

BOOGIE, O AZEITOSO, 2009 (Boogie, El Aceitoso)


Quem é Boogie, o Azeitoso? 

Bem, em poucas palavras: se o feminismo fosse religião, Boogie seria o Satã. Boogie é um assassino de aluguer, um filho da mãe odiento e psicopata que se sente um tonto sentimental porque acaba com uma pessoa ferida que podia ter sobrevivido, que… peraí, se contar quem é o Boogie, vou fazer um spoiler. Bah, aliás, o cartaz não engana a ninguém... só se esqueceu de dizer que é também racista, desenhando os pretos com aqueles traços típicos do tempo em que ainda só diziam "uga-uga" nas bandas desenhadas.

Boogie, O Azeitoso é tão violento que acaba por ser hilariante. E eis o seu pomo de discórdia, suponho, porque muitos poderão pensar que se trata de uma apologia à violência quando, na verdade (ou pelo menos, para mim), é uma sátira ao nosso sistema, e um apontar de dedo à maneira como estamos cada vez mais acostumados com a violência.

Se Tarantino fizesse uma animação, seria Boogie, ok!, boogie não gasta em conversas triviais que dão um ar de realidade à história (mas tirando isso, parece um trabalho feito à base dos trabalhos do mestre), porém faz referências e homenageia vários filmes, vários cartazes e vários géneros: numa das cenas mais soberbas, temos um confronto a la western, que simplesmente delicia, ou a cena perto do final no tribunal, ui. E tem um cena que talvez seja uma referência a Lucky Luke, quando numa confusão com galinha, Boogie perde o cigarro com que andou o filme todo, e fica com uma pena na boca. Resumindo para depois avançar: Boogie roça a genial.

A fotografia, ou o gráfico, sei lá, considerando que aquilo foi gerado no computador e desenhado a mão, é muito boa. Ora cheira a 300 de Snyder, ora a luz de Afrosamurai, Ressurection, e tem umas pontas de Sin City de Rodriguez (ainda tem outras técnicas de animação que já vi em outros filmes mas não consigo lembra onde). O cenário, tridimensional, foi gerado no computador, as personagens foram desenhados à mão, parecendo emprestadas de uma história de Corto Maltese. Mas tudo isso, apesar de emprestados, faz de Boogie único. Bem, não li a BD que deu origem ao filme e não conheço o ambiente do livro, mas que essas referências supracitadas existam... sim existem e bem perceptíveis.


trailer


Não aprendi nada com Boogie, tirando as suas situações violentas que de tão violentas se tornam hilariantes, como já referi, não tem nada de novo, o enredo já é tão batido, com algumas modificações ligeiras, todo ele previsível, mas diverti-me à beça com ele. Outras situações e falas são puramente anedóticas, mas não é que não funcionam, por exemplo (spoilers!), uma cena, uma conversa entre mãe e filha, acerca de Boogie:

Mãe: Ele continua a bater-te?
Filha: (todo apaixonada) Não... não com a mesma intensidade! 

Ou esta situação:

Boogie: Espere um minuto McCoy, Gary está vivo, mas não durará... parece um comercial de plasma. Tem uma grande hemorragia.
McCoy: Fala?
Boogie: Disse hemorragia, não verborragia.
McCoy:  Faça um torniquete, rápido! Enviarei um médico da companhia.
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Médico: Boa noite! Sou o médico da companhia. Mas este homem está morto! Aplicou o torniquete?
Boogie: Sim. Como a ferida era no peito, apliquei no pescoço.


Boogie, o filme, é todo  assim, e não é diferente do protagonista, que a cada dez minutos, vai debitando one-liners bem cómicos, e com algum significado por vezes; a construção dos diálogos mostra que o autor sabe brincar com as palavras e com os seus vários sentidos, mas não sei se isso se deve ao argumentista ou ao autor da banda desenhada que criou o filme. E para quem se importa, é um filme argentino.

Eis um filme para uma sessão de riso com os amigos.