20 de março de 2011

DE VÍBORA NA MÃO, Hervé Bazin (1948) - Prometeu a acorrentar-se

De Víbora na Mão, de Hervé Bazin, é daqueles livros que podemos classificar de fantasticamente fantástico, sem que isso se torne redundante. O autor escreve com muito humor enquanto disseca a psique humana, ou pelo menos parte dela. O livro é um murro terrível nos cornos de Freud, apresenta a criança perante os pais (a mãe, propriamente), sem aquela treta de impulsos sexuais a dirigir tudo. Não há aqui o complexo de Édipo, talvez o complexo de Prometeu, na medida em que apesar de conhecer o poder de Zeus ainda lhe rouba o fogo por lhe ser necessário, embora saiba das possibilidades de castigo.

Vou tentar fazer uma síntese da obra: Uma mãe cria três filhos sob as mais ridículas condições e um regime pior que o das madrastas de contos de fada. Não há essa relação amor-ódio a pontuar tudo, mas antes ódio-ódio, o que leva a admiração mútua entre oponentes. Três filhos perante uma mãe odienta, rica, mas sovina, e que os cria numa situação mais que parca, não como uma lição, para aprenderem a valorizar as coisas simples da vida, mas simplesmente porque quis; três filhos que se desenvolvem, relacionando-se com essa mãe, cada um à sua maneira: um preferindo vencê-la no seu próprio, outro tentando sobreviver apenas, e o último que, por não poder vencer o inimigo, prefere unir-se a ele.

Podemos deslocar a comparação e usá-la como uma metáfora social, porque na sociedade praticamente as pessoas se dividem, quando vêm os seus interesses em jogo, em grupos iguais aos desses irmãos.

O livro podia ser cruel, quando apresenta três crianças a tentarem envenenar a própria mãe, três crianças contentes porque a mãe está à beira de morte, três crianças expectantes, torcendo para que a mãe morra afogada, mas nem por isso é cruel, aliás, nesses momentos até que se torna mais humano. Humano, talvez porque o próprio homem é cruel, pois vemo-nos também a conjurar com eles para que seu desejo se realize... e a mãe, hum, é bastante forte.

Falando tanto da mãe e dos filhos, pergunta-se: então, e o pai? O pai está sempre presente, como o próprio Deus, ambos os pais em quem as crianças não acreditam porque são fracos e nunca vem ao socorro. A sociedade é masculinizada e patriarcal, o poder da mulher embora imenso, costuma ser discreto, e tradicionalmente costuma vergar-se à decisão masculina, por isso os filhos não entendem por que o chefe da família é apenas uma figura, uma marioneta que dança ao ritmo da sacerdotisa, que embora lhe seja garantido posse de poderes, não os consegue manifestar.

No entanto, o livro não faz uma apologia à ditadura masculina no seio da família, porque aquele pai tanto podia ser uma mãe, que o desprezo seria o mesmo causado pela sua inacção; na verdade, a crítica é mesmo dirigida à inacção, porque duas pessoas fazem os filhos, duas pessoas encabeçam à família, por que duas pessoas não devem tomar decisões sobre o que acontece na família?

Como já referi, nem só a família é retratada no livro, mas a sociedade em geral, as suas fraquezas, a sua passividade, os seus líderes, e principalmente a falta de acção e o aceitar ou o negar apenas por reacção. E ainda aponta alguns outros  vícios, por exemplo, tem uma parte no livro que o personagem diz: a velha está mais acostumada a acariciar cachorinhos do que crianças; e isto é só um dos retratos caricatos da nossa humanidade hipócrita que aparece no livro.

Para conhecer De Víbora na Mão é preciso ler mesmo, porque conhecê-lo de qualquer outra forma não se conseguirá penetrar no seu âmago e envolver-se na enleante emoção que proporciona. E para quem quiser saber mais sobre os personagens história, pode procurar A Morte Do Cavalinho, do mesmo autor. São dois livros que ligados formam um único, mas que são independentes um do outro. Eu li os dois e gostei dos dois. Reli os dois e gostei ainda mais, embora continue a preferir este de que aqui falo. E é um dos 100 Títulos a Ler antes de Morrer.

11 de março de 2011

MARY E MAX, 2009 (Mary and Max)

Mary and Max… a melhor comparação que encontro para o filme é o tango, não a música, mas a dança, ora com movimentos calmos, calculados e sensuais, ora com enérgicas, fugazes e impacientes.

Eu esperava uma história a Disney quando comecei a ver o filme, alguma fantasia como Coraline, principalmente porque ambos são em stop-motion e ouvi falar de ambos na mesma altura, e a surpresa foi tanta e muito positiva quando o filme nem passou por perto. Contado por um narrador é uma animação... "cadavérica"... feita para adultos.

Mary e Max é um filme de amor, o melhor que vi este ano (ainda estamos em Março, espero ver melhores ou pelo menos outros à altura até ao final do ano), o amor entre duas pessoas, um senhor de meia-idade (44 é meia-idade?) e uma menina de oito anos, três meses e nove dias, que, apesar de não se conhecerem, têm muito em comum: falta de amigos, uma específica série de desenhos animados e chocolate. Mas isso é só o ponto de partida para a torrente de emoções que se despencam ao longo de hora e meia. Com um bom ritmo, uma fotografia pálida, e a animação dos personagens um tanto tosca, sem referir a banda sonora que por vezes atribui alguma teatralidade ao filme (destaco – spoilers! – a cena da primeira carta de Max e a que antecede a ressurreição de Mary, simplesmente soberbos), todos esses elementos destacam o lado “anormal” dos personagens e do tema a tratar. Julgo que a história funcionou melhor assim do que se tivesse uma foto mais convencional e colorida e animação fosse mais vivida. Também note-se que a própria fotografia mostra dois mundos diferentes, o mundo de Max é todo ele cinza, ou seja, irremediavelmente sem remédio, enquanto o mundo da Mary é mais animado, é castanho, significando perspectivas futuras.

O filme trata do desequilíbrio social, congelando a parte do amor, dos que não se conseguem encaixar, dos marginalizados ou auto-marginalizados que não conseguem ser normais; e todos os normais do filme tinham a sua anormalidade, como foi mostrado: o vizinho era homofóbico (na verdade agorafóbico, como a Mary depois aprendeu); a mãe era cleptómana e bêbada; o pai, que tem um trabalho monótono, praticava taxidermia, para curar a sua monotonia, quando na verdade só a agrava; Damien era gago (a sua revelação final não se foi intenção do realizador mostrá-lo com anormal, o que eu apontaria como um erro, ou como uma espécie de epifania, o encontro libertador consigo mesmo). São todos pessoas normais.

No entanto, porque Max é um "aspie", sofre de síndrome de Asperger, ou seja tem dificuldades em exprimir e interpretar emoções, tendo uma mente muito literal, e não compreendendo as interações sociais não faz com que precise de ser arranjado, ou que seja anormal, como os outros pretendem, pois é tão normal como qualquer um.

Vemos que praticamente, como diria Sartre, o inferno são os outros, todos os problemas destas pessoas é porque, de algum modo não se encaixam no padrão social, e não respondem ao que lhes é exigido, diluírem-se na normalidade. Por exemplo, a marca da máquina de lavar pratos da Vera é “Dishlex”, que remete à dislexia; os livros que Ravioli lê são todos de auto-ajuda e um deles, posso dizer, foi escrito por Dale Carnegie (uma autoridade nessa área); jogam os estereótipos como parte da do processo da normalização. Note-se que Max consulta um psiquiatra, e a presença deste é tão constante no filme, como o nome de Jesus numa missa de Natal, e eu suponho que isso foi intencional, para mostrar que os psiquiatras e a normalidade são hoje, respectivamente, os sacerdotes e religião moderna. O mendigo por exemplo, que tenta vender abraços, conselhos, beijos, até no final perceber que ninguém quer isso, visto que ele continua onde está, acabando por se contentar por pedir as pessoas para guardarem o seu dinheiro (bem, a sociedade não é assim tão honesta).


trailer

E a razão de o realizador usar muito da escatologia é algo que não entendo. Temos durante o filme todo coisas a saírem ou a entrarem pelo ânus, será que quis dizer com isso que embora pretendemos a normalidade escondemo-nos de coisas normais? Por exemplo, houve um momento em que comparou um peido com a honestidade. Ou uma das palavras preferidas de Max ser “testículos”, ou a fruta “cumquat”, não são provocações à normalidade e para deixar os normais desconfortáveis, visto que ele está a escrever para uma menina de mais ou menos onze anos? E assim também temos o tema da pedofilia visitado, embora não tão aprofundado. Podíamos repreender – spoilers! - embora o façamos, a Vera de não querer que Max comunique com a filha?

Mary e Max é soberbo, começa por ser uma comédia inteligente, mas como qualquer boa tragédia(?), prende-nos, faz-nos gostar dos personagens, leva-os a superarem-se para logo depois fazer uma viragem para o ângulo oposto, e deixarem-nos desconfortáveis. Houve uma cena, lá perto do fim, com a Mary, tão carregada de tensão e magistralmente dirigida - e não consigo imaginar música mais perfeita para ela - que me deixou de respiração suspensa e aperto no estômago, e só isso podia valer o filme todo.

spoiler visual


Como não consigo seguir uma linha de pensamento sequencialmente clara, vou terminar aqui. Acredito que há mais no filme do que aquilo que consegui captar, embora não me tenha referido aqui a todos os elementos alegóricos que encontrei, ou pelo menos, há mais referências que me passaram despercebidas, no entanto, o que ficou é muito intenso. E sem ver o filme pelo lado analítico das mensagens, cinematograficamente falando, é um bom filme e hora e meia bem aplicada, banda sonora bem escolhida, fotografia adequada ao tema, em suma: uma obra-de-arte.

8 de março de 2011

A VINGANÇA DE JENNIFER, 2010 (I Spit on Your Grave unrated)

Tem remakes que valem a pena ser feitos, quando há uma actualização do tema e perspectivas novas de exploração, mas a maioria dá aquela vontade de sair para a rua levantar os dois braços para o ceú, imaginando uma câmara em picado perfeito a afastar-se, e gritar: “por quê?”. Bem, este filme não é o caso, não porque sirva para alguma coisa, mas porque não se destruiu um bom filme neste remake.

I Spit on Your Grave (expressão que significa desrespeito absoluto, tendo em conta que quando mortos somos temporariamente boas pessoas), ganhou título em português, A Vingança de Jennifer, talvez por ausência de uma expressão equivalente na língua lusa, porém eu sugeria alternativas como Cago no Teu Cadáver, o que duvido que a censura deixaria passar. Bem, voltando ao tema.

Eu era muito jovem, na verdade, uma criança, quando vi o original pela primeira vez, deixou-me tremendamente chocado. Porém, há uns anos voltei a ver o filme… bem, o choque não foi assim tanto, talvez porque faltou-me a paciência para o filme, daí que o vi em velocidade 2x. O filme resume-se em duas palavras: sexploitation e snuff, e testa-nos os nervos durante a visualização. O que me arranca esta pergunta: por que raio as pessoas têm prazer em ver outras a serem violentadas?

I Spit on Your Grave (1978) é um bom filme no seu género, porque consegue o que quer: incomodar, mas não é um bom filme, cinematograficamente falando, pois tirando a violentada, mais ninguém convence, e talvez a violentada só convença porque criamos por ela empatia (ou pela sua personagem).

Mas, este post não era para falar do filme original, mas do remake. Tem um jogo que eu costumo fazer no imdb, que é, por exemplo, partir do nome de Van Damme e chegar a Matthew Broderick, sem ter que digitar nada, e em menos passos possíveis. E é assim: Van Damme contracenou com Dolph Lundgren (Máquinas de Guerra), este com Bruce Willis (Os Mercenários), e este com Tom Hanks (A Fogueira das Vaidades), e este com Denzel Washington (Filadélfia), e este com Matthew Broderick (Tempo de Glória). Pois, bem, eu estava a jogar este jogo (já não me lembro o que queria ligar) e fui parar ao I Spit on Your Grave: Unrated, a princípio nem percebi que o cartaz era diferente, o que mais me chamou a atenção foi o unrated, pois o o outro era day of the woman e foi assim que percebi que se tratava de um remake. Bem, despertou-me a curiosidade, afinal se até mesmo Piranhas ganhou remake, porque não este, vamos lá ver se a ousadia de hoje supera a dos anos 70.


trailer

Deixem-me dizer, deviam deixar o cultuado I Spit On Your Grave (1978) onde estava, porque este remake não só não traz nada de novo (tirando transformar a protagonista numa aprendiz de Jigsaw, o que se vê mesmo pelo cartaz do filme que respira a Saw), como os actores parecem bem pior ou tão maus como os primeiros (não posso precisar nada, porque vi o outro filme há uma coisa de três anos já).

Entretanto, o que se pode aprender com este filme:

1. Que as cidades do interior não são boas para as férias, porque a ausência de acção cria mandriões violentos.

2..       Que as mulheres não devem passar as férias sozinhas e que devem sempre ser acompanhadas do parceiro para não serem violentadas (e que o realizador não viu Eles, de Moreau).

3.       Que as mulheres não devem vestir roupas curtas diante de homens desconhecidos, principalmente quando estão isoladas com eles.


4.       Pá, não me lembro de um quarto.

No geral, despindo aquela violência gráfica toda (ah, nesse aspecto este remake mantém-se aquém do original), o tema é muito importante. Temos dois pontos fortes e actuais no filme: o voyeurismo e a objectificação sexual.


Com a Internet, o cinema e todos os meios áudio-visuais, sem falar das revistas e outdoors, a sociedade foi ficando cada vez mais sexualizada, e não estou a falar do aspecto psico-científico da palavra, mas sim do hedonismo. Por exemplo, os perfumes são vendidos com promessa de granjear mulheres (a propósito, aproveito para reclamar contra a Axe, pois andei usando mas não resultou como prometido; publicidade enganosa), carros, roupas, até mesmo uma caneta porta a promessa de uma vida sexual mais intensa, e notem que digo intenso e não melhor. Se antes só os homens primavam pela quantidade, hoje as mulheres também (e não tenho nada contra, pois só tenho ganhado com isso), e os registos dessas conquistas são deixados na net, para todo o mundo ver. A pornografia tornou o sexo entediante, de maneira que muitas pessoas já não se satisfazem com uma relação normal a duas (também nada contra) e daí partem para bondages e sadomasoquismo, sendo estes os normais, os anormais vão pelo estupro, pedofilia, necrofilia entre outras filias perigosas. Não pretendo, no entanto, que essas taras são frutos da pornografização da comunicação social, ou da sua erotização (para ser mais brando) visto que a história e a literatura atestam a sua existência antes mesmo do aparecimento dos irmãos Lumière. E essa parte voyeurístico-exicibionista é retratado pelo jovem que filma todas as cenas.

Voltando para o filme, outra coisa que vemos é um dos violadores ser um bom pai, bom esposo e representante da lei. Extrapolando as comparações, o pior género de hipócrita que existe, os doentios representantes da moral e da censura, disfarçados de religiões, de governos e de outras formas de opressão, mas que longe de olhares são os verdadeiros símbolos da perversão. Ficando só no filme, quebra-se o estereótipo de que só os jovens solteiros e punheteiros, ou maridos bêbados e violentos constituem perigos sexuais.

Enfim, para não me esticar mais, o filme não é grande coisa, aliás, é um nada, continuo a preferir original, mas pelo menos o tema continua actual, e o seu componente voyeurístico dá-lhe uns pontos positivos.

28 de fevereiro de 2011

SANTUÁRIO, 2011 (Sanctum)

Não vou lamentar os euros, porque se fui ver Sanctum ao cinema não o fiz esperando maravilhas cinematográficas que não fossem simplesmente técnicas. 


Sim, fui pelo tratamento estereoscópico, afinal tinha James Cameron como produtor, e… que estereoscopia. Sanctum tem uma profundidade que eu nunca tinha visto, e isso em algumas cenas também revelou-se um problema, parecendo dizer que o realizador, o editor ou o chefe de efeitos especiais tinha de voltar para escola para estudar a geometria descritiva, porque como mexem muito com a perspectiva, perdem-se nela, os objectos ora ficando mais perto, ora mais longe, ora mais pequenos ora maiores. E tem uma cena em que o protagonista parecia medir uns quatro metros, apresentando uma deformidade proporcional que causaria um ataque de coração a Vitruvius.


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Tirando isso, a beleza técnica, Sanctum é uma porcaria, parece que o realizador era um grande fã de Sylvester Stallone, resolvendo por isso apanhar Assalto Infernal (Cliffhanger), Pânico no Túnel (Daylight) e um pedaço de O Lutador (Over The Top), meter numa batedeira, acrescentado um pouco de gelatina para dar um consistência sólida e tridimensional, e usar James Cameron como vaselina para escorregar melhor e empurrar-nos essa merda toda para dentro.

Lembro-me que o filme quis criar alguns momentos de piada, falharam todos, ou deve ter-se salvado um ou outro, pois posso jurar que ouvi alguns risos na sessão, porém creio que foram daquelas pessoas que temem parecer estúpidas por não reconhecerem uma piada inteligente. A sério, que piada tem dizer: a tua bunda é tão apertada que quando peidas só um cão ouve!, principalmente sem um contexto que o justifique; Ou: “isso é mais estreito que a cona de uma freira”, este pelo menos tinha contexto.

Não me senti assustado em nenhum momento do filme, nem sequer preocupado, O Abismo (The Abyss) é cem vezes melhor, e talvez um remake dele valesse mais a pena do que este empanturrado de clichés que é Sanctum. Queriam então homenagear a JC (James Cameron, não Jesus Cristo)?

E tem elementos que apenas nos leva a questionar: para que essa merda serviu? Por exemplo, um Xamã que andaram a mostrar para depois não usarem. Tchekov, o contista russo, disse: num conto, se aparecer uma espingarda, este tem de disparar antes do fim (ou algo como isso). Tradução: elementos desnecessários só diluem o essencial. Também devo dizer que tem cenas que realmente incomodam, como por exemplo uma luta submersa para o escafandro; outra? hum, não me lembro, talvez a última cena entre o pai e o filho, se não fosse previsível.

O ponto positivo de Sanctum é um bocado de suspense que consegue criar, pois, quem como eu, não sabia do que estava à espera, julga que a qualquer momento iria aparecer uma criatura qualquer (afinal não foi o pai d’O Abismo que produziu o filme?).

Sanctum queria ser uma história de sobrevivência, sei lá, um Cubo (alguém se lembra de Vincenzo Natali?), tendo as pessoas como o próprio perigo, mas é fraco demais para isso, e resolve ser uma consulta psiquiátrica de complexo de édipo, fechando com a seguinte lição: filhos, não importa a idade que tenham, escutem os pais, que eles sabem o que é melhor para vocês! Ganda merda, copiando Rick Gervais, digo: o filme tem mais dimensões que os personagens.

Sanctum não tem ponto nenhum, não quer mostrar nada (ou quer?), apenas distrair durante 100 minutos, e consegue, pois apesar de tudo ficamos à espera que alguma coisa aconteça e a sensação é bem boa quando os créditos finais aparecem, pois finalmente acaba a suspense. Não obstante, acho que há quem consiga divertir-se com Sanctum. O meu conselho: não comprem o DVD quando for lançado, pois o filme só vale mesmo pelo 3D.

27 de fevereiro de 2011

DEFENDOR, 2009 (Defendor)

Começando do fim, Defendor não é dos filmes: oh!, ganda filme!, mas dos: ohhhhh!, e não o ohhhhh! de desilusão, mas aquele de comoção, positiva, perceba-se.

Saiu Kick-Ass, saiu Defendor, por ambos terem “super”-heróis sem poder, não se pôde evitar comparações entre os dois, aliás, dizem que este segue a linha do primeiro; mas para mim, não há conclusão mais errónea, na medida em que Defendor e Kick-Ass são totalmente diferentes, além de que Defendor só demorou foi em chegar aos cinemas.

Kick-ass é uma comédia de acção, e Defendor é um drama cómico, e é esse o seu ponto fraco, pois não se decide nem por um nem por outro, o seu aspecto sombrio e meliante pediam que fosse mais drama, entretanto a peculiaridade do protagonista é por si cómico. Todavia, não é certo dizer que Defendor baseou-se no Kick-Ass tomando dele o herói sem poder e sem desenvolvidas capacidades físicas, porque já havia heróis assim muito antes no cinema (alguém se lembra de Blankman – e Other Guy –, embora este tivesse mais geringonças que Dados d’Os Goonies, ou de Zebraman?).

Largando isso e ficando no filme. Defendor é um super-herói caseiro, (não do tipo homem-aranha que costura o próprio uniforme, porém parecendo mais confeccionado por profissionais), que nem um uniforme colorido consegue arranjar, tendo mesmo que desenhar o seu símbolo, no peito, com fita-cola, e uma pintura na cara que lhe dá mais o aspecto do lémur de Madagáscar (no entanto, apresenta um bom look, remetendo ao Flash Jay Garrick em luto), e as suas armas são vespas, berlindes, e uma maça. Esse é o lado cómico, porque, na verdade, o filme é um hino à inocência, ou à ingenuidade (eu sei lá), uma apologia à honestidade e à certeza de fazer o bem, acreditando que uma pessoa pode mudar o mundo, se tiver a verdade e a justiça do seu lado. Eu bem gostava de acreditar nisso.


trailer


Se Defendor fosse representado no tempo dos gregos, seria uma espécie de tragicomédia; é Sansão e Dalila, sendo Sansão aqui careca, mas sem noção disso, e Dalila, apesar de prostituta não é bem traiçoeira. Um filme sobre a amizade, sobre os limites (só existem quando os aceitamos – consideração um tanto ingénua, em todo o caso), e sobre nós mesmo que não lutamos contra (contra o quê? não sei, a cada um o seu problema).

Um dos pontos fortes do filme acontece através de um locutor de rádio que recebe chamadas de ouvintes, através dele ouvimos como as pessoas se escondem dos problemas, ou arranjam bodes expiatórios para os existentes, ou do perigo que o sarcasmo tem para as pessoas quadradas. Vou citar o caso de um ouvinte que liga a reclamar que o locutor fica a falar sempre de armas, e que se ele não falasse tanto disso esse problema não iria existir. Esse é um dos problemas da nossa sociedade, julgam tapar o céu com a mão e não percebem que na verdade só tapam os próprios olhos.

Não sei se uma atitude a Defendor seria o ideal para curar os problemas da nossa sociedade, e não estou a falar de ataques físicos aos problemas, mas do acreditar da inocência e da honestidade, porque como diz uma linha do filme, embora como um ensinamento negativo: da próxima vez que entrar numa briga, leva uma arma!, pois a nossa sociedade não joga limpo e ser Defendor é entrar nu num ninho de vespas. De qualquer maneira, eu acredito em Defendor, embora também acredite que a maneira de lutar da maioria é levar flores ao cemitério para carpir quem tem a iniciativa.

Defendor é um bom filme, no seu primeiro minuto já nos fisga e estamos prontos para seguir a viagem, e o seu ponto mais é Woody Harrelson, a fazer o melhor papel que sabe fazer: o de desequilibrado (não que esteja a diminuir o homem, mas na verdade, em 90% dos filmes dele que vi é desequilibrado ou então incomum, e eu gosto dele). As situações, muitas vezes, apesar de caricatas, parecem genuínas. No entanto digo de novo, o mal do filme é não se decidir pela comédia ou pelo drama, levando-se a sério em determinadas alturas para se perder em burlesco noutros, mas mantendo-se sempre verosímil, apesar de certos lugares-comuns. 

22 de fevereiro de 2011

CRADLE OF FILTH - barulho organizado :)

Em 2008, andava à procura de músicas instrumentais quando ouvi uma intitulada Castlevania, e era tido como feita por Cradle of Filth. Só mais tarde, muito mais tarde, este ano, descobri que Castlevania não era uma música de Cradle of Filth, e, aliás, nem era mesmo Castllevania, mas Bloody Tears, de Naoto Shibata (que, de certeza, vai ganhar aqui um post), e que faz parte do videojogo Castlevania. Entretanto, gostara muito de Castlevania, por isso fora à procura de álbuns de Cradle of Filth.

Não sou fã de metal, e nem sei lidar com as suas imensas variações: heavy, trash, extreme, gothic, etc. Na minha classificação entram todos no domínio rock, reino hard, filo metal, e não vão além. E metal não é a minha primeira escolha musical ainda hoje, mas aprendi com os Cradle of Filth a apreciar o metal, pelo menos aqueles e que a música não é deliberadamente dissonante, revelando tons na maior parte das vezes cacofónicos, apreciados apenas por fãs extremos.

bloody tears

Metal não é apenas barulho, como pensava antes, e limpando aquela voz rouca da música (que para nós, comuns mortais, mais habituados a músicas normalmente cantadas, não é nada mais que animalismo sem piada) e concentrando-se apenas na execução instrumental, metal é boa música, e muito mais cuidada de que muitas músicas que usualmente ouvimos que não passam da mesma coisa repetida 48 vezes com uma variação que se repete 24 (isto é o hip-hop, outras ainda conseguem ser mais mínimas). O uso da percussão é o que também torna metal metal (julgo eu), apanha-se Eric Clapton ou Carlos Santana e adiciona-se-lhe kicks e drums sem fôlego, e tem-se metal (ok, não se trata apenas disso, mas é uma tentativa).

rise of the pentagram (thornography)


Voltando ao tema, Cradle of Filth fez-me começar a apreciar o metal, mais com Thornography (2006); o primeiro álbum que ouvi deles foi The Principle of Evil Made Flesh (1994), muito enérgico e pouco friendly para um neófito, no entanto deu-me vontade de ouvir mais, e foi assim que ouvi cinco álbuns, sendo The Midian (2000) o mais desconcertante deles, muito bem executado, mas que eu preferia que eles se limitassem a tocar e não cantassem (enfim, como na praticamente maior parte das músicas deles).

amor e morte (the midian)

Na última semana descobri que Cradle of Filth lançara um novo álbum no ano passado, e fui então ouvir, e para me actualizar e escrever isto, escutei três álbuns deles: The Principle... (1994), The Midian... (2000) e Darkly Darkly Venus Aversa (2010), este último muito enérgico, cheio daquela espécie de pressa de que as músicas metal parecem impregnadas, mas com muito ritmo e melodia mais afinada, pelo menos em relação a The Midian, que ouvi antes dele.

forgive me father (darkly darkly venus aversa)


Acertando as contas, não sei entre Darkly... e Thornography  qual prefiro mais, embora prefira o "ar" mais gótico do primeiro.

Como já tinha feito notar, metal não é dos meus géneros, mas eu gosto bastante de Cradle of Filth, embora não saiba identificá-lo rítmica e musicalmente, ou seja, se me puserem a tocar uma música metal qualquer e me disserem que são eles, vou acreditar. Mas, isso não interessa, Cradle of Filth faz boa música, e vale a pena ser ouvida, entretanto, se não fores fã mesmo, não comeces por The Midian.

bónus
of mist and midnight skies (the principle of evil made flesh)

2 de fevereiro de 2011

CAVALEIRO INEXISTENTE, O, Italo Calvino (1959) - nem só as sombras dançam


O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, é um livro simples, tão simples que pode ser lido a uma criança como um belo conto. E, ao mesmo tempo O Cavaleiro Inexistente é um livro complexo que poderia ser discutido numa aula de filosofia. 


A narrativa fez-me lembrar em certos momento de Zadig, de Voltaire, devido ao aparente desinteresse com que se mostram traçados. E também me lembra aquele conto de Andersen, A Sombra.

O Cavaleiro Inexistente, fim da trilogia Os Nossos Antepassados (composta por O Visconde Cortado ao Meio – que ainda não li – e O Barão Trepador – também curioso), apresenta Carlos Magno numa das suas campanhas impráticas - o que percebemos posteriormente através de uma batalha com uma decorrência sem lugar e sem sentido -, rodeado de personagens tão reais como fantásticos, numa alegoria fabulosa e bem divertida, podendo situar-se entre a política, a religião, o dia-a-dia e o comum, e pode, de igual modo, abarcá-los a todos.

Carlos Magno não é o foco do livro, mas uns tantos personagens caricatos: um cavaleiro que não existe, mas que não estranha a ninguém, pois está ali e não precisa de existir para que o conheçam; um escudeiro que não sabe se existe, que julga que é tudo o que vê, menos ele próprio; uma mulher que não quer mais nenhum homem, apenas o cavaleiro que não existe, e que para isso entra em guerras sangrentas e batalha até melhor que muitos homens; um ingénuo que quer vingar a morte do pai e se apaixona pela nossa mulher perdida; e um sensato, o único que consegue contestar a (in)existência do cavaleiro… Ah, ainda temos uma freira aborrecida, que nos conta essa história, dizendo ser a sua penitência, e não uma vontade de alcançar a glória dos cronistas, incarnando assim também a pena de um escritor e as suas penas. Enfim, estas seis personagens conseguem resumir o absurdo das nossas buscas e da forma como temos confundido as nossas certezas.

Eu podia estabelecer várias comparações entre O Cavaleiro Inexistente e a nossa existência, mas não o faço, só recomendo o livro, com garantia de que é uma bela leitura, senão pela sua profundidade, pela sua simplicidade. Vou transcrever duas passagens:

[...]Assim, desde sempre, o jovem corre para a mulher: mas é bem o amor que ela lhe inspira? Ou não é antes o amor por ele próprio, a busca de uma certeza de existir que só a mulher lhe pode dar? Corre e enamora-se o jovem, duvidando de si mesmo, feliz e desesperado; para ele a mulher é esta presença incontestável, e só ela pode dar-lhe a prova desejada. Mas também a mulher está e não está ali: ei-la, assim como ele, ansiosa e insegura. Como é que o jovem não se apercebe disso? Que importa qual entre os dois é o mais forte ou o mais fraco? Estão à mesma altura. Mas o jovem não sabe porque não quer saber: o que ele deseja, avidamente, é a mulher que existe, a mulher indubitável. Ela ao contrário sabe mais coisas; ou menos; de qualquer forma sabe outras coisas.[...]

[...]Começa-se a escrever com todo o ânimo, mas chega a uma altura em que a pena não risca mais que uma gota poeirenta e não escorre nem uma de vida. E a vida está toda lá fora, para além da janela, longe de ti, e parece que nunca mais poderás refugiar-te na página que escreveste, abrir um outro mundo e lançar-te nele. Talvez seja melhor assim; talvez, quando escrevia com alegria, não fosse milagre nem graça, mas pecado, idolatria, soberba. Então, estou fora? Não, escrevendo não me tornei melhor, apenas dissipei um pouca, a ansiosa e inconsciente juventude. Que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o voto, não valerão mais do que tu? Nunca disse que escrevendo se salva a alma. Escreve, escreve, e a tua alma já está perdida. [...]

Enfim, excedi-me, mas resumindo, o livro é um espectáculo literário e é atemporal... quem nunca o leu deve fazê-lo, que terá bem usado o seu tempo.