8 de março de 2011

A VINGANÇA DE JENNIFER, 2010 (I Spit on Your Grave unrated)

Tem remakes que valem a pena ser feitos, quando há uma actualização do tema e perspectivas novas de exploração, mas a maioria dá aquela vontade de sair para a rua levantar os dois braços para o ceú, imaginando uma câmara em picado perfeito a afastar-se, e gritar: “por quê?”. Bem, este filme não é o caso, não porque sirva para alguma coisa, mas porque não se destruiu um bom filme neste remake.

I Spit on Your Grave (expressão que significa desrespeito absoluto, tendo em conta que quando mortos somos temporariamente boas pessoas), ganhou título em português, A Vingança de Jennifer, talvez por ausência de uma expressão equivalente na língua lusa, porém eu sugeria alternativas como Cago no Teu Cadáver, o que duvido que a censura deixaria passar. Bem, voltando ao tema.

Eu era muito jovem, na verdade, uma criança, quando vi o original pela primeira vez, deixou-me tremendamente chocado. Porém, há uns anos voltei a ver o filme… bem, o choque não foi assim tanto, talvez porque faltou-me a paciência para o filme, daí que o vi em velocidade 2x. O filme resume-se em duas palavras: sexploitation e snuff, e testa-nos os nervos durante a visualização. O que me arranca esta pergunta: por que raio as pessoas têm prazer em ver outras a serem violentadas?

I Spit on Your Grave (1978) é um bom filme no seu género, porque consegue o que quer: incomodar, mas não é um bom filme, cinematograficamente falando, pois tirando a violentada, mais ninguém convence, e talvez a violentada só convença porque criamos por ela empatia (ou pela sua personagem).

Mas, este post não era para falar do filme original, mas do remake. Tem um jogo que eu costumo fazer no imdb, que é, por exemplo, partir do nome de Van Damme e chegar a Matthew Broderick, sem ter que digitar nada, e em menos passos possíveis. E é assim: Van Damme contracenou com Dolph Lundgren (Máquinas de Guerra), este com Bruce Willis (Os Mercenários), e este com Tom Hanks (A Fogueira das Vaidades), e este com Denzel Washington (Filadélfia), e este com Matthew Broderick (Tempo de Glória). Pois, bem, eu estava a jogar este jogo (já não me lembro o que queria ligar) e fui parar ao I Spit on Your Grave: Unrated, a princípio nem percebi que o cartaz era diferente, o que mais me chamou a atenção foi o unrated, pois o o outro era day of the woman e foi assim que percebi que se tratava de um remake. Bem, despertou-me a curiosidade, afinal se até mesmo Piranhas ganhou remake, porque não este, vamos lá ver se a ousadia de hoje supera a dos anos 70.


trailer

Deixem-me dizer, deviam deixar o cultuado I Spit On Your Grave (1978) onde estava, porque este remake não só não traz nada de novo (tirando transformar a protagonista numa aprendiz de Jigsaw, o que se vê mesmo pelo cartaz do filme que respira a Saw), como os actores parecem bem pior ou tão maus como os primeiros (não posso precisar nada, porque vi o outro filme há uma coisa de três anos já).

Entretanto, o que se pode aprender com este filme:

1. Que as cidades do interior não são boas para as férias, porque a ausência de acção cria mandriões violentos.

2..       Que as mulheres não devem passar as férias sozinhas e que devem sempre ser acompanhadas do parceiro para não serem violentadas (e que o realizador não viu Eles, de Moreau).

3.       Que as mulheres não devem vestir roupas curtas diante de homens desconhecidos, principalmente quando estão isoladas com eles.


4.       Pá, não me lembro de um quarto.

No geral, despindo aquela violência gráfica toda (ah, nesse aspecto este remake mantém-se aquém do original), o tema é muito importante. Temos dois pontos fortes e actuais no filme: o voyeurismo e a objectificação sexual.


Com a Internet, o cinema e todos os meios áudio-visuais, sem falar das revistas e outdoors, a sociedade foi ficando cada vez mais sexualizada, e não estou a falar do aspecto psico-científico da palavra, mas sim do hedonismo. Por exemplo, os perfumes são vendidos com promessa de granjear mulheres (a propósito, aproveito para reclamar contra a Axe, pois andei usando mas não resultou como prometido; publicidade enganosa), carros, roupas, até mesmo uma caneta porta a promessa de uma vida sexual mais intensa, e notem que digo intenso e não melhor. Se antes só os homens primavam pela quantidade, hoje as mulheres também (e não tenho nada contra, pois só tenho ganhado com isso), e os registos dessas conquistas são deixados na net, para todo o mundo ver. A pornografia tornou o sexo entediante, de maneira que muitas pessoas já não se satisfazem com uma relação normal a duas (também nada contra) e daí partem para bondages e sadomasoquismo, sendo estes os normais, os anormais vão pelo estupro, pedofilia, necrofilia entre outras filias perigosas. Não pretendo, no entanto, que essas taras são frutos da pornografização da comunicação social, ou da sua erotização (para ser mais brando) visto que a história e a literatura atestam a sua existência antes mesmo do aparecimento dos irmãos Lumière. E essa parte voyeurístico-exicibionista é retratado pelo jovem que filma todas as cenas.

Voltando para o filme, outra coisa que vemos é um dos violadores ser um bom pai, bom esposo e representante da lei. Extrapolando as comparações, o pior género de hipócrita que existe, os doentios representantes da moral e da censura, disfarçados de religiões, de governos e de outras formas de opressão, mas que longe de olhares são os verdadeiros símbolos da perversão. Ficando só no filme, quebra-se o estereótipo de que só os jovens solteiros e punheteiros, ou maridos bêbados e violentos constituem perigos sexuais.

Enfim, para não me esticar mais, o filme não é grande coisa, aliás, é um nada, continuo a preferir original, mas pelo menos o tema continua actual, e o seu componente voyeurístico dá-lhe uns pontos positivos.

28 de fevereiro de 2011

SANTUÁRIO, 2011 (Sanctum)

Não vou lamentar os euros, porque se fui ver Sanctum ao cinema não o fiz esperando maravilhas cinematográficas que não fossem simplesmente técnicas. 


Sim, fui pelo tratamento estereoscópico, afinal tinha James Cameron como produtor, e… que estereoscopia. Sanctum tem uma profundidade que eu nunca tinha visto, e isso em algumas cenas também revelou-se um problema, parecendo dizer que o realizador, o editor ou o chefe de efeitos especiais tinha de voltar para escola para estudar a geometria descritiva, porque como mexem muito com a perspectiva, perdem-se nela, os objectos ora ficando mais perto, ora mais longe, ora mais pequenos ora maiores. E tem uma cena em que o protagonista parecia medir uns quatro metros, apresentando uma deformidade proporcional que causaria um ataque de coração a Vitruvius.


trailer

Tirando isso, a beleza técnica, Sanctum é uma porcaria, parece que o realizador era um grande fã de Sylvester Stallone, resolvendo por isso apanhar Assalto Infernal (Cliffhanger), Pânico no Túnel (Daylight) e um pedaço de O Lutador (Over The Top), meter numa batedeira, acrescentado um pouco de gelatina para dar um consistência sólida e tridimensional, e usar James Cameron como vaselina para escorregar melhor e empurrar-nos essa merda toda para dentro.

Lembro-me que o filme quis criar alguns momentos de piada, falharam todos, ou deve ter-se salvado um ou outro, pois posso jurar que ouvi alguns risos na sessão, porém creio que foram daquelas pessoas que temem parecer estúpidas por não reconhecerem uma piada inteligente. A sério, que piada tem dizer: a tua bunda é tão apertada que quando peidas só um cão ouve!, principalmente sem um contexto que o justifique; Ou: “isso é mais estreito que a cona de uma freira”, este pelo menos tinha contexto.

Não me senti assustado em nenhum momento do filme, nem sequer preocupado, O Abismo (The Abyss) é cem vezes melhor, e talvez um remake dele valesse mais a pena do que este empanturrado de clichés que é Sanctum. Queriam então homenagear a JC (James Cameron, não Jesus Cristo)?

E tem elementos que apenas nos leva a questionar: para que essa merda serviu? Por exemplo, um Xamã que andaram a mostrar para depois não usarem. Tchekov, o contista russo, disse: num conto, se aparecer uma espingarda, este tem de disparar antes do fim (ou algo como isso). Tradução: elementos desnecessários só diluem o essencial. Também devo dizer que tem cenas que realmente incomodam, como por exemplo uma luta submersa para o escafandro; outra? hum, não me lembro, talvez a última cena entre o pai e o filho, se não fosse previsível.

O ponto positivo de Sanctum é um bocado de suspense que consegue criar, pois, quem como eu, não sabia do que estava à espera, julga que a qualquer momento iria aparecer uma criatura qualquer (afinal não foi o pai d’O Abismo que produziu o filme?).

Sanctum queria ser uma história de sobrevivência, sei lá, um Cubo (alguém se lembra de Vincenzo Natali?), tendo as pessoas como o próprio perigo, mas é fraco demais para isso, e resolve ser uma consulta psiquiátrica de complexo de édipo, fechando com a seguinte lição: filhos, não importa a idade que tenham, escutem os pais, que eles sabem o que é melhor para vocês! Ganda merda, copiando Rick Gervais, digo: o filme tem mais dimensões que os personagens.

Sanctum não tem ponto nenhum, não quer mostrar nada (ou quer?), apenas distrair durante 100 minutos, e consegue, pois apesar de tudo ficamos à espera que alguma coisa aconteça e a sensação é bem boa quando os créditos finais aparecem, pois finalmente acaba a suspense. Não obstante, acho que há quem consiga divertir-se com Sanctum. O meu conselho: não comprem o DVD quando for lançado, pois o filme só vale mesmo pelo 3D.

27 de fevereiro de 2011

DEFENDOR, 2009 (Defendor)

Começando do fim, Defendor não é dos filmes: oh!, ganda filme!, mas dos: ohhhhh!, e não o ohhhhh! de desilusão, mas aquele de comoção, positiva, perceba-se.

Saiu Kick-Ass, saiu Defendor, por ambos terem “super”-heróis sem poder, não se pôde evitar comparações entre os dois, aliás, dizem que este segue a linha do primeiro; mas para mim, não há conclusão mais errónea, na medida em que Defendor e Kick-Ass são totalmente diferentes, além de que Defendor só demorou foi em chegar aos cinemas.

Kick-ass é uma comédia de acção, e Defendor é um drama cómico, e é esse o seu ponto fraco, pois não se decide nem por um nem por outro, o seu aspecto sombrio e meliante pediam que fosse mais drama, entretanto a peculiaridade do protagonista é por si cómico. Todavia, não é certo dizer que Defendor baseou-se no Kick-Ass tomando dele o herói sem poder e sem desenvolvidas capacidades físicas, porque já havia heróis assim muito antes no cinema (alguém se lembra de Blankman – e Other Guy –, embora este tivesse mais geringonças que Dados d’Os Goonies, ou de Zebraman?).

Largando isso e ficando no filme. Defendor é um super-herói caseiro, (não do tipo homem-aranha que costura o próprio uniforme, porém parecendo mais confeccionado por profissionais), que nem um uniforme colorido consegue arranjar, tendo mesmo que desenhar o seu símbolo, no peito, com fita-cola, e uma pintura na cara que lhe dá mais o aspecto do lémur de Madagáscar (no entanto, apresenta um bom look, remetendo ao Flash Jay Garrick em luto), e as suas armas são vespas, berlindes, e uma maça. Esse é o lado cómico, porque, na verdade, o filme é um hino à inocência, ou à ingenuidade (eu sei lá), uma apologia à honestidade e à certeza de fazer o bem, acreditando que uma pessoa pode mudar o mundo, se tiver a verdade e a justiça do seu lado. Eu bem gostava de acreditar nisso.


trailer


Se Defendor fosse representado no tempo dos gregos, seria uma espécie de tragicomédia; é Sansão e Dalila, sendo Sansão aqui careca, mas sem noção disso, e Dalila, apesar de prostituta não é bem traiçoeira. Um filme sobre a amizade, sobre os limites (só existem quando os aceitamos – consideração um tanto ingénua, em todo o caso), e sobre nós mesmo que não lutamos contra (contra o quê? não sei, a cada um o seu problema).

Um dos pontos fortes do filme acontece através de um locutor de rádio que recebe chamadas de ouvintes, através dele ouvimos como as pessoas se escondem dos problemas, ou arranjam bodes expiatórios para os existentes, ou do perigo que o sarcasmo tem para as pessoas quadradas. Vou citar o caso de um ouvinte que liga a reclamar que o locutor fica a falar sempre de armas, e que se ele não falasse tanto disso esse problema não iria existir. Esse é um dos problemas da nossa sociedade, julgam tapar o céu com a mão e não percebem que na verdade só tapam os próprios olhos.

Não sei se uma atitude a Defendor seria o ideal para curar os problemas da nossa sociedade, e não estou a falar de ataques físicos aos problemas, mas do acreditar da inocência e da honestidade, porque como diz uma linha do filme, embora como um ensinamento negativo: da próxima vez que entrar numa briga, leva uma arma!, pois a nossa sociedade não joga limpo e ser Defendor é entrar nu num ninho de vespas. De qualquer maneira, eu acredito em Defendor, embora também acredite que a maneira de lutar da maioria é levar flores ao cemitério para carpir quem tem a iniciativa.

Defendor é um bom filme, no seu primeiro minuto já nos fisga e estamos prontos para seguir a viagem, e o seu ponto mais é Woody Harrelson, a fazer o melhor papel que sabe fazer: o de desequilibrado (não que esteja a diminuir o homem, mas na verdade, em 90% dos filmes dele que vi é desequilibrado ou então incomum, e eu gosto dele). As situações, muitas vezes, apesar de caricatas, parecem genuínas. No entanto digo de novo, o mal do filme é não se decidir pela comédia ou pelo drama, levando-se a sério em determinadas alturas para se perder em burlesco noutros, mas mantendo-se sempre verosímil, apesar de certos lugares-comuns. 

22 de fevereiro de 2011

CRADLE OF FILTH - barulho organizado :)

Em 2008, andava à procura de músicas instrumentais quando ouvi uma intitulada Castlevania, e era tido como feita por Cradle of Filth. Só mais tarde, muito mais tarde, este ano, descobri que Castlevania não era uma música de Cradle of Filth, e, aliás, nem era mesmo Castllevania, mas Bloody Tears, de Naoto Shibata (que, de certeza, vai ganhar aqui um post), e que faz parte do videojogo Castlevania. Entretanto, gostara muito de Castlevania, por isso fora à procura de álbuns de Cradle of Filth.

Não sou fã de metal, e nem sei lidar com as suas imensas variações: heavy, trash, extreme, gothic, etc. Na minha classificação entram todos no domínio rock, reino hard, filo metal, e não vão além. E metal não é a minha primeira escolha musical ainda hoje, mas aprendi com os Cradle of Filth a apreciar o metal, pelo menos aqueles e que a música não é deliberadamente dissonante, revelando tons na maior parte das vezes cacofónicos, apreciados apenas por fãs extremos.

bloody tears

Metal não é apenas barulho, como pensava antes, e limpando aquela voz rouca da música (que para nós, comuns mortais, mais habituados a músicas normalmente cantadas, não é nada mais que animalismo sem piada) e concentrando-se apenas na execução instrumental, metal é boa música, e muito mais cuidada de que muitas músicas que usualmente ouvimos que não passam da mesma coisa repetida 48 vezes com uma variação que se repete 24 (isto é o hip-hop, outras ainda conseguem ser mais mínimas). O uso da percussão é o que também torna metal metal (julgo eu), apanha-se Eric Clapton ou Carlos Santana e adiciona-se-lhe kicks e drums sem fôlego, e tem-se metal (ok, não se trata apenas disso, mas é uma tentativa).

rise of the pentagram (thornography)


Voltando ao tema, Cradle of Filth fez-me começar a apreciar o metal, mais com Thornography (2006); o primeiro álbum que ouvi deles foi The Principle of Evil Made Flesh (1994), muito enérgico e pouco friendly para um neófito, no entanto deu-me vontade de ouvir mais, e foi assim que ouvi cinco álbuns, sendo The Midian (2000) o mais desconcertante deles, muito bem executado, mas que eu preferia que eles se limitassem a tocar e não cantassem (enfim, como na praticamente maior parte das músicas deles).

amor e morte (the midian)

Na última semana descobri que Cradle of Filth lançara um novo álbum no ano passado, e fui então ouvir, e para me actualizar e escrever isto, escutei três álbuns deles: The Principle... (1994), The Midian... (2000) e Darkly Darkly Venus Aversa (2010), este último muito enérgico, cheio daquela espécie de pressa de que as músicas metal parecem impregnadas, mas com muito ritmo e melodia mais afinada, pelo menos em relação a The Midian, que ouvi antes dele.

forgive me father (darkly darkly venus aversa)


Acertando as contas, não sei entre Darkly... e Thornography  qual prefiro mais, embora prefira o "ar" mais gótico do primeiro.

Como já tinha feito notar, metal não é dos meus géneros, mas eu gosto bastante de Cradle of Filth, embora não saiba identificá-lo rítmica e musicalmente, ou seja, se me puserem a tocar uma música metal qualquer e me disserem que são eles, vou acreditar. Mas, isso não interessa, Cradle of Filth faz boa música, e vale a pena ser ouvida, entretanto, se não fores fã mesmo, não comeces por The Midian.

bónus
of mist and midnight skies (the principle of evil made flesh)

2 de fevereiro de 2011

CAVALEIRO INEXISTENTE, O, Italo Calvino (1959) - nem só as sombras dançam


O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, é um livro simples, tão simples que pode ser lido a uma criança como um belo conto. E, ao mesmo tempo O Cavaleiro Inexistente é um livro complexo que poderia ser discutido numa aula de filosofia. 


A narrativa fez-me lembrar em certos momento de Zadig, de Voltaire, devido ao aparente desinteresse com que se mostram traçados. E também me lembra aquele conto de Andersen, A Sombra.

O Cavaleiro Inexistente, fim da trilogia Os Nossos Antepassados (composta por O Visconde Cortado ao Meio – que ainda não li – e O Barão Trepador – também curioso), apresenta Carlos Magno numa das suas campanhas impráticas - o que percebemos posteriormente através de uma batalha com uma decorrência sem lugar e sem sentido -, rodeado de personagens tão reais como fantásticos, numa alegoria fabulosa e bem divertida, podendo situar-se entre a política, a religião, o dia-a-dia e o comum, e pode, de igual modo, abarcá-los a todos.

Carlos Magno não é o foco do livro, mas uns tantos personagens caricatos: um cavaleiro que não existe, mas que não estranha a ninguém, pois está ali e não precisa de existir para que o conheçam; um escudeiro que não sabe se existe, que julga que é tudo o que vê, menos ele próprio; uma mulher que não quer mais nenhum homem, apenas o cavaleiro que não existe, e que para isso entra em guerras sangrentas e batalha até melhor que muitos homens; um ingénuo que quer vingar a morte do pai e se apaixona pela nossa mulher perdida; e um sensato, o único que consegue contestar a (in)existência do cavaleiro… Ah, ainda temos uma freira aborrecida, que nos conta essa história, dizendo ser a sua penitência, e não uma vontade de alcançar a glória dos cronistas, incarnando assim também a pena de um escritor e as suas penas. Enfim, estas seis personagens conseguem resumir o absurdo das nossas buscas e da forma como temos confundido as nossas certezas.

Eu podia estabelecer várias comparações entre O Cavaleiro Inexistente e a nossa existência, mas não o faço, só recomendo o livro, com garantia de que é uma bela leitura, senão pela sua profundidade, pela sua simplicidade. Vou transcrever duas passagens:

[...]Assim, desde sempre, o jovem corre para a mulher: mas é bem o amor que ela lhe inspira? Ou não é antes o amor por ele próprio, a busca de uma certeza de existir que só a mulher lhe pode dar? Corre e enamora-se o jovem, duvidando de si mesmo, feliz e desesperado; para ele a mulher é esta presença incontestável, e só ela pode dar-lhe a prova desejada. Mas também a mulher está e não está ali: ei-la, assim como ele, ansiosa e insegura. Como é que o jovem não se apercebe disso? Que importa qual entre os dois é o mais forte ou o mais fraco? Estão à mesma altura. Mas o jovem não sabe porque não quer saber: o que ele deseja, avidamente, é a mulher que existe, a mulher indubitável. Ela ao contrário sabe mais coisas; ou menos; de qualquer forma sabe outras coisas.[...]

[...]Começa-se a escrever com todo o ânimo, mas chega a uma altura em que a pena não risca mais que uma gota poeirenta e não escorre nem uma de vida. E a vida está toda lá fora, para além da janela, longe de ti, e parece que nunca mais poderás refugiar-te na página que escreveste, abrir um outro mundo e lançar-te nele. Talvez seja melhor assim; talvez, quando escrevia com alegria, não fosse milagre nem graça, mas pecado, idolatria, soberba. Então, estou fora? Não, escrevendo não me tornei melhor, apenas dissipei um pouca, a ansiosa e inconsciente juventude. Que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o voto, não valerão mais do que tu? Nunca disse que escrevendo se salva a alma. Escreve, escreve, e a tua alma já está perdida. [...]

Enfim, excedi-me, mas resumindo, o livro é um espectáculo literário e é atemporal... quem nunca o leu deve fazê-lo, que terá bem usado o seu tempo.

30 de janeiro de 2011

YAEL NAIM - voz e talento, aliança brutal


Yael Naim é tão fixe que o nome dela escreve-se com tremas (Yaël Naïm), mas eu tenho hábito de escrever o nome das pessoas sem tremas e sem acentos que não sejam os convencionais do português, pois pra mim não tem mal.

Conheci Yael através de Sandra Nkaké (que inevitavelmente vai ganhar o seu post aqui). Estava à procura de trabalhos de Sandra, quando fui parar a uma colectânea lounge feita por um tipo com muito bom gosto, e foi ali que ouvi Paris, de Yael Naim, levando-me logo a seguir a procurar mais trabalhos dela.

Yael Naim é francesa, apesar de cantar também em inglês e em iídiche (suponho), ou pelo menos nasceu na França (como diz a wikipedia), mudando-se depois para Israel, terra dos pais. Mas isso não importa coisa alguma, e se o referi talvez seja por haver uma mão cheia de cantoras judias, ou de origem judia, que me têm maravilhado ultimamente.

Em 2009, ouvi Yael Naim por uma semana, vezes e vezes, sem conseguir parar (costumo fazer isso com músicas e artistas para criar o desapego), embora não saiba identificar todas as músicas delas e nem mesmo aquela melodiosa voz dela que dá vontade de fazer poesia, houve um tempo que me viciei nela.

Há uns dias baixei o último álbum de Naim, e felizmente tinha o dia livre, pelo que quando tocou da primeira vez, fui baixar os restantes álbuns e pude deixar tocar por horas, apreciando e reapreciando.

Ouvi os três álbuns de Naim, e pelo registo que vi na wikipedia, são os únicos trabalhos dela, pelo menos, como individual (bem, o último foi gravado em parceria com David Donatien, nome que me despertou a atenção).

O primeiro álbum de Yael Naim, In a Man’s Womb (2001), diz muito sobre a autora, a vida que deixa ser sentida nas suas músicas, o seu estilo musical que, na verdade não sei caracterizar, ora vulgar, ora lounge, ora pop estranho, ora smooth jazz, ora único (eu não sou bom com géneros musicais), adiciona variedade à variedade do seu género principal que, suponho, está muito enraizado no jazz. Mas, apesar de encantar, não maravilha (bem, esse parecer é suspeito porque eu a conheci pelo segundo álbum).

sharvulim (in a man's womb)

Yael Naim (2007), álbum homónimo e o segundo, é… bom, é guloseima na festa de guloso. Se no anterior já se via a graciosidade artística de Naim, neste ela acelerou mais. Melodias variadas, ora simples, daquelas que se instalam logo no cérebro, ora mais compostas, precisando de alguma atenção para serem admiradas. 

paris (yael naim)

Neste terceiro, She Was a Boy (2010) não sei se era justo falar apenas dela, visto que o álbum é uma cooperação, embora em praticamente todas as músicas só se ouve a voz dela, mas não importa, se com o segundo álbum havia alguém que ainda não estava convencido com Yael Naim como artista, aqui essa dúvida desvanece. She Was a Boy é brutal, mais variado que os anteriores, um bocado mais friendly também, porém mantendo a peculiaridade da artista, rítmico, musical como só o jazz e variantes conseguem ser (pelo menos para mim).

go to the river (she was a boy)

E não consigo evitar de destacar a música que deu o nome ao álbum, que me encantou em todos os sentidos, tanto pela letra, pela história evocada, como pelo ritmo, lembro-me que a primeira vez que a ouvi, fi-lo com a respiração suspensa, tão deliciosa é.

bónus
she was a boy (she was a boy) 

Não digo mais, experimentem Yael Naim.


23 de janeiro de 2011

ANGELIQUE KIDJO - uma música de peso


Quando mais novo, costumava ver na televisão um clip de Angelique Kidjo, Wé-Wé, chamava-se a música. Gostava da música, por causa do ritmo meio rap que tinha e porque ela engraçada a dançar, eu devia ter uns 12 ou 13 anos na altura. Angelique era tão marcante que pusemos o seu nome àquele corte de cabelo característico dela e aqueles passos a MC Hammer que ela fazia no vídeo (ou seja, nem só eu gostava). 

wé-wé (logozo)

o meu sobrinho de 3 anos adora esta música, quando está a chorar mal a ponho a tocar ele se cala

Angelique tem uma voz e tanto, e que ela consegue moldar conforme lhe dá na telha.

Escutei quatro álbuns dela recentemente para escrever isto: Ayé (1994), Black Ivory Soul (2002), Djin Djin (2007) e Oyo (2010), e todos os quatro são totalmente diferentes (compreendendo o totalmente diferente de um artista, pois todos têm os seus vícios sonoros que vão repetindo ao longo da maior parte das suas músicas  - se até o grande Bach vive de variaçoes do mesmo, em repetitivos acordes e estrutura).

Angelique tem um ritmo cativante, uma sonoridade alegre e contagiante. E se me perguntarem de qual álbum dela gostei mais, na verdade não saberei dizer, porque as minhas músicas preferidas espalham-se pelos diferentes álbuns dela, porém acho o Djin Djin o mais cativante de todos, porque não houve nenhuma música nele que eu não gostasse, e o Black Ivory Soul mais extravagante em termos de experimentação alternativa.


move on up, ft John Legend e Bono (Oyo)

Para quem nunca ouviu, dá uma chance… e se calhar para aprender a gostar dela deve começar pelo sons que ela trabalhou com nomes de peso. Por exemplo, experimentem esta pérola com Carlos Santana a fazer magia como sempre.


bónus
Adouma (versão original, álbum Ayé)