19 de agosto de 2010

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. VIII

ESTÁ O MUNDO DOENTE OU É O MUNDO DOENTE?


Heal the world/ make a better place/ for you and for me/ and for entire human race…

Foi assim que Michael Jackson o disse. Outros também o disseram, ainda vai haver quem o diga. Infelizmente parecem todos eles aspirantes a médico, sabem que existe uma doença, se calhar até sabem qual é ela, e ainda sabem que o doente deve tratar-se, mas não sabem receitar o remédio.

Qualquer médico que se preze identifica primeiro os sintomas, define o tipo e isola as causas, e só dessa forma consegue receitar o antídoto correcto. Por isso para curar o mundo temos de saber qual é a causa.

O desequilíbrio existente no mundo humano é originado pela emoção ou pela razão? 

A resposta, é claro, a solução não vai apresentar para do mundo a cura. Não, seria positiva e sugestiva, porém não resolveria quase nada, porque a pergunta é para isolar o tipo e só assim poder criar a cura. 

Michael Jackson disse que a cura estaria no amor. O que talvez significasse que o problema está no lado racional, considerando que o amor é emoção pura (mas já vamos ver o amor). Porém, eu fui iludido pelo "Heal the World", com ajuda de um dicionário traduzi a letra toda para português para compreender o que queria a música dizer, tinha doze anos. Acreditei que as crianças podiam mudar o mundo se oferecessem flores aos soldados, mas quando comecei a ver crianças famintas a morrerem de fome na televisão por causa da guerra, percebi o quanto Michael me enganou. 

E não só ele, a própria Nações Unidas que também vende a mesma fórmula; manda soldados bem alimentados, a circular com materiais bélicos de elevado investimento monetário, para patrulhar campos de refugiados onde as pessoas caem de fome; um quadro pintado de antíteses. Preferia que não mandasse para lá soldados? Claro que não. Que mandasse soldados famintos? Também não. Que os soldados fossem sem armas? Ora, não! Então estou a criticar mesmo o quê? Provavelmente a quantidade de dinheiro que se gasta em acções de remediar, em vez de investi-la proactivamente. Parece um negócio a miséria humana. Nós recebemos como ajuda alimentar géneros estragados, tínhamos que secar as múmias dos peixes que enviaram e defumá-las para só assim poderem ser cozinhadas. Então o mundo seria um melhor lugar sem a Nações Unidas? Não sei dizer, nunca conheci o mundo sem ela, mas acho que o mundo seria isto que temos com ou sem ela.


[Era o ano 1999, tínhamos acabado de sair de uma guerra civil. A Nações Unidas distribuíra géneros alimentar aos refugiados e à população em zona de guerra também. Na altura, revoltava-me a porcaria que nos impingiram, principalmente porque via notícia sobre pessoas que doavam milhões para ajudas do tipo, pelo que sentia que pelo menos deviam mandar alimentos que prestassem e não daqueles que tinhas de escolher entre apanhar diarreia depois da sua ingestão ou ficar com fome. No entanto, admirava, e ainda admiro, os voluntários que deixam a paz da sua terra para irem para uma terra em guerra prestar serviços altruístas.]

Dito isto, põe-se a questão: o mundo é doente ou o mundo está doente?

Lendo a Bíblia, o mundo estava doente. Lendo Homero, o mundo estava doente. Lendo quem leu Tito Lívio, o mundo estava doente. Lendo Erasmus, o mundo estava doente. Lendo Voltaire, o mundo estava doente. Lendo Alexandre Dumas, o mundo estava doente. Lendo Hans Hellmut Kirst, o mundo estava doente. Lendo Calvino, o mundo está doente. Lendo Ray Bradburry, o mundo estará doente. Isso não quer dizer que o mundo não está mas é doente?

E a culpa é da emoção ou da razão? Se o homem se resumisse à Razão, como defendiam os iluministas, talvez tudo andasse nos eixos; e talvez se o homem não tivesse a razão, (acreditando que a razão cria motivos, vontades e propósitos) e fosse apenas emoção, cantada pelos românticos, as coisas estivessem bem. Porém, há quem defende que assim não haveria balanço. Mas, na verdade, parece-me que os problemas nascem do facto de o homem ser racional e emocional ao mesmo tempo. Nenhuma das duas é a doença do mundo, mas combinadas são. E cada uma é a cura da outra, se todo o mundo optasse por escolher apenas uma.

Mas então, se nos dessem a escolher, qual seria a mais certa escolha? E sem poder de escolha, e com o mundo doente, como vamos escapar?

6 de agosto de 2010

CASAL GAY PODE ADOPTAR?

Lá poder, pode. Mas será que o vão deixar fazê-lo?

Há uns tempos estive a discutir com uns colegas acerca do casamento gay. Eu era a favor, e um deles: claro que és, quando algo não é normal, nem usual, és sempre a favor. Essa mesma pessoa pediu-me para imaginar um casal de gay-homo a criar um filho e perguntou-me: não achas que esse seria gay? Bem, não soube responder, a única resposta que consegui dar foi outra pergunta, para desviar a questão: Não sei. Se os casais heterossexuais criam filhos gays, por que razão não pode acontecer o contrário? 

Eu acreditava que o casal gay mais certo era criar filhos gays, por essa razão não pude defender a minha posição sobre o casamento gay (sou a favor), porque, achei, tinha de repensar o assunto, porque se o casamento é para formar família e a família tradicional é constituída por pais e filhos, negar a adopção aos gays é o mesmo que dizer não vale a pena que casem, pois os que quiserem ter filhos não poderão fazê-lo. E eu era contra deixar as pessoas criarem gays deliberadamente, o que queria dizer que não era tão despreconceituoso quanto defendia.

(Nota: não disse pai, mãe e filhos, pois, tirando a família divina: Deus Cristo e Jesus Cristo - supondo que os filhos tomam o apelido dos pais, provavelmente Deus é Cristo - que são ambos pais da humanidade, o primeiro casal gay, se fizessem sexo - e incestuosos ainda por cima -, a família tradicional é começada por pessoas de sexo oposto).

Pois bem, na dúvida, retractei sobre o meu voto ao casamento gay e preferi pensar.

E pensando, posteriormente, cheguei à pergunta: quem ou o que foi que legitimou o mundo humano como heterossexual?

Não acredito na Bíblia, por isso dispenso respostas como: crescei e multiplicai. A natureza, sim, concordo (excluindo a humana), parece heterossexual, mas, a natureza cumpre ciclos, tem tempo de fecundar, tempo de procriar, etc., um calendário não subversível por ela própria, e a natureza é desprovida de sexualidade (considerando o plano psicológico do termo), e não sabe fazer fertilização in vitro nem clonagens, não constrói máquinas e nem evolui tecnicamente… mas nós o fazemos; evoluímos, e connosco os conceitos. Boa parte é contra os gays porque, advogam estupidamente, vão pôr em risco a continuidade da raça humana... outra parte, porque são diferentes.

Voltando à questão: por que não pode uma pessoa ser criada como homossexual (e nem sei como é que se cria uma pessoa segundo a sua sexualidade; não confundir sexo anatómico com sexualidade)?


Criar um rapaz com saias, provavelmente pode trazer-lhe problemas psicológicos, porque todos vivemos inseridos num contexto cultural, mas o uso de saia ou de calças não é apenas uma questão de moda? Os romanos, enquanto faziam a Via Ápia, o Fórum, o Panteão, o Coliseu, e conquistavam meio mundo não andavam a usar saia? Eu sei que existe o conceito de cultura e do tempo, só quero mostrar que a saia não faz o homem. Contaram-me sobre uma mulher, feminista, que foi a uma conferência das Nações Unidas, com um bigode (provavelmente implantado): questionando assim o uso de bigodes pela população masculina apenas. E falando nisso, seremos agora menos homens (masculinos) porque rapamos os bigodes, outros depilam as pernas? Não, nem isso nos torna menos homem, creio eu, mas julgo que um rapaz que seja educado desde pequeno para depilar as pernas, os sovacos e tal, vai ser considerado como quem recebe uma educação gay. E não estou a dizer que é assim que os gays vão educar os seus filhos.

A questão que ninguém levanta é a seguinte: o que faz um pai ser um bom pai?

A proibição de adoptar aos gays responde: a sua orientação sexual.

As pessoas associam à homossexualidade as taras sexuais. Mas que eu saiba, Carlos Cruz era bem casado (e falando nisso, por ele ser um pedófilo que ia aos rapazinhos quer dizer que ele é homossexual? Tenho dúvidas sobre o assunto, visto a pederastia, como a chamavam os gregos, não é a homossexualidade como a conhecemos).

Sejamos realistas, o amor altruísta, o ágape, é que faz a boa educação, e não o amor erótico, o eros. Pais de qualquer orientação sexual podem ser tanto bons pais como maus pais; qualquer pessoa pode ser tarada sexual, independentemente do lado para que dá.

Se um casal gay criar filhos gays, por que não? Se o filho não for gay… pelo menos aprenderá respeitar os que são. E o que vão fazer aos casais gays-femo? Vão laquear a trompa às mulheres para não serem fecundadas? Vão-lhes retirar os filhos se elas lá arranjarem maneira de dar à luz?

Se não vão fazer nada aos casais femininos e elas poderão conceber, porque não deixam os gays-homo adoptar?

Na verdade, como alguém já referiu, essa lei que aprova o casamento e proíbe a adopção só serve para mascarar o preconceito e é um golpe político, não pretende isenção.

2 de agosto de 2010

ORIGEM, A, 2010 (Inception)

Não escrevo críticas de filmes, análises talvez, pois vejo-os, aos bons, com a atenção que uso quando leio um livro. O primeiro filme que analisei por escrito, e também o último, já agora, foi "O Sétimo Selo", um filme prenhe de significados e de uma largueza interpretativa incrível.

Vou escrever sobre Inception (A Origem) de Christopher Nolan (cuidado com spoilers). É um filme 10, não preciso dizer mais. Tem as suas falhas e algumas lacunas no argumento que não vou dizer agora por ser o meu trunfo contra os que acham o filme superperfeito. Uma das lacunas é resolvível com a leitura da banda desinhada publicada para promover o filme. Ok!

Os filmes que o filme me lembrou foram: Dreamscape, com Dennis Quaid, O Despertar da Mente, de Charlie Kaufman, Dark City, de Alex Proya, A Cela, com Jennifer Lopez, O Imaginarium do Dr. Parnassus, de Terry Gillian, e até mesmo o Freddy Kruegger de Wes Craven. Não é assim tão original, mas como sabiamente se diz: non nova, sed nove.


trailer


Bem. Escrevo isto porque vejo pessoas a discutirem sobre o final do filme, dizendo que está em aberto, o que eu duvido muito. (cuidado com spoileres). Só vi o filme uma vez, mas acredito que bastou para tirar as minhas dúvidas, e sendo assim jogo também para aqui a minha opinião.

A questão é se o personagem principal cujo o nome não me lembro viu ou não os filhos.

A resposta: não viu. Ele perdeu-se na sua mente. Dicas para perceber que não viu:

1. Quando ele fala com os filhos pelo telefone, eles estavam com a avó, e a voz da mais velha parecia de uma adolescente. Eu até cheguei a pensar que ele tivesse três filhos.

2. Quando pela primeira vez girou o pião, o pião manteve um eixo perfeito. Mas no final não. Porém o pião nessa altura já tinha perdido a sua magia de âncora à realidade, pois, quando ele aconselhou a arquitecta a fazer a sua âncora, ela não o deixou tocar nela, porque ia estragar-lhe a função. E o pião dele foi tocado pelo  menos por três outras pessoas, os dois capangas do japonês e o próprio japonês. Ou seja, o pião já não servia para a sua função quando ele o girou no fim.

3. O pai dele foi deixado em Paris, mas ele estava no aeroporto à sua espera. Ok! É certo que passou muito tempo desde que ele viu o pai em Paris e o quando voltou para a América, tempo usado para ir para Mombaça, para estudar uma das pessoas que queriam copiar, para preparar o golpe e tal, e o pai podia ter saído no decorrer disso. Mas se as crianças vivem com a avó não devia ter sido ela a levá-las ao aeroporto? Especulação: deu a ideia que a avó era a mãe da mulher dele e não a sua mãe, pois não parece que se fosse sua mãe teria sido tão fria com ele. Ainda nesta linha: ele não tinha a certeza da sua liberdade, porque mesmo no avião ainda estava a suplicar por ela, por isso, sem essa certeza acho que ele não quereria causar outro desgosto aos filhos, chamando-os para o aeroporto para eles o verem a ser preso, se tudo corresse mal.

4. O tempo que levaram a preparar o golpe significa que todos os golpes que eles praticam levam algum tempo a preparar e a consumar, e durante as conversas ao longo do filme percebe-se que ele deu muitos golpes depois de ter fugido dos EUA e que passou um belo tempo entre a morte da esposa e o último golpe, mas os seus filhos não tinham crescido nem um bocado. Não sei se notei bem, mas alguém que viu o filme mais recentemente deve ter notado, as crianças não mudaram de roupa.

5. Não me lembro de um final feliz num filme de Nolan. Nem de um final fechado, também devo dizer.

21 de julho de 2010

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. VII


ONDE ESTÁ A FELICIDADE?

Um homem feliz é aquele que no final do dia, ao questionar, igual aos pitagóricos: o que fiz certo?, o que fiz de errado?, encosta a cabeça ao travesseiro consciente de um saldo positivo. 


Há o homem feliz, mas a Felicidade, deixando de lado o cepticismo, não existe. (Bem, isto parece uma convicção céptica.) Ela é como Nirvana, nem Dalai Lama a alcançou, considerando o seu pendente com a China.

No entanto vou chamar de felicidade – grafada à minúscula – àquele estado de espírito temporário que nos deixa feliz: a alegria, o jubilo, o contentamento. A felicidade, relativa no entanto, não é definível; se Hitler ao final do dia dormiu a pensar que assou judeus suficientes e não tem nada, mas mesmo nada, a abalar-lhe o juízo, causando remorsos ou sentimento de assuntos inacabados, então Hitler é, nesse dia, feliz. Nesse dia, porque no dia seguinte, igual a todo o mundo, pode não o ser.

A felicidade é a soma do passado a dividir pela acção do presente e não existe no futuro; o futuro é um lugar virtual povoado de sonhos, pois nem sequer existe, é o constante há-de vir, para não dizer advir. Quando o futuro chega é presente, como dizia o meu irmão aos sete anos: amanhã é hoje; e mesmo o passado é um fantasma cuja existência foi momentânea e fugaz, quando passou, passou, ninguém pode mais fazer nada acerca dele.

A felicidade exige uma luta constante, uma batalha incessante e diária. Se o homem vivesse isolado, tornar-se-ia mais fácil usar os valores do passado como uma constante para equacionar a felicidade, mas simplesmente porque isso não acontece, e por haver sempre interferências de toda a casta, não existe a constante do passado, mas uma variável que obedece a uma fórmula aleatória e imprevisível até mesmo para a matemática do caos. Acaba por ser uma sombra do gato de Schrodering (ou sei-lá-como-se-escreve). [Na verdade, é Schrodringer.]

Como ser constantemente feliz se pequenas lembranças conseguem escurecer a fraca luz projectada pela concepção da felicidade no nosso senso? Quem nunca lamentou a sorte? Até mesmo Jesus Cristo chorou no horto. O passado pesa muito sobre o presente, e é por essa razão que só podemos ser temporariamente felizes. 


Se neste momento, sem estarmos preparados para a Felicidade, amarrados às lembranças, às querelas, aos ódios e pequenas vinganças (ou grandes), ela chegar a nós, morríamos de comoção; e aqueles mais puros morriam de êxtase.

Para preparar-se para a Felicidade é preciso saber ver o mundo, apoiar o mundo, viver o mundo e viver no mundo. Pois que enquanto, sem nos resignarmos, não aceitarmos que vivemos no melhor dos mundos (não aquele criticada por Voltaire), não podemos tê-la. E a dificuldade maior é viver o mundo e viver nele.

O melhor do mundo aqui pretende ser o único mundo de que dispomos, não o mundo que criamos nas nossas fantasias, não o mundo que se espera depois da morte, não o mundo alicerçados nas esperanças da ciência, mas este aqui de que descuidamos porque acreditamos que há outro melhor que virá por milagre. Religiosos fervorosos só pensam no mundo pós-vida, convencidos de que são rectos para serem merecedores dele, não ligam nenhuma a este nosso aqui, não cuida dele, porque, na sua concepção, céu e terra passarão, só a Palavra não passará, ou seja, este tem os dias contado, e o Fim está próximo. Cientistas ferrenhos julgam que podem descobrir as fórmulas para sintetizar o Paraíso, descobrir a Pedra Filosofal, e replicar o milagre da multiplicação do pão (ou do valor da conta bancária, eu sei lá), de tal maneira que não vivem o mundo, e nem querem nele viver, porque é pestilento, razão porque deve ser melhorado. E nós, perdidos entre a ciência e a religião, não tomamos iniciativas e ficamos a à espera que os nossos padres decidam por nós o Caminho a Seguir (título do meu livro de escuteiro). Acho que ninguém deve ter lido o conto Deus e o Rabino.

Continuando. Aqui, neste mundo, onde se encontra a Felicidade? Na caixa-forte do banco? Na apatia? No bom humor? Na esperança? No amor? Em todos eles? Em nenhum deles? Ou depende da percepção de cada um?

Há pessoas que são felizes na miséria, enquanto há aquelas que acham a miséria a fonte da infelicidade. Mas isso dá-se porque é possível ser-se feliz, mas longe da felicidade. E agora que outro elemento entrou na equação, resta clarificar: A Felicidade não existe, mas a Infelicidade, isso sim, existe. Não tem de haver dualismo em tudo, como ou o Bem ou o Mal. A Infelicidade, embora a liguemos ao Mal, e cause mal, não é necessariamente o Mal, tal como a Felicidade não tem nada a ver com o Bem ou com o Mal, porque se tivesse Hitler não poderia ser considerado momentaneamente feliz.

Será que podemos chamar de feliz a um louco acostumado à camisa-de-forças? Será que tem mais felicidade trabalhar todos os dias, e não poder abandonar-se à preguiça, só porque se deve sustentar a si próprio e à família? Se este homem, ou mulher, que se mata para sustentar a família pode ser considerado feliz, por que não o louco? Aliás, o Homem da Máscara de Ferro do grande Dumas não acabou por se acostumar à máscara?

Uma vez, Prometeu, depois de liberto por Héracles, insone, chorava, com dores de cabeça a clamar pelo pássaro que lhe comia o fígado. Bem, é possível duvidar desta cena, ninguém se acostuma à dor ao ponto de clamar por ela, a não ser, é claro, que seja masoquista; e sendo assim a cena já se torna credível.

A Felicidade (não a real, mas a sua sombra) consiste no engano, toda ela e em toda a sa extensão; ela é como a chuva: cai de pé e anda alagando-se pelo chão. É uma das mais fortes questões antitéticas que existe na nossa vida.
Como podemos comparar a nossa felicidade com a dos homens da pré-história? Ignotto nulla cupido, disse Ovídio (ou pelo menos disseram que disse).

Será que somos mais felizes do que os antropófagos da Nova Zelândia? Como perguntaria Pittigrilli. Será que por termos Internet, computadores, vídeos, música orquestrada, televisão, microondas e etc., somos mais felizes que eles? Podemos ter tudo isso, mas falta-nos pernas de missionários para com elas nos deliciarmos ao jantar. E se a falta dessas pernas não nos torna infeliz, aliás, o mínimo que nos fazia era náuseas, duvido seriamente que eles precisem de microondas para aquecer o missionário só para depois se sentirem feliz.

A felicidade é incerta. Não há um mapa para a obter, não importa quantos manuais se produzem com a promessa de oferecê-la, nem mesmo a Bíblia tem a fórmula para a felicidade, apesar da sua pretensão. Pela Bíblia podemos ver que até a desgraça pode ser a felicidade, isto é, dos outros. A desgraça dos filisteus era a felicidade dos judeus, dos cananeus idem. Não admira que a desgraça dos judeus fizesse a felicidade de Hitler. Nem a Bíblia, repito, nem manual algum ensina a ser feliz; nem Buda, nem Aristóteles, nem Jesus. A felicidade só nós a podemos ter e por nós mesmos, suponho.

Há quem jure de pernas juntas que ela se encontra num amor retribuído e fiel, enquanto outro se sente enjoado pela fidelidade. O homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que a não ame, Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray.

A felicidade, no entanto, quando muito, chateia; quando pouco, não chega; quando nada, precisa-se. Ou seja, ela não é por ser. Por outras palavras, a felicidade ou a Felicidade é nada, só pode ser algo ou ter o valor que lhe atribuímos se nós o fizermos. O problema do mundo não está na sua ausência, mas em nós mesmos.

Então, o que podemos fazer para curar o mundo?

1 de julho de 2010

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP VI


MAQUIÁVEL OU GHANDI

O que procuramos todos, humanos, aqui, enquanto vivos? E o que querem depois de mortos, aqueles que acreditam no além? A mesma coisa: a felicidade. Por isso agimos como agimos para buscá-la, encontrá-la e segurá-la, de tal maneira que muitos vivem felizes no enganoso sofrimento acreditando mais na felicidade pós-vida, pensando que serão depois recompensados por terem neste plano sofrido. No entanto, o que é a felicidade?


Aristóteles já dizia, acerca da felicidade, o que acabei de repetir lá em cima, que ela é a finalidade universal dos homens. No entanto, embora todos queiram ser felizes, embora todos almejem a felicidade, ela não é para um da mesma maneira que para outro. 

A felicidade aristotélica seria a perfeição, a ausência de necessidades, o que o Buda chamaria de Nirvana, mas essa felicidade é apenas um ideal que, ao que parece, ninguém quer se cansar a procurar, pois está muito distante e, aparentemente, destruiria a individualidade, reduzindo a humanidade ao mesmo conceito. Por isso acho que o Paraíso vai ser uma chatice. No entanto, não procuramos a felicidade aristotélica não por medo da perda da identidade, mas por que somos preguiçosos e lentos, acreditamos mais nas frases feitas, cartilhas e catequeses do que nos laivos da razão que por vezes nos perpassa o cérebro. Kant declara que a maioria considera perigoso pensar por si mesmo e prefere confiar nos tutores (ou algo como isso), e eu acredito nele.


O homem não é apenas homem porque não vive isolado, o homem é o homem mais outros homens, copiando a frase de uma pessoa inteligente cujo nome não me lembro (Basset, Cacete ou Urtigas, alguém há-de saber) que reza: eu sou eu mais as minhas circunstâncias.
Daí que na equação humana não se pode singularizar a paixão ou a razão, pois cada acto na busca do eu ou da nossa vontade, mesmo aquela vontade que não é nossa mas nos é imposta, envolve circunstâncias e elementos vários. Reacções em cadeia constantes, infinitas, repercussoras e ininterruptas. Daí à questão: os fins realmente justificam os meios, só um passo.

Tudo o que sei de Maquiavel aprendi-o de um livro de sociologia, que por acaso não era muito explícito, de maneira que resumo a sua teoria, se calhar igual a maior parte do mundo, à frase já citada: os fins justificam os meios. 

Individualista e confiante no espírito da liderança, parece a contradição de Kant, enquanto aquele apela a libertação do pensamento, este convida a seguir o líder, ou convida o líder a impor-se. [Ainda hoje não sei bem qual é o princípio de Maquiavel, podia estar enganado na altura em que fiz o texto, se alguém souber da verdadeira essência da filosofia dele e quiser ensinar-me, estou agradecido]. Ao contrário de Ghandi. Ou melhor, aparentemente ao contrário. Ambos usam meios para atingir um fim; não estou certo, mas como antípodas, vou acreditar que os meios de Maquiavel não têm necessariamente que ser éticos nem morais, enquanto os do Ghandi apelam mais a moral. 

Moral? Ética? Qual é a diferença. A moral vem das regras não escritas, que as pessoas aprendem a viver na comunidade, ensinadas pela educação e assentes numa base religiosa. Enquanto que a ética nasce de regras sociais, para além da comunidade, puníveis por leis escritas, e diferentes entre si. Voltaire conta histórias interessante sobre essa diversidade de leis conforme a diversidade de locais e costumes, e se actualizarmos Voltaire, esses locais seriam agora sistemas académicos ou profissionais onde as diferentes éticas são aplicadas: ética dos médicos, bioética, ética dos psicólogos e até, contraditório, ética religiosa. Isto é outra coisa para falar depois.


[Hoje sei que estava bem errado nessa definição da moral e da ética, ao que parece apenas usei o conceito popular das duas ideias. A moral, afinal, é que é punível por leis, escritas ou do senso comum; a ética, no entanto, é a tendência natural ou a capacidade para praticarmos o bem, a ética seria, afinal, o caminho ideal para atingira felicidade descrita por Aristóteles. Na altura em que fiz este texto ainda não tinha lido Ética a Nicómaco, o que só fiz  recentemente. E só comecei a perceber a ética filosófica que, por acaso, não é atribuível às profissões como usualmente se faz (ética de médicos, ética de chulos, etc.) essas são, como disse a minha professora de Ética, deontologias moralizadas. Mas não quero subverter o meu texto, porque seria trapacear, visto que não tinha os conhecimentos que hoje julgo ter quando o fiz, e que já larguei muitas das opiniões que defendia. Por isso peço que pensem na ética que escrevi como a ética usada comummente de forma errada.]


Voltando a Maquiavel e Ghandi. Maquiavel é do tipo, o fim para não me bateres na outra face é partir-te o braço, e Gandhi (segue o exemplo de Cristo): para não me bateres na outra face dou-te ela mesma para bateres. Ghandi acredita na humanidade, ou se calhar, no bom do lado humano, acredita que um bom exemplo refreia os ânimos violentos. Pascal disse que aquele que oferece perdão é visto com alguém com grandeza de espírito por pessoas virtuosas, mas, por essa mesma razão, acirra mais o ódio da pessoa viciosa, ou sem virtudes. De tal maneira que não acredito que o sucesso de Ghandi tenha sido por oferecer a outra face, e nem acredito que ele seja mesmo diferente de Maquiavel, contanto que uma vez confessou que ajudava uma certa figura importante da política inglesa na Índia a abotoar a camisa, porque ele era-lhe útil para conhecer como funciona o congresso.

No entanto, apesar de tudo, é necessário diferenciar os planos maquiavélicos, dos planos gandhísticos. E considerando o mundo do indivíduo sobre a sociedade em que vivemos, quem devemos seguir, Ghandi ou Maquiavel?


Ambos acreditam que eu sou eu e os outros, só que agem de maneira diferente sob essa premissa. Mas quem não mata uma cobra que lhe entre no quintal (sem ser hindu)?


O que se deve fazer para encontrar a felicidade, sabendo que sem a consciência tranquila ela, ou essa fragrância que emana e que nos atinge fazendo-nos pensar que a encontrámos, é ainda mais ilusória?   

2 de junho de 2010

VENDETTA

Sempre faço tenção de repetir que não sou insensível. E posso até dizer que sou um tipo xyx, embora “x” não signifique necessariamente sensibilidade, pois conheço mulheres que fariam Hitler dar à retaguarda. E para provar que não sou insensível, apresento aqui este vídeo.





Não acham que isso é de indignar? Não acham que o touro devia dar mais chifradas no desgraçado para se vingar?

Eu não amo os animais ao ponto de os não comer, aliás nem sequer sei se os amo, quando criança era bom em operar bichos: sapos e lagartixas, e sem anestesia, deixem-me salientar, e nem sei dizer se naquela altura estava a formar-me para um futuro psicopata ou se queria ser médico. Mas isso era ontem, hoje não entendo que uma multidão vá encher um estádio, sem contar com a cobertura televisiva, para aplaudir um sádico a espetar um bicho. E por isso mesmo penso que se liberarem de novo o circo romano na televisão seria o programa mais visto de sempre.

Não são apenas os toureiros os cruéis, é principalmente a massa que consome este tipo de espectáculo, o toureiro, se calhar está divido entre ganhar dinheiro ou matar uns animais, tal como um carniceiro, mas como a ética não é tão apurada ao ponto de incluir os animais não pensantes logo praticamente deixa de haver dilema.

Para dizer a verdade causa muita impressão o vídeo, aliás vi a notícia primeiro num jornal e tive de voltar a cara ao ver a foto pela primeira vez (isto é para provar que não sou insensível), senti pena do desgraçado, mas quando li a causa do acidente fiquei dividido entre pena e rejubilo. Só lamentei que o touro não tivesse subido a bancada para marrar naquela multidão.

E já, para fechar este post, faço um apelo aos kamikazes de qualquer facção, política ou religiosa, desde a ETA aos Talibãs: por favor, meus estúpidos e odientos senhores suicidas, quando quiserem arrebentar, evitem os templos de consumos, evitem os templos de sabedoria (ou formatação), evitem parques infantis, na verdade, evitem explodir… mas se não puderem evitar… vão explodir para as touradas.

FUTEBOLITE: NÃO SERÁ DOENÇA?

Numa crónica de João Malheiro, Hora Bolas, públicada no Destak de 24 de Maio, ele escrevia todo indignado sobre jornalistas mais novos que não conhecem jogadores que participaram na história futebolística, sem ter em conta que esses, por serem como os chamou, novos, podiam não prestar atenção à Santana que, por acaso, morreu “há vintena de anos”. Acho que nem sequer se lembrou que na faculdade de jornalismo não se ensina a história de futebol e na faculdade história idem. Mas isto sou eu a fazer de advogado do diabo.

Provavelmente lá o senhor tem alguma razão ao dizer que os jornalistas de futebol deviam saber sobre a história de futebol, entretanto, quando ele assina a crónica com o título AMNÉSIA SOCIAL, torna-se irrisório, para não dizer preocupante.

Lá porque o espectáculo de futebol é todo ele coberto pela média significa que ele deva ser regalado para o plano essencial? Quer dizer, não saber de futebol é agora um mal social? Compreendo que a futebolite ataque a maior parte dos cérebros, inclusive de muitos supostamente ilustrados, podendo aqui dar exemplos de, pelos menos dois, professores universitários que faltam às aulas para ir ver benfica-sporting.

Não sei se a ignorância do futebol é positiva, visto que ele faz parte do nosso quotidiano, mas tenho a certeza que não conhecer os jogadores ou a sua história não é nenhum mal, e sei que não ser apanhado de futebolite é ainda menos mal, pelo que assim digo que o mal social não é a sua ignorância, mas ele próprio.

Ontem era pão e circo, hoje café e futebol. O país pode ir às urtigas, pode haver sombras de uma iminente guerra mundial, pode ninguém saber o que é a OPA, ou quem dirige o país, mas não saber quem anda o Cristiano Ronaldo a comer é uma afronta social.


Acho que o senhor Malheiro ficaria menos indignado se o jornalista lhe dissesse que o Big Brother foi escrito em 1984 por um apresentador de televisão.