6 de novembro de 2009

UMA QUESTÃO DE... NACIONALISMO

Quando ouço discursos de generais americanos, assusto-me. Nos filmes e séries eu compreendo toda aquela treta pró-americana, patriótica e tal, porque sei que aquilo é uma máquina de fazer dinheiro, um gigantesco aparelho de marketing de tal forma que estamos todos a copiar agora a cultura americana, ou melhor, o estilo de vida americana. Mas assusta-me o patriotismo da máquina de guerra americana, tal como me assusta a religiosidade extremista. Não obstante estes tipos, os americanos, andarem a dizer crer em deus, parece-me que a sua crença é outra: América.

Ontem, na TV, um almirante a ser entrevistado por Jon Stewart disse que os seus soldados são patriotas, amam o país e dariam a vida por ele. Deus do céu!!!

Na América há racismo, brancos que odeiam pretos e vice-versa, mas mais facilmente, parece-me, um afro-americano (como ridiculamente são chamados os pretos) bombardearia a África em nome da White America do que arriscar a ser chamado de mau americano, não dando a vida pelo país. (Obs.: convenhamos que nem todos eles são assim tão bestas).

Mas não só os americanos são assim tão loucos ou sofreram bastante lavagem cerebral para serem patrioticamente estúpidos, não, todo o mundo é assim. O tópico chegou-me à cabeça por causa de um deles, porém não estou a reflectir sobre eles em particular, mas sobre a humanidade.

Já ouvi pessoas a dizerem: tenho orgulho em ser português, tenho orgulho em ser preto, tenho orgulho em ser drogado, tenho orgulho em ser puta, entre outros, que fico admirado. Porque moi ici não tenho orgulho em ser nada. Sou guineense, sou preto, mas não tenho orgulho em ser nada disso (entretanto, não se confunda não ter orgulho com ter vergonha). O único orgulho que eu tenho é de ser quem eu sou e como o sou. Podia ter nascido marciano, azul ou transparente, e embora saiba que isso contribuiria para me formar, não seria a minha essência, tal como a minha pele e o sítio onde nasci não a são.

Eu amo o meu país, Guiné-Bissau, porque deu-me o berço e sinto-me melhor nele do que em qualquer outro sítio do mundo, mas amo Portugal, porque nesta altura é a minha casa e tenho o dever de gostar e cuidar da minha casa para viver nela melhor, mas eu não atacaria a ninguém e nem daria a vida por nenhum deles. (Bom… se neste momento a América resolvesse atacar Portugal provavelmente eu estaria nas fileiras dos que iam levantar a arma contra, não por patriotismo mas simplesmente porque intrusos me estão a invadir a casa com intuitos impróprios.) Por que razão devia ter orgulho em ser preto ou em ser guineense, se não escolhi ser nenhum deles? E por que razão teria orgulho em ser americano ou branco se de igual modo não teria escolhido sê-los? Eu tenho orgulho em fazer este blog, eu tenho orgulho em assumir os meus pensamentos e palavras (mesmo sabendo que o que estou agora a dizer um dia poderá vir a custar-me sendo erroneamente interpretado), eu tenho orgulho dos meus (embora não os tenha escolhido também, mas são gentes e não coisas ou ideologias), mas orgulho da raça ou nacionalidade, não, não tenho.

Fala-se globalização, mas tal nunca irá acontecer (pelo menos em termos de humanismo e não de controlo económico), porque nós não pensamos no círculo do universo, mas em círculos mais pequenos, individuo, famílias, parentes, amigos, grupos, classes, bairros, distritos, país, continente, para em último chegar a humanidade… Ok!, eu sei que há grupos que já formaram comissão de boas-vindas para os aliens, porque são criaturas vivas, mas também esses são tão progressivos que nem vêm o que acontece aos seus vizinhos.

O patriotismo ou o nacionalismo é a capa de inocência com que envolvemos a xenofobia e o racismo. Um judeu ataca a palestina por nacionalismo; o americano é ensinado a odiar o árabe por nacio… por petróleo; a Frente Nacional quer correr com os estrangeiros por nacionalismo; um hooligan ataca um francês num jogo de mundial por… estupidez.

Uma coisa que admiro nas Testemunhas de Jeová é que os desgraçados não saúdam a bandeira, nem cantam hinos nacionais porque perceberam que isso é idolatria, uma religiosidade não declarada.

Eu recomendaria aos activistas que se concentrassem mais em curar o nacionalismo, pois revela-se mais perigoso que as questões dos círculos menores, pois é fonte que as alimenta e legitimiza.

3 de novembro de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. V


REMAR CONTRA A MARÉ OU SEGUIR A MANADA


O homem é um ser social, ensinaram-me na escola, nasce, cresce, reproduz (ou não) e morre.

Lembro-me que tive de fazer uma composição sobre o assunto há três anos, na oitava classe [1995], o tema era: o homem deve ou não viver sozinho e isolado dos outros. É claro que eu disse não, e, entusiasmado, lá me pus a discorrer, explicando as razões por que achava que o homem não devia viver sozinho. Eu sei que ainda me faltam muitos anos para poder usar legitimamente a frase: se eu soubesse na altura o que sei agora. Mas, se eu soubesse o que sei, se calhar não responderia que o homem deve viver com os outros… Não!, provavelmente não o faria, porque se o fizesse levava um zero e chumbava à disciplina. Educação Social, chamava-se ela. Era uma disciplina que veio para substituir uma outra de cunho político-partidário: Formação Militante. Ambas tinham como objectivo criar homens capazes de se integrar na sociedade, mas eu, pessoalmente, não aprendi nada com elas, porque as únicas vezes que falava das coisas que me ensinaram eram nas aulas com o professor ou com os colegas quando a prova se aproximava.

O homem é ser social, nasce dentro de uma sociedade e é ensinado pelas regras da dita, e o ensino é de tal forma, que quando não entramos em choque com ele logo cedo acabámos por aceitá-lo quase como um dogma e nunca rechaçamos. Hoje, eu podia ter respondido que o homem deve viver isolado dos outros e justificado que os outros, os antecedentes, são quem corrompe o homem com os seus ensinos e as suas formas de viver. Voltaire era um homem asocial, na medida em que não aceitava as tretas da sua época, era um homem que viveu sozinho. O homem não faria mal a ninguém se não fosse ensinado a fazer mal, a copiar o que vê, ou tentar não ficar para trás na grande corrida da vida, e como o jogo não é leal, ele também não sente a obrigação se o ser.

Os homens que são diferentes, que não querem ser como os demais, nunca triunfam. Cristo andava a pé, arrastando consigo uma multidão de desgraçados, supostamente com sandálias gastas, todo suado e sujo, embora as gravuras o mostrem sempre com um branco imaculado, mas quem estaria assim sempre limpo andando no deserto os quilómetros que ele andava? Se nem tinham água para lavar as mãos, os seus discípulos chegando a comer com elas sujas, onde sairia com ela para tomar banho? Não admira que o mandassem crucificar! Um maltrapilho fedorento a dizer-nos que somos sujos? Olá, olé! Cristo era diferente, resultado: morte na cruz; Sócrates era diferente, resultado: bebeu cicuta; Galileu era diferente, resultado: então, por que não ser igual?; Rambo era diferente, resultado: em todos os três filmes nunca teve paz. Para quê ser diferente se todo o mundo é igual?

Somos julgados por sermos diferentes; enjaulamos pessoas porque não pensam igual a nós, enjaulamo-las porque não ouvimos as vozes que ouvem, e seguimos outras pela mesma razão (intrigante, não?); negamos oportunidades às pessoas porque não têm um bom apelido ou um bom padrinho; despedimos funcionários porque não concordaram connosco; não encontramos trabalho porque não fomos à entrevista de gravata (pelo menos foi isso que li num livro de Dale Carnegie); resumindo: temos de ser o que querem que sejamos, se não o formos, emularemos Camões: miseráveis vivos e talvez glorificados depois de mortos, e isso se deixarmos alguma coisa de valor. Mas quantos têm a oportunidade ou a capacidade de deixar coisas de valor?

Geralmente os que deixam coisa de valor são aqueles que não se deixam levar pela maré, são os que remam no sentido contrário, às vezes são chamados de revolucionários, outras de visionistas, algumas de artistas e algumas outras de loucos. Mas na sua maioria só vem o reconhecimento quando já não precisam dele. E o que se quer é viver, aqui, enquanto vivos, o que vem depois da morte fica fora do nosso conhecimento. 


Então o que devemos fazer para vivermos em paz, seguir a manada ou fazer um caminho solitário? Se formos pela primeira, corremos o risco de ser do tipo que Gabriel o Pensador acusou num dos seus versos: pessoas como eu, conheço mais de mil; se optarmos pela segunda ou acabamos hippies ou internados num manicómio. Será a melhor saída a hipocrisia, aceitar o que convém quando convém, mesmo que isso vá contra o nosso princípio? 


Por outras palavras, será que devemos todos ser maquiavélicos, adequando-nos e adequando os meios, não tendo princípios e apenas olhando para os fins?

28 de outubro de 2009

CAIM E ABEL

Um clássico da literatura religiosa, sem sombra de dúvida. Não fosse a mistificação ou a sacralização dos mitos antigos tínhamos aqui simplesmente uma alegoria ao conflito entre irmãos motivado, na maior parte das vezes, pelos próprios pais, dando mais afecto a um do que ao outro – um caso que Freud certamente analisaria (se calhar até analisou, eu cá não sei) se não estivesse muito ocupado a resolver os seus pendentes com os pais; ou então simplesmente uma imagem do choque das primeiras sociedades organizadas humanas: os nómadas (pastores) e os sedentários (agricultores); mas não, não podia ser assim tão simples, tinha que se meter um deus no meio de tudo para apimentar e apropriar-se da lenda.


Caim e Abel é tão simples (embora plurissignificativo) que passaria um bom par de tempo antes que eu voltasse a escrever sobre o tema, porém eis que me surgiu um motivo: Saramago. Não li este novo livro de Saramago ­– Caim –, nem lhe consigo imaginar o enredo, porque já me surpreendi com a sua escrita pelo menos três vezes. E nem sequer isso me poria a falar de Caim e Abel, se na equação não tivesse entrado outro elemento: a Igreja. 

E tenho aqui um Caim e um Abel: Saramago (para a Igreja certamente ele é Caim – considerando este como o obscuro) e a Igreja (o puríssimo – na versão da mesma). 

Eu sou declaradamente ateu, portanto sou a favor quando se ridiculariza as crenças e crendices da Igreja, e, como homem supostamente livre, defendo que cada um deve expor as suas ideias desde que isso não signifique fazer mal a outrem. Embora pareça que esteja com isso a dar razão à Igreja por se manifestar desagradado com Caim – o livro (e volto a salientar, não sei o que diz o livro; e só o vou ler daqui a quatro anos quando a poeira assentar, pois não gosto que as polémicas me afectem a leitura) – sentindo-se atacada por Saramago, reclamando para si o direito sobre Caim, quando na verdade essa história foi emprestada de outras lendas tal como grande parte das histórias bíblicas; a Igreja sente-se desrespeitada por Saramago porque este põe em questão uma crença milenar, criada e solidificada pela própria Igreja que durante todo esse período obrigou os outros a terem-na como certa. A bem ver, no entanto, a Igreja não tem esse direito, porque foi ela que atacou primeiro e subjugou os outros, o que Saramago fez foi apenas sacudir-se desse jugo e tentar dar a outras pessoas motivos para fazer o mesmo.

Caim cultivava um campo onde Abel levava o seu rebanho pastar, razão por que o matou. A Igreja tem um negócio que Saramago está a atacar, e está a tentar este último, e ainda continua a falar mal de Caim? Que hipocrisia.

A Igreja já devia ter percebido que não é ela a senhora, que o século de obscurantismo devia já ter acabado e que embora continue a manipular milhões de mentes ainda tem mentes que dispensam as suas opiniões; aliás, o que é a Igreja senão um grupo de pessoas que, tal como os políticos, gerem um negócio de controlar pessoas por benefício próprio? E se somos livres para escolhermos os nossos políticos (na definição de Eça de Queirós), por que não podemos escolher as nossas leituras?

Aliás, a Igreja, se não fosse precipitada, se tivesse percebido que já passou a época do Index Librorum Prohibitorum, saberia que as suas polémicas acerca da arte só freiam alguns sujeitos descerebrados que sem orientação não andam e que os restantes vão à procura, nessa arte proibida, do motivo da sua proibição, o que a veicula ainda mais. 

Que vende mais hoje do que uma polémica? Nesse sentido, deus salve a Igreja!

20 de outubro de 2009

DEUS E LÓGICA NÃO COMBINAM

Vezes e vezes recebi um mail, em todas as formas possíveis de mensagens correntes, em powerpoint, jpgs, simples textos, recomendando mandar seguir para não ter azar posteriormente. Hoje, apanhei de novo esse texto e resolvi responder.A primeira parte disto trata-se do referido texto. A segunda a minha resposta.


PRIMEIRA PARTE

Um professor ateu desafiou seus alunos com esta pergunta: – Deus fez tudo que existe? Um estudante respondeu corajosamente: – Sim, fez!– Deus fez tudo, mesmo? – Sim, professor – respondeu o jovem. O professor replicou: – Se Deus fez todas as coisas, então Deus fez o mal, pois o mal existe, e considerando-se que nossas acções são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mal. O estudante calou-se diante de tal resposta e o professor, feliz, se vangloriava de haver provado uma vez mais que a Fé era um mito. Outro estudante levantou sua mão e disse: – Posso lhe fazer uma pergunta, professor? – Sem dúvida, – respondeu-lhe o professor. O jovem ficou de pé e perguntou: – Professor, o frio existe? – Mas que pergunta é essa? Claro que existe, você por acaso nunca sentiu frio? O rapaz respondeu: – Na verdade, professor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é ausência de calor. Todo corpo ou objecto pode ser estudado quando tem ou transmite energia, mas é o calor e não o frio que faz com que tal corpo tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Criamos esse termo para descrever como nos sentimos quando nos falta o calor. E a escuridão, existe? – continuou, o estudante. O professor respondeu: – Mas é claro que sim. O estudante respondeu: – Novamente o senhor se engana, a escuridão tampouco existe. A escuridão é na verdade a ausência de luz. Podemos estudar a luz, mas a escuridão não. O prisma de Newton decompõe a luz branca nas várias cores de que se compõe, com seus diferentes comprimentos de onda. A escuridão não. Um simples raio de luz rasga as trevas e ilumina a superfície que a luz toca. Como se faz para determinar quão escuro está um determinado local do espaço? Apenas com base na quantidade de luz presente nesse local, não é mesmo? Escuridão é um termo que o homem criou para descrever o que acontece quando não há luz presente. Finalmente, o jovem estudante perguntou ao professor: – Diga, professor, o mal existe? Ele respondeu: – Claro que existe. Como eu disse no início da aula, vemos roubos, crimes e violência diariamente em todas as partes do mundo, essas coisas são o mal. Então o estudante respondeu: – O mal não existe, professor, ou ao menos não existe por si só. O mal é simplesmente a ausência de Deus. É, como nos casos anteriores, um termo que o homem criou para descrever essa ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a Fé ou o Amor, que existem como existe a Luz e o Calor. O mal resulta de que a humanidade não tenha Deus presente em seus corações. É como o frio que surge quando não há calor, ou a escuridão que acontece quando não há luz. Texto que circula na Internet. Autor desconhecido.




SEGUNDA PARTE

Os colegas ficaram todos embasbacados com a resposta do estudante e começavam já a pensar se não deviam converter-se para a religião do brilhante colega que conseguiu reduzir a zero as pretensões de superioridade ateia do professor. Mas antes que tivessem oportunidade de o fazer, levanta-se um outro aluno e pede licença para falar.– Primeiro, reconheceria como bom o argumento do meu colega, se não fosse falacioso. Ele falou da inexistência do frio e do escuro, dizendo que a física não os estuda, mas apenas aos seus opostos, o calor e a luz, respectivamente. Depois falou da inexistência do mal no mesmo termo, classificando o mal como um conceito físico e não moral. Não devia estabelecer uma comparação directa entre os dois conceitos, pelo menos se não for de forma alegórica. Porém aceitando a sua justificação de que o mal é a ausência de Deus prova-se a inexistência deste pelas mesmas razões pelo colega apresentadas: Nós podemos medir e classificar o mal, através de estatísticas, dizendo quantos foram mortos, quantos foram assaltados, quantos foram violentados, classificando o tipo de morte, de assalto e de violação, podemos contabilizar de diversas maneiras as consequências do que chamamos de “mal”, e durante essa contabilização, podemos incluir autocarros explodidos, cidades invadidas, inocentes mortos em nome do sempre presente Deus, podemos incluir crianças violadas, pessoas intrujadas, casamentos e famílias desfeitas em nome de Deus, podemos incluir paranóias agudas, roubos de identidade e de liberdade de pensamento em nome de Deus, de tal maneira que Deus e Mal seriam sinónimos e não opostos como o colega quis mostrar. E se, o mal é ausência de Deus, e sendo que a toda a hora constatamos a presença do mal, significa que Deus nunca está presente, pois o escuro desaparece com a luz, e se Deus equivale a luz, não poderia de forma alguma existir o mal. Além de mais, a existência do mal é uma negação à omnipresença de Deus, sendo que Deus seria um mentiroso por se ter afirmado omnipresente.



Texto de Marinho de Pina




TERCEIRA PARTE


E o colega respondeu: – [alguém?]...

14 de agosto de 2009

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano literário



Há uns bons pares de anos, na Inglaterra, um senhor chamado John Cleland resolveu escrever um livro pornográfico e imoral, contrário aos costumes de bons cristãos e civilizados - na altura -, o que lhe valeu a cadeia, - hoje -, um clássico da literatura erótica, e não só.

Cleland descrevia no seu livro aspectos sexuais, considerados libertinos, mas que eram mais praticados pelas próprias pessoas que publicamente os condenavam, estou a falar da classe média alta. Ainda hoje, as pessoas que mais se entretém com práticas sexuais de toda a sorte, que realizam grandes orgias e poderiam ser os mais sexualmente pervertidos se escrevessem duas linhas das práticas em que se envolvem, são os da classe alta, pessoas endinheiradas, pois têm-no... o dinheiro... são eles os políticos, os moralistas, os religiosos, os pais defensores da moral, etc. Enquanto estão a dar cara na televisão, nos jornais, atacam o sexo com todas as armas que têm, cantam a moral e glorificam a abstenção, mas longe dos olhos da média, a história já é outra.

No livro de Cleland, são visto nobres senhoras e os seus nobres senhores reduzidos a nada diante da fome sexual, ou da satisfação dessa fome, contrariando o adágio de que apenas a morte iguala os homens. A classe média alta pode fazer o que lhe dá na gana, mas até estas satisfações mais básicas querem e tentam retirar aos mais desfavorecidos na hierarquia das castas.
Ontem, Fanny Hill, As Memórias de uma Mulher de Prazer, era considerado um livro imoral e pornográfico, não obstante tivesse sido um best-seller na mesma época em que foi condenada, atestando desta maneira a hipocriasia que norteia os julgadores.
Eu não cheguei a ler Fanny Hill, só vi filmes, três versões, o que li foi A Filha de Fanny Hill, de autor anónimo, mas que se crê ter sido escrito pelo próprio Cleland, visto quando foi libertado por causa do Fanny Hill lhe ter sido imposto não voltar a escrever coisa do género, e, segundo o prefaciador, o estilo dos dois é similar.
Se o estilo é similar, sendo delicioso A Filha de Fanny Hill, e sendo uma sequela, presumo que Fanny Hill também seja delicioso. Ainda hoje deve haver certamente quem chame a este livro de pornográfico e imoral, (eu pessoalmente não sei distinguir a literatura, em prosa, pornográfica da erótica), mas se pornográfico consiste em utilização dos vocábulos "xungas", tal como caralho, cona, etc, então o livro não é, e muitos outros livros que não tratam de sexo, são pornográficos, aliás, o livro nem usa termos anatómicos, como pénis, vagina, e companhia, mas fala de lanças, botãos, heranças, e outros. O livro foi um dos mais éróticos que já li, senão o mais, mas vem numa linguagem que não chocaria nem a madre Teresa.

Na altura em que li A filha de Fanny Hill, li muitos outros, alguns títulos colhidos do Sete Minutos de Irving Wallace, um dos meus escritores preferidos... estava em constrante procura de materiais para as minhas sessões de onanismo... e, sim, concordo quando dizem que alguns livros são pornográficos e imorais (embora continue sem saber o que isso quer dizer), li o Trópico de Câncer ou do Capricórnio, já não lembro qual deles (vi o título num filme com Robert de Niro, Cabo de Medo e depois no Sete Minutos), a ideia era ler a trilogia de Henry Miller, mas fiquei-me nesse porque era simplesme sem sentido, palavras atiradas à toa no meu entender. O livro não era erótico, por não estimulava nada, não era literatura porque eram só palavras ordinárias e referências ordinárias, embora isso não significa nada, pois li um tal Bobowski, ou não-sei-quê (não me lembro do nome), Mulheres, esse era ordinariéssimo e vulgar, mas era boa leitura e conseguia ser erótico.

Agora vou voltar ao Fanny Hill. Lembrei-me de escrever este post, porque há dois dias, vi, coisa estranha, no comboio quatro senhoras a ler o mesmo título, Fanny Hill, os livros eram os mesmos, ou seja, da mesma editora, o que me fez pensar: Fanny Hill está em voga outra vez e a vender como o diabo, e por quê?, porque as pessoas torcem o nariz quando se fala de sexo, mas aguçam os ouvidos. Eu não leio livros eróticos simplesmente pela literatura e prazer de ler, como já referi, mas pelas minhas práticas solitárias propriamente, e fiquei admirado que, tal como ninguém gosta de ver pornografia em público, as senhoras estivessem a ler no público o Fanny Hill. Se elas estivessem a ler Milos Manara seria mais agressivo do que estarem a ler Cleland? É esta a diferença entre a pornografia e o erótico? Manara é porno, porque tem imagens? Nos filmes eu sei que quando não há penetração explícita (não falemos de sexo explícito que isso é para enganar), diz-se erótico, mas na literatura, como classificar? Em banda desenhada, como distinguir o porno do erótico? Engraçado, já em banda desenhada eu leio mais o erorismo pela arte do que propriamente pela recolha mental de material.

E Agora, outra questão, qual é o ponto deste post, juro que não sei. Mas a ditas senhoras no comboio, eram mais corajosas do que eu, a não ser que estivessem a pensar que ninguém saberia pelo título do conteúdo do livro, tendo em conta que a maioria só vê televisão e só conhece as bibliotecas pela fachada, e embora eu pensasse que estou quase livre dos preconceitos sexuais, não estou, pois fiquei chocado naquela altura que senhoras estivessem a ler Fanny Hill em público.

4 de agosto de 2009

A HOMOSSEXUALIDADE É DOENÇA

Estive a ler Yvan Lerger, Desvios Sexuais, no capítulo onde ele fala de homossexualidade, refere-se a essa questão como se fosse uma doença. Eu não sou psicólogo, mas confiro-me autoridade, ou pelo menos bom senso, suficiente para contrariar esse senhor, autoridade esta apoiada nos seguintes artigos (só de exemplo): este e mais este.


É ridículo considerar homossexualidade uma doença só porque a tendência geral é a heterossexualidade. Aliás, se formos ver bem, então doentes neste planeta seriam os honestos, altruístas e ateus, porque somos ensinados que o mundo é cruel e portanto temos de sê-los também para poder sobreviver. Mas isso não é assunto para este capítulo.

Entretanto, vou dar um desconto ao Dr. Yves considerando a época em que escreveu esse livro e mentalidade que imperava nessa altura, vou fechar os olhos e não ver que por causa de autoridades, moralistas ou científicas, tendenciosas é que o nosso mundo continua estagnado em preconceito vários. Bem como Pierre Boulle n’O Planeta dos Macacos com maestria ridicularizava: uma sociedade de orangotangos que mandam na ciência com dogmas e tretas não permitindo que se chegue ao passo seguinte porque têm medo de ver a sua autoridade derribada.

A homossexualidade (isto para alguns idiotas preconceituosos que se julgam sábios e andam por aí, facundos, a pregar preconceitos contra os homossexuais) não é doença, não significa instabilidade mental, significa simplesmente escolha, ainda que inconsciente. As pessoas não nascem homossexuais, não nascem heterossexuais, não nascem coisa alguma, simplesmente são educadas ou fazem a sua escolha por motivos diversos algures no caminho da sua vida enquanto se formam e se consolidam. Homossexualidade é doença? Ridículo.

Não bastam os religiosos, com as suas cruzadas fictícias, a chatearem os homossexuais… não bastam os hipócritas que curtem bué um show de lésbicas, mas atacam os homossexuais masculinos, porque são contra a homossexualidade… não basta o medo de ostracismo pela sociedade… ainda vêm psicólogos ou sexólogos a escreverem livros com finalidade de instruir uma massa a dizer que a homossexualidade é doença!!!

Porra! Se formos ver bem, doentes seriam os heterossexuais. Pelo menos até hoje ainda não tive conhecimento de uma violação “homossexual”, possivelmente temendo o estigma, tal como muitas mulheres não participam quando são violadas, os homens muito menos o fazem. Alguém pode objectar dizendo que nas prisões ocorrem violações homossexuais, mas eu diria não, pois os que violam os outros na prisão são heterossexuais. E sabemos bem dos tipos de psicoses que espaços fechados como prisões podem criar nos indivíduos.

pelo menos tem a sua piada
Eu fui criado heterossexual, e confesso ter também alguns preconceitos em relação a homossexuais, preconceitos estes cada vez mais minimalizados... mas todos dizem que cada um manda no seu rabo, cada um tem o direito de fazer o que quer com ele (alusão a homo-homens), então por que tanta algaraviada pelo rabo alheio? 

E se se estranha a alguém como é que um homem pode gostar de sexo anal (estou a tentar usar uma linguagem menos chunga) ou de beijar outro homem, pode simplesmente pensar como é que as mulher gostam de sexo anal e de beijar-nos. Se elas adoram quando nos beijam, porque não poderia um outro homem adorar quando beija um igual? Se elas gostam do sexo anal, porque não gostaria um homem? Nós somos moldados pela nossa educação e ficamos presos a isso, mas lá porque outras pessoas comem diferente de nós não significa que sejam doentes e nem que devem ser maltratadas (em todas as acepções da palavra e em todas as outras que ela pode obter)… revisem a questão na vossa cabeça.

23 de junho de 2009

UMA QUESTÃO DE... IGUALDADE

Esta reflexão deriva de um trabalho sociológico que por acaso tínhamos que fazer na faculdade. Pensei que talvez pudesse partilhá-la aqui, e é o que estou a fazer, não está o texto, acho eu, no estilo que costumo usar, está limpo, sem palavrões e tal, por causa do meio para o qual foi feito, entretanto não há crise algum. Alguma ingenuidade, mas... isso é normal.
Vai ele:


Todos somos alguém, sim. Concordo com a afirmação, mas, infelizmente, aplica-se na nossa sociedade a máxima dos porcos de George Orwell: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Infelizmente, as estruturas sociais são o factor número um da segregação, e enquanto impera a dialéctica marxista teremos sempre a sociedade dividida em dois grupos, os senhores e os assalariados, e as reformas sociais só passariam pela substituição desses grupos por modelos novos, mas no fundo iguais aos anteriores (porque não ouviram Marx?).

Os bairros sociais, ou os guetos, são, geralmente, estigmatizados de violentos, inseguros e corruptores, e, portanto, os seus habitantes são olhados com desconfiança e preconceito, pelo que de uma maneira ou doutra organizam-se contra as esferas exteriores, e se são realmente violentos, são-no por oposição ao governo ou sistemas que consideram o gerador dos seus problemas e também aos estranhos aos seus meios, pois tal como são preconceituosamente apodados de violentos, da mesma forma apodam os que não pertencem ao seu meio de inimigo, permita-nos a palavra.

Por exemplo, numa carta de leitor publicado no jornal Destak (cujo número não me lembro), um senhor, em reacção a uma peça de noticiário da televisão, onde uma das moradoras do Bairro de Bela Vista reclamava contra o uso da força dos polícias, defendia que não se deve dar voz aos marginais porque os problemas da sociedade (suponho que a portuguesa) são criados por eles.

E daqui pode-se perguntar: sofrendo de segregação e ataque deste género e tendo à minha disposição apenas a violência para me defender, podem-me culpar quando tento sobreviver num meio para mim hostil?

Não pretendo fazer aqui uma apologia da violência ou a apoteose dos marginalizados dos bairros sociais, mas tal como disse Mônica Frechaut neste artigo a analisar: Estas pessoas esforçam-se diariamente por uma vida melhor e não necessitam da tolerância dos outros, mas sim da garantia dos seus direitos.

A palavra que mais salta à vista neste conjunto é a tolerância. Superficialmente, a tolerância seria o factor fundamental para a inserção social dos habitantes dos bairros sociais, mas a bem ver, percebe-se que tolerância não significa necessariamente respeito ou aceitação, mas sim obrigação de aceitar alguém por perto, pelo que pode ser negativo falar de tolerância em vez de respeito e aceitação, por outro lado se nem mesmo a tolerância funciona, mais difícil é os outros funcionarem.

E os direitos? Como podem ser garantidos direitos a pessoas a quem até mesmo a tolerância é negada? Quem seria o garante desses direitos? O governo? Em princípio, sim.

Mas se os próprios governos, após anos de logro com os programas de habitação sociais, e mesmo percebendo que esse método de segregação não é benéfico para a estabilidade social, pelo menos no que se refere à segurança, entre outros, ainda continuam a praticar esses programas, criando gaiolas de contenção em nome de habitação, e muros de campos de concentração que chamam de limites do bairro, então podemos dizer que o governo não está interessado em garantir o direito aos marginais dos bairros sociais, mas simplesmente a concentrá-los numa mesma zona, onde de vez em quando pode mandar polícias para arrebanhá-los e controlá-los. Só que parece não pensar que a saturação desses problemas no exíguo espaço que constitui o bairro faz com que estes se alastrem para os outros bairros e outras camadas que querem manter protegidos.

E com isso posso dizer que sei onde está o problema e que o governo é o culpado? É claro que não. Principalmente, porque quando se fala de direitos fala-se também de deveres? Ninguém se referiu aos deveres das comunidades de bairros sociais, neste caso, do Bairro de Bela Vista. E, considerando que, mesmo as pessoas com as mais básicas noções da justiça ou dotados de algum senso comum percebem que a inclusão social passa pelo respeito das fronteiras individuais – como sabiamente diz o povo: onde acabam os teus limites começam os meus! – e não atentar contra o bem estar do outros, então não é lícito de forma alguma que alguém violente outrem (com assalto, verbalmente, ou mesmo, e principalmente, através de leis aprovadas no parlamento); da mesma forma que condeno o acto dos dois vitimados, que, aliás, não foram os únicos, assim também condeno a reacção que tiveram os polícias. E por outro lado, levantando ainda a questão de direitos, eu diria que toda a gente tem o direito de ter o estômago cheio, e talvez eu não condenasse uma pessoa que roube para comer, desde que não ponha em risco a integridade de outrem. Mas no caso Bela Vista, ninguém falou dos motivos dos dois malogrados terem efectuado o assalto – foram vítima da fome, ou foram mais um dos muitos iludidos pelas publicidades televisivas que mostram produtos efémeros como fundamentalmente necessários à vida e que ditam a moda (não se está a  tentar aqui transferir a culpa), ou apenas queriam satisfazer outras espécies de vício?

É difícil fazer um julgamento justo quando não se pode resumir tudo em preto e branco. Entretanto sempre pode-se perguntar: por que razão em bairros ricos, como Cascais, não se faz rusgas, quando até mesmo jornais dizem que se realizam festas onde o consumo de droga é abundante e parece ser regra? Por que não permite a autoridade que se violente a casa dessas pessoas, que ponham às avessas a sua privacidade, que vão para lá canais de televisão filmar as suas caras e mostrá-los como os degradadores dos costumes morais e sociais? Certamente é por serem mais iguais que os outros.

Queiramos ou não, acabamos por atribuir ao governo a maior quota de culpa desta equação, porque em nome de uma lei igual usa pesos diferentes e medidas diferentes beneficiando a uns e penalizando a outros.

É preciso quebrar o ciclo de pobreza, apontar na formação e diminuir a precabilidade liberal (seja lá o que isto quer dizer) e o desemprego, ao invés de demonizar, ainda mais, o bairro. Palavras de Mónica Frechaut.

A realidade é que os governos parecem subsistir da pobreza, e quebrar esse ciclo seria passar por uma reforma completamente utópica e irreal, aliás, nem mesmo Marx, com as suas ideias de equilíbrio, o conseguiu. Além de que, como diz C. K. Chesterton n’ O Homem Que Era Quinta-Feira, o povo não se revolta, a revolta faz-se lá cima (pela burguesia). Portanto, enquanto os ricos não estiverem dispostos a abrir a mão dos seus benesses o ciclo de pobreza dificilmente será quebrado; e como os governos dependem totalmente da economia, e a economia é controlada pelos ricos, teremos sempre o episódio do bairro de Bela Vista a repetir-se.