28 de outubro de 2009

CAIM E ABEL

Um clássico da literatura religiosa, sem sombra de dúvida. Não fosse a mistificação ou a sacralização dos mitos antigos tínhamos aqui simplesmente uma alegoria ao conflito entre irmãos motivado, na maior parte das vezes, pelos próprios pais, dando mais afecto a um do que ao outro – um caso que Freud certamente analisaria (se calhar até analisou, eu cá não sei) se não estivesse muito ocupado a resolver os seus pendentes com os pais; ou então simplesmente uma imagem do choque das primeiras sociedades organizadas humanas: os nómadas (pastores) e os sedentários (agricultores); mas não, não podia ser assim tão simples, tinha que se meter um deus no meio de tudo para apimentar e apropriar-se da lenda.


Caim e Abel é tão simples (embora plurissignificativo) que passaria um bom par de tempo antes que eu voltasse a escrever sobre o tema, porém eis que me surgiu um motivo: Saramago. Não li este novo livro de Saramago ­– Caim –, nem lhe consigo imaginar o enredo, porque já me surpreendi com a sua escrita pelo menos três vezes. E nem sequer isso me poria a falar de Caim e Abel, se na equação não tivesse entrado outro elemento: a Igreja. 

E tenho aqui um Caim e um Abel: Saramago (para a Igreja certamente ele é Caim – considerando este como o obscuro) e a Igreja (o puríssimo – na versão da mesma). 

Eu sou declaradamente ateu, portanto sou a favor quando se ridiculariza as crenças e crendices da Igreja, e, como homem supostamente livre, defendo que cada um deve expor as suas ideias desde que isso não signifique fazer mal a outrem. Embora pareça que esteja com isso a dar razão à Igreja por se manifestar desagradado com Caim – o livro (e volto a salientar, não sei o que diz o livro; e só o vou ler daqui a quatro anos quando a poeira assentar, pois não gosto que as polémicas me afectem a leitura) – sentindo-se atacada por Saramago, reclamando para si o direito sobre Caim, quando na verdade essa história foi emprestada de outras lendas tal como grande parte das histórias bíblicas; a Igreja sente-se desrespeitada por Saramago porque este põe em questão uma crença milenar, criada e solidificada pela própria Igreja que durante todo esse período obrigou os outros a terem-na como certa. A bem ver, no entanto, a Igreja não tem esse direito, porque foi ela que atacou primeiro e subjugou os outros, o que Saramago fez foi apenas sacudir-se desse jugo e tentar dar a outras pessoas motivos para fazer o mesmo.

Caim cultivava um campo onde Abel levava o seu rebanho pastar, razão por que o matou. A Igreja tem um negócio que Saramago está a atacar, e está a tentar este último, e ainda continua a falar mal de Caim? Que hipocrisia.

A Igreja já devia ter percebido que não é ela a senhora, que o século de obscurantismo devia já ter acabado e que embora continue a manipular milhões de mentes ainda tem mentes que dispensam as suas opiniões; aliás, o que é a Igreja senão um grupo de pessoas que, tal como os políticos, gerem um negócio de controlar pessoas por benefício próprio? E se somos livres para escolhermos os nossos políticos (na definição de Eça de Queirós), por que não podemos escolher as nossas leituras?

Aliás, a Igreja, se não fosse precipitada, se tivesse percebido que já passou a época do Index Librorum Prohibitorum, saberia que as suas polémicas acerca da arte só freiam alguns sujeitos descerebrados que sem orientação não andam e que os restantes vão à procura, nessa arte proibida, do motivo da sua proibição, o que a veicula ainda mais. 

Que vende mais hoje do que uma polémica? Nesse sentido, deus salve a Igreja!

20 de outubro de 2009

DEUS E LÓGICA NÃO COMBINAM

Vezes e vezes recebi um mail, em todas as formas possíveis de mensagens correntes, em powerpoint, jpgs, simples textos, recomendando mandar seguir para não ter azar posteriormente. Hoje, apanhei de novo esse texto e resolvi responder.A primeira parte disto trata-se do referido texto. A segunda a minha resposta.


PRIMEIRA PARTE

Um professor ateu desafiou seus alunos com esta pergunta: – Deus fez tudo que existe? Um estudante respondeu corajosamente: – Sim, fez!– Deus fez tudo, mesmo? – Sim, professor – respondeu o jovem. O professor replicou: – Se Deus fez todas as coisas, então Deus fez o mal, pois o mal existe, e considerando-se que nossas acções são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mal. O estudante calou-se diante de tal resposta e o professor, feliz, se vangloriava de haver provado uma vez mais que a Fé era um mito. Outro estudante levantou sua mão e disse: – Posso lhe fazer uma pergunta, professor? – Sem dúvida, – respondeu-lhe o professor. O jovem ficou de pé e perguntou: – Professor, o frio existe? – Mas que pergunta é essa? Claro que existe, você por acaso nunca sentiu frio? O rapaz respondeu: – Na verdade, professor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é ausência de calor. Todo corpo ou objecto pode ser estudado quando tem ou transmite energia, mas é o calor e não o frio que faz com que tal corpo tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Criamos esse termo para descrever como nos sentimos quando nos falta o calor. E a escuridão, existe? – continuou, o estudante. O professor respondeu: – Mas é claro que sim. O estudante respondeu: – Novamente o senhor se engana, a escuridão tampouco existe. A escuridão é na verdade a ausência de luz. Podemos estudar a luz, mas a escuridão não. O prisma de Newton decompõe a luz branca nas várias cores de que se compõe, com seus diferentes comprimentos de onda. A escuridão não. Um simples raio de luz rasga as trevas e ilumina a superfície que a luz toca. Como se faz para determinar quão escuro está um determinado local do espaço? Apenas com base na quantidade de luz presente nesse local, não é mesmo? Escuridão é um termo que o homem criou para descrever o que acontece quando não há luz presente. Finalmente, o jovem estudante perguntou ao professor: – Diga, professor, o mal existe? Ele respondeu: – Claro que existe. Como eu disse no início da aula, vemos roubos, crimes e violência diariamente em todas as partes do mundo, essas coisas são o mal. Então o estudante respondeu: – O mal não existe, professor, ou ao menos não existe por si só. O mal é simplesmente a ausência de Deus. É, como nos casos anteriores, um termo que o homem criou para descrever essa ausência de Deus. Deus não criou o mal. Não é como a Fé ou o Amor, que existem como existe a Luz e o Calor. O mal resulta de que a humanidade não tenha Deus presente em seus corações. É como o frio que surge quando não há calor, ou a escuridão que acontece quando não há luz. Texto que circula na Internet. Autor desconhecido.




SEGUNDA PARTE

Os colegas ficaram todos embasbacados com a resposta do estudante e começavam já a pensar se não deviam converter-se para a religião do brilhante colega que conseguiu reduzir a zero as pretensões de superioridade ateia do professor. Mas antes que tivessem oportunidade de o fazer, levanta-se um outro aluno e pede licença para falar.– Primeiro, reconheceria como bom o argumento do meu colega, se não fosse falacioso. Ele falou da inexistência do frio e do escuro, dizendo que a física não os estuda, mas apenas aos seus opostos, o calor e a luz, respectivamente. Depois falou da inexistência do mal no mesmo termo, classificando o mal como um conceito físico e não moral. Não devia estabelecer uma comparação directa entre os dois conceitos, pelo menos se não for de forma alegórica. Porém aceitando a sua justificação de que o mal é a ausência de Deus prova-se a inexistência deste pelas mesmas razões pelo colega apresentadas: Nós podemos medir e classificar o mal, através de estatísticas, dizendo quantos foram mortos, quantos foram assaltados, quantos foram violentados, classificando o tipo de morte, de assalto e de violação, podemos contabilizar de diversas maneiras as consequências do que chamamos de “mal”, e durante essa contabilização, podemos incluir autocarros explodidos, cidades invadidas, inocentes mortos em nome do sempre presente Deus, podemos incluir crianças violadas, pessoas intrujadas, casamentos e famílias desfeitas em nome de Deus, podemos incluir paranóias agudas, roubos de identidade e de liberdade de pensamento em nome de Deus, de tal maneira que Deus e Mal seriam sinónimos e não opostos como o colega quis mostrar. E se, o mal é ausência de Deus, e sendo que a toda a hora constatamos a presença do mal, significa que Deus nunca está presente, pois o escuro desaparece com a luz, e se Deus equivale a luz, não poderia de forma alguma existir o mal. Além de mais, a existência do mal é uma negação à omnipresença de Deus, sendo que Deus seria um mentiroso por se ter afirmado omnipresente.



Texto de Marinho de Pina




TERCEIRA PARTE


E o colega respondeu: – [alguém?]...

14 de agosto de 2009

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano literário



Há uns bons pares de anos, na Inglaterra, um senhor chamado John Cleland resolveu escrever um livro pornográfico e imoral, contrário aos costumes de bons cristãos e civilizados - na altura -, o que lhe valeu a cadeia, - hoje -, um clássico da literatura erótica, e não só.

Cleland descrevia no seu livro aspectos sexuais, considerados libertinos, mas que eram mais praticados pelas próprias pessoas que publicamente os condenavam, estou a falar da classe média alta. Ainda hoje, as pessoas que mais se entretém com práticas sexuais de toda a sorte, que realizam grandes orgias e poderiam ser os mais sexualmente pervertidos se escrevessem duas linhas das práticas em que se envolvem, são os da classe alta, pessoas endinheiradas, pois têm-no... o dinheiro... são eles os políticos, os moralistas, os religiosos, os pais defensores da moral, etc. Enquanto estão a dar cara na televisão, nos jornais, atacam o sexo com todas as armas que têm, cantam a moral e glorificam a abstenção, mas longe dos olhos da média, a história já é outra.

No livro de Cleland, são visto nobres senhoras e os seus nobres senhores reduzidos a nada diante da fome sexual, ou da satisfação dessa fome, contrariando o adágio de que apenas a morte iguala os homens. A classe média alta pode fazer o que lhe dá na gana, mas até estas satisfações mais básicas querem e tentam retirar aos mais desfavorecidos na hierarquia das castas.
Ontem, Fanny Hill, As Memórias de uma Mulher de Prazer, era considerado um livro imoral e pornográfico, não obstante tivesse sido um best-seller na mesma época em que foi condenada, atestando desta maneira a hipocriasia que norteia os julgadores.
Eu não cheguei a ler Fanny Hill, só vi filmes, três versões, o que li foi A Filha de Fanny Hill, de autor anónimo, mas que se crê ter sido escrito pelo próprio Cleland, visto quando foi libertado por causa do Fanny Hill lhe ter sido imposto não voltar a escrever coisa do género, e, segundo o prefaciador, o estilo dos dois é similar.
Se o estilo é similar, sendo delicioso A Filha de Fanny Hill, e sendo uma sequela, presumo que Fanny Hill também seja delicioso. Ainda hoje deve haver certamente quem chame a este livro de pornográfico e imoral, (eu pessoalmente não sei distinguir a literatura, em prosa, pornográfica da erótica), mas se pornográfico consiste em utilização dos vocábulos "xungas", tal como caralho, cona, etc, então o livro não é, e muitos outros livros que não tratam de sexo, são pornográficos, aliás, o livro nem usa termos anatómicos, como pénis, vagina, e companhia, mas fala de lanças, botãos, heranças, e outros. O livro foi um dos mais éróticos que já li, senão o mais, mas vem numa linguagem que não chocaria nem a madre Teresa.

Na altura em que li A filha de Fanny Hill, li muitos outros, alguns títulos colhidos do Sete Minutos de Irving Wallace, um dos meus escritores preferidos... estava em constrante procura de materiais para as minhas sessões de onanismo... e, sim, concordo quando dizem que alguns livros são pornográficos e imorais (embora continue sem saber o que isso quer dizer), li o Trópico de Câncer ou do Capricórnio, já não lembro qual deles (vi o título num filme com Robert de Niro, Cabo de Medo e depois no Sete Minutos), a ideia era ler a trilogia de Henry Miller, mas fiquei-me nesse porque era simplesme sem sentido, palavras atiradas à toa no meu entender. O livro não era erótico, por não estimulava nada, não era literatura porque eram só palavras ordinárias e referências ordinárias, embora isso não significa nada, pois li um tal Bobowski, ou não-sei-quê (não me lembro do nome), Mulheres, esse era ordinariéssimo e vulgar, mas era boa leitura e conseguia ser erótico.

Agora vou voltar ao Fanny Hill. Lembrei-me de escrever este post, porque há dois dias, vi, coisa estranha, no comboio quatro senhoras a ler o mesmo título, Fanny Hill, os livros eram os mesmos, ou seja, da mesma editora, o que me fez pensar: Fanny Hill está em voga outra vez e a vender como o diabo, e por quê?, porque as pessoas torcem o nariz quando se fala de sexo, mas aguçam os ouvidos. Eu não leio livros eróticos simplesmente pela literatura e prazer de ler, como já referi, mas pelas minhas práticas solitárias propriamente, e fiquei admirado que, tal como ninguém gosta de ver pornografia em público, as senhoras estivessem a ler no público o Fanny Hill. Se elas estivessem a ler Milos Manara seria mais agressivo do que estarem a ler Cleland? É esta a diferença entre a pornografia e o erótico? Manara é porno, porque tem imagens? Nos filmes eu sei que quando não há penetração explícita (não falemos de sexo explícito que isso é para enganar), diz-se erótico, mas na literatura, como classificar? Em banda desenhada, como distinguir o porno do erótico? Engraçado, já em banda desenhada eu leio mais o erorismo pela arte do que propriamente pela recolha mental de material.

E Agora, outra questão, qual é o ponto deste post, juro que não sei. Mas a ditas senhoras no comboio, eram mais corajosas do que eu, a não ser que estivessem a pensar que ninguém saberia pelo título do conteúdo do livro, tendo em conta que a maioria só vê televisão e só conhece as bibliotecas pela fachada, e embora eu pensasse que estou quase livre dos preconceitos sexuais, não estou, pois fiquei chocado naquela altura que senhoras estivessem a ler Fanny Hill em público.

4 de agosto de 2009

A HOMOSSEXUALIDADE É DOENÇA

Estive a ler Yvan Lerger, Desvios Sexuais, no capítulo onde ele fala de homossexualidade, refere-se a essa questão como se fosse uma doença. Eu não sou psicólogo, mas confiro-me autoridade, ou pelo menos bom senso, suficiente para contrariar esse senhor, autoridade esta apoiada nos seguintes artigos (só de exemplo): este e mais este.


É ridículo considerar homossexualidade uma doença só porque a tendência geral é a heterossexualidade. Aliás, se formos ver bem, então doentes neste planeta seriam os honestos, altruístas e ateus, porque somos ensinados que o mundo é cruel e portanto temos de sê-los também para poder sobreviver. Mas isso não é assunto para este capítulo.

Entretanto, vou dar um desconto ao Dr. Yves considerando a época em que escreveu esse livro e mentalidade que imperava nessa altura, vou fechar os olhos e não ver que por causa de autoridades, moralistas ou científicas, tendenciosas é que o nosso mundo continua estagnado em preconceito vários. Bem como Pierre Boulle n’O Planeta dos Macacos com maestria ridicularizava: uma sociedade de orangotangos que mandam na ciência com dogmas e tretas não permitindo que se chegue ao passo seguinte porque têm medo de ver a sua autoridade derribada.

A homossexualidade (isto para alguns idiotas preconceituosos que se julgam sábios e andam por aí, facundos, a pregar preconceitos contra os homossexuais) não é doença, não significa instabilidade mental, significa simplesmente escolha, ainda que inconsciente. As pessoas não nascem homossexuais, não nascem heterossexuais, não nascem coisa alguma, simplesmente são educadas ou fazem a sua escolha por motivos diversos algures no caminho da sua vida enquanto se formam e se consolidam. Homossexualidade é doença? Ridículo.

Não bastam os religiosos, com as suas cruzadas fictícias, a chatearem os homossexuais… não bastam os hipócritas que curtem bué um show de lésbicas, mas atacam os homossexuais masculinos, porque são contra a homossexualidade… não basta o medo de ostracismo pela sociedade… ainda vêm psicólogos ou sexólogos a escreverem livros com finalidade de instruir uma massa a dizer que a homossexualidade é doença!!!

Porra! Se formos ver bem, doentes seriam os heterossexuais. Pelo menos até hoje ainda não tive conhecimento de uma violação “homossexual”, possivelmente temendo o estigma, tal como muitas mulheres não participam quando são violadas, os homens muito menos o fazem. Alguém pode objectar dizendo que nas prisões ocorrem violações homossexuais, mas eu diria não, pois os que violam os outros na prisão são heterossexuais. E sabemos bem dos tipos de psicoses que espaços fechados como prisões podem criar nos indivíduos.

pelo menos tem a sua piada
Eu fui criado heterossexual, e confesso ter também alguns preconceitos em relação a homossexuais, preconceitos estes cada vez mais minimalizados... mas todos dizem que cada um manda no seu rabo, cada um tem o direito de fazer o que quer com ele (alusão a homo-homens), então por que tanta algaraviada pelo rabo alheio? 

E se se estranha a alguém como é que um homem pode gostar de sexo anal (estou a tentar usar uma linguagem menos chunga) ou de beijar outro homem, pode simplesmente pensar como é que as mulher gostam de sexo anal e de beijar-nos. Se elas adoram quando nos beijam, porque não poderia um outro homem adorar quando beija um igual? Se elas gostam do sexo anal, porque não gostaria um homem? Nós somos moldados pela nossa educação e ficamos presos a isso, mas lá porque outras pessoas comem diferente de nós não significa que sejam doentes e nem que devem ser maltratadas (em todas as acepções da palavra e em todas as outras que ela pode obter)… revisem a questão na vossa cabeça.

23 de junho de 2009

UMA QUESTÃO DE... IGUALDADE

Esta reflexão deriva de um trabalho sociológico que por acaso tínhamos que fazer na faculdade. Pensei que talvez pudesse partilhá-la aqui, e é o que estou a fazer, não está o texto, acho eu, no estilo que costumo usar, está limpo, sem palavrões e tal, por causa do meio para o qual foi feito, entretanto não há crise algum. Alguma ingenuidade, mas... isso é normal.
Vai ele:


Todos somos alguém, sim. Concordo com a afirmação, mas, infelizmente, aplica-se na nossa sociedade a máxima dos porcos de George Orwell: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Infelizmente, as estruturas sociais são o factor número um da segregação, e enquanto impera a dialéctica marxista teremos sempre a sociedade dividida em dois grupos, os senhores e os assalariados, e as reformas sociais só passariam pela substituição desses grupos por modelos novos, mas no fundo iguais aos anteriores (porque não ouviram Marx?).

Os bairros sociais, ou os guetos, são, geralmente, estigmatizados de violentos, inseguros e corruptores, e, portanto, os seus habitantes são olhados com desconfiança e preconceito, pelo que de uma maneira ou doutra organizam-se contra as esferas exteriores, e se são realmente violentos, são-no por oposição ao governo ou sistemas que consideram o gerador dos seus problemas e também aos estranhos aos seus meios, pois tal como são preconceituosamente apodados de violentos, da mesma forma apodam os que não pertencem ao seu meio de inimigo, permita-nos a palavra.

Por exemplo, numa carta de leitor publicado no jornal Destak (cujo número não me lembro), um senhor, em reacção a uma peça de noticiário da televisão, onde uma das moradoras do Bairro de Bela Vista reclamava contra o uso da força dos polícias, defendia que não se deve dar voz aos marginais porque os problemas da sociedade (suponho que a portuguesa) são criados por eles.

E daqui pode-se perguntar: sofrendo de segregação e ataque deste género e tendo à minha disposição apenas a violência para me defender, podem-me culpar quando tento sobreviver num meio para mim hostil?

Não pretendo fazer aqui uma apologia da violência ou a apoteose dos marginalizados dos bairros sociais, mas tal como disse Mônica Frechaut neste artigo a analisar: Estas pessoas esforçam-se diariamente por uma vida melhor e não necessitam da tolerância dos outros, mas sim da garantia dos seus direitos.

A palavra que mais salta à vista neste conjunto é a tolerância. Superficialmente, a tolerância seria o factor fundamental para a inserção social dos habitantes dos bairros sociais, mas a bem ver, percebe-se que tolerância não significa necessariamente respeito ou aceitação, mas sim obrigação de aceitar alguém por perto, pelo que pode ser negativo falar de tolerância em vez de respeito e aceitação, por outro lado se nem mesmo a tolerância funciona, mais difícil é os outros funcionarem.

E os direitos? Como podem ser garantidos direitos a pessoas a quem até mesmo a tolerância é negada? Quem seria o garante desses direitos? O governo? Em princípio, sim.

Mas se os próprios governos, após anos de logro com os programas de habitação sociais, e mesmo percebendo que esse método de segregação não é benéfico para a estabilidade social, pelo menos no que se refere à segurança, entre outros, ainda continuam a praticar esses programas, criando gaiolas de contenção em nome de habitação, e muros de campos de concentração que chamam de limites do bairro, então podemos dizer que o governo não está interessado em garantir o direito aos marginais dos bairros sociais, mas simplesmente a concentrá-los numa mesma zona, onde de vez em quando pode mandar polícias para arrebanhá-los e controlá-los. Só que parece não pensar que a saturação desses problemas no exíguo espaço que constitui o bairro faz com que estes se alastrem para os outros bairros e outras camadas que querem manter protegidos.

E com isso posso dizer que sei onde está o problema e que o governo é o culpado? É claro que não. Principalmente, porque quando se fala de direitos fala-se também de deveres? Ninguém se referiu aos deveres das comunidades de bairros sociais, neste caso, do Bairro de Bela Vista. E, considerando que, mesmo as pessoas com as mais básicas noções da justiça ou dotados de algum senso comum percebem que a inclusão social passa pelo respeito das fronteiras individuais – como sabiamente diz o povo: onde acabam os teus limites começam os meus! – e não atentar contra o bem estar do outros, então não é lícito de forma alguma que alguém violente outrem (com assalto, verbalmente, ou mesmo, e principalmente, através de leis aprovadas no parlamento); da mesma forma que condeno o acto dos dois vitimados, que, aliás, não foram os únicos, assim também condeno a reacção que tiveram os polícias. E por outro lado, levantando ainda a questão de direitos, eu diria que toda a gente tem o direito de ter o estômago cheio, e talvez eu não condenasse uma pessoa que roube para comer, desde que não ponha em risco a integridade de outrem. Mas no caso Bela Vista, ninguém falou dos motivos dos dois malogrados terem efectuado o assalto – foram vítima da fome, ou foram mais um dos muitos iludidos pelas publicidades televisivas que mostram produtos efémeros como fundamentalmente necessários à vida e que ditam a moda (não se está a  tentar aqui transferir a culpa), ou apenas queriam satisfazer outras espécies de vício?

É difícil fazer um julgamento justo quando não se pode resumir tudo em preto e branco. Entretanto sempre pode-se perguntar: por que razão em bairros ricos, como Cascais, não se faz rusgas, quando até mesmo jornais dizem que se realizam festas onde o consumo de droga é abundante e parece ser regra? Por que não permite a autoridade que se violente a casa dessas pessoas, que ponham às avessas a sua privacidade, que vão para lá canais de televisão filmar as suas caras e mostrá-los como os degradadores dos costumes morais e sociais? Certamente é por serem mais iguais que os outros.

Queiramos ou não, acabamos por atribuir ao governo a maior quota de culpa desta equação, porque em nome de uma lei igual usa pesos diferentes e medidas diferentes beneficiando a uns e penalizando a outros.

É preciso quebrar o ciclo de pobreza, apontar na formação e diminuir a precabilidade liberal (seja lá o que isto quer dizer) e o desemprego, ao invés de demonizar, ainda mais, o bairro. Palavras de Mónica Frechaut.

A realidade é que os governos parecem subsistir da pobreza, e quebrar esse ciclo seria passar por uma reforma completamente utópica e irreal, aliás, nem mesmo Marx, com as suas ideias de equilíbrio, o conseguiu. Além de que, como diz C. K. Chesterton n’ O Homem Que Era Quinta-Feira, o povo não se revolta, a revolta faz-se lá cima (pela burguesia). Portanto, enquanto os ricos não estiverem dispostos a abrir a mão dos seus benesses o ciclo de pobreza dificilmente será quebrado; e como os governos dependem totalmente da economia, e a economia é controlada pelos ricos, teremos sempre o episódio do bairro de Bela Vista a repetir-se.

8 de junho de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. IV


HIPÓCRITAS OU BONS SAMARITANOS

A forma de pensar do Séc. XX é muito pesado e obscuro, mesmo para os praticantes de magia negra (bem, considerem isto como uma tentativa de fazer piada).

Mas a verdade é que quando ninguém confia em ninguém e quando é isso que toda a gente aconselha a toda a gente: não confies em ninguém… mas em mim podes (claro, em mim, porque eu só faço parte do mundo, mas sou diferente, não sou como os restantes), então vemos como as coisas não andam bem por aqui e como a hipocrisia é tão grande quão absurda.

Os hipócritas, como não há continente onde caibam, espalharam-se pelo mundo inteiro e são mais numerosos que os restantes homens, e portanto, passaram eles a ser normais. (Usei o pronome eles não porque me considero fora do grupo, mas porque quero acreditar-me fora). A sociedade está poluída de hipocrisia e a melhor forma de disfarçar é repetir sabiamente na estupidez: faz o que digo e não o que faço. É assim que se pretende dar uma orientação?

Li livros e relatos escritos desde séculos antes de Cristo, a Bíblia Sagrada, Epopeia de Gilgamés, Odisseia, Eneidas, passando pelos séculos mais recentes até ao nosso, e de facto o que percebi é que o homem só foi mudando de vestimentas e de materiais, acessórios, mas que a essência permanece igual. Entretanto, não deixa de ser relevante como até há uns séculos antes cavalheiros davam a sua palavra e mantinham-na, não deixa de ser tocante (absurdo e estúpido, é certo, para mim que tenho a mente lavrada pelo Séc. XX) Egas Mozin ter enfeitado o seu pescoço com uma corda levando a si e a família para o rei da Castela dispor da sua vida. Existiam homens de palavras e a palavra valia ouro, mas hoje, sem assinatura num papel, testemunhas, advogados e, no melhor dos casos, apenas peritos em caligrafia.

A anomalia que nos habita a mente e faz-nos o que somos foi gerada por milhões de hipócritas que passaram por este planeta antes de nós, e como nós não rejeitamos o errado, apenas o aperfeiçoamos para parecer menos errado e dispomos dele para o nosso fim, possivelmente não há em todo o universo ser algum que se bate connosco em termos de malícia e malvadez de espírito… se até mesmo a Deus conseguimos levar à palma.

Por exemplo, imaginemos um Bom Samaritano do Séc. XX.

Estava um judeu espancado, à beira da morte e, à beira da estrada. Passava por ali um palestino (vamos actualizar os factos), ao ver um homem no chão estirado e imóvel, desceu da sua carripana e aproximou-se para ver se os bandidos não tinham deixado nada que se aproveitasse. Porém, ao chegar perto reconheceu que tinha ali um judeu, povo que desde a Bíblia humilhava o seu e que agora está constantemente a criar-lhe problemas por causa da Faixa de Gaza, então enalteceu-se, o seu coração rejubilou de alegria (se não for redundante), iria ajudar um homem que sempre o desprezou, ia fazer com que ele nunca voltasse a desprezar ninguém. A cena até evocava uma criança judia a ajudar Hitler, já todo velhinho, a atravessar a estrada. Oh! Que comovente! Então, o nosso palestino volta para a sua carripana e… vrrrrum!… protch!... espalma com a roda a cabeça do judeu.

Conclusão: os samaritanos de hoje não são nada bons, mete-se com um e está-se tramado. E quem é o culpado? 

A xenofobia, apesar de diferente maneira, marca qualquer homem. O estranho sempre é visto como um ídolo, uma divindade, um demónio ou uma merda. No entanto, as sociedades, mais complexas, dão hoje mais oportunidades para de curar desse mal, mas infelizmente temos muitos séculos de segregação por cima que deixam sementes no inconsciente e que despoleta de quando em quando, variando ocasiões, o nosso senso xenófobo. 

Mas, voltando à questão inicial, quando nos fala um samaritano de hoje, rasgamos o peito para lhe entregar o coração. Temo-lhos vários, encabeçando governos, encabeçando congregações religiosas, encabeçando seitas, escrevendo livros e dando palestras que prometem mundos e fundos, temo-lhos a habitar o mesmo bairro, o nosso vizinho de lado, temo-lhos debaixo do mesmo tecto – quando temos um tecto – e temo-lhos na mesma barraca, ou a partilhar o nosso caixote… e… somo-lhos. Somos hipócritas, com medo da palavra, mas bons samaritanos.

Mas será por isso que o mundo pára? Ou que devemos nós parar se o mundo não o faz por nossa causa?

1 de junho de 2009

QUE NOS MOSTRA O DAVID?

Hoje este post vai ser meio diferente, pois falo da televisão e da música, o mote é o programa da TVI, aquele com putos, não me lembro agora do título e estou com preguiça de ir ao Google.

A razão porque falo disso, refere-se simplesmente ao personagem vencedor David Qualquer-Coisa.

Em primeira mão vou começar por dizer que não costumo ver o programa, e só costumava ver uma pessoa quando era ela a cantar, Ana Qualquer-coisa Cordeiro, uma miúda que domina o palco e tem um à-vontade estupendíssima e muita presença a apresentar e a cantar, sem contar com a forma como manda na sua voz. A bem dizer, aquele batalhão de putos sabiam cantar, mas eu só gostava de ver essa.

Ontem por acaso vi o David e mais alguns outros. O David não é um fenómeno, pelo menos acho que não, mas bem que podia ser considerado e vou-o fazer.

O que nos pode mostrar o David? Quando ele é entrevistado pelos apresentadores revela-se de uma timidez aguda, que até chegava à afonia, e também de uma atonia tal que parece não estar muito nervoso ou estar super-nervoso, a sua linguagem corporal na altura em que fala com os apresentadores revela muito menos do que os restantes, que agarravam fortemente na microfone, coçavam os braços, acariciavam-se ou demoravam a perceber a pergunta, mas sua forma de responder demonstrava que se sentia também inseguro, mas quando começava a cantar, David era outra pessoa. E simplesmente respondia à pergunta que muitas vezes se fez durante o programa: os putos melhoram por terem participado no concurso? Claro que sim, sentiram reconhecidos os seus talentos, sentiram-se mais confiante e mais em si, porque têm os seus quinze minutos, e de uma forma ou doutra, estão entre esse punhado idolatrado que aparece na TV, ou seja, aumentou a sua auto-estima e todos sabemos como isso é importante para um homem ser bem-sucedido.

O que nos mostra o David? Quando se enganou durante a música e esqueceu as letras, o público foi solidário e tentou ajudá-lo e os apresentadores e os júris também foram, e essa solidariedade passou para o público telespectador, e ainda se aproveitou para culpar a imprensa desse desquite. Eu sei lá se foi a imprensa ou os próprios pais de David ou o próprio David preocupado em ganhar o culpado. Mas o que demonstra é que o seu talento foi reconhecido porque o público apercebeu-se que o facto de um lapso de memória temporário não pesa no seu talento.

A transformação de David no palco emocionou-me, principalmente porque eu sou como ele, tímido até ter audiência, e sua voz convenceu-me, mas artista dos artistas naquele meio era a tal Ana Cordeiro.

O que nos mostra o David (bem, esta é simplesmente uma suposição, mas não infundada apesar de tudo) o quando o racismo funciona. David ganhou entre oito candidatos se não estou em erro, com uma percentagem de 38, por outras palavras, uma maioria esmagadora. Se em parte contou a simpatia do público por ele se ter equivocado algures no meio da canção, por outra parte, e acho que a mais significante, foi o facto de ter sido o único preto no programa, pelo que a solidariedade de todos os pretos votantes (espero não estar a exagerar) foi para ele. Ou será que isso não é racismo?