4 de agosto de 2009

A HOMOSSEXUALIDADE É DOENÇA

Estive a ler Yvan Lerger, Desvios Sexuais, no capítulo onde ele fala de homossexualidade, refere-se a essa questão como se fosse uma doença. Eu não sou psicólogo, mas confiro-me autoridade, ou pelo menos bom senso, suficiente para contrariar esse senhor, autoridade esta apoiada nos seguintes artigos (só de exemplo): este e mais este.


É ridículo considerar homossexualidade uma doença só porque a tendência geral é a heterossexualidade. Aliás, se formos ver bem, então doentes neste planeta seriam os honestos, altruístas e ateus, porque somos ensinados que o mundo é cruel e portanto temos de sê-los também para poder sobreviver. Mas isso não é assunto para este capítulo.

Entretanto, vou dar um desconto ao Dr. Yves considerando a época em que escreveu esse livro e mentalidade que imperava nessa altura, vou fechar os olhos e não ver que por causa de autoridades, moralistas ou científicas, tendenciosas é que o nosso mundo continua estagnado em preconceito vários. Bem como Pierre Boulle n’O Planeta dos Macacos com maestria ridicularizava: uma sociedade de orangotangos que mandam na ciência com dogmas e tretas não permitindo que se chegue ao passo seguinte porque têm medo de ver a sua autoridade derribada.

A homossexualidade (isto para alguns idiotas preconceituosos que se julgam sábios e andam por aí, facundos, a pregar preconceitos contra os homossexuais) não é doença, não significa instabilidade mental, significa simplesmente escolha, ainda que inconsciente. As pessoas não nascem homossexuais, não nascem heterossexuais, não nascem coisa alguma, simplesmente são educadas ou fazem a sua escolha por motivos diversos algures no caminho da sua vida enquanto se formam e se consolidam. Homossexualidade é doença? Ridículo.

Não bastam os religiosos, com as suas cruzadas fictícias, a chatearem os homossexuais… não bastam os hipócritas que curtem bué um show de lésbicas, mas atacam os homossexuais masculinos, porque são contra a homossexualidade… não basta o medo de ostracismo pela sociedade… ainda vêm psicólogos ou sexólogos a escreverem livros com finalidade de instruir uma massa a dizer que a homossexualidade é doença!!!

Porra! Se formos ver bem, doentes seriam os heterossexuais. Pelo menos até hoje ainda não tive conhecimento de uma violação “homossexual”, possivelmente temendo o estigma, tal como muitas mulheres não participam quando são violadas, os homens muito menos o fazem. Alguém pode objectar dizendo que nas prisões ocorrem violações homossexuais, mas eu diria não, pois os que violam os outros na prisão são heterossexuais. E sabemos bem dos tipos de psicoses que espaços fechados como prisões podem criar nos indivíduos.

pelo menos tem a sua piada
Eu fui criado heterossexual, e confesso ter também alguns preconceitos em relação a homossexuais, preconceitos estes cada vez mais minimalizados... mas todos dizem que cada um manda no seu rabo, cada um tem o direito de fazer o que quer com ele (alusão a homo-homens), então por que tanta algaraviada pelo rabo alheio? 

E se se estranha a alguém como é que um homem pode gostar de sexo anal (estou a tentar usar uma linguagem menos chunga) ou de beijar outro homem, pode simplesmente pensar como é que as mulher gostam de sexo anal e de beijar-nos. Se elas adoram quando nos beijam, porque não poderia um outro homem adorar quando beija um igual? Se elas gostam do sexo anal, porque não gostaria um homem? Nós somos moldados pela nossa educação e ficamos presos a isso, mas lá porque outras pessoas comem diferente de nós não significa que sejam doentes e nem que devem ser maltratadas (em todas as acepções da palavra e em todas as outras que ela pode obter)… revisem a questão na vossa cabeça.

23 de junho de 2009

UMA QUESTÃO DE... IGUALDADE

Esta reflexão deriva de um trabalho sociológico que por acaso tínhamos que fazer na faculdade. Pensei que talvez pudesse partilhá-la aqui, e é o que estou a fazer, não está o texto, acho eu, no estilo que costumo usar, está limpo, sem palavrões e tal, por causa do meio para o qual foi feito, entretanto não há crise algum. Alguma ingenuidade, mas... isso é normal.
Vai ele:


Todos somos alguém, sim. Concordo com a afirmação, mas, infelizmente, aplica-se na nossa sociedade a máxima dos porcos de George Orwell: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Infelizmente, as estruturas sociais são o factor número um da segregação, e enquanto impera a dialéctica marxista teremos sempre a sociedade dividida em dois grupos, os senhores e os assalariados, e as reformas sociais só passariam pela substituição desses grupos por modelos novos, mas no fundo iguais aos anteriores (porque não ouviram Marx?).

Os bairros sociais, ou os guetos, são, geralmente, estigmatizados de violentos, inseguros e corruptores, e, portanto, os seus habitantes são olhados com desconfiança e preconceito, pelo que de uma maneira ou doutra organizam-se contra as esferas exteriores, e se são realmente violentos, são-no por oposição ao governo ou sistemas que consideram o gerador dos seus problemas e também aos estranhos aos seus meios, pois tal como são preconceituosamente apodados de violentos, da mesma forma apodam os que não pertencem ao seu meio de inimigo, permita-nos a palavra.

Por exemplo, numa carta de leitor publicado no jornal Destak (cujo número não me lembro), um senhor, em reacção a uma peça de noticiário da televisão, onde uma das moradoras do Bairro de Bela Vista reclamava contra o uso da força dos polícias, defendia que não se deve dar voz aos marginais porque os problemas da sociedade (suponho que a portuguesa) são criados por eles.

E daqui pode-se perguntar: sofrendo de segregação e ataque deste género e tendo à minha disposição apenas a violência para me defender, podem-me culpar quando tento sobreviver num meio para mim hostil?

Não pretendo fazer aqui uma apologia da violência ou a apoteose dos marginalizados dos bairros sociais, mas tal como disse Mônica Frechaut neste artigo a analisar: Estas pessoas esforçam-se diariamente por uma vida melhor e não necessitam da tolerância dos outros, mas sim da garantia dos seus direitos.

A palavra que mais salta à vista neste conjunto é a tolerância. Superficialmente, a tolerância seria o factor fundamental para a inserção social dos habitantes dos bairros sociais, mas a bem ver, percebe-se que tolerância não significa necessariamente respeito ou aceitação, mas sim obrigação de aceitar alguém por perto, pelo que pode ser negativo falar de tolerância em vez de respeito e aceitação, por outro lado se nem mesmo a tolerância funciona, mais difícil é os outros funcionarem.

E os direitos? Como podem ser garantidos direitos a pessoas a quem até mesmo a tolerância é negada? Quem seria o garante desses direitos? O governo? Em princípio, sim.

Mas se os próprios governos, após anos de logro com os programas de habitação sociais, e mesmo percebendo que esse método de segregação não é benéfico para a estabilidade social, pelo menos no que se refere à segurança, entre outros, ainda continuam a praticar esses programas, criando gaiolas de contenção em nome de habitação, e muros de campos de concentração que chamam de limites do bairro, então podemos dizer que o governo não está interessado em garantir o direito aos marginais dos bairros sociais, mas simplesmente a concentrá-los numa mesma zona, onde de vez em quando pode mandar polícias para arrebanhá-los e controlá-los. Só que parece não pensar que a saturação desses problemas no exíguo espaço que constitui o bairro faz com que estes se alastrem para os outros bairros e outras camadas que querem manter protegidos.

E com isso posso dizer que sei onde está o problema e que o governo é o culpado? É claro que não. Principalmente, porque quando se fala de direitos fala-se também de deveres? Ninguém se referiu aos deveres das comunidades de bairros sociais, neste caso, do Bairro de Bela Vista. E, considerando que, mesmo as pessoas com as mais básicas noções da justiça ou dotados de algum senso comum percebem que a inclusão social passa pelo respeito das fronteiras individuais – como sabiamente diz o povo: onde acabam os teus limites começam os meus! – e não atentar contra o bem estar do outros, então não é lícito de forma alguma que alguém violente outrem (com assalto, verbalmente, ou mesmo, e principalmente, através de leis aprovadas no parlamento); da mesma forma que condeno o acto dos dois vitimados, que, aliás, não foram os únicos, assim também condeno a reacção que tiveram os polícias. E por outro lado, levantando ainda a questão de direitos, eu diria que toda a gente tem o direito de ter o estômago cheio, e talvez eu não condenasse uma pessoa que roube para comer, desde que não ponha em risco a integridade de outrem. Mas no caso Bela Vista, ninguém falou dos motivos dos dois malogrados terem efectuado o assalto – foram vítima da fome, ou foram mais um dos muitos iludidos pelas publicidades televisivas que mostram produtos efémeros como fundamentalmente necessários à vida e que ditam a moda (não se está a  tentar aqui transferir a culpa), ou apenas queriam satisfazer outras espécies de vício?

É difícil fazer um julgamento justo quando não se pode resumir tudo em preto e branco. Entretanto sempre pode-se perguntar: por que razão em bairros ricos, como Cascais, não se faz rusgas, quando até mesmo jornais dizem que se realizam festas onde o consumo de droga é abundante e parece ser regra? Por que não permite a autoridade que se violente a casa dessas pessoas, que ponham às avessas a sua privacidade, que vão para lá canais de televisão filmar as suas caras e mostrá-los como os degradadores dos costumes morais e sociais? Certamente é por serem mais iguais que os outros.

Queiramos ou não, acabamos por atribuir ao governo a maior quota de culpa desta equação, porque em nome de uma lei igual usa pesos diferentes e medidas diferentes beneficiando a uns e penalizando a outros.

É preciso quebrar o ciclo de pobreza, apontar na formação e diminuir a precabilidade liberal (seja lá o que isto quer dizer) e o desemprego, ao invés de demonizar, ainda mais, o bairro. Palavras de Mónica Frechaut.

A realidade é que os governos parecem subsistir da pobreza, e quebrar esse ciclo seria passar por uma reforma completamente utópica e irreal, aliás, nem mesmo Marx, com as suas ideias de equilíbrio, o conseguiu. Além de que, como diz C. K. Chesterton n’ O Homem Que Era Quinta-Feira, o povo não se revolta, a revolta faz-se lá cima (pela burguesia). Portanto, enquanto os ricos não estiverem dispostos a abrir a mão dos seus benesses o ciclo de pobreza dificilmente será quebrado; e como os governos dependem totalmente da economia, e a economia é controlada pelos ricos, teremos sempre o episódio do bairro de Bela Vista a repetir-se.

8 de junho de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. IV


HIPÓCRITAS OU BONS SAMARITANOS

A forma de pensar do Séc. XX é muito pesado e obscuro, mesmo para os praticantes de magia negra (bem, considerem isto como uma tentativa de fazer piada).

Mas a verdade é que quando ninguém confia em ninguém e quando é isso que toda a gente aconselha a toda a gente: não confies em ninguém… mas em mim podes (claro, em mim, porque eu só faço parte do mundo, mas sou diferente, não sou como os restantes), então vemos como as coisas não andam bem por aqui e como a hipocrisia é tão grande quão absurda.

Os hipócritas, como não há continente onde caibam, espalharam-se pelo mundo inteiro e são mais numerosos que os restantes homens, e portanto, passaram eles a ser normais. (Usei o pronome eles não porque me considero fora do grupo, mas porque quero acreditar-me fora). A sociedade está poluída de hipocrisia e a melhor forma de disfarçar é repetir sabiamente na estupidez: faz o que digo e não o que faço. É assim que se pretende dar uma orientação?

Li livros e relatos escritos desde séculos antes de Cristo, a Bíblia Sagrada, Epopeia de Gilgamés, Odisseia, Eneidas, passando pelos séculos mais recentes até ao nosso, e de facto o que percebi é que o homem só foi mudando de vestimentas e de materiais, acessórios, mas que a essência permanece igual. Entretanto, não deixa de ser relevante como até há uns séculos antes cavalheiros davam a sua palavra e mantinham-na, não deixa de ser tocante (absurdo e estúpido, é certo, para mim que tenho a mente lavrada pelo Séc. XX) Egas Mozin ter enfeitado o seu pescoço com uma corda levando a si e a família para o rei da Castela dispor da sua vida. Existiam homens de palavras e a palavra valia ouro, mas hoje, sem assinatura num papel, testemunhas, advogados e, no melhor dos casos, apenas peritos em caligrafia.

A anomalia que nos habita a mente e faz-nos o que somos foi gerada por milhões de hipócritas que passaram por este planeta antes de nós, e como nós não rejeitamos o errado, apenas o aperfeiçoamos para parecer menos errado e dispomos dele para o nosso fim, possivelmente não há em todo o universo ser algum que se bate connosco em termos de malícia e malvadez de espírito… se até mesmo a Deus conseguimos levar à palma.

Por exemplo, imaginemos um Bom Samaritano do Séc. XX.

Estava um judeu espancado, à beira da morte e, à beira da estrada. Passava por ali um palestino (vamos actualizar os factos), ao ver um homem no chão estirado e imóvel, desceu da sua carripana e aproximou-se para ver se os bandidos não tinham deixado nada que se aproveitasse. Porém, ao chegar perto reconheceu que tinha ali um judeu, povo que desde a Bíblia humilhava o seu e que agora está constantemente a criar-lhe problemas por causa da Faixa de Gaza, então enalteceu-se, o seu coração rejubilou de alegria (se não for redundante), iria ajudar um homem que sempre o desprezou, ia fazer com que ele nunca voltasse a desprezar ninguém. A cena até evocava uma criança judia a ajudar Hitler, já todo velhinho, a atravessar a estrada. Oh! Que comovente! Então, o nosso palestino volta para a sua carripana e… vrrrrum!… protch!... espalma com a roda a cabeça do judeu.

Conclusão: os samaritanos de hoje não são nada bons, mete-se com um e está-se tramado. E quem é o culpado? 

A xenofobia, apesar de diferente maneira, marca qualquer homem. O estranho sempre é visto como um ídolo, uma divindade, um demónio ou uma merda. No entanto, as sociedades, mais complexas, dão hoje mais oportunidades para de curar desse mal, mas infelizmente temos muitos séculos de segregação por cima que deixam sementes no inconsciente e que despoleta de quando em quando, variando ocasiões, o nosso senso xenófobo. 

Mas, voltando à questão inicial, quando nos fala um samaritano de hoje, rasgamos o peito para lhe entregar o coração. Temo-lhos vários, encabeçando governos, encabeçando congregações religiosas, encabeçando seitas, escrevendo livros e dando palestras que prometem mundos e fundos, temo-lhos a habitar o mesmo bairro, o nosso vizinho de lado, temo-lhos debaixo do mesmo tecto – quando temos um tecto – e temo-lhos na mesma barraca, ou a partilhar o nosso caixote… e… somo-lhos. Somos hipócritas, com medo da palavra, mas bons samaritanos.

Mas será por isso que o mundo pára? Ou que devemos nós parar se o mundo não o faz por nossa causa?

1 de junho de 2009

QUE NOS MOSTRA O DAVID?

Hoje este post vai ser meio diferente, pois falo da televisão e da música, o mote é o programa da TVI, aquele com putos, não me lembro agora do título e estou com preguiça de ir ao Google.

A razão porque falo disso, refere-se simplesmente ao personagem vencedor David Qualquer-Coisa.

Em primeira mão vou começar por dizer que não costumo ver o programa, e só costumava ver uma pessoa quando era ela a cantar, Ana Qualquer-coisa Cordeiro, uma miúda que domina o palco e tem um à-vontade estupendíssima e muita presença a apresentar e a cantar, sem contar com a forma como manda na sua voz. A bem dizer, aquele batalhão de putos sabiam cantar, mas eu só gostava de ver essa.

Ontem por acaso vi o David e mais alguns outros. O David não é um fenómeno, pelo menos acho que não, mas bem que podia ser considerado e vou-o fazer.

O que nos pode mostrar o David? Quando ele é entrevistado pelos apresentadores revela-se de uma timidez aguda, que até chegava à afonia, e também de uma atonia tal que parece não estar muito nervoso ou estar super-nervoso, a sua linguagem corporal na altura em que fala com os apresentadores revela muito menos do que os restantes, que agarravam fortemente na microfone, coçavam os braços, acariciavam-se ou demoravam a perceber a pergunta, mas sua forma de responder demonstrava que se sentia também inseguro, mas quando começava a cantar, David era outra pessoa. E simplesmente respondia à pergunta que muitas vezes se fez durante o programa: os putos melhoram por terem participado no concurso? Claro que sim, sentiram reconhecidos os seus talentos, sentiram-se mais confiante e mais em si, porque têm os seus quinze minutos, e de uma forma ou doutra, estão entre esse punhado idolatrado que aparece na TV, ou seja, aumentou a sua auto-estima e todos sabemos como isso é importante para um homem ser bem-sucedido.

O que nos mostra o David? Quando se enganou durante a música e esqueceu as letras, o público foi solidário e tentou ajudá-lo e os apresentadores e os júris também foram, e essa solidariedade passou para o público telespectador, e ainda se aproveitou para culpar a imprensa desse desquite. Eu sei lá se foi a imprensa ou os próprios pais de David ou o próprio David preocupado em ganhar o culpado. Mas o que demonstra é que o seu talento foi reconhecido porque o público apercebeu-se que o facto de um lapso de memória temporário não pesa no seu talento.

A transformação de David no palco emocionou-me, principalmente porque eu sou como ele, tímido até ter audiência, e sua voz convenceu-me, mas artista dos artistas naquele meio era a tal Ana Cordeiro.

O que nos mostra o David (bem, esta é simplesmente uma suposição, mas não infundada apesar de tudo) o quando o racismo funciona. David ganhou entre oito candidatos se não estou em erro, com uma percentagem de 38, por outras palavras, uma maioria esmagadora. Se em parte contou a simpatia do público por ele se ter equivocado algures no meio da canção, por outra parte, e acho que a mais significante, foi o facto de ter sido o único preto no programa, pelo que a solidariedade de todos os pretos votantes (espero não estar a exagerar) foi para ele. Ou será que isso não é racismo?



PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. III


NA DANÇA DOS LOUCOS


No entanto, pergunto a mim mesmo: quem são os que afinal estão na razão? São os que apodam os outros de louco? Ou os que aceitam o apodo? Enfim, se formos ver bem, o homem geralmente oferece o que precisa para o poder receber depois. Entretanto, na sua totalidade, os homem podem ser assim classificados:

– loucos que se julgam loucos e são loucos.

– loucos que se julgam sãos e são loucos.

– sãos que se julgam loucos e não os são.

e a categoria especial:

– loucos que se julgam loucos e não os são.

Do último grupo prefiro distância, dos três primeiro, não sei dizer qual é o melhor. Mas homens, como sempre os conheci loucos, não sei se tinha nervos para aturar algum são, realmente são, e que, para o cúmulo se julga são.
Ninguém é perfeito, diz o cliché, mas ninguém gosta de se dizer imperfeito ou mesmo de se sentir imperfeito – a não ser, é claro, quando comete um erro crasso e não tem ninguém em quem jogar a culpa. E atitude destas é loucura ou sabedoria?

Também eu pensava que Hitler era louco, até tentei ler o Mein Kampf para ver se tinha laivos de filosofia e inteligência como Voltaire ou Erasmus, e, por acaso, em muitas páginas, tinha, mas não consegui ler a obra toda, porque ainda dentro dela me convenci de que não era Hitler o verdadeiro louco, mas aqueles que o liam, ouviam e viam nele uma espécie de Messias com uma missão divina e glorificadora, antes porque o livro tinha pataratas imensas.

O que é certo porém é que na dança de loucos mesmo que seja a sapiência a marcar o compasso dança-se à loucura.

Por que será que os animais não enlouquecem? Ou enlouquecem? Ouvi falar de vacas loucas, mas não percebi qual foi o padrão usado pelo psicólogo que assim as classificou. Um vez uma vara ficou louca e atirou-se ao mar, disseram que fora possessa por uma legião de demónios a mando de Cristo – que crueldade!, estivesse ali a sociedade protectora de animais ou algo no género, o gajo ver-se-ia numa camisa de onze varas. Percebe-se que essa vara tenha ficado mesmo louca, porque por (e em) princípio porcos não nadam, chafurdam na lama, e nem saltam de precipícios simplesmente porque não saltam. Que os terá feito saltar então? A consciência, supostamente. Quando os demónios lhes entraram no cérebro ou na alma, ganharam a consciência, e ao sentirem o peso dessa consciência, sentiram-se antinaturais, e resolveram saltar, optando pelo suicídio. Porém, como a ciência não acredita em demónios, o que fez que as vacas tenham ficado loucas? Será que é porque lhes põem a ouvir Mozart para estimular a produção de leite? Será que é porque em vez de as deixarem escolher o seu touro escolhem por ela um touro? Será que é porque em vez de ela dar a mamar naturalmente – obtendo o prazer freudiano (?) desse facto – põem-lhe nas tetas mamadeiras? Alguém de certeza sabe.

Se até as vacas, descerebradas segundo se diz, conseguimos deixar loucas, imaginem o que não fazemos aos nossos semelhantes! Algures num ponto da pré-história o homem ficou louco, se calhar foi mesmo quando despertou a sua consciência, ou foi quando Adão comeu a Eva, desculpem, a maçã, e o resto foi simplesmente transmissão de vírus através de diversos factores como a educação e a socialização.

Não simplificamos nada, em vez disso conotamos a simplicidade à pobreza, pobreza criativa, pobreza de espírito ou pobreza de qualquer outro tipo. Quanto mais complicados, mais gostamos. Deus deu duas tábuas de dez leis a Moisés – embora Mel Brooks tenha dito que foram três tábuas de quinze –, apenas dez, mas depois resolveu meter mais regras a observar. Hamurabi tinha outras tantas leis para cumprir, e a sua sociedade, pode-se dizer, vivia equilibrada, hoje temos milhentas vezes mais leis do que Hamurabi, mas a nossa sociedade é a mais complicada e desequilibrada. Ora digam lá se isso não é loucura. Por quê muito para complicar quando poucas podiam resolver tudo? Será que porque pouco não parece ser grandioso?

A grandiosidade é o nosso maior problema. É por sua causa que os homens se dividem e estabelecem classificações. Grupos julgando-se melhores que grupos, sistemas e subsistemas de aproximação e afastamento, indivíduos, famílias, classes, castas, clãs, tribos, etnias, raça, nacionalidade, cor, continentalidade, crença e só por fim a humanidade. E partindo do círculo menor, o indivíduo até chegar a humanidade, as igualdades reduzem-se abismalmente de tal forma que a humanidade parece não existir, embora esteja em voga agora o conceito globalização.

Quando começou tudo? Vai mesmo acabar neste século XX? Enquanto isso deve-se agir em conformidade ou à rebeldia? Loucos são os que remam contra a maré – loucos, loucos e loucos –, mas loucos também são o que se deixam arrastar sem contestar – loucos, sãos, mas loucos.

Qual é saída a escolher neste nosso tempo?

25 de maio de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS - CAP. II


O SENSO DE JULGAR

Não julguem para não serem julgados, disse uma vez o mais sábio homem que alguma vez reportou a história, depois de Leonardo da Vinci.

Que validade tem as opiniões humanas sobre assuntos alheios? Que validade tinha a opinião dos missionários quando acharam que os africanos só seriam salvos se abandonassem os seus cultos para abraçarem os deles?

Todos pretendem ter a capacidade de julgar, todos se sentem com o senso da justiça – coisa que não existe – mas ninguém nota que sabe julgar tão bem como sabe voar.

O homem criou a justiça para poder julgar injustamente em tranquilidade. A constituição, os direitos humanos, a Convenção de Genebra, só servem no papel e, provavelmente daqui a uns bons pares de anos, serão usados como contos para adormecer crianças. Hamurabi já tinha tentado legislar, mas isso não evitou guerras e injustiças, os judeus idem, mas o mal não mudou de aspecto, Péricles, Platão, Aristóteles, muitos mais tentaram. Ainda há quem acredite na justiça?

Os homens com dedo na testa sabem que a justiça é uma fantasia sem a qual os homens sem dedo na testa – incluindo os mutilados – não conseguem viver. Hoje não há, quer dizer, há sim, mas em minoria, homens que crêem na justiça, mas, apesar disso, continuam a pedi-la. Quem entende o homem?

Os advogados, os juízes, os juristas, e toda essa cambada, só defendem o salário e a comissão, não se preocupam em estabelecer a justiça, mas ganhar as causas, e se não defendem os pobres, usando pesos e medidas diferenciadas, é porque ganha-se mais a não condenar ou a não deixar serem condenados os ricos. Se mesmo os grevistas pobres furam greves porque se sentem mais a ganhar com os patrões estando do lado deles do que apoiando os colegas que lutam por um salário mais justo para eles, inclusive, não se vai perceber o acto dos supostos defensores da justiça? Não confundir perceber com compreender.

Quando um político discursa gaba a implacabilidade do governo a fazer justiça, implacabilidade que não garante a imparcialidade, mas granjeia assim confiança, confiança que traz dinheiro, dinheiro que traz injustiça, injustiça que pede pela Justiça, pedido que cria sistemas, sistemas que geram políticos, políticos que falam de Justiça, Justiça que não existe.

Justiça! Bela patarata! A justiça, a que temos a disfarçar-se da verdadeira, é uma ladra, rouba a privacidade, rouba a individualidade, cega a Razão. Desde tempos imemoráveis que se fala dessa fantoche. Dizem até que é cega, ou, que tem olhos vendados, e que anda com uma balança na mão esquerda, para pesar os actos humanos, e uma espada na direita para os castigar. Cega!, nem admiro que a pesagem nunca esteja certa.

A figura que mais se ajusta à justiça é como desenhou um cartonista: uma velha cansada com uma balança a qual falta um prato, uma espada enferrujada e a venda levantada de um dos olhos. Ela, em todo o caso, se fosse verdadeira, está já reformada, se em tempos idos os homens agiam conforme a sua vontade, hoje é ela que se submete à vontade do homem, o homem do poder; primeiro, senhora, agora, escrava.

A justiça é um defeito com que o homem vive; criou-a há incontáveis eras e tanto a ela se acostumou que já pode viver com a sua ausência. Mas, mesmo na definição tosca da actual justiça, o que é ela?

Um juiz que condena o próprio filho é mais justo do que aquele que iliba o seu mesmo o sabendo culpado?

O juiz que condena um filho, se calhar é ético, mas é um insano, pelo menos para mim, porque mal por pior venha o menor. E sei que quem ama é insano, portanto, com um silogismo sofístico podíamos concluir que um juiz que condena o filho fá-lo porque o ama, e logo é justo, ou seja, quem ama é justo. Logo, a justiça encontra-se no amor. Mas, para derrubar o próprio raciocínio, simplesmente temos que pensar que maior insano é quem ama o que não existe, e logo se a justiça não existe o juiz não pode ser justo e não sendo justo, não ama o filho e nem podemos conectar ao amor a justiça.

Ou vejamos esta outra ilustração: um pai que sabe que o filho será a sua desgraça e mata-o para enganar o destino é mais injusto (ou louco) do que aquele que ajuda o seu para que este venha a matá-lo? Laio era cruel quando queria desfazer-se de Édipo? Ou era louco Príamo por ter condenado o bebé Paris? E Hitler… era louco?

Julgue quem saiba, eu copio o Pilatos.


18 de maio de 2009

PENSAMENTOS INEXACTOS

Por exemplo, quem sabe se Homero, quando escrevia Ilíada e Odisseia, acreditava que escrevia verdades sob a direcção de uma inspiração divina, como os autores da Bíblia, ou então que escrevia apenas um romance, quando Hesíodo afirmava que também as musas mentem? Quem sabe se foram os homens que depois acharam que Homero escrevera verdades? Ou as verdadeiras verdades por ele escritas é que depois foram mitificadas? Homero escreveu do seu cérebro ou transpôs para o papel o que os outros diziam?

A razão ou a emoção? A cabeça ou o coração? Devemos aceitar fervorosamente todas as verdades porque há como prova quase uma população mundial que as aceita, ou devemos pensar nelas e rejeitá-las se assim dever ser?, eis a questão.


SOMOS LIVRES OU PRISIONEIROS

A sociedade concede o desejo de ser especial; conceituosamente, a essência de viver como ser saudável sempre é e será a séria preocupação assente no senso. Tenso, penso que simplesmente é difícil ser o ser social que o cérebro nosso sonha, e saber sentir o sabor que suaviza a seriedade de sermos servos de conceitos sociais e concede na existência a fragrância da saúde cerebral, independência e certo prócere. Mas está-se sempre indeciso sobre o que é preciso, sabendo que o nosso consórcio solicita muito siso e pouco riso, e eu não friso a causa disso.

Quem pensa que deve viver como o mundo o quer tem na vida a melodia doentia do prisioneiro. Eu penso que se deve ser o que se é, não o que o mundo quer que se seja – eu seria o que sou, não o que penso que sou, nem o que querem que seja – mas conhecer as balizas, onde cessam as minhas, onde nascem os doutros e onde comuns eles são, e a cadência nascerá da sua não transposição.

Sou eu um ser feito, não sou perfeito, mas perfeitamente imperfeito, não feito defeitos, mas cercado de preceitos em que usando conceitos colho preconceitos, criados por mim, emprestados ou impostos, aceitados ou rejeitados, mas fazendo-me o ser. Há em mim séries de assonâncias, consonâncias, dissonâncias e até mesmo ressonâncias, mas tento ser sem ânsias, cultivando a paciência, pois quem mais contra o ritmo dança mais cedo se cansa.

Com esperança penso na mudança, mas com pouca confiança, pois que ser é estar na lâminada da lança que a sociedade afia – e ciladas que entrança com imposições de regras que a uns cansam e a outros amansam – e nem se desconta que estamos na sua ponta, e de maneira tonta castiga os imprudentes que não evitam a alhada de contender.

Mas é preciso fugir de pontas, descer, subir, ficar no meio, meditar, pois o mundo está mal, preparar novas formas de viver, computar o mal das sociedades, reparar o ideais entortados, separar o essencial dos acessórios, amparar vontades de utopias – quando promovem diferenças – disparar sonhos contra o mal, decidir com escolhas altruístas para presidir a uma boa vida para todos.

A vida reside no espectro. O que é o mundo senão um ícone de sombras? São só sombras que trespassam o nosso sonho e dá-nos a impressão de termos escapado da caverna de Platão.

Eu sei que muitos não me vão entender e vão querer julgar-me.