19 de fevereiro de 2009

WHITE PRIDE RELOADED

Tinha dito que ia falar do post anterior WHITE PRIDE, demorou, mas finalmente. Vou tentar seguir parágrafo a parágrafo o texto e dizer os pontos da discordância.

Existem os americanos-americanos, disse o autor, e outros tipos de americanos cuja justaposição do nome se faz com outros identificadores tais como hispano, sino, afro, luso e não sei quantas. Pois bem, ele tem razão, tem mesmo. Mas quem inventou isso, essa diferenciação, não foram os americanos que se julgaram americanos puro-sangue, e que, portanto, os outros mereciam outras identificações que lhes mostrassem a diferença? Nativos americanos para os índios. Mas nesse contexto os índios são os puro-sangue, porque os restantes vieram da Europa levados pela colonização. E se eles deixaram de ser europeus, ou euro-americanos, para serem apenas americanos, por que não eram os pretos nascidos na América apenas americanos?

Os pretos e os outros julgam que não são racistas isso é certo. Mas todos são, os Panteras Negras e companhia eram todos racistas, aliás, até mesmo Ghandi era racista; porém tem uma coisa entre ser racista porque se tem que lutar pelos direitos e outro porque se quer negar os direitos a alguém que seja diferente.

Conheço monte de pessoas pretas que por qualquer coisa dizem: os tugas são racistas… e de facto, boa parte tuga é. Mas eles, esse monte de pretos, também não percebem que são racistas, porque são pretos. No filme “Ganda Moca Meu – A Fuga”, há uma cena no aeroporto onde um dos protagonistas é chamado para uma revista aleatória e começa a discutir que isso aconteceu porque era indiano e a acusar o revisor de racista, ao que este responde, com estranheza: “Dude, I’m black”. Ou seja, eu sou negro, sinónimo: não-racista. Não, não ser negro não significa não ser racista.

Entretanto, dificilmente podemos identificar um grupo de negros racistas no meio de brancos racistas, porque eles constituem a minoria. E o que o autor do texto anterior se esqueceu é que os grupos que chamou constituem a minoria. Por que é que há o dia das mulheres? Não porque elas sejam a minoria, mas simplesmente porque foram minorizadas, escravizadas durante tempos, impedidas de trabalhar, impedidas de votar, de tal forma que acabaram por criar um dia para se manifestarem. O dia de orgulho branco é todos os dias, devia sentir-se ditador por causa disso, visto que aos negros só é reconhecido um dia.

Não faria sentido algum na África os negros instituírem o dia de orgulho negro (aliás até acho uma parvoíce o 25 de Maio), porque lá todos os dias é-se negro sem que isso seja ofensa a ninguém. Nem fazer marcha para direitos dos pretos, porque se esses direitos não existem nalguns países ditadores, não é porque o canto oposto seja branco, mas ditador. Entretanto, os pretos fazem marchas no mundo branco pedindo os direitos porque quem lhes roubam esses direitos são os brancos.

Não creio que haja sentido em falar de orgulho branco sem que isso tenha mesmo um toque racista, porque a História diz que os brancos colonizaram o mundo e impuseram-se. Entretanto, concordo que se deve refrear essa treta de racismo praqui e racismo praí, porque, na maioria das vezes, é fútil e acaba por criar problemas que nem sequer deviam ser problemas. Por exemplo, no filme “Superbad” há uma cena em que um polícia se dirige a uma testemunha, que era preta, mas não quis chamá-la de preta porque isso podia ser considerado racismo.

Epá, somos todos homens, somos, existem diferenças, existem, pode-se aceitar a diferença numa boa e conviver com ela, afinal isto não tinha piada se fossemos todos iguais, além de que não podemos ser todos iguais.

Conclusão, quando li na primeira vez o texto WHITE PRIDE reconheci-lhe muito sentido, mas agora que estou a acabar este, sem mesmo dizer tudo o que podia ter dito, ou analisar todas a vertentes do white pride, salvo determinados pontos, reconheço infantilidade e uma análise superficial no texto e agora rotulo-o de risível.

11 de fevereiro de 2009

ARQUITECTURA BIOCLIMÁTICA

Arquitectura bioclimática é um tema muito em voga. As construções agora devem ser todas elas bioclimáticas devido a variadas razões, pois por quê gastar quando se pode poupar.

Muitas vezes pessoas mais leigas que eu julgam que arquitectura bioclimática é simplesmente promover benefícios energéticos nos edificados, entretanto...

Leiam os manuais. Disponho aqui dois que vai tirar qualquer dúvida a qualquer um (julgo eu, pois ainda continuo com as minhas, mas simplesmente porque sou lerdo a aprender), e ensinar aquele que está já sem dúvida.

Disponham.


Download: Arquitectura Bioclimática

13 de dezembro de 2008

EXPLORAÇÃO INFANTIL LEGALIZADA


Qual é o mais correcto?


Um filho de um vendedor cigano com 7 anos de idade a gritar na feira: olha DVDêêês, cinco euuuuurôôs!!!, ou outro com 7 meses de idade a fazer publicidade num programa de TV?

A escolha fica por vossa conta. Entretanto, a mim chateia-me a tanta hipocrisia que gira em torno de trabalho infantil. Defendem que as pessoas deviam começar a trabalhar quando atingissem a maioridade, mas apenas o fazem às crianças que andam na rua a pedir esmolas ou a ajudar os pais na venda; daquelas que aparecem nos programas da TV ou nos filmes, ou que lançam álbuns musicais não dizem nada. Por quê?

Eu sei que a Justiça, se é que existe, não é cega (se já fora, agora fez uma operação aos olhos), entretanto faz-me espécie que se condene os pais das crianças que mendigam na rua e não o façam aos das crianças que vemos nos cinemas. Em boa justiça, os pais cujas crianças estão na rua a apregoar dvds pirateados ou artigos roubados têm muito mais razão e motivo para porem os seus filhos nesse local e naquele trabalho, visto que necessitam de dinheiro para sobreviver, e possivelmente o que o filho vai ganhar até o fim do dia é que lhe vai garantir a sobrevivência do dia seguinte (pois temos mais empatia pelas crianças, e mais rápido compraremos um artigo que não precisamos de uma criança do que de um adulto). Já os pais ricos que metem os filhos a trabalhar no cinema ou na publicidade da TV não têm essa desculpa.

Passava um programa na SIC com uma miúda que fazia de assistente do apresentador, devia ter uns nove anos ela, o programa acho que se chamava dominó; na Disney Channel as crianças fazem o gosto dos telespectadores apresentando programas... mas ninguém se queixa, ninguém reclama da exploração infantil... mas ninguém pensou que isso é do pior tipo de exploração que existe. Por que metem lá crianças senão para ganhar audiência, para criar uma espécie de identificação do público infantil com os apresentador e para desta forma fazer mais dinheiro. Todos sabem que as crianças agora estão cada vez menos a quererem ser bombeiro, astronautas, polícias ou médicos, e a cada vez mais a serem músicos, jogadores ou actores famosos, o que se reflete muito na diminuição da capacidade intelectual que os professores têm acusado nos seus relatórios.

Eu não sou a favor da exploração infantil, mas vamos lá tentar ser equinames: se não vamos criticar os putos que estão a trabalhar para empresas multimilionárias para as tornar mais ricas não critiquemos o desgraçado pai que sofre por não ver poder ver o filho na televisão (e quando isso acontece é para ouvir os cretianalistas sociais a falar mal dele) e ainda o tem na rua a viver miseravelmente e a fazer o trabalho que ele não gosta.

Quem não sabe da segregação que se suporta na sociedade hodierna? E ainda não querem que os pais preparem os filhos para sobreviver da única forma que conhecem?

De dois males o menor! Eu também prefiro a situação da primeira foto do que desta última; todavia, quando se vai falar de exploração infantil não escolham a franja social desprotegida para apontar o dedo, mas apontem o dedo a vós mesmos, milionários que controlam empresas multinacionais e cadeias televisivas e etc., e verão que os pais não punham os filhos a serem explorados por vocês mesmos se tivessem forma de os livrarem disso. Portanto, basta de hipocrisia.

O TRABALHO DIGNIFICA?

Ainda era eu de leite quando começaram a ensinar-me que o trabalho dignifica o homem. Cresci a ouvir sempre isso que passei a acreditar. Também que saída tinha?, todo o mundo acreditava!!! Todavia, não sei por quê, mas não me preocupava muito com o trabalho, eu ainda era puto e não um homem.


Entretanto, hoje digo que essa frase foi criada simplesmente para meter a todos na forca, adornando-lhes a garganta com uma corda, mas sem que ninguém reclame. Vamos ver o que é trabalho!

O trabalho não é o esforço físico, não, que simples era se fosse assim.

O trabalho siginifica estares a matar-te para enriquecer outra pessoa em troca de um salário - proletariado. O trabalho é aceitares a tua condição de escravo e ainda ficares grato. O trabalho é o grande inimigo da família. E a família, meus amigos, é hipocritamente considerado o núcleo fulcral da sociedade, o órgão que sustenta as sociedades e estabiliza-as. Por isso, não compreendo como é que governos que, nos seus planos e discursos, sobrevalorizam muito a família são a favor do trabalho. Contraditório.

O trabalho define-se por um hipotético mínimo de oito horas diárias longe da família (sem contar com o tempo de ida e de vinda), o que gera pais e filhos que se cruzam só aos fins de semanas, maridos e mulheres que vão para a cama juntos só nas férias e nos feriados, porque os horários são incompatíveis, porque têm que ir dormir as duas para acordar as seis; o que se traduz em:
  • filhos com pais presentes constantemente ausentes que manifestam a sua revolta atacando os professores, onde vêem a débil substituição paterna (agressão deslocada);
  • jovens cada vez mais mal educados (não culpabilizo aqui as escolas e intituições de ensino, que como todos sabem não educam, apenas instruem) e cada vez mais drogados e sem norte;
  • estabilidade social cada vez mais fictícia;
  • divórcios em alta escala (esposos que não se vêm acabam por criar maiores laços com colegas de trabalho, sendo aliciante a traição e a ruptura do lar);
  • criminalidade em alta por causa da disparidade de classes sociais.
Eu sei que os pontos que fiz podiam ser acreditados ao sistema económico e não ao trabalho, mas o sistema económico é que dita o modo de trabalho e de recompensa. Eis a dialéctica marxista: abolir a classe, pois essa constante substituição não ajuda: saiu-se da parelha senhor/escravo para feudal/servo da glebe para empresário/empregado, e o que é que mudou? NADA!!!!

Precisamos é de um novo primeiro de Maio, qual o que aconteceu em Chicago não me lembro em que ano, que nos reduziu a pena a estas fingidas 8h/dia, para termos mais horas com a nossa família.

Já perguntaram por que razão o horário escolar é praticamente 8 horas, como os nossos trabalhos? Porque o governo sabe que tem que ocupar os nossos filhos com alguma coisa para que possamos nos dedicar de cabeça fria enquanto tornamos os nossos empregadores mais ricos e potentes. Preocupam-se connosco os governos?, com os nossos filhos?, niente, nothing, rien, nada. Estamos num sistema capitalista, amigos, o que importa são os bancos, não as pessoas.

Ninguém nos vai tirar da escravatura a não sermos nós. Enquanto não tomarmos consciência e passarmos a ensinar os nossos filhos que o trabalho não dignifica, mas ecraviza e a agirmos nesse sentido e não nos deixarmos ser escravizados (pelo menos com a pesada pena que nos impõem agora), tenho pena dos nossos bisnetos, pois continuarão no mesmo inferno que nós.

Há pessoas que trabalham voluntariamente e fazem coisas mais importantes que a maior parte do resto do mundo, mas como não ganham dinheiro ou não produzem lucros, são considerados preguiçosos e "indignos", aliás, a maior vergonha que temos hoje em dia é de nos anunciarmos como desempregados, porque passa a ideia de que somos uns mandriões. As mulheres, por exemplo, que cuidam das suas casa, filhos e família, podem passar o dia todo nisso, mas não são "trabalhadoras", logo, "indignas". E quem são os "dignos" que todo o mundo respeita? São os que ganham rios de dinheiro, mesmo que no processo atropelem toda a ética e condutas morais possíveis.

O que é necessário é valorizar os nossos esforços e reconhecer a nossa dignidade, e pararmos de aceitar que nos vendam patranhas.

28 de julho de 2008

WHITE PRIDE

Uma amiga mandou-me este texto por mail, e eu achei que merecia ser lido por outras pessoas e discutido. Reconheço algumas verdades nele apresentadas, razão por que estou a veiculá-lo, porém, digo que essas verdades, embora as sejam, estão condicionadas a determinados factores que, talvez noutro post, vou falar. Pois, há aqui uma questão sociológica profunda que não sei se tenho capacidade para destrinçar, mas enfim, não sou o dono da verdade...
Por enquanto, leiam o texto e reflictam.

Michael Richards, conhecido como Kramer da série televisiva Seinfeld, levantou um bom problema. O que se segue é o seu discurso de defesa em tribunal depois de ter feito alguns comentários raciais na sua peça de comédia. Ele levanta alguns pontos muito interessantes:



ORGULHO EM SER BRANCO


Quantas pessoas estão actualmente a prestar atenção a isto? Existem Afro-Americanos, Americanos Hispânicos, Americanos Asiáticos, Americanos Árabes, etc.
E depois há os apenas Americanos.
Vocês passam por mim na rua e mostram arrogância. Chamam-me 'White boy,' 'Cracker,' 'Honkey,' 'Whitey,' 'Caveman'... e está tudo bem. Mas quando eu vos chamo Nigger, Kike, Towel head, Sand-nigger, Camel Jockey, Beaner, Gook, ou Chink, vocês chamam-me racista. Quando vocês dizem que os Brancos cometem muita violência contra vocês, então por que razão os ghettos são os sítios mais perigosos para se viver?
Vocês têm o United Negro College Fund.
Vocês têm o Martin Luther King Day.
Vocês têm Black History Month.
Vocês têm o Cesar Chavez Day.
Vocês têm o Yom Hashoah.
Vocês têm o Ma'uled Al-Nabi.
Vocês têm o NAACP.
Vocês têm o BET [Black Entertainment Television] (tradução: Televisão de Entretenimento para pretos)
Se nós tivéssemos o WET [White Entertainment Television] seriamos racistas.
Se nós tivéssemos o Dia do Orgulho Branco, vocês chamar-nos-iam racistas. Se tivéssemos o mês da História Branca, éramos logo taxados de racistas.
Se tivéssemos alguma organização para ajudar apenas Brancos a andarem com a sua vida para frente, éramos logo racistas.
Existem actualmente a Hispanic Chamber of Commerce, a Black Chamber of Commerce e nós apenas temos a Chamber of Commerce.
Quem paga por isto?
Uma mulher Branca não pode ser a Miss Black American, mas qualquer mulher de outra cor pode ser a Miss America.
Se nós tivéssemos bolsas direccionadas apenas para estudantes Brancos, éramos logo chamados de racistas.
Existem por todos os EUA cerca de 60 colégios para Negros. Se nós tivéssemos colégios para Brancos seria considerado um colégio racista.
Os pretos têm marchas pela sua raça e pelos seus direitos civis, como a Million Man March. Se nós fizéssemos uma marcha pela nossa Raça e pelos nossos direitos seriamos logo apelidados de racistas.
Vocês têm orgulho em ser pretos, castanhos, amarelos ou laranja, e não têm medo de o demonstrar publicamente. Mas se nós dissermos que temos 'Orgulho Branco', vocês chamam-nos racistas.Vocês roubam-nos, fazem-nos carjack, disparam sobre nós. Mas, quando um oficial da policia Branco dispara contra um preto de um gang ou pára um traficante de droga preto que era um fora-da-lei e um perigo para a sociedade, vocês chamam-no racista.
Eu tenho orgulho. Mas vocês chamam-me racista.
Por que razão só os Brancos podem ser chamados de racistas?

Só para fechar o post digo: talvez não saibam, mas eu sou preto.

30 de abril de 2008

OS NOVE POLÍCIAS

O texto pertence a Mark I. Vuletic e foi catado do site www.ateus.net (link).


Anteriormente intitulado “Os Cinco Polícias” (2000), Vuletic atualizou este ensaio para incluir mais pontos de vista, agora nove ao todo.

Quando a Sr.ª K. foi lentamente violada e assassinada por um criminoso comum durante uma hora e cinqüenta e cinco minutos, à vista de nove polícias completamente armados que estavam fora de serviço e que ignoraram os gritos aterrorizados dela suplicando por ajuda e que se limitaram a olhar até que o ato foi levado ao seu fim horrível, dei por mim enfrentando uma crise pessoal. Os polícias tinham sido meus amigos pessoais muito próximos, mas agora vi a minha confiança neles completamente abalada. Felizmente, pude falar com eles depois e perguntei-lhes como puderam simplesmente ficar ali sem fazer nada, quando podiam ter facilmente salvo a Sr.ª K.

“Pensei em intervir”, disse o primeiro polícia, “mas ocorreu-me que obviamente era melhor para o assassino poder exercer o seu livre-arbítrio do que tê-lo restringido. Lamento profundamente as escolhas que ele fez, mas esse é o preço a pagar por se ter um mundo com agentes livres. Você preferiria que todas as pessoas do mundo fossem robôs? As ações do atacante com certeza não estavam sob o meu controle, portanto não posso ser responsabilizado pelas ações dele”.

“Bem”, disse o segundo polícia, “a minha motivação era um pouco diferente. Estava prestes a puxar a minha arma contra o assassino quando pensei: ‘Mas espere, não seria esta uma oportunidade perfeita para algum transeunte desarmado exercer heroísmo altruísta, caso passasse por ali? Se interviesse todas as vezes, como estava prestes a fazer, então ninguém poderia jamais exercer tal virtude. De fato, provavelmente ficariam todos muito mal habituados e centrados em si mesmos se impedisse todos os atos de violação e assassínio’. Foi por isso que não fiz nada. É pena que ninguém tenha aparecido para intervir heroicamente, mas esse é o preço a pagar por se ter um universo onde as pessoas podem mostrar virtude e maturidade. Você preferiria que o mundo fosse todo amor, paz e rosas?”

“Nem sequer considerei a hipótese de intervir”, disse o terceiro polícia. “Provavelmente tê-lo-ia feito se não tivesse tanta experiência da vida como um todo, pois a violação e o assassínio da Sr.ª K. parecem bastante horríveis quando considerados isoladamente. Mas quando você os coloca no contexto com o resto da vida, de fato acrescentam algo à beleza geral da imagem maior. Os gritos da Sr.ª K. eram como as notas discordantes que tornam uma excelente peça musical ainda melhor do que se todas as suas notas fossem perfeitas. De fato, quase não consegui evitar acenar com as minhas mãos à volta, imaginando que eu próprio estava a dirigir as deliciosas nuances da orquestra”.

“Quando cheguei ao local, de fato saquei o revólver e apontei-o mesmo à cabeça do violador”, confessou o quarto polícia, com um olhar muito culpado na face. “Estou profundamente envergonhado de ter feito isso. Sabes quão perto cheguei de destruir todo o bem do mundo? Quero dizer, todos sabemos que não pode haver qualquer bem sem mal. Felizmente, lembrei-me disso mesmo a tempo, e invadiu-me uma onda de náusea tão forte quando me apercebi do que quase tinha feito, que fiquei prostrado no chão. Safa, foi por pouco”.

“Olha, é realmente inútil tentar explicar-te os detalhes”, disse o quinto polícia, a quem tínhamos posto a alcunha ‘Crânio’ porque tinha um conhecimento enciclopédico de literalmente tudo e um QI que rebentava com a escala. “Há uma excelente razão pela qual não intervim, mas é demasiado complicada para tu perceberes, por isso nem sequer me vou dar ao trabalho de tentar explicar. No entanto, para que não haja qualquer mal-entendido, deixa-me sublinhar que ninguém podia ter se preocupado com a Sr.ª K. mais que eu, e que sou, de fato, muito boa pessoa. Isto resolve o assunto”.

“Teria defendido a Sr.ª K.”, disse o sexto polícia, “mas isso simplesmente não era exeqüível. Você está a ver, quero que toda gente acredite livremente que sou boa pessoa. Mas se interviesse constantemente quando ocorrem violações e assassínios, isso forneceria a todos a evidência de que precisam sobre a minha bondade, e desse modo forçá-los-iaa acreditar que sou bom. Consegue imaginar uma violação do livre-arbítrio mais diabólica que essa? Obviamente, foi melhor afastar-me e deixar a Sr.ª K. ser violada e assassinada. Agora todas as pessoas podem escolher livremente acreditar na minha bondade”.

“Vou contar-lhe um segredo”, disse o sétimo polícia. “Momentos depois de a Sr.ª K. ter falecido, fiz com que ela ressuscitasse e fosse transportada para uma ilha tropical onde está agora gozando bênçãos extraordinárias, e o sofrimento dela não passa de uma memória distante. Estou certo que você concordará que isso é uma compensação mais do que adequada para o sofrimento dela, portanto o fato de ter simplesmente ficado ali a olhar em vez de intervir não tem nada que ver com a minha bondade”.

O oitavo polícia surpreendeu-nos todos quando revelou um segredo surpreendente sobre a Sr.ª K. “Criei-a através de engenharia genética a partir do nada. Eu a fiz, portanto é minha propriedade, e posso fazer o que quiser com ela. Eu próprio podia violá-la e assassiná-la se estivesse inclinado a fazê-lo, e isso não teria sido pior do que você rasgar uma folha de papel que lhe pertence. Portanto, não se põe a questão de eu ser uma má pessoa por não ajudá-la”.

E, por fim, falou o nono polícia. “Contratei o oitavo polícia para criar a Sr.ª K. para mim, pois queria alguém que me amasse e adorasse. Mas quando abordei a Sr.ª K. sobre o assunto, ela afastou-se de mim, como se conseguisse encontrar significado e felicidade com outra pessoa qualquer! Por isso decidi que a coisa amorosa a se fazer seria vergar o espírito dela fazendo com que fosse violada e assassinada por um criminoso comum, para que ela, no seu extraordinário sofrimento, se virasse para mim, cumprindo assim o propósito para o qual ela tinha sido criada. Bem, estou feliz por dizer: missão cumprida! Alguns segundos antes de morrer, ela estava tão enlouquecida com o terror, a dor e o desespero que, de fato, convenceu-se de que me amava, pois sabia que só isso poderia pôr fim ao sofrimento. Nunca esquecerei o amor nos seus olhos quando me olhou uma última vez, suplicando por misericórdia, mesmo antes de o criminoso se inclinar e lhe cortar a garganta. Foi tão belo que ainda me traz lágrimas aos olhos. Agora só tenho de ir àquela ilha para que ela possa reclamar o prêmio por me ter servido”.

Nesta altura, tinha ficado claro para mim que qualquer dificuldade que pudesse ter tido em reconciliar a suposta bondade dos polícias com o seu comportamento naquele dia era infundada, e que qualquer pessoa que tomasse posição contra eles, só o podia fazer por gostar da vitória do mal sobre o bem. Afinal, qualquer pessoa que tenha experimentado a amizade deles do mesmo modo que experimentei sabe que são bons. A bondade deles até é manifestada na minha vida – eu estava num estado de confusão mental antes de os conhecer, mas agora todas as pessoas reparam na pessoa mudada que sou, muito mais bondoso e feliz, visivelmente possuído de uma calma interior. E encontrei tantas pessoas que se sentem exatamente da mesma maneira sobre os polícias – tantas pessoas que, como eu, conhecem em seus corações a verdade que outros tentam racionalizar com seu frio raciocínio e sua lógica estéril. Estou envergonhado de alguma vez ter duvidado que os nove polícias merecem a minha lealdade e amor.

Quando me preparava para ir embora, o primeiro polícia falou outra vez. “A propósito, também acho que deves saber que quando ficamos ali a ver a Sr.ª K. sendo violada e apunhalada vez após vez, nós estávamos a sofrer juntamente com ela, e sentimos exatamente a mesma dor que ela, ou talvez até mais”. E todos que estavam ali, incluindo eu, acenaram a cabeça concordando.



Pós-escrito

Líderes religiosos, não fiquem ofendidos. Fiz esta parábola de forma tão descarada quanto pude, mas o meu objetivo não é insultar ou blasfemar. Reparei que crentes religiosos são muitas vezes condicionados a aceitar soluções simplistas para o problema do sofrimento, e que é impossível abalar esse condicionamento através de uma análise fria. A tentação de oferecer a uma entidade um cheque em branco simplesmente porque alguém lhe colou o rótulo de “Deus” é esmagadora na nossa cultura teísta. Daí esta tentativa de enfatizar a questão através de um meio tão afastado da análise fria quanto possível. Mas, repito, é para enfatizar esta questão, não é para ferir ninguém. Não escrevi nada que não desejasse que me fosse dirigido quando eu próprio era um crente religioso.



Agradecimentos

Gostaria de agradecer a Michael S. Valle e Jeffery Jay Lowder por reverem versões anteriores deste artigo.

1 de abril de 2008

MORTAL KOMBAT: Teacher vs Student

Desde o início do mundo que conflitos têm pontuado a raça humana. Na versão criacionista, Deus fez a luz no escuro, Adão quis comer a fruta, Caim matou Abel… América invadiu Iraque… professora luta com aluna.

Na versão evolucionista, temos a teoria da evolução defendida por Lamarck, os animais têm que superar desafios e estar mais aptos para garantir a sobrevivência da espécie… luta… guerra… guerra… aluna luta com professora.
Vejam o vídeo:




Para quem não sabe isto aconteceu numa escola portuguesa… não há nada de vergonhoso nisso, acontecem coisas piores que isto nas escolas de todo o mundo, e até pode-se ficar orgulhoso porque não houve ninguém que sacasse de uma arma e desatasse a atirar sobre os colegas… Os órgãos de comunicação não têm falado de outra coisa senão da cena em questão… e quem leva com as culpas? É claro, a aluna e o cineasta.

De há um tempo para cá, tem havido muita solidariedade com os professores, porque querem plenos poderes sobre alunos mas a ministra não lhes quer dar isso, ou porque são agredidos pelos alunos (nos meus tempos de puto, quem levava com a palmatória na sala costumava ser eu e não o professor), pelo que criticam os pais de não saberem educar os filhos, mas ninguém procura saber se esses alunos-agressores não são filhos de professores-educadores.

Mas não é isso que está em questão. Está em questão a autoridade. A autoridade dos professores porque sentem-se inválidos por não poderem distribuir palmatoriadas conforme lhes der na telha; a autoridade do Governo porque todos lhes caem em cima como se fosse ele a induzir a aluna ao acto que vimos; a autoridade dos pais que ficaram envergonhados por causa do acto dos filhos; mas destas autoridades a única não questionada foi a da professora.

No entanto, qual é o direito que a professora tinha de tirar o telemóvel à força à aluna? A meu ver, nenhum.

Numa situação como essa, a professora (educadora) não devia ter essa atitude infantil de entrar em confronto físico com a sua aluna (educanda), mas ponderar e agir como uma adulta. Chegou-se a isto que vimos por quê? Porque a educadora sentiu-se desautorizada por a educanda não ter querido entregar o telemóvel, e quis mostrar à turma que quem mandava era ela. E a educanda por sua vez, se se submetesse pela força, perdia a sua autoridade perante os colegas. E, pelo amor de deus, a miúda tem praí dezasseis anos, quem sabe o tipo de mensagens que estava a trocar com o namorado ou fosse lá com quem fosse? Se elas fecham os quartos aos próprios pais, porque teria de ser a professora a invadir a sua intimidade. Alguém por acaso notou a cara de impotência que ela fez, ao ver que não tinha outra forma de reaver o seu pertence? Quer dizer, falando agora da infantilidade da professora, se a miúda lhe tivesse dado um estalo ela também retribuiria com a mesma fórmula?

Estranha-me que ninguém tenha questionado as acções da professora, e até agora só se falou dos alunos e da cumplicidade entre eles em relação a postura violenta da miúda. Além do mais, tenho impressão de que nessa mesma escola um aluno já foi assaltado, tendo sido esfaqueado, porém, não se usou esse exemplo para mostrar o quanto violento a escola era, e vão pegar nesse confronto estúpido para o fazer? Eu não vejo senão políticos atrás disto. Mas, voltemos à professora... O que eu faria na posição dela era pedir à aluna que abandonasse a sala e se ela não o fizesse, abandonava eu e iria instaurar um processo disciplinar… esta é uma forma; outras existem e nenhuma violenta.

Eu só acho que devia ser altura de parar de martirizar a pobre estudante… não defendo que ela tivesse tido um bom comportamento, mas eu já fui adolescente e sei quantas vezes tive que engolir o sapo para não me comportar de forma repreensiva.

Eu sou um estudante universitário e uso o telemóvel dentro da sala, em silêncio, para não perturbar os colegas. Não vejo mal nenhum no uso de telemóvel, desde que com moderação e de forma limpa. Mas isso não vem ao caso.

Os órgãos de comunicação como já sabemos tem o poder de marionetar o ponto de vista do povo e é o que têm feito concentrando-se apenas numa parte do problema… eu não acho que estejam a fazer isso sem dolo, mas isso é outro assunto.

Mas devia-se saber que conflitos fazem parte da raça humana e da nossa condição bestial, porém a forma de resolvê-lo é que mostra o nosso humanismo e o valor intelectual. E se tiver que culpar alguém nesta contenda, culpo a professora, porque devia ser superior à aluna e devia ter pelo menos uma unha de testa.

Já agora, o título não foi muito feliz.
Eu sei que a maioria tem opinião contrária à minha, e gostava que lessem aqui uma, que no entanto, não desvirtua o que eu aqui defendi: aqui