



Há vezes em que uma pessoa não sabe mesmo o que quer. Diz uma e faz outra, promete e não cumpre, pensa que sabe... mas não sabe nada. Há vezes tão negras na alma da pessoa que ela não consegue desfrutar nem mesmo de um sorriso que parece a mais sincera coisa no mundo. Durante esses momentos tudo parece preenchido de tristeza, miséria e falsidade; mesmo no meio de uma multidão a pessoa sente-se solitária, abandonada numa extrema solidão. As palavras deixam de soar, parecem sem sentido, as luzes apagam, o barulho não se distingue do silêncio, é tudo uma mistura caótica. Esses são os momentos infernais de uma alma.
São nessas horas que percebemos o quão ridículo é o mundo e como é enevoada a nossa consciência.
São nessas horas que, sem confiança, caminhamos numa ponte como se estivéssemos a cair num abismo... sem fé, sem certeza, com o céu carregado de nuvens plúmbeas a ameaçar desabar num temporal.
São nessas horas que não conhecemos o credo, não podemos mais confiar nem em nós mesmos, nem em pessoa alguma. Essas horas melancólicas acontecem quase sempre, a maior parte das vezes temo-las no fundo recalcadas, mas outras vezes saltam à vista, colando-se à pele, orientando os nossos comportamentos.
São horas do engano, em que usámos palavras sem saber verdadeiramente o que significam, que usamo-las tantas vezes e em tantas ocasião e com tantas pessoas que nem sabemos qual devia ser a verdade e qual não. Tantas que nem sabemos que estamos a mentir ou que somos vistos a mentir, pois ficamos viciados nessa mentira. O corpo, muitas vezes, não alinha, os olhos são também um inimigo, a mentira e dita mas não convence, pois os actos gritam o contrário.
São essas horas de logro, horas nuas e cruas, e cruéis ainda por cima que nos martirizam, que nos chamam lágrimas aos olhos. São nessas horas que percebemos que nada é nosso, nem mesmo o sonho que nasce na nossa cabeça, porque depende de outrem.
São nessas horas que percebemos que a única coisa que nos resta são as mágoas que nos incham o peito, sufocando-nos com soluços e tremores. A respiração corta, asfixiados pelos pensamentos, sacudidos pela tristeza e desilusão de ter confiado, chorando por uma inspiração errada, tentando desvanecer os conflitos interiores e agitar para quebrar as cadeias que nos acorrentam… Enfim, chovemos em desfeitas, ais, juras e tormentos. Parece-nos toda uma existência jogada fora, todo o tempo que podia ser precioso enclausurado num frágil ovo e desvalorizado. A nossa visão fica esfumada, não nos apercebemos do que se passa, o nosso ser é adulterado; não mostramos o que somos, ostentamos máscaras e vemos apenas o que queremos ver. No fim do teatro, quando o pano cai e as máscaras são postas de lado, a verdade aflora e a desilusão nasce. O pior é quando pensámos com cérebro de ouro e acabámos por ver pensamentos de lama. Grande desilusão.
A verdade é tão vedada que parece não existir, o sincero mistura-se com o falso, a animalidade com a santidade, o inferno e o paraíso não se separam… enfim, ninguém há que possa fazer um juízo justo e equilibrado. Que dizer quando não se tem voz? A mudez é o melhor remédio… se não cura, pelo menos não complica. É quando se diz: o incomodado que se mude; e é quando não se sabe dizer se o incomodado é o próprio incómodo.
Não há pior momento que o cair acidental das máscaras. Apanha-nos de surpresa, e não só a nós, mas também ao mascarado e principalmente a ele, pois nunca espera revelar a identidade.
É… foi sempre assim e assim continuará a ser até os homens começarem a mudar de casca. Estaremos sempre de máscaras prontas e a fazer política do ego. Quem é enganado não é estúpido, deixa-se enganar, é idiota.
São nessas horas em que não enganamos e somos enganados, em que acreditamos no que não devemos é que chamamos o nosso pesadelo e pintamos de negro a existência.
Arrisco a passar-me por insensível, mas não sou, e tenho amigos que o possam confirmar, entretanto vou falar aqui de um tema muito forte, e tenho impressão de que vou ferir sensibilidades, mas espero que não seja por isso que não deva falar disto.
Não pensem que sou contra Maddie, Deus me livre disso, mas sou contra essa hipocrisia barata e fodida com que se impregna as coisas para provocar outros efeitos. Parece-me que quem na verdade se está a lixar para Maddie, são os seus pais, familiares e amigos. Para a PJ é só um caso, para a Imprensa, uma notícia, para o povo, motivo de conversa, para o internautas, lixo electrónico.
A citação não é de ninguém, de momento não me ocorre nenhum escritor conhecido que tenha usado frase semelhante, mas frases do género abundam na literatura, principalmente na literatura cor-de-rosa barata. Fi-la para poder perguntar: por que raio o sexo é considerado animal? Por que é que a nossa animalidade tem que se reflectir no sexo? Será que todos os impulsos homeostáticos são animais (embora o sexo não seja enquadrado por alguns nessa tabela, porque se considera que não põe em risco a existência do indivíduo)? O que quero discutir não é se o sexo é ou não um impulso homeostático, mas sim se é animal, ou melhor, se for animal, se é sujo.
Vamos lá perguntar: quem é que anda com a boca tapada? Ninguém (tirando o Michael Jackson). Não, ninguém tapa a boca, só temos que tapar as partes ligadas ao sexo, os genitais, as mamas e o rabo… mas não será a boca também um órgão sexual? Aliás, o maior órgão sexual. Não é a boca que faz elogios, que convida o parceiro, que combina o sexo, que começa os beijos, que faz um broche ou um minete (desculpem se eu não disse felação ou cunnilingus - cona-língua - mas não seria mais explícito?)? Já Freud falava da boca como o primeiro ponto de erotismo, ou melhor, o primeiro órgão erótico de um indivíduo. E, na minha opinião, a boca é o mais desenvolvido órgão sexual que existe. Mas ninguém censura a boca, nem é indecente dizer boca, enquanto que dizer caralho já é.
Isso fez-me pensar: E nós? Não estamos nós todos cegos? A educação que recebemos, os preconceitos em que somos criados, os dogmas ditos incontestáveis, a proibição de sermos diferentes daquilo que vou chamar de Regra de Conduta do Senso Comum (conforme as diferentes culturas, é claro), todos este factores, e mais outros aqui não nomeados, não nos cegam?
terra de cegos, todos são reis e sábios e que tem olho é louco. Imagine uma pessoa a descrever Van Gogh a cegos (nascidos cegos ou cegos por opção – aqui a palavra cego toma uma conotação embaralhada), o primeiro comentário seria: Devemos internar este desgraçado, pois já não diz coisa com coisa.