12 de maio de 2007

NO PRINCÍPIO


Ab ovo eu não existia, mas quando comecei a existir foi o princípio, o princípio do mundo. Isto é relativo, eu sei (maldita a hora em que Einstein foi criar este conceito - como disse um amigo - pois hoje tudo o que se diz, remata-se com: é relativo), mas o mundo antes de eu, embora pudesse já ter existido, e descobri depois que já existia, não me dizia nada. Tenho impressão de que a toda gente.

Isto aqui é uma tentativa patética de começar este blog. Quer dizer, devem existir por aí blogs mais patéticos que este meu começo... mas tem que se fazer alguma coisa.
Estive a pensar: o que é que se pode escrever para chamar à atenção? Sei lá! Lembro-me que já tinha começado um blog, o qual abandonei porque era fodido de trabalhar (Ah! vou avisar que por vezes uso linguagem vulgar) e estava a dar erros e acho que fiz ali esta mesma pergunta.

Confesso não saber o que devo escrever para ser interessantes, mas aviso desde já àqueles que esperam encontrar aqui respostas sobre a existência, ou dicas de como ser um engatatão (ou engatatona), ou relatos à maneira da puta surfista, ops!., quer dizer, Bruna Surfistinha, para fecharem a página. Pois eu vou fazer como todos os desiquilibrados que andam por aí a escrever parvoíces, vou escrever parvoíces.
Entretanto, até lá.

2 de fevereiro de 2007

FETO EXPULSO VS CRIANÇA ABANDONADA

Wrestling! Definição.

Alguns dizem que é um desporto, outros que é teatro, há ainda aqueles que afirmam que é uma treta infantil com gigantes adultos e uns manipuladores de massas populares com Q.I. reduzido e saudosas do circo romano. O polegar para baixo: mata. Desde que cheguei a Portugal que estou a ver essa febre, até já estou a conhecer o nome dos tipos, e vou confessar (sinto-me envergonhado, mas tem de ser), até já vi alguns combates na TV.

Não sou português, talvez não devesse falar de assuntos portugueses, mas há aqueles que embora situem numa determinada fronteira, são internacionais, pelo que julgo que de tal forma que posso falar de Saddam sem ser iraquiano, posso falar do maior combate do wrestling português.

Em dois cantos opostos do ringue temos: Feto Expulso e Criança Abandonada. No dia 11, ao vivo e em directo, vai ser passado a digladiação, só que este combate não é a símulação de costume, portanto dispensa “pípolis” com Q.I. de dois dígitos e manipuladores hipócritas e conturbadores das massas e exige um elevado grau de bom senso e capacidade de raciocínio.

Para os que pensam: SIM ou NÃO ao aborto! Eis a questão.

Qualquer que seja a natureza de uma decisão, sempre parece ser algo difícil de tomar, mas todas elas decisões, por mais questões que envolvam, resumem-se numa dualidade: ou o sim ou o não. E é isso que se pede ao portugueses.

Eu não vou votar, mas o meu voto seria de certeza aquele que daria vitória ao lutador que eu escolhesse, e gostava que tu que está ler isto tivesse esta mesma certeza.
Bom, sendo que não posso fazer mais nada só vou deixar aqui algumas perguntas, que certamente outros já tinham feito:

  1. Homicídio é quando se mata um homem, um humano vivo. Um feto é um ser humano? Um feto ou uma criança na barriga tem direito a B.I. ou ser inscrito na Segurança Social?
  2. Hipocrisia é quando... ora, toda gente sabe o que é hipocrisia. Será que é justo só alguns poderem viajar para lá fora irem receber tratamentos que aqui impedem aos restantes?
  3. A lei é dura mas é a lei. Será leial prender uma adolescente de 14 anos que cometeu aborto porque não podia ter esse filho?
  4. O amor educa mas não paga a educação. Será lícito uma pessoa ser obrigada a ter um filho que não deseja e não ter dinheiro depois para sustentá-la?
Acho que estas perguntas chegam, embora eu quisesse apresentar aqui uma tese que envolva a gravidez interrompida, mas não me sito muito inteligente hoje. E agora vai a última pergunta: Não seria melhor abortar um feto do que deixar uma criança no caixote de lixo?

Na minha opinião, não devia ser discutido a questão de aborto desta forma, se as pessoas realmente não querem aborto, podiam era pedir um referendo para copiar a nova lei alemã: 25.000 euros para quem tiver um filho.

9 de novembro de 2006

SERÁ O SEXO SUJO?

Entrámos no quarto, o calor era tanto, todo o nosso corpo estava em ebulição, as roupas começaram a abandonar o nosso corpo, precisávamos de satisfazer a nossa fome animal.


A citação não é de ninguém, de momento não me ocorre nenhum escritor conhecido que tenha usado frase semelhante, mas frases do género abundam na literatura, principalmente na literatura cor-de-rosa barata. Fi-la para poder perguntar: por que raio o sexo é considerado animal? Por que é que a nossa animalidade tem que se reflectir no sexo? Será que todos os impulsos homeostáticos são animais (embora o sexo não seja enquadrado por alguns nessa tabela, porque se considera que não põe em risco a existência do indivíduo)? O que quero discutir não é se o sexo é ou não um impulso homeostático, mas sim se é animal, ou melhor, se for animal, se é sujo.

Silogisticamente, se nós somos animais, e os impulsos são nossos, logo os nossos impulsos são (de) animais. Mas não se trata disso, porque quando referem o sexo como impulso animal relegam-no ao plano da nossa primitividade. E isso por quê? Porque sexo é algo com que todos os animais praticam, ou porque é algo que já foi praticado pelos nossos antepassados da caverna? Mas, se foi por esses motivos que o chamam de animal, eu pergunto se comer, beber, respirar e defecar não serão também impulsos animais. E... diferentemente dos animais, nós possuímos algo chamado sexualidade.


Um punhado de moralista de toda a sorte e a Igreja (principalmente a Igreja) resolveram considerar o sexo impudico (animal), algo que um homem de bom senso deveria praticar com moderação (e como definem a moderação neste caso: sete vezes por semana, tês vezes por dia, uma vez por mês, só no natal e nos feriados?), e para agravar conectaram umas séries de palavras que se relacionam ao sexo ao impudor. Já ninguém pode dizer foder, cona ou outras palavras do género, porque é devasso. Mas até aceitam, em certos contextos, que se diga pénis, vagina, fazer amor e muitas outras coisas como se a imagem que a palavra pénis invoca não fosse igual à invocada pela palavra caralho. E, condenando o significante, condenaram também o significado.


O nudismo, embora esteja a ser praticado cada vez em mais larga escala é ainda considerado uma espécie de depravação, porém recuemos à era dos criadores da democracia – uma das culturas mais admiráveis até agora – e veremos homens nus a praticar desporto nas olimpíadas, sem que isso constituísse um escândalo; lemos poesias latinas e vemos que cantam o falo (estão a ver que até não digo pila) e a vagina, sem que se tratasse de devassidão ou pornografia.

Acho a nossa cultura demasiado hipócrita e pretensiosa, prenhe de pessoas que praticam uma coisa, gostam de praticá-la, mas dizem que é suja.

Vamos lá perguntar: quem é que anda com a boca tapada? Ninguém. Não, ninguém tapa a boca, só temos que tapar as partes ligadas ao sexo, os genitais, as mamas e o rabo… mas não será a boca também um órgão sexual? Aliás, o maior órgão sexual. Não é a boca que faz elogios, que convida o parceiro, que combina o sexo, que começa os beijos, que faz um broche ou um minete (desculpem se eu não disse felação ou cunnilingus - cona-língua - mas não seria mais explícito?)? Já Freud falava da boca como o primeiro ponto de erotismo, ou melhor, o primeiro órgão erótico de um indivíduo. E, na minha opinião, a boca é o mais desenvolvido órgão sexual que existe. Mas ninguém censura a boca, nem é indecente dizer boca, enquanto que dizer caralho já é.

Por exemplo, costumamos ler: Ele saiu da água e escondeu com as mãos as suas partes vergonhosas. É uma citação muito frequente, chamar ao sexo (órgão sexual) de partes vergonhosas. Eu pelo menos não tenho vergonha do meu sexo, e, para dizer a verdade, se não sou nudista talvez não seja por causa de mostrar o meu sexo, mas sim das minhas canelas que são tortas. Sim, as minhas partes vergonhosas são as minhas canelas. E o que para os outros devia ser a minha parte vergonhosa, só me envergonha por ser pequeno.

Li algures uma anedota sobre a mulher de um sultão que caiu do camelo e deixou as suas partes vergonhosas (as palavras são deles) expostas ao olhar de toda a gente, e o sultão ficou contente porque a cara da mulher não se mostrou. Então, afinal, qual é mesmo a parte vergonhosa? Também já vi documentários sobre tribos que nem sequer andavam com tanga, mas a câmara evitava decentemente filmar a parte genital. Se a eles não causa nenhum mal andarem nus, e se não fazem balbúrdia por causa de sexo (eles, considerados primitivos), por que raio fazemos nós (que nos consideramos a nós mesmo super-civilizados)?

Eu não pretendo apelar a pessoas a aderirem ao nudismo, nem que andem a dizer na rua palavras que certamente a maioria consideraria palavrões e indecências, mas sim para nos tornarmos indulgentes com as pessoas que usam dessas palavras, porque são apenas palavras e servem para representar algo. 

Se não é devassidão falar de Deus, porque é Ele que nos dá a vida, por que será devassidão falar do sexo se é através dele (e de todos os seus componentes) que ganhamos a vida?

30 de outubro de 2006

NA TERRA DE CEGOS...

É! A minha mãe já me dizia: Quando um burro fala… não o oiças, é burro. Eu sei que ela tem razão, e por isso tento evitar ouvir os burros, principalmente porque, ao contrário do provérbio, quando um burro fala, os outros também o fazem; são como os cães quando ladram.

Bom, deu-se-me começar este texto com o parágrafo acima, porém não sei agora para o que serve isso, não sei continuá-lo e nem sei por quê comecei com ele, pois o que me inspirou a escrever isto foi um livro de Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira. Ainda não li a obra em questão, foi-me recomendada por uma amiga que teve ainda a bondade e gentileza de fazer uma síntese.

Isso fez-me pensar: E nós? Não estamos nós todos cegos? A educação que recebemos, os preconceitos em que somos criados, os dogmas ditos incontestáveis, a proibição de sermos diferentes daquilo que vou chamar de Regra de Conduta do Senso Comum (conforme as diferentes culturas, é claro), todos este factores, e mais outros aqui não nomeados, não nos cegam?

Por exemplo, estamos à mesa e um de nós mete o dedo no nariz à medida que fala com a boca cheia, criticamos logo, mesmo que em silêncio. Mas por quê? Porque houve quem decidiu que isso é má educação. E por quê? Não vou tentar responder para não criar uma cadeia infindável de porquês. Mas será que meter o dedo no nariz torna-nos pior do que somos? Eu… para mim isso tudo são regras criadas pela ceguice das pessoas que se julgam com bons olhos.

Para ilustrar: Mostremos a um invisual – atenção que não digo cegos, porque cego aqui tem um sentido semântico que tende mais para o cérebro do que os olhos… Estava a dizer: mostremos a um invisual o magnífico quadro de Leonardo da Vinci, Monna Lisa (pessoalmente prefiro uma foto de Charlize Theron… e nua, hmmm) e peçamos-lhe a opinião; responder-nos-ia, porque usámos a palavra magnífico: É magnífico! Espectacular! Absoluta e perfeitamente negro.

Sim, que mais podemos esperar de uma pessoa que não vê a luz? No entanto, nem por isso ele deixaria de dar o seu parecer – o ser humano tem um toque especial para criticar. Porém será que não devemos levar em conta a sua opinião só porque ele é invisual? Eu digo que não, porque aí seríamos cegos. Mas já Camus dizia no seu livro, O Mito de Sísifo, qualquer coisa como o homem é um cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim. Porém, não demoremos a raciocinar sobre isso, proponho irmos dar um passeio à famosa Caverna de Platão (julgo que não preciso repetir aqui o conceito) e perguntemos: Afinal quem está na razão? Não estamos todos intrincados num jogo de sombras, iludidos por pessoas que se julgam terem escapado da caverna?

O modo que estou a usar para falar deste tema está a lembrar-me de uma observação de Descartes no seu Discurso do Método, sobre pessoas com espírito medíocre que preferem filosofar com princípios obscuros e que são como cegos (invisuais) que, para lutar com alguém que vê, sem ficar em desvantagem, preferem fazê-lo no escuro. De qualquer forma, avante!

A minha mãe disse-me para não ouvir os burros, mas quem são os burros isso ela não me disse. Tenho livre arbítrio e algum cérebro e devo guiar-me por eles. Entretanto, isto não é tão fácil como é pronunciável, sendo eu um cidadão desta terra de cegos.


Em princípio eu devia ouvir os chamados sábios, porque diz o ditado: Na terra de cegos que tem um olho é rei; porém, tive a infelicidade de perceber que este ditado mente de maneira descarada, pois, na verdade, na terra de cegos, todos são reis e sábios e que tem olho é louco. Imagine uma pessoa a descrever Van Gogh a cegos (nascidos cegos ou cegos por opção – aqui a palavra cego toma uma conotação embaralhada), o primeiro comentário seria: Devemos internar este desgraçado, pois já não diz coisa com coisa.

A minha mãe disse-me e bem: não oiças os burros… pois estando todo o mundo cego, quem guiará a quem?