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15 de maio de 2017

MUNDO NAS MÃOS, O, John Pilger (2002) - o terrorismo capitalista

Entrou para a ordem do dia o terrorismo, desde 2001, e a cada ano que passa tem de acontecer alguma desgraça no mundo civilizado para carimbar esse medo na mente das pessoas. Compreende-se por quê; povos que sempre viveram tranquilos, pelo menos desde depois da Segunda Guerra (embora estejam constantemente a fazer guerras em territórios alheios e a vender armas a grupos suspeitos), de repente se vêem à mão com problemas explosivos, é normal que sejam tomados pelo pânico e assinem abaixo toda e qualquer ordem de retaliação contra o “inimigo”. Com os mais recentes ataques é compreensível que os média se concentrem todos a apregoar eufónica e euforicamente a necessidade de lutar contra o Estado Islâmico (bombardear alguns países muçulmanos, pela geoestratégia e recursos naturais, entenda-se… só que não o podem dizer em voz alta!) Numa Europa dividida pela economia, que melhor cola poderá existir do que um inimigo comum: o medo dos europeus de serem mortos na segurança da Europa?

Este preâmbulo é um tanto longo e parece meio deslocado para este artigo, no entanto, se lerem este livro de John Pilger, O MUNDO NAS MÃOS, com o subtítulo: o que os Média não Dizem sobre os donos do mundo, vão compreender a sua adequação.

John Pilger é um jornalista australiano que coleciona importantes prémios de jornalismo e de televisão pelos seus trabalhos como correspondente de guerra e pelos seus documentários, portanto, nesta sociedade, onde só tem crédito quem aparece na televisão, as suas palavras valem muito. E valeriam ainda mais se ele aparecesse muito mais vezes, mas como ele não escreve de acordo com o que manda a cartilha dos manda-chuvas e donos do mundo, que controlam o dinheiro e a informação, ele não é, consequentemente, muito popular.

O MUNDO NAS MÃOS fala de terrorismo, terrorismo ocidental, institucional e económico, porém limpo, limpo por ser praticado pelos donos do mundo e em nome da economia, do desenvolvimento, da democracia e dos direitos humanos, e por esses exatos motivos, mais aterrorizantes ainda. E se no ocidente só praticam o terrorismo económico, no resto do mundo vão ainda mais fundo.

O MUNDO… começa com a Indonésia, um país violado e destruído em nome da economia global, chamado pelo ocidente económico de “aluno modelo da globalização”. Pilger conta como, em 1967, os gigantes empresariais e económicos ocidentais dividiram entre si as riquezas e os recursos da Indonésia, em troca de apoio ao General Suharto para derrubar o governo existente, o que este fez, acabando por ficar no poder até 1998, com um saldo de mais de 1.000.000 de indonésios mortos, sem falar dos milhares de timorenses levados no processo. E enquanto isso recebia elogios dos média, por ser aquele que modernizou o país (e fê-lo mesmo, transformando-o num gigantesco complexo industrial a operar para os multinacionais ocidentais).

Suharto foi um ditador que matou milhões sem sanção do Banco Mundial ou do FMI, porque estas instituições, conforme relata Pilger, asseguram que não discutem a política de um país, apenas a sua economia.

Apoiaram Suharto, porque o presidente anterior, Sukarno, era considerado comunista. Tinha expulso da Indonésia o Banco Mundial e limitado o poder das grandes companhias petrolíferas e tinha recusado veementemente o empréstimo dos americanos. E assim, a Indonésia, que em tempos não devia nada, foi espoliada do seu ouro, pedras preciosas, madeira, especiarias e outras riquezas naturais pelos seus dominadores e hoje (2002) tem uma dívida de 170% do seu PIB.

Não obstante a extrema industrialização da Indonésia, os seus habitantes vivem na extrema pobreza a ganharem salários miseráveis e a viverem em situações miseráveis para trabalharem nas grandes fábricas e indústrias ocidentais que recorrem à mão-de-obra barata (trabalho de escravo) e trabalho infantil.

O que me revolve o estômago (este sou eu e não Pilger) é ver grandes marcas ocidentais a venderem os seus produtos utilizando slogans e desculpas humanitárias, por exemplo: por cada peça que comprares, 10% vai ser utilizado para a luta contra o trabalho infantil no terceiro mundo ou compra um par de sapatos e damos outro par aos africanos (como se os nossos problemas fossem falta de sapatos). Os inspetores ocidentais (esses fulanos que adoram falar de direito humano) visitam as fábricas indonésias, não com o objetivo de melhorar a vida dos funcionários e de criar condições mais saudáveis de trabalho para eles, mas com o objetivo de verificar a qualidade dos produtos e de cortar os custos de produção se for necessário.


Como esta descrição se estendeu muito, vou rapidamente fechar o artigo.

Pilger fala da propaganda ocidental da luta contra o terrorismo para governar pelo medo e legitimar o ataque a outros países para o benefício das multinacionais que realmente controlam o poder no mundo e controlam também os media, através dos quais nos manipulam. 

Pilger ainda fala do Iraque, do saque americano efetuado nesse país, da destruição do país e da forma de vida dos seus habitantes, numa postura aberta de terrorismo em nome de luta contra os terroristas. Começou com o Bush pai a bombardear iraque com bombas de urânio empobrecido, deixando um rasto de mortes e de crianças com cancro ainda hoje (e o seu clímax seria com o Bush filho, continuando o país débil por causa da avidez das petrolíferas ocidentais).

O livro fecha com o que Pilger chama de apartheid australiano, embora o que os media mostram é uma austrália justa para toda a gente.

O MUNDO NAS MÃOS é uma leitura obrigatória.



Se estás com preguiça de ler o livro, bem... tem o documentário aqui (com legenda):


John Pilger - New Rulers of the World

2 de julho de 2015

EMA VEM TODOS OS ANOS (2014) - diversão diversificada na diversidade

Há já quase um ano que Ema Vem Todos os Anos foi publicado, desde então que fiquei por escrever uma observação sobre o livro, sendo por isso mais que tempo de fazer a sua apresentação neste meu antro cultural nada modesto.

Por ocasião do 20º aniversário da Ku Si Mon Editora, para marcar a efemeridade foi publicado o livro Ema Vem Todos os Anos.

A Ku Si Mon é uma editora guineense que faz milagres no que eu chamo de deserto literário guineense (cada vez menos desértico, é certo, como se poderá comprovar pela quantidade e qualidade do textos constantes no livro) e a MAIOR editora da Guiné-Bissau.

EMA VEM…. é uma coletânea composta por vinte e três contos, reunindo onze autores: Uri Sissé, Flora Ernesto, Nelson Fernandes, Marinho de Pina, Andrea Fernandes, Claudiany Pereira, Idy Mbonh, Anita Gomes, Hildovil Silva, Raul M. Fernandes e Abdulai Sila.

EMA VEM…. traduz-se desta forma numa diversificada sensibilidade literária e variação de estilos, passando por vários tons da vida, do cómico ao trágico. Cada história encerra um mundo, pensamentos, universos idiossincráticos… uma miscelânea de situações e de momentos que retratam o homem: um princípio em busca do seu fim – razão porque identificamo-nos de uma maneira ou de outra com os personagens.

A forma e o conteúdo no EMA VEM…. também varia de os mais simples e objetivos ao mais apurados e filosóficos, o que torna mais rico o livro.

Participei no EMA VEM…. com quatro contos, inspirados em fontes variadas: do absurdo do Pittigrilli, da objetividade de Tchekhov, à realidade que me envolve. Todavia, gosto particularmente dos contos: O Comboio da Memória  e Um Estranho na Minha Cama, de Andrea Fernandes e Flora Ernesto, respetivamente.

EMA VEM…. é um livro para ser lido, com autores para serem conhecidos e outros para serem reconhecidos.



Quem quiser adquirir o livro pode fazê-lo através de: kusimon@kusimon.com ou manifeste aqui o interesse.



6 de março de 2015

HISTÓRIA DE DEUS, UMA, Karen Armstrong (1993)

Há coisa de treze anos eu li pela primeira vez Uma História de Deus, de Karen Armstrong, um estudo teológico que me foi bastante útil e esclarecedor. Nessa altura, eu tinha começado a minha conversão para o ateísmo, era mais ou menos um agnóstico, pois acreditava no deus cristão, e o livro, embora a sua autora não negue a existência de deus, ensinou-me como Deus, Javé, o deus judaico-cristão que depois derivou em Alá, foi inventado pelos homens. Um outro livro da mesma autora, Jerusalém – Uma Cidade, Três Religiões (sobre o qual talvez escreva aqui um dia), porteriormenete, fez-me perceber a situação sociopolítica que esteve na origem da religião judaico-cristo-islâmico.

Uma História de Deus é um livro que toda a gente devia ler, principalmente porque a religião e os mitos que lhe estão à montante fazem parte da vida de qualquer pessoa que viva nesta sociedade, quer queira quer não. Vemos constantemente pessoas a justificarem as suas ações, boas ou más, com motivos religiosos e estamos mesmo à beira de uma guerra religiosa. Karen Armstrong não escreve numa perspectiva de conspiração, aliás ela nem sequer é ateia, mas monoteísta que busca deus em todas as doutrinas religiosas (para mim isso é ainda pior do que pertencer a um único credo).

O livro é volumoso, mas fácil de ler, fala de Deus em diferentes perspetivas, judaíca, cristã, islâmica, mística, filosófica, ateia e outra mais. A bibliografia revela um pesquisa extensa e cuidada e a apresentação dos temas é clara e convida sempre a seguir com a leitura. Os temas também estão escritos de maneira a que, com um conhecimento básico da teologia e da filosofia, seja possível começar de qualquer capítulo sem se sentir perdido.

Basicamente Uma História de Deus, mostra-nos como o deus dos judeus, que foi depois chamado Javé, ou El, nasceu do deus dos cananeus El Shadai, ifluenciado pelos deuses babilónicos, aliás, o próprio Javé falou com Abrão na montanha e apresentou-se como El Shadai. Os judeus que criaram a religião monoteísta que deus originou os monoteísmo mais conhecidos agora, inspiraram-se no zoroastrismo, com o seu conceito de dualidade entre o bem e o mal, no entanto, no início, eram tão politeístas como todos os outros povos que o rodeavam.

O monoteísmo judaíco começou a ganhar forma e a ser um símbolo de unidade, na altura em que o povo hebreu estava de cativeiro na Babilónia, que foi a altura em que a Bíblia começou a ser compilada. Os estudiosos mostram que há cinco fontes diferentes para a Bíblia, o que demonstra que Deus se chamava El e Javé, consoante os seus escritores. O que os judeus fizeram foi eleger um Deus dos do panteão assírio, e promoveram-no a Deus Supremo, mas eles ainda eram politeístas acreditavam na existência de vários deuses, de tal maneira que nos 10 Mandamentos, explicitamente El disse: Não tenhas outros deuses diante de mim, pois eu sou o único. E só muitos anos mais tarde, divididos por guerras intestinas (reino de Israel, reino de Jusá) é que Josias, o rei na altura, descobriu convenientemente o livro de lei, no templo que foi reconstruir, que por acaso era o Pentateuco, a base da Bíblia (o Torah), que começou a servir de legislação para o povo hebreu. Depois de libertos de Babilónia, lá solidificaram as suas crenças, absorvendo e transformando muito da mitóliga babilónica (sumérica). 

Nota de outras fontes: A Bíblia fala que deus criou o mundo em sete dias, o que coincide com a cosmogonia suméria. Entretanto, como os sumérios adoravam o Sol, foi o Sol que criou tudo; os israelitas para mostrarem aos sumérios que o deus deles (El, Javé) era ainda mais importante que o Sol, fizeram com que o Sol só fosse criado no quarto dia na sua cosmogonia e a Luz foi criada no primeiro, porém esqueceram-se (ou não sabiam) que a luz vem do Sol, portanto, não pode ter sido criado antes deste. Também, os israelitas  disseram que Deus criou o mundo em sete dias (como se fosse Deus a estabelecer a semana), mas a semana de sete dias também foi outra criação dos matemáticos sumérios.  

O maior rival de El foi sempre Baal, agora o rival de Deus é o Satã, mas na Bíblia Satã era simplesmente um anjo, o advogado de acusação, não era um anjo expulso, nem nada como isso. Leviatã, hoje também considerado uma das encarnações de Satã, era um monstro de sete cabeças conhecida por Lotan na mitológia suméria. E Satã era diferente de Lúcifer, que Isaías chamou de A Estrela da Manhã, e que se confundiu depois com Cristo, visto que João chamou a Cristo de A Estrela da Manhã no Apocalipse. Cristo este que tem muitas similaridades com muitos outros deuses pagãos, o que fez com que os judeus nunca tivessem aceitado a sua existência com messiánica.  E não puseram em causa a mentira da sua invenção, porque a sua própria invenção de Javé iria abaixo por arrasto, além do mais ganha-se muito dinheiro com essa crença (nota minha).

Não vou descrever um livro de mais de 400 páginas em meia folha, por isso fico por aqui, principalmente porque sei que o pouco do conteúdo que revelei vai ser o principal motivo para afastar alguns de o lerem, pois ninguém quer pôr em questão a sua fé, prefere simplesmente acreditar. Aliás este pouco que descrevi só trata de uma pequena parte do livro e não está com a mesma clareza.

Uma História de Deus, volto a salientar, é um livro para ler antes de morrer.



1 de janeiro de 2014

TEMPO SUSPENSO, Philip José Farmer (1985) - a diversidade do mesmo

Quando mais novo, o meu género favorito era a ficção científica, tanto no cinema como na literatura. Gostava (ainda gosto) dessa temática, das teorias de máquinas de tempo, viagens interdimensionais, extraterrestres e tal, no entanto, eu considerava mais o aspecto exterior da ficção científica do que o interior: os ensaios que os bons autores fazem sobre a humanidade. E quando comecei a dar mais atenção ao segundo aspecto, deixei de considerar qualquer coisa que tivesse uma nave espacial de ficção científica, embora lesse tudo com essa classificação. Quando comecei a ler Tempo Suspenso, não estava à espera de nada, apenas de uma leitura leve, e foi o que encontrei, uma leitura leve, porém, com profundidade.

Tempo Suspenso é uma excelente leitura de ficção e um excelente entretenimento literário. O livro arrebata logo nas primeiras páginas e continua, em crescendo, a intrigar mais e mais. O tema é sobre a desesperança na humanidade. Ambientando num futuro distópico, pelo menos para nós aqui, sente-se nele influências do 1984, de Orwell, e do Admirável Mundo Novo, de Huxley, no entanto consegue ser fresco e original, e não fosse o facto de focar-se mais no contexto de aventura, de certeza que era capaz de ombrear com esses em profundidade.

Tempo Suspenso acontece no terceiro milénio, a humanidade sobreviveu, mas sobrelotou o planeta. Então para resolver o problema, o governo, absolutista, resolveu dar a cada pessoa um dia da semana para viver, passando os restantes numa câmara de suspensão. As pessoas vivem num dia qualquer, terça ou domingo, e à meia-noite estão na sua câmara, esperando pela próxima semana. Essas segundas, contavam-se dia a dia, como se fossem dias normais, ou seja os segunda-feiristas, tinhas os seus sete dias da semana completo, e com a tecnologia da suspensão, envelheciam normalmente cumprindo o ciclo biológico. Ninguém parecia ter problema com viver um dia, sendo que vivia todos, mas quem vivesse em todos os dias era considerado criminoso, do pior tipo, um quebra-dias.

Quando se tem um governo totalitário, ou de qualquer tipo que seja, existe sempre a oposição, e é aqui que entra o nosso herói, que é um quebra-dias, um criminoso, quase terrorista, e que vive com sete identidades, um para cada dia, para não ser descoberto, mas que trabalha para a oposição. Este é o mote para o desenvolvimento do Tempo Suspenso, no entanto várias questões, psicológicas e sociais, surgem durante a ocorrência.

Tempo Suspenso tem um belo ritmo e, como já disse, aposta muito na aventura, entretanto, sempre tem tempo para analisar a sociedade através de diferentes prismas. Tal como O Admirável Mundo Novo, mostra que as pessoas são condicionadas de diferentes maneiras e que na realidade, somos mais carneiros do que os próprios, e ao mesmo tempo, questionamos se quando existe a ordem e todos nós somos e estamos basicamente satisfeitos, se é mesmo problemático que esta ordem seja do tipo totalitário.

Farmer é magnífico em desenhar sociedades e idiossincrasias, cada dia apresentado tem etiquetas próprias, maneirismos, linguagens e vícios, podendo-se no entanto ver que não importa o verniz, o homem é sempre homem. E não importa o governo ou a oposição, quando a ideia é de dominar e de regular… bem, resumindo: o poder corrompe.

Uma bela e agradável leitura.

16 de julho de 2012

ÚLTIMA TRAGÉDIA, A, Abdulai Silá (1995) - a alma de um povo

Livros escritos por guineenses eram raros (ainda hoje são), a literatura guineense mais conhecida era uma recolha de contos feita por Teresa Montenegro e Carlos Morais (duas pessoas que me orgulho de conhecer, e gabo-me de ser amigo da primeira) e alguns outros livros de poesia, dos quais destaco A Luta é a Minha Primavera de Vasco Cabral e a antologia Mantenhas Para Quem Luta (não cheguei a ler nenhum dos dois livros), mas vários dos seus poemas  que vinham em livros didácticos, e foi assim que os conheci). Romances? Não havia nenhum. O mais parecido com isso era uma novela (acho que o posso chamar assim), do brasileiro João Ferreira (o autor nem era guineense, redundo).

Quando nesse deserto surgiu A Última Tragédia de Abdulai Silá (outra pessoa que me orgulho de conhecer) o meu círculo de leitores explodiu de entusiamo e de consternação, o segundo porque só um de nós possuía o livro e fazia-o circular entre quê?, umas sete ou oito pessoas e mais alguns curiosos que nunca liam mas queriam provar o sabor de um romance guineense e como a velocidade da leitura diferia bastante, e como o tempo passa mais lento para quem espera, era uma seca estar na lista de espera. O título nem era o primeiro romance guineense publicado, embora o primeiro, Eterna Paixão, também fosse do mesmo autor, mas foi o primeiro de que tivemos conhecimento.

Eu li A Última Tragédia de uma assentada, não é volumoso, nem nada que pareça, e tem um bom ritmo. E quando tive o conhecimento dele foi em 1998, um bocado tardio, porque fora publicado três anos antes. Lera-o com um misto de orgulho e de inveja, talvez mais de inveja porque não gostei muito dessa primeira vez, o que só aconteceu anos mais tarde, depois da guerra no meu país, quando amadureci (?) e passei a ler o livro dentro do livro.

A Última Tragédia engana apenas numa coisa: não era a última, é um retrato de um país fragilizado e obstruído, tanto pelos problemas exteriores, como, e principalmente, pela auto-limitações a que se impõe em nome de uma tradição. É uma aspiração a uma realidade ideal, como lemos através de um régulo que aparece na história, mas que parece ser inalcançável, mantendo o ritmo da tragédia. E, desligando-se de fronteiras, e alienando-se do pano do fundo, facilmente percebemos que é também um retrato de nós mesmos, independente da sociedade em que vivemos: a história do livro situa-se na Guiné colonizada, fortemente limitada e que dança ao chicote, entretanto, a colonização tal e qual era não existe mais, o que não quer dizer que desapareceu, hoje somos colonizados (não estou a falar do país, mas das pessoas de todo o mundo) pelos nossos próprios governos, que são colonizados pelos bancos... mas... ok!

Tenho uma boa relação com o livro, porque foi a primeira literatura guineense que eu li e senti… e é, entre outras, a razão por que o recomendo.

3 de fevereiro de 2012

SEMENTES DE VIOLÊNCIA, Evan Hunter (1954) - 'des'construindo uma sociedade


Reza a lenda que Evan Hunter passou por 13 editoras com o manunscrito de Sementes da Violência tendo sido constantemente rejeitado. Isso aconteceu a muitos grandes escritores com obras que depois viraram clássicos. Entretanto, acredito que eu, no lugar dele, teria refito toda a obra porque treze opiniões negativas de “profissionais”, queiramos ou não, são tremendamente desmotivadoras. Provavelmente (a hipótese ponho eu) os editores, que lhe rejeitaram a obra, apontaram a partes diferentes dela para criticar o todo, de maneira que ele soube juntar os pedaços, fazer as contas e perceber que obra não peca, só que não satisfaz o gosto de todos. Sementes de Violência não é o melhor trabalho literário do mundo, mas é tão bom que traz a pergunta: onde raio tinham a cabeça os editores que rejeitaram o manunscrito?

A trama central é sobre Rick, um professor idealista e cheio de sonhos que acredita ter poder para mudar o mundo, começando no entanto pelos círculos mais pequenos: o grupo de alunos das suas turmas, que espera que alarguem essa influência às suas comunidades, depois às sociedades, e assim por diante até cobrir o mundo. Rick é este idealista a quem calhou a sorte de ter caído talvez no pior sistema de ensino americano: a escola técnica de um bairro social.

Rick tem de lidar com adolescentes, a maioria filhos de emigrantes, que la fora são inimigos uns dos outros, mas dentro juntam-se contra um inimigo comum: o próprio sistema de ensino, personalizado pelos professores.

Hoje essa história é muito vulgar porque já a vimos explorada em livros, filmes, séries e muitas outras espécies de arte que se valem da narrativa, e perdemos de conta as várias versões que vimos, entretanto, apesar disso, Sementes de Violência, ainda mantém o seu brilho, eu disse ainda, porque o livro é de 1943, e com alguma probabilidade foi o primeiro a versar sobre o tema.

A crueza da realidade descrita, as análises e auto-análises de Rick, por vezes vestindo a capa dos alunos para tentar ver pelos seus olhos, tornam Sementes de Violência ainda mais interessante. E o final realista do livro também contribui imenso para lhe acrescentar o seu valor; não os dá um e foram felizes para sempre, ou uma perspectiva do género, mas… enfim, leiam o livro.

Sementes de Violência é um livro para ler, um livro com ensinamentos e cheio de informações, com personagens bem construídos e estranhamente, tirando uns poucos maniqueisticamente desenhados para não gostarmos deles (e mesmo esses), conseguimos criar empatia com todos. Vale bem as horas empregues.

26 de janeiro de 2012

MIL E UMA NOITES, AS


Como escrever sobre As Mil e Uma Noites

Eu sei que todo o mundo já ouviu falar, outros leram umas tantas histórias, alguns pensam que foi escrito por Disney e há ainda alguns que pensam que Hércules é uma personagem deste universo, no entanto nem todos leram o conjunto, principalmente (modéstia à parte), na sua versão integral, conforme reza o livro: texto completo, segundo a versão francesa realizada em 1889, sobre o original árabe do Dr. J. C. Marduz, e tendo em conta a edição prínceps de 1704 da primeira versão feita por A. Galland, com o subtítulo de Contos Árabes.

A linha principal d’As Mil e Uma Noites é estendida por Scheherazade, uma feminista e humanista (observações minhas), que casou com Schahriar, um sultão magoado pelos cornos que lhe foram postos pela sua primeira esposa e que resolveu vingar-se, casando todos os dias com uma virgem, mandando-a matar no dia seguinte, desencadeando desta maneira uma crise de virgens no reino, sem falar do pânico dos citadinos de verem as suas filhas escolhidas para a dupla imolação. No entanto acho burra essa gente, se o sultão só casava com virgens, por que raio não arranjavam quem lhes desvirgindasse a filha?... hem?... Adelante. Sherazade tinha um plano para inverter essa tendência homicida dele (na verdade o homem devia era ser internado) que consistia em contar-lhe histórias compridas, terminadas em ganchos que lhe fizessem querer saber do resto. E ela conseguiu sobreviver, com esse estratagema, a mil e uma noites (1001, um número capicuo, talvez com algum significado esóterico - já notaram que a capicua não é capicua? estranho!).

Os contos repetem-se muito, variando aqui e ali, mas, acima de tudo, mantêm a mesma essência: são contos de mulheres (mulheres infiéis, mulheres apaixonadas, falsas pudicas, mulheres virtuosas, mulheres de toda a espécie, algumas, poucas, subvertendo o arquétipo grego, sendo elas as heroínas e os homens os socorridos), traição, amores desencontrados, promessas não cumpridas, curiosidade mórbida, sobrenatural, fantástico, enfim, tudo o que temos nos contos de fadas que conhecemos já tinha aqui a sua versão, até mesmo O Alquimista do Paulo Coelho.

As Mil e Uma Noites consegue ser esotérico: cheio de ensinamentos, duplos significados, alquimia e tal; consegue ser fantástico: génios, feiticeiros, metamorfos, ciclopes, monstros, aves gigantes (o famoso roc), anões e gigantes (versão prévia de As Viagens de Gulliver, de Johnathan Swift); romântico: amores e desamores; trágico (pouquíssimos contos no entanto, parece que não eram muito fã de finais tristes); ficção-fantástico, para não dizer científico: telepatia, telecomunicação, teleporte e tem até a sua versão do outro lado do espelho (antecedendo a Alice de Lewis Carrol); erótico, com muitas partes e descrições picantes, mostrando que a paranóia de um zib, ou melhor, um pénis grande não é exclusivo dos ocidentais e nem é uma modernice; ainda tem longos poemas que mostram a sensibilidade oriental (antiga) e a sua forma de apreciar.

As Mil e Uma Noites é um conjunto de contos (alguns deles tão extensos como um romance best-seller moderno) que explora praticamente a maior parte das possibilidades genéricas hoje existente. Mas não, não é um livro antes do seu tempo, como se costuma dizer, aliás, tal coisa não existe. E se a modernidade bebeu muito da sua fonte, ele bebe dos gregos, vários mitos gregos foram reconfigurados pelo imaginário oriental, por exemplo, uma das viagens de Sindbad não é mais do que uma versão de Ulisses e Polifemo, da Odisseia de Homero..

As personagens mais recorrentes nos contos da Sherazade são o Califa Haroun-Al-Raschid, a sua esposa, a ciumenta Zobeida, o seu grão-vizir e sábio, Giafar (desconfigurado pela Disney),  o chefe dos eunucos, Mesrour, e o idiota Ali que protagoniza praticamente todas as anedotas do livro.

As Mil e Uma Noites é uma leitura obrigatória para todo o amante da ficção, é certo que boa parte das personagens são cópias e versões umas das outras, todos os heróis recitam o Alcorão de cor, e é muito racista, praticamente todos os cristãos, ou francos, são cães infiéis e traiçoeiros (tirando um franca heróica que acabou convertida ao Islão), todos os judeus, salvos raras excepções, são mercadores inescrupulosos e quando ganham escrúpulo também viram muçulmanos, mas não nos esqueçamos do contexto histórico-social da obra, todos os pretos são mentirosos ou possuem talento para o sexo (mostrando que esse fetiche não é também recente). Aliás, em termos comparativos, hoje na ficção americana, um judeu é um óptimo piadista ou argumentista, um muçulmano é terrorista, um preto é bom no sexo e/ou vende drogas (ai os pretos). E também As Mil e Uma Noites pode ser um bom documento histórico e sociológico do antigo oriente muçulmano, mostrando-nos que os costumes mudaram bastantes e que muitas práticas misóginas do mundo do extremismo-islâmico não existiam nos primórdios do islamismo.

Posto isto, eu digo: vão às bibliotecas procurar pelo livro, ou livros (o que eu li foram seis tomos gigantescos).

18 de janeiro de 2012

SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE, Italo Calvino (1979) - frutos de determinismos ou próprios deterministas


Quando comecei a ler Se Numa Noite… (da primeira vez, há coisa de uns dez anos) logo nas primeiras páginas parei, em sinal de desafio, queria encontrar uma posição de leitura que o autor não tinha previsto no seu livro para lhe ganhar no próprio jogo, e encontrei: pendurei-me na cabeceira da cama com a barriga dos joelhos (? – não sei como se chama a parte de dentro dos joelhos, a junta entre a barriga da perna e a coxa; alguém sabe?), de cabeça para baixo (porque embora ele tivesse previsto de cabeça para baixo, pelo menos não falou nada sobre pendurar-se pelos joelhos). No entanto era ridículo, acho que nem o próprio Drácula lê de cabeça para baixo; então deixei-me levar e não forçar a oposição, deliciando-me com a leitura.

Se Numa Noite… conta a história de um leitor que compra um livro de Italo Calvino intitulado Se Numa Noite de Inverno um Viajante cuja primeira história (se não contarmos com a do leitor, tratado por tu – ou seja tu que lês o livro), se chama Se Numa Noite de Inverno um Viajante, e depois o leitor percebe que alguém está a escrever a sua história, e entra em contacto com o seu escritor, e ainda conhece uma leitora que o lê também (deixando então o leitor de ser um “tu” assexuado para ser masculino), nesse livro que o leitor, tu, está a ler e que o escritor escreveu, embora faça parte da sua própria escrita (já te perdeste?, aposto que sim).

Essa odisseia da leitura do leitor, tu, na procura de um entendimento, de um sentido da sua história e do, talvez, existir, encontra-se entremeada por dez contos, dez contos cujos títulos ligados formam uma frase poética que, de uma certa maneira, resume toda a viagem no livro, e todos os protagonistas dos contos acabam por ser tu mesmo, o leitor, que lês o livro, ainda mais porque são narrados na primeira pessoa. Então em toda essa viagem e mudança de perspectiva, perdes-te na absurda irrealidade da existência e encontras-te a perguntar pelo sentido de tudo, principalmente pela peculiaridade das histórias que terminam sempre abruptamente deixando-te com água na boca e quando retomam são já outras incarnações.

Se Numa Noite… é um magistral ensaio filosófico sobre a vida, ao mesmo tempo que é uma magistral peça de literatura, e talvez um quebra-cabeça que depois de leres outra vez se abre diante de ti de uma maneira diferente, mostrando o que o livro mostra: a constante mudança, e a ignorância sobre a necessidade da maior parte dessas mudanças, e te sentes compelido a juntar outra vez as peças para lhes dar forma, principalmente porque ele se pode armar de maneiras diferentes.

Receio não ter sido muito claro no parágrafo anterior, e para não me lançar em pseudo-filosofias tentando ouvir o livro, vou simplesmente fazer o resumo pelas próprias palavras do autor, unindo os dez títulos dos dez contons: Se numa noite de Inverno um viajante, fora da povoação de Malbork, debruçando-se da encosta íngreme sem temer o vento e a vertigem, olha para baixo onde a sombra se adensa numa rede de linhas que se entreleçam, numa rede de linhas que se intersectam no tapete de folhas iluminadas pele lua em torno de uma fossa vazia, - Que história lá em baixo espera um fim? – pede, ansioso por ouvir a narrativa.

Em resumo, não sabemos nada da vida, nem o que vai acontecer depois, está tudo coberto por pontos de interrogações, mas isso não nos tira o ímpeto de querer vivê-la e de tentar descortinar tudo o mais.

Se Numa Noite de Inverno um Viajante é uma OBRA-PRIMA e não há nenhuma desculpa para não o ler, a não ser, é claro, que prefiras tudo mastigado... e mesmo neste caso não  sais defraudado.

15 de dezembro de 2011

JUDAS, O OBSCURO - Thomas Hardy (1895) - um orgulho da literatura


Thomas Hardy, que é não é de quem vou aqui falar, é provavelmente mais conhecido por Tess de d’Ubervilles, um livro que, há muitos anos já, tentei ler, mas não me despertou muito interesse e acabei por abandonar (sim, sempre tive dificuldade em ler prosas muito descritivas que por vezes beiram a técnico, mas isso é outra história), porém Judas, O Obscuro poderia até ser o seu livro mais icónico. 

Judas… é uma tragédia, uma história de amor cativante e perturbante por parecer vívido e real. Eu costumo aconselhar àqueles a quem recomendo o livro que, a dois terços do fim, cessem a leitura, a não ser que gostem de levar com murros no estômago.
As mais clássicas tragédias, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Píramo e Tisbe, tiveram o seu final resultante de um erro, de um desencontro, e isso faz com que Judas… se destaque grandemente nesta categoria porque resulta de uma deliberação.

Judas… não é um livro que acaba logo depois de fechar as capa, principalmente porque a última frase é tão ou mais perturbadora que o livro todo (considerada depois de toda a leitura, é claro).

Porém, Judas… tem uma fraqueza: o início, um tanto morno e que não prende logo a atenção. No entanto, lá pelo segundo capítulo, só queremos chegar as últimas páginas, e quando estamos perto delas desejamos estar no meio do livro, não queremos nunca que acabe, tal é o embalo. E mesmo o teor descritivo do livro, as paisagens, a arquitectura, a cidade, que a mim me chateia imenso, torna-se delicioso. As análises psicológicas dos personagens, a sua descrição e tridimensionalidade são outros pontos forte dos livros.

A história de Judas…, já agora, é sobre um rapaz chamado Judas, que deseja ser maior do que o sítio onde nasceu, porém, muito ingénuo acabou em laços que não desejava, e que depois encontra a libertação na sua prima, outra pessoa que, tal como ele, tem grandes aspirações.

Judas, O Obscuro, foi o livro mais fascinante que eu li em 2006 (quando escrevi estas notas), aliás, até uma amiga minha, devoradora insaciável de Nicholas Sparks confessou-me, depois de lhe ter emprestado o livro que nunca tinha lido igual.

Eu sei que para o, provavelmente, melhor livro que já li, no seu género e mesmo fora dele, este post não é brilhante e falta-lhe entusiasmo, no entanto, isso não me impede de garantir: Judas, O Obscuro é uma obra-prima, uma leitura obrigatória.

28 de julho de 2011

QUEDA, A - Albert Camus (1972) - viagem ao centro da alma


Um dos livros mais surpreendentes que já li (bem, por esta altura já devem estar enfastiado de ler aqui esta frase) foi A Queda, de Albert Camus, que já foi o Nobel da Literatura 1957, porque o livro parece ter sido escrito por mim. Peraí, não me entendam mal, não estou a reclamar o talento do autor, nem a comparar o génio, mas porque senti que o autor estava a analisar-me nessa obra.

A Queda, começando do fim, é um livro obrigatório e que ninguém nesta vida devia passar sem ler, é um livro necessário porque leva a uma auto-análise e parte dele parece uma versão alargada do Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos. Eis a sinopse:

Um advogado, que costumava ser um indiferente, por um acaso qualquer, viu uma mulher a suicidar-se no rio Sena. Não tendo reagido para ajudar a mulher, preferindo esconder-se por isso não ser o seu problema, é perseguido depois pelo fantasma dela, a sua própria consciência. Resolve então mudar o ser e ganhar a redenção, mas é aí então que perde o controlo de si próprio, acreditando que existe uma melhor maneira de utilizar a vida, mas não sabendo qual é essa maneira.

Não acredito que exista algum ser humano que leia A Queda e não se identifique com o protagonista. Camus debruça-se sobre pequenos vícios, idiossincrasias e costumes das pessoas, extirpa-os e revela-os ao sol. Creio que esteve a fazer uma auto-análise, usando o advogado como uma imagem para não parecer autobiográfico, no entanto, ao mesmo tempo, a analisar o mundo todo, o que faz com uma maestria incrível, pois ainda faz com que esse nosso autoconhecimento seja divertido e vejamos como ridículos somos.

A Queda, por verificar o homem, consequentemente verifica o seu meio (não o físico, mas o social: o ideológico, o cultural e outros subjacentes) e, portanto, foca sobre diversos aspectos éticos: o homem consigo próprio, o homem com o outro e o homem e o outro com terceiros (a comunidade ou a sociedade) e, ou, os terceiros com o homem e o outros. É certo que o homem é um ser social, mas será realmente que o inferno são os outros (como disse Sartre)?, será que os outros é que nos corrompem? A Queda atribui a cada um de nós a tarefa de fazer o mundo um lugar melhor, pois somos todos culpados. Aliás numa passagem que quem já leu o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, de certeza se lembrará, ele disse que até Cristo não é inocente, visto que foi salvo de ser morto, enquanto centenas de criança morriam por sua causa. No entanto, como vamos fazer deste mundo o melhor? Receio que o protagonista não sabe explicar, mas sugere que devemos fazer uma auto-análise.

Camus manifesta n’A Queda uma pouca fé na humanidade? Eu sei lá, no entanto duvido. Como em todos os seus títulos que li, parece procurar pelo sentido da vida ou pela sua ausência, se n’O Estrangeiro o protagonista era um indiferente, n’A Peste um altruísta, aqui, n’A Queda, é um indeciso, no entanto em comum todos os protagonistas têm a mesma característica: introspecção.

A Queda é uma leitura profunda, que dá muito o que pensar, mas ao mesmo tempo, tal como só os grandes autores conseguem fazer, a queda é uma leitura divertida e aparentemente superficial, que provoca bons risos e se lê de uma assentada. Eu li A Queda em diferentes fases da minha vida, a primeira, talvez com 16 ou 17 anos, quando me veio a pancada por filósofos, e embora estivesse no começo da minha aprendizagem de ler dentro dos livros, gostei logo. Dos títulos de Camus é o meu preferido (por ser o que mais está ao meu alcance mental) e é o personagem com quem mais me identifico. 

22 de julho de 2011

PLANETA DOS MACACOS, O - Pierre Boulle (1963) - retrato da nossa sociedade


O Planeta dos Macacos chamou-me a atenção pelo título, pensava que era uma sátira à nossa sociedade e que os macacos seriam nós... e era mesmo uma sátira, mas não do tipo pastelão (?), e eu nem esperava que fosse ficção científica, ou seja, surpreendeu-me incrivelmente, porque em boa verdade a minha expectativa em relação a ele era muito baixa. 


Chorei quando fechei o livro, tamanho foi o choque, senti-me esmagado pelo desfecho, senti-me desorientado e perdido, tinha passado a noite acordado, não conseguindo largar o livro, e passei boa parte do dia seguinte vegetando, sentindo como se o mundo estivesse para acabar, não conseguindo desligar-me da história. Apenas mais dois livros, que eu me lembre agora, me impressionaram dessa maneira, embora não com tanto impacto: Judas, O Obscuro, de Thomas Hardy e 1984, de George Orwell (que vão ganhar a sua homenagem neste meu espaço); e uma menção honrosa para A Virgem Guerreira de Alberto Moravia. Li O Planeta dos Macacos praí umas quatro vezes na mesma semana, porque precisava de cortar os laços com ele.

Não conheço nenhum outro trabalho de Pierre Boulle, no entanto O Planeta dos Macacos é mais que o suficiente para fazer dele um dos meus maiores ídolos da literatura e posicioná-lo junto daqueles que li muitas obras e gostei de todas ou de quase todas.

O Planeta dos Macacos abre com um casal a fazer vela no espaço, aproveitando os ventos solares. Só essa parte já mostra que a sociedade evoluiu extraordinariamente em termos tecnológicos e serve então para situar a acção. Esse casal encontra uma garrafa a vagar no espaço e apanha-o, lá dentro encontrando um diário, escrito por um famoso jornalista do Séc. XX, Ulisses Mérou. Qualquer um que tenha lido Odisseia, sabe quem foi Ulisses e portanto entende a razão por que o nosso Ulisses aqui foi assim chamado.

Ulisses Merou participara numa viagem experimental intergaláctico e fora parar a uma planeta governado por macacos, preso e enjaulado como um animal, usa a matemática para estabelecer comunicação com uma veterinária macaca desse planeta (temos aqui um louvor à ciência), o resto, têm mesmo que ler.

O Planeta dos Macacos é um louvor à ciência, ao mesmo tempo uma admoestação contra um desenvolvimento científico desregulado do qual resulta pessoas cada vez mais estúpidas e mais preguiçosas, que confiam todo o trabalho à ciência, acomodados e procurando acomodar-se ainda mais. O livro foi escrito em 1963, porém é tão atemporal que parece ter sido escrito ainda na semana passada, porque as situações que ele apontou estão cada vez mais gritantemente irrisórias e são mais fáceis de apontar hoje. Bom, é claro que se ele tivesse escrito o livro hoje, em vez de falar do domínio dos animais, falaria do domínio das máquinas, mas o fundo da questão, de qualquer maneira continua o mesmo, porque não se trata de quem domina, mas do porquê de nos deixarmos dominar.

A sociedade dos macacos n’O Planeta dos Macacos está mais ou menos assim dividida: Os Orangotangos, que impõem e dispõem da sociedade conforme lhes dá na gana, conservadores e receosos da mudança, preferindo governar com dogmas e leis obtusas - aqui, na Terra, os religiosos e governos moralistas e conservadores; os Gorilas, que são a força bruta e mantedores da lei e ordem, poucos propensos a pensar, e são também a aristocracia do planeta, usados pelos primeiros como garantia da sua superioridade – acho que nem preciso estabelecer uma comparação com aqui; os chimpanzés, que são o avant-garde da sociedade, aqueles dispostos a pensar e que apostam na ciência como a melhor maneira de desenvolver a sociedade – aqui os cientistas, visionários (no bom sentido), artistas, etc, todos aqueles que lutam contra os dogmas, fazendo com que a sociedade se molde ao zeitgeist; e por último, o resto da macacada – a massa, amigos, a massaMuitos outros vícios e problemas sociais são referidos no livro.

O Planeta dos Macacos fecha soberbamente, com um muro no estômago, ao mostrar-nos que já nem havia notícia de que a espécie humana chegara alguma vez a ser inteligente, o que não vou explicar como para não spoilar tudo mais do que já fiz.

O Planeta dos Macacos é um livro que deve e merece ser lido por todos, não só por ser profético (não literalmente falando), como porque precisamos mesmo de analisar a nossa sociedade e o rumo que está a tomar, principalmente hoje que estamos tão preguiçosos que precisamos de uma calculadora para sabermos o quociente de 29 a dividir por 7, e nem conseguimos escrever uma carta à mão, porque não tem corrector automático. E na arquitectura estamos a construir casas domóticas para não termos de sair da cama ou diante da televisão. Não vou prolongar mais, porque, amigos, estamos já a viver o planeta dos macacos.

24 de junho de 2011

HOMEM QUE ERA QUINTA-FEIRA, O, G. K. Chesterton (1908) - o mito dos opostos



Sempre me fascinaram premissas absurdas nos trabalhos de ficção, e mesmo que me sinta depois desiludido pelo desenvolvimento, não consigo evitar de ler (ou ver, no caso do cinema) para me inteirar da forma como o autor trabalha o material e como com ele navega.

Praí em 1997, ao ler lombadas nas estantes da biblioteca do INEP, uma actividade costumeira que me dá a ilusão de ter lido mais livros do que na realidade li, eu vi O Homem que era Quinta-Feira de G. K. Chesterton, e pensei: mas como?, abri o livro e comecei a ler, não deu mais para parar, faltei à escola nesse dia e, quando a biblioteca ia fechar, sem eu ter acabado a leitura, dei um jeito de levar comigo o livro. Não, não o roubei, mas como tinha emprestado outros, não podia levar mais nenhum, porém como sempre fui o cliente mais assíduo e mais novo dessa biblioteca (porque não tinha livros infantis), todos os bibliotecários me conheciam e deixaram-me levar comigo o livro, divertidos com as minhas súplicas. No dia seguinte, ao voltar, já tinha lido duas vezes o livro.

O Homem que Era Quinta-Feira, Odisseia, de Homero, e O Elogio da Loucura, de Erasmus, são os primeiros da lista dos meus livros de sempre, por quê?, não sei dizer, talvez pela impressão que criaram em mim quando ainda puto.

Gostei d’O Homem que era Quinta-Feira pela maneira como Chesterton conduziu a história tornando-a numa aventura surpreendente. Anos depois, praí em 2000, após a reabertura da biblioteca[1], encontrei de novo o livro e ao relê-lo fiquei ainda mais fascinado, porque não só mantinha o espírito de aventura que eu tinha percebido da primeira vez, como também tinha filosofices e reflexões filosóficas e sociais, e nessa altura eu era louco por filósofos.

Eis a história de O Homem que era Quinta-Feira, Gabriel Syme, um poeta conhece num parque um anarquista, aparentemente um desses rebeldes sem causa que atacam toda a ordem por não terem mais nada para fazer, porém por causa de uma discussão ridícula, este resolveu mostrar-lhe que falava a sério e convidou-o para uma das suas reuniões clandestinas. O que ele não sabia era que Gabriel era um polícia, um polícia poeta, lembrando o que o Platão disse algures n’A República e qualquer coisa como: se formos governados por homens ilustrados seremos melhor governados. Gabriel entra assim para a organização anarquista descobrindo que eles tinham uma estrutura que se dividia em seis chefes, todos conhecidos por um dia da semana, que por sua vez, reportavam ao chefe supremo, o Sabbat, que devido a catolização do Sábado, aqui é conhecido por Domingo. Inflitrando-se na organização, Gabriel acaba por ocupar o lugar de Quinta-Feira, e aí descobre que estava iminente um ataque terrorista que poria em risco toda a ordem (ou devia ser a Ordem), e tinha que descobrir uma maneira para o parar.

O Homem que era Quinta-Feira é todo ele cheio de reflexões filosóficas, políticas e teológicas, talvez mesmo utópicas, porém, a visão de um crente sobre o mundo e a ordem. É também uma reflexão sobre a questão existencial, uma análise do mito dos opostos, somos ou o bem ou o mal, ou somos o bem e o mal, ficando connosco a tarefa de destacar mais um deles?  Não posso falar mais para não criar spoilers, no entanto, tenho uma resenha sobre o livro da qual não sei o paradeiro, mas que no dia ou ano em que a encontrar, vou certamente postá-la. Chesterton escreveu aqui uma das melhores apologias de Deus que já li, e não obstante eu ser ateu, e prefira substituir onde ele escreve deus por outras causas, ou por ausência de causa, centrando-me apenas no homem, o seu livro continua fascinante (aliás ele nunca falou directamente em Deus). Uma leitura obrigatória tanto para cristãos como para ateus.

Não garanto a todos que vão gostar d’O Homem que era Quinta-Feira como eu gostei, porque há uns três anos, recomendei-o a uma pessoa que disse não ter visto grande coisa nele, razão porque tive medo de relê-lo para não estragar as lembranças, mas há coisa de dois meses ganhei coragem e voltei a ler, e ainda continuo a gostar, pois ele parece-me como um primeiro amor; no entanto, garanto que de alguma maneira vão gostar, principalmente os leitores do fantástico.



P.S.: Estranha-me que ao falar de um dos meus melhores livros de sempre não tenha conseguido um artigo excitante.



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[1] Com a guerra de 1998, os militares aquartelaram-se na biblioteca de INEP e no Museu Etnográfico Nacional, destruindo boa parte dos livros e itens do museu, tornando culturalmente mais pobre o país.

6 de junho de 2011

ESTRELAS O MEU DESTINO, Alfred Bester (1956) - por que somos limitados


Há oito anos, indo visitar uma pessoa, ao passar junto a um monte de lixo vi um livro, tinha a capa intacta, mas não conservada, e estava seco, apanhei-o, faltavam-lhe umas tantas páginas no fim, e não sei por que não o deitei fora, pois aquilo era um bom portador de bactérias, o título era Estrelas O Meu Destino, escrito por Alfred Bester. Não encontrei a pessoa que tinha ido visitar, não tínhamos telemóvel na altura, por isso só me restava esperar por ela, e aí fiz o maior erro daquele período, comecei a ler o livro, jactando-me de tê-lo achado.  Depois estive muito doente, quase às portas da morte, mas não foi por causa do livro, foi porque apanhei sarampo.

Estrelas O Meu Destino, conta a história de Gulliver Foyle, um homem amoral e mentalmente, hum!, reduzido, que deixado no espaço para morrer resolve vingar-se destruindo a nave que não lhe deu socorro. Gulliver é mentiroso, devasso, abutre, cancro ambulante, mas, pudera!, a sua época , como começa o livro, era uma idade de ouro, uma época de grandes aventuras, de desafios constantes e de morte violenta... mas ninguém pensava assim. Era um futuro de fortunas e de roubos, de pilhagens e de saques, de cultura e de vício... mas ninguém o admitia. Era um século de extremos, com todo os fascínio da extravagância e da excentricidade... mas ninguém o amava. 

E nesse seu intento ele entra em contacto com o dono da companhia que, obviamente, não quer a sua nave destruída e que além disso tem outros interesses em Gulliver, Gully Foyle, pois ainda que o próprio não saiba, é o melhor jauntador de sempre. Jauntar foi assim nomeado porque a primeira pessoa que o fez e o documentou chamava-se Jaunte, mas para nós, hodierno, ainda é conhecido por teleporte. Gully consegue teletransportar-se a distâncias inimagináveis tanto no tempo como no espaço e isso faz dele a pessoa mais especial da sua época; e isso acaba por mandá-lo para uma "prisão", onde o "reduzido" Gulliver trata de aprender para poder efectuar a sua vingança (cheira a Dumas, não cheira?).

Estrelas o meu destino é um livro arrebatador, ritmo rápido, quase cinema, entre arriscado e seguro, e uma crítica às corporações e o seu sistema, que não hesitam e tirar vidas em nome de lucro, corporações essas que podem vestir-se de diferentes maneiras, tanto como multinacionais como governos. Se tivesse 500 páginas e fosse relançado hoje seria um best-seller.

Estrelas O Meu Destino, também conhecido por Tigre! Tigre! é um dos meus livros de ficção de sempre, principalmente porque não o acabei de ler, devido às páginas que faltavam, o que causou o meu arrependimento, visto que tenho desde essa altura procurado por ele, para ver se o conseguia acabar, tanto em bibliotecas como na net. Hoje encontrei um pdf em espanhol, e oito anos depois… uffffa, vou acabá-lo.

O livro é muito bom, e por ser simples, sem aparentes mensagens profundas, lê-se com bastante facilidade, principalmente pelo humor e leveza da pena do autor. E por referir-se ao espírito humano e às barreira que impomos a nós mesmos, ou que a descrença dos outros nos impõem, às nossas vanidades e veleidades que temos como a razão da existência, merece, contudo, um outro olhar. Recomendo-o a quem o consiga achar. Eu vou relê-lo, mesmo que em espanhol, para, talvez, depois voltar a falar nele.

30 de maio de 2011

MOBY DICK, Herman Melville (1851) - como pescar baleia e empatar a vida


Esta, como boa parte das minhas observações sobre os livros, já tem idade, escrevi-a, em 2006, e é por ela que o publico, como um conselho para não falar nem bem, nem mal de livros que não tenhas lido e concluído (quer dizer, se não o conseguires concluir, julgo que podes falar mal). Vai ela:


Quando eu tinha 14 anos li Moby Dick de Herman Melville na versão juvenil, e não gostei lá muito, aliás, não gostei nada, pois não via piada nenhuma num tresloucado que saía do seu território para ir arpoar uma baleia no território desta, parecia-me o abuso dos colonizadores, hoje parece-me o abuso americano; era como ler uma tourada.
 
Mas como sempre deparo com Moby Dick como uma das obras-prima dos clássicos da literatura, tanto em outros livros, como em filmes, achei que devia lê-lo de novo, acreditando que hoje estou mais maduro, literariamente falando. Entretanto, o livro era volumoso, 660 páginas, o que me mete medo logo à primeira, e de uma certa maneira parece-me um desperdício, pois posso ler seis livros no mesmo espaço de tempo que vou gastar para ler esse, o que é mais económico e frutífero (se os seis não forem livros de Paulo Coelho[1]).

Entretanto, resolvi não economizar e ler o Moby Dick. O que dizem na síntese sobre o livro é que se trata da história de um pescador que tenta a todo custo caçar a baleia que lhe comeu a perna (e foi isso que mais fez com que eu não tivesse decidido a lê-lo), porém, essa descrição é uma injustiça para o livro, pois que Moby Dick é muito mais profundo que uma história de ódio e obsessão.

Ainda estou a ler o livro... ainda só li dois sexto dele, mas garanto-vos que é uma leitura que vale a pena. Parece um manual de pesca, mas tirando essa parte técnica, está a revelar-se uma viagem no espírito humano.

E para acrescentar mais palavras digo que a prosa do autor é esplendida, às vezes simplista, outras arranjada, mas apanhando-lhe o ritmo é cativante.

P.S.: Só não gostei que tivesse chamado a um preto de anjo das trevas (mas perdoo-lhe isso, porque ele é um fruto da sua época).

…………………


Bem, uns dois dias depois larguei a obra, porque tornou-se chata pa caramba, não parecia um manual de pesca, era mesmo um manual de pesca, tinha uma parte onde ele falava de peixes que parece um piscis-zoólogo (ou lá como os doutos os diriam), eu julgava que lhe tinha apanhado o ritmo, mas cansei-me a meio. Definitivamente para mim, não é um bom livro, mas se se procedesse a cortes no livro, deixando para lá o dispensável, para mim seria realmente uma obra, talvez não prima, mas sobrinha.

Apesar de não ter gostado do livro, reconheço a sua profundeza e a sua atemporalidade, séculos sobre séculos amontoarão e o homem continuará sempre a correr atrás das suas baleias, alguns por ódio, outros por ilusão, outros porque têm de participar na corrida, afinal somos todos Ahabs, laborando energicamente para atingirmos as nossas metas; a essa leitura chegamos se olharmos Moby Dick por uma outra vertente e não a explícita do livro. 


Por alguma razão Moby Dick é um clássico considerado obra-prima, mas não é um livro que eu recomendo.



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[1] Depois de tanta recomendação e bem-falação de alguns dos poucos amantes de livros que eu conhecia, meti-me a ler Paulo Coelho, O Alquimista para abrir, não entendi o tanto entusiasmo acerca do livro, porém continuei a ler o autor, e li cinco títulos e gostei apenas de Monte Cinco, mas até que era capaz de salvar metade de Verônica Decide Morrer; eu sei que os críticos invejam qualquer artista que comece a ter visibilidade, por isso decidi ler todo o Paulo Coelho que me fosse parar às mãos, depois do primeiro, para poder dizer com alguma isenção que não gosto dele ou para encontrar aquela chama que fascinava os outros, para não ser como os ateus que desprezam toda a Bíblia sem nunca o terem lido. No entanto, prefiro Paulo Coelho a Hemingway.