Mostrar mensagens com a etiqueta UMA QUESTÃO DE.... Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta UMA QUESTÃO DE.... Mostrar todas as mensagens

24 de abril de 2015

UMA QUESTÃO DE... VIDA

Quem salva uma vida salva um mundo inteiro, diz o Talmude. 

Se pensarmos na frase, o que vamos concluir é que neste nosso mundo vivem vários outros mundos, ou seja cada um de nós é um mundo. E em cada um de nós vivem mundos, pessoas, paixões, amores, desejos, sonhos, fantasias, anseios, inquietações, medos e fantasmas. Em cada um de nós há sementes para mais vidas, e há oportunidades para sermos significativos nas vidas dos outros.

Agora põe-se a questão: será que somos? O que fazemos com a nossa vida para ajudar outras vidas?

Os religiosos dizem que deus criou tudo e entregou na mão de Adão para gerir, colocando o homem no centro do universo. O sol, o céu, a lua, as estrelas, os mares, a chuva, as árvores, os animais, os peixes, enfim, tudo o que está na terra e fora dela foi criado para o nosso deleite. Tudo na terra, mas tudo mesmo... bem, talvez não a melga e o vírus da SIDA.

Os evolucionistas, por seu turno, dizem que fomos mais hábeis e inteligentes que os outros animais, que desenvolvemos a linguagem e a comunicação de uma maneira mais complexa e completa, e que foi isso que ganhámos vantagem e que aprendemos a pensar e tornamo-nos melhor adaptados, e, portanto, merecemos gerir a Terra.

Pode-se ver que independentemente da abordagem que fizermos, seja religiosa, seja científica, a conclusão é a mesma: somos os gestores do planeta.

Isto, meus caros, demonstra apenas uma coisa: somos arrogantes até não mais poder. Achamo-nos no direito de manipular, conduzir, catalogar e definir a natureza, porque temos o poder para isso. Afinal ela não nos pertence?

E assim, para acrescentar mais questões àquelas que já tinha feito, faço outra: o que é para nós a vida?

Acho que pouca gente já pensou sobre o que significa a vida. Sim, eu sei que toda a gente pensa sobre a vida, a sua, simplesmente... outros até procuram descobrir qual é o sentido da vida. No entanto, muito pouca gente pensa sobre o que é a vida no geral.

Todo o mundo está de acordo a vida é muito valiosa, talvez seja mesmo o que que temos de mais valor. E todo o mundo concorda que se algo pode morrer significa que tem vida. Mas se há essa concordância sobre o valor da vida, porque então se mata indiscriminadamente? Não estou sequer a falar das vidas humanas tiradas em nome do petróleo, dos dólares ou da religião, nem das florestas que destruímos em nome do consumismo, mas das outras vidas que desvalorizamos: a vida dos animais.

Por que é que a vida dos animais não é valorizada?

A religião, inclusive o próprio Talmude, já se viu a braços com esse problema e encontrou a resposta para continuarmos com a nossa crueldade sem nenhuma crise de consciência. A religião disse: os animais não têm alma, só os humanos têm, por isso a vida deles não é comparável à nossa. Sim, resposta simples e prática. No entanto, a religião depois nos diz que a nossa alma irá para o paraíso e ali brincaremos com os leões que estarão a brincar com os cabritos, tudo isso na santa paz de deus. E aqui complica-se tudo, afinal os animais têm alma ou não? Como é que vão parar então ao paraíso?

Mas como não vou aqui discutir a religião, vou falar da abordagem científica.

A ciência diz-nos que a vida dos animais não tem o mesmo valor que a vida humana, porque, meus caros, nós… somos… o topo da cadeia alimentar. Fantástico! Nós pensamos, decidimos, criámos, inventámos, cultivamos... e eles não. Somos os chefes, somos os Passos Coelho e companhia, os restantes são meros funcionários, são simplesmente o povo, nada mais que votos e estatística, vamos, portanto, monopolizar os privilégios para nós e abusar da nossa posição. Só nós importamos, os animais não importam. E como pensamos e somos mais evoluídos cerebralmente, estamos então no direito de os comer. 

A ciência aceita isso tranquilamente, ao mesmo tempo que critica os religiosos que acreditam num deus ultra-mega-superior aos humanos, por não entenderem a lógica ou a moral desse deus (ponhamo-nos no lugar de animais e ponhamos deus no nosso lugar e vamos ver que fazemos tanto sentido quanto deus). Aliás, na mesma perspectiva, se uns extraterrestes muito mais avançados do que nós chegarem à Terra estarão no direito de nos usar para refeição e de nos abrir em laboratórios, usarem-nos em jaulas e brincarem com a nossa vida. Na verdade, nem precisamos de extraterrentes, se esticarmos este pragmatismo científico, vamos perceber que mesmo a vida humana não tem o mesmo valor. Foi o pragmatismo científico que inventou a teoria da raça no Séc. 18, para favorecer os europeus (brancos, entenda-se), dizendo que eram superiores e podiam escravizar todos os outros povos diferentes, e assim abusaram dos africanos, dos índios, dos chineses, dos indianos e de tudo o que tinha uma cor diferente. A ciência criava e ainda cria vários artifícios para desvalorizar a vida. 

A ciência não diminui o nosso valor, humanos, apesar de ridicularizar a religião, os físicos quânticos até afirmam que uma simples decisão nossa entre uma camisa e outra cria um universo pararelo, ou seja, nós somos criadores, mesmo que inconsciente, de universos. Deuses! Uau!

Hoje, a ciência diz que os animais são inteligentes, têm linguagem, aprendem parte da nossa linguagem, outras espécies como os gorilas ou os cães até compreendem melhor a nossa linguagem corporal do que nós mesmos, os gibões têm linguagem articulada, etecétera e tal, mas mesmo assim a vida destes animais continuam a não ter a mesma importância que a nossa, porque nós estamos no topo da cadeia alimentar, somos o topo da cadeia alimentar. E por que não estaríamos? Afinal fomos nos que criamos essa teoria. Pusemo-nos lá em cima quando devíamos colocar lá os pequenos vírus que anualmente dizimam milhões de vidas humanas.

Esta nossa arrogância permite-nos fazer mal aos animais e permite-nos dizer que a vida dos animais não importa ou porque estamos no topo da cadeia ou porque deus os criou para o nosso deleite. Por isso, fazemos touradas, e fazemos touradas porque amamos o touro, afinal se não fosse por nós o touro nunca teria chegado a visitar a cidade e teria vivido toda a sua vida em total ignorância. E se não fosse por nós, a espécie dos touros usada nas touradas já estaria extinta.

Somos tão arrogantes que, ao contrário dos bosquímanos, a tribo africana do Kalari, ou algumas tribos índias da amazonas, matamos indiferentemente os animais e matamos grande quantidade de animais, para depois deitar a carne fora, em nome de lucro. Estes povos que mencionei quando vão caçar têm o trabalho de explicar ao animal que precisam da sua carne para sobreviver (é certo que o animal prefereria continuar vivo e que eles se lixassem, mas... ok...) e nunca matam mais do que necessitam, porque, para eles, toda a vida tem valor… bem, talvez não a dos mosquitos.

E falando em mosquitos, o que será que determina o valor que damos a vida? Será a proximidade doméstica: a vida de um cão é mais valiosa que a de uma cabra? Ou será o tamanho do animal: a vida de uma baleia é mais valiosa que a de um rouxinol? Será a beleza que atribuímos ao animal: a vida do coelho é mais valiosa que a do crocodilo? Ou será que os animais que não comemos, pelo menos na nossa cultura, como o gato ou o cão terão a vida mais valiosa que o porco ou a vaca? Já vi, e inclusive, já participei em marchas a favor de cães e gatos, e depois fomos a um restaurante comer um grande prato de bife de vaca. Grande hipocrisia, não?

Sim, não sou nem vegano, nem vegetariano. Eu como os animais. Gostava de ser mais evoluído e poder deixar de comê-los porque a sociedade atual oferece-me muitas alternativas. No entanto, sinto-me mais evoluído do que as pessoas que vejo a deitarem fora muita comida, sem pensarem que dessa forma só estão a contribuir para a morte de mais animais. 

Não estou a dizer a ninguém para se tornar vegetariano, estou é a tentar chamar a atenção para o encorajamento que damos às indústrias da morte que só querem saber do lucro. Eu trabalhei num supermecado, a carne era muitas vezes reciclada, lavada e etiquetada de novo para levar mais tempo, mas mesmo assim grande quantidade acabava por ser deitada fora.


Bem, quero voltar às questões que lá em cima coloquei, como já devem ter visto, não tenho resposta para elas. Porém isso não quer dizer que por falta de respostas elas não devam ser feitas. O que eu sei é que desvalorizamos a vida, somos cruéis com os animais e destruímos a natureza, simplesmente porque podemos e simplesmente porque ou não pensamos nas consequências ou não queremos sair da nossa zona de conforto para pensarmos nelas.

E assim, fecho esta exposição com a frase com que comecei: O Talmude diz: quem salva uma vida, salva um mundo inteiro. No entanto, gostaria que fizéssemos todos a nós mesmos esta questão: o que é uma vida? 

24 de setembro de 2013

UMA QUESTÃO DE... PROSTITUIÇÃO


A prostituição é uma prática social muito degradante, todos concordamos, embora a História e a literatura nos tenham apresentado certas damas das camélias, poderosas e influentes, que, não obstante a sua profissão, atingiram um estatuto invejável.

Acredito que, porque a prostituição envolve, inegavelmente, o sexo, e porque o sexo é para nós um assunto que, conforme diz a cartilha, tem de envolver uma afinidade emocional, ou melhor, afectiva, e cumplicidade a nível profundo, devendo ser usado como uma extensão de amor, afigura-se-nos imoral quando é usado como mercadoria, o que revolta de tal maneira que chamamos às prostitutas de mulheres de vida fácil. Porém, cometemos logo com isso uma injustiça, pois não me parece haver nenhuma facilidade em ter de ir para a cama com desconhecidos, que tanto podem ser carinhosos como violentos, limpos como porcos, etc. como etc., em troca de dinheiro. Sei de pessoas que engatam desconhecidos após desconhecidos, mas fazem-no por prazer, e não porque são obrigadas (excluo os erotómanos, que são compelidos a isso por uma necessidade psicológica).

As prostitutas, sim, acho que não precisava de dizer isso, são pessoas como nós, e, não, não é porque são prostitutas que significa serem moralmente mais falhos que o resto de nós, aliás, em termo comparativos, elas prostituem o próprio corpo, enquanto a maioria prostitui a ideologia, a ética, e alguns o próprio país e o povo pelo qual é responsável.

As prostitutas são do nosso meio social, e por isso moldadas pelos mesmos princípios báscicos morais que nós, e o óculo pelo qual as vemos é o mesmo pelo qual elas se veem, daí é que se sentem párias, simples objectos, e perdem a sua auto-estima, principalmente porque estamos nós sempre de facho aceso, prontos para a queimança, a mostrar-lhes o quão miserável é a sua vida, de forma que acabam mesmo a aceitar que são menos dignas e simples dejectos sociais.

Temos prostitutas e prostitutas, eu sei. Há aquelas de luxo, que ganham numa noite apenas um tanto milhares de euros, e eu tenho ainda alguma dificuldade em compreender a prostituição de luxo. (Deixem-me só esclarecer, eu defendo que cada um deve usar o seu corpo da forma que entender, desde que não ponha terceiros em risco, se há alguém disposto a pagar para o que podemos oferecer quando o podemos oferecer, se não vermos problemas nisso, por que não? – os prostitutas políticos estão fora desse plano, porque põem todo um país em risco.) Como estava a dizer, tenho dificuldade em compreender a prostituição de luxo, porque está envolto num clima de falso glamour (ou real mesmo), muitas meninas são enganadas e julgam que vão tornar-se estrelas ou algo como isso e são sugadas por esse mundo, e daí começam a fazer fotos com casacos de inverno e de repente estão a fazer vídeos com as pernas abertas… já estou a tergiversar.

Vi na SIC Radical (um canal orientado para adolescentes) um programa que mostra um bordel, nos States, onde as meninas são exploradas por um casal de meia-idade. Parecem sempre todos felizes e sentem-se importantes porque aparecem na televisão. A ideia passada pelo programa é que aquele trabalho e igual a qualquer outro (sim, e por que não? – concordo que devemos levantar o estigma e as cercas morais sobre o assunto), no entanto, desconsidera todos os demais factores. Desconsidera que aquelas meninas estão a servir a um casal de proxenetas (ou talvez a uma organização mais complexa), visto que a casa fica com boa percentagem dos ganhos, e que a prostituição é “supostamente” ilegal. Além de que o programa está a fazer publicidade aquelas casas e às suas meninas.

Uma curiosidade acerca dos States, parece que só um estado americano tem a prostituição legalizada, mas se o acto sexual for filmado deixa de ser prostituição e para a ser considerado pornografia, que é legal – como se ela não se processasse nos mesmos moldes que a prostituição, como se não fosse sexo em troca de dinheiro. 

Aquele programa desconsidera que a nossa sociedade desvaloriza as prostitutas, por isso vai insistindo em dizer que aquelas meninas são tratadas com respeito e cavalheirismo, mesmo quando elas mesmo dizem aos clientes: podes fazer tudo o que quiseres comigo… “pois pagaste, és o meu dono”. (Aspas minhas). Quando elas mostram que ganharam 2.000 euros por uma sessão de sexo com um cliente que teve ejaculação precoce, o que vão pensar as milhares de adolescentes a ver o programa? Não é melhor largar a escola (que, por acaso, é garantia de nada) e começar a treinar os meus dotes da Fanny Hill (não as literárias, é claro)? Eu sei que há prostitutas que ganham muito mais do que isso, sorte delas, mas são exceções.



Sou a favor da prostituição, mas sou contra o aliciamento expresso que fazem às adolescentes, principalmente porque elas vão ser exploradas por terceiros. Se a prostituição fosse legalizada, e houvesse uma estrutura legal que protegesse as mulheres de abusos tanto dos clientes como de nós cá que as condenamos, eu não veria problemas nenhum nesse tipo de aliciamento, porque saberia que elas iriam trabalhar, manter a sua auto-estima e não seriam postas de parte. Eu sei que pessoas como a Sasha Grey, ou Jenna Jameson, são endeusadas, porque ficaram ricas e são famosas, embora sejam ou foram prostitutas, desculpa, artistas do sexo, mas elas são exceções das exceções.

O que queria dizer é que há diferentes níveis de prostituição, e eu queria aqui a escrever sobre o nível mais baixo, aquele onde as mulheres têm de se vender para sustentar os filhos e os maridos, ou das estudantes que precisam disso para as propinas da faculdade, e acabei por desviar-me.


vidas em saldo - reportagem da sic

Bem, é certo que pode haver uma ou outra que goste mesmo de prostituir-se, que junta o útil ao agradável, mas pelas estatísticas, são casos raros.

Eu acho que a prostituição deve ser legalizada, afinal já existe prostituição legalizada chamada de cinema pornográfico. No entanto, repito, também acredito que vai ser preciso muitas medidas milagrosas para tentar que as mulheres sejam menos exploradas. A legalização da prostituição não deveria ser de maneira a favorecer aos proxenetas, mas às próprias prostitutas, aquelas que ou optam por ela ou são forçadas a ela porque têm de sobreviver.

Se a prostituição não for legalizada, as prostitutas que só a têm como opção para sobreviver, vão trabalhar nisso a vida toda e no fim, quando forem velhas e acabadas e ninguém as quer, simplesmente ficam lixadas, entretanto, se for legalizada, elas pelo menos podem descontar para o estado e garantir uma reforma ou algo parecido. A prostituição é uma necessidade, má ou boa, mas necessidade (não entendam, necessário, pelamordideus).

Não falei do machismo que envolve a prostituição e nem falei da prostituição masculina, porque tirando aquela referente aos gays, a nossa sociedade chauvinista admira os gigolos, mesmo que secretamente, pois fazem sexo e ainda são pagos para isso.

E qual é a diferença entre a prostituição e a pornografia? por que a segunda é legal e a primeira não?

14 de abril de 2013

UMA QUESTÃO DE... LIBERDADE DE EXPRESSÃO


O senso comum diz: onde acabam os teus limites começam os meus, sustentando-se no princípio de boa convivência.

Entretanto o mais certo é que isso não é assim tão simples como se diz, na medida em que esses limites na maior parte das vezes são marcas invisíveis e imperceptíveis, ou visíveis, porém, ilusórias, nada mais do que miragens. De qualquer forma não há como negar que este simples princípio consegue estabelecer algum equilíbrio, no entanto, quando as pessoas invocam a liberdade e os direitos, aí a coisa complica.

A liberdade nunca pode ser plena, ela é ultra-condicionada tanto por outros factores como por ela própria (considerando que a nossa liberdade e o direito a ela tem de se submeter, na maior parte das vezes – e para a maioria dos mortais, conforme a sua importância social –, à liberdade e o direito a ela de outras pessoas). Somos livres mas não tanto ao ponto de entrar numa casa alheia e usar as coisas dela, por exemplo… oh… essa foi demasiado básica… somos livres, mas não tanto ao ponto de nos mandarmos embora de um emprego quando temos contas por pagar no final do mês, ou para nos darmos ao luxo de não ter uma conta num banco qualquer, ou para não nos submeter às filhadaputices das leis governamentais que nos tramam... hem!, somos livres mas não tanto ao ponto de agredir física ou emocionalmente outras pessoas.

E é sobre esta parte complicada da liberdade que eu quero reflectir: a liberdade de expressão. A liberdade de expressão é uma das mais confusa, tramada e opressora forma de liberdade de que eu tenho conhecimento; muita gente pretende que pode dizer o que bem lhe dá na telha sob a alçada da liberdade da expressão, mas não percebe que embora pareça que possa, talvez não deva usar essa aparente liberdade (e não, não quero ir para o sempre aclamado e vulgar direitos e deveres).

Em nome da liberdade de expressão faz-se declarações difamatórias, publica-se o ódio, publica-se a estupidez, chama-se de estúpido aos estúpidos, aos iluminados e aos pseudo-iluminados, sem discriminação, desde que não estejam de acordo com a nossa forma de pensar. Eu mesmo que estou praqui a falar, por exemplo, ao escrever uma crítica sobre um filme que não gostei, chamei de pseudo-intelectuais àqueles que disseram que gostaram, e digo, em minha desculpa, que tenho os meus motivos para isso e justifico-os. E é isso que toda a gente faz quando usa da chamada liberdade de expressão, agride os demais e justifica a agressão.


O que não faltam por aí são artigos escritos por pessoas cultas (considerando as citações que fazem), académicas (por causa da estrutura séria dos seus textos) e bons escritores (porque os textos têm ritmo e são bem redigidos e apelativos), feitos à bandeira da liberdade de expressão, mas que não passam de um atropelo à expressão da liberdade: textos misóginos, textos racistas, textos homofóbicos, textos partidários, textos religiosos, textos ateus, textos eteceteristas; e quanto com mais cultura são escritos, mais perigosos são, porque se baseiam sabiamente (mas de forma errada) em justificações bem manipuladas que, sem um pensamento crítico da parte de que os lê, induzem em erro.

Há uma confusão constante, as pessoas julgam que a liberdade de expressão é uma expressão de liberdade, pois devia ser, mas considerada no plano ético, onde temos o tríptico: eu, tu e nós, vemos que restringimos a nossa liberdade quando só respeitamos um dos elementos desta santíssima trindade e fazemos pouco caso dos outros. Quando só olhamos para o próprio umbigo, quando só julgamos que a nossa opinião é que conta e quando fazemos tudo para defender essa opinião e o direito de a ter, o que poderemos esperar que a alteridade faça? É aqui que triunfa o príncipio de os meus limites e os teus.

Por exemplo, lembro-me de alguém justificar que tem o direito de não gostar dos gays e de não os querer perto de si. Pois, faz sentido, tanto quanto o meu sobrinho tem o direito de não gostar de repolhos. Porém, os repolhos são para serem comidos, não têm decisão na matéria, mas um gay tem (ou devia ter) os mesmos direitos que esse alguém que não os quer por perto, e, voltando à santíssima trindade, percebe-se facilmente que apenas o elemento eu fica em desvantagem diante dos outros dois.

A questão da liberdade é complicada, a da liberdade de expressão é estupidamente mais complicada ainda, mas talvez se simplifique se pensarmos que se com ela estamos a pôr em questão a liberdade de outras pessoas é porque não faz sentido e é prejudicial. Como por exemplo disse alguém inteligente, se há muitas pessoas heterossexuais solteiras que não querem casar-se e acham ridículo o casamento, mas ninguém lhes acusa de estragar a seriedade casamento por isso, por que raio acham que os homossexuais que querem casar-se (entenda-se, respeitam essa instituição) é que vão pôr em risco o seu significado?

Sem esticar mais, e não me sentindo muito claro e inteligente hoje, vou acabar aqui o artigo e deixar a sugestão de que quando a nossa liberdade de expressão agride qualquer expressão de liberdade, pondo em risco o tu e o nós (considerando que se o eu atacar o tu, este reage atancando o eu, e o nós deixa de existir), então o mais certo é não fazermos o uso dela.

6 de fevereiro de 2012

UMA QUESTÃO DE... RACISMO


Não sou racista. Eu vou para a cama com pretos!

Lembro-me de ter ficado bastante magoado quando uma amiga que prezo muito me disse que não se via a ter relações com pretos que não fosse mais que amizade. É claro que pensei que ela era racista, porque para mim, na altura, a maior mostra de não ser racista era talvez ter relações sexuais com alguém de outra raça (e digo já àqueles que vão retorquir que somos todos da mesma raça: pliz, não chateiem e deixem-me acabar o meu raciocínio). Eu sei que foi um pensamento estúpido tanto quanto foi estúpida a frase dela, pois quando desenvolvemos sentimentos de amizade, se forem genuínos, é claro, por alguém, isso significa que podemos desenvolver sentimentos de amor, pois se não nos restringimos a amar fraternalmente alguém de uma raça diferente, provavelmente é porque não somos racistas.

Eu vou para a cama com pretos!, não quer dizer que a pessoa não seja racista (embora não signifique que o seja), aliás, não atesta de forma nenhuma o racismo ou a sua ausência em ninguém, embora possa ser um indicador. Pode-se ir para a cama com pretos por fetiche, ou para se sentir cool e progressista, ou porque essas pessoas não passam de objectos sexuais. E pode-se não querer ir para a cama com pretos da mesma maneira que não se quer ir para a cama com gordos, musculados, magros, loiros, morenos, anorécticos, entre outros tipos físicos. Porém, quando alguém diz: loiras não fazem o meu tipo, ninguém o acusa de “tipismo”, mas quando alguém fala: pretos não fazem o meu tipo, é logo racista. Eu sei que estou a ver a coisa de uma maneira um tanto superficial, mas acho que suficientemente para mostrar o meu ponto.

Imaginemos um branco a dizer (como já ouvi algumas vezes): gosto de carne escura, brancas não me atraem!, o que concluímos: Ele é racista e não gosta da sua própria raça? Ele é racista e trata os pretos como objectos? Ele simplesmente definiu um tipo? E vamos pensar então que ele cresceu com os pretos e sempre viveu com eles?

A verdade é que nem tudo o que envolve a cor é complicado, no entanto, tudo o que envolve os pretos é. E parece que para a maioria, tal como era para mim, o não-racista é aquele que vai para a cama com a outra raça e não aquele que respeita, valoriza, amiga-se ou ama os outros, independentemente da sua raça.

E, voltando atrás, quando um preto diz: gosto mais de brancas!, ele é logo taxado de racista e de alguém com vergonha da própria raça, nem se pensa em aspectos culturais ou na simples questão de atracção pelo oposto. Não choca a ninguém ouvir as arianas, loiras platinadas e de olhos azuis nórdicas a dizerem: atraem-me mais os morenos e de olhos negros. Ninguém julga que pela abundância de “arianismo”, elas queiram algo diferente; aliás, de forma igual, ninguém se chocaria se uma delas manifestasse uma tendência exclusivamente “ariana”, certamente se diria: ah, é o tipo ao que ela está habituada!

Por essa razão não entendo por que tem de haver sempre complicação quando esta questão envolve os pretos. Quando um preto prefere brancos é racista; quando preto prefere pretos é fingido e orgulhoso; quando branco prefere pretos é fetichista.

Mas como eu disse antes ir para a cama com pretos não significa não ser racista (mas também não significa sê-lo, ou seja, como indicador para o racismo não serve de nada); há quem coma os animais, em todas as acepções da palavra, e isso não significa que não seja “especicista”, por exemplo, decerto que Monica Mattos nunca diria que respeita os cavalos como aos humanos.

Há muitos indicadores para o racismo e o factor “cama” é também um deles, mas só se, suponho eu, aliado a outros, porque só por si não é nada determinante. E olhem que para esta reflexão usei o preto como a constante e o branco como a variável, o que, não fosse o facto de eu me encontrar num país branco, poderia significar que pretendo que apenas os brancos podem ser racistas. E para esclarecer digo: o racismo não tem raça, só os homens têm. E olhem que nem comentei a frase: não sou racista, pois tenho amigos pretos!

10 de janeiro de 2012

UMA QUESTÃO DE... ABUSO


o monumento na foto é dedicado
aos soldados da Primeira Grande Guerra
HOMENAGEM AOS MILITARES NATURAIS DO CONCELHO DE SINTRA MORTOS EM DEFESA DE ULTRAMAR, eis a dedicatória de uma escultura que se encontra em Sintra.

Já tinha visto várias vezes este mesmo monumento, e outros como ele, entretanto talvez a minha mente não estivesse sincronizada com o seu real significado. Não sei se existe, mas duvido que a Alemanha possa edificar um monumento aos seus soldados da Segunda Guerra sem parecer agressiva e racista, ou melhor, anti-semita, porque os judeus passaram da categoria de perseguidos para a de ultra-protegido, aliás, tem feito o oposto: constrói em memória dos judeus. No entanto, pode existir com toda normalidade aqui e em outros países, EUA, por exemplo, monumentos a louvar a braveza da sua agressão?

Morreram em Defesa da Ultramar? Que tanga! Que insulto aos verdadeiros atingidos! Eles tiveram o que bem mereceram. Os familiares dessas pessoas me perdoem, mas não vou pedir desculpas pela frase, por mais ofensiva que seja. É assim mesmo! Saíram de Portugal para um país alheio, para a Guiné, por exemplo, para fazer Guerra, em defesa de quê? Defesa? Defesa de interesses económicos de uma porção de gente, sim, mas não propriamente do povo português, e mesmo que fosse em defesa do interesse económico do povo português isso não legitimaria de forma nenhuma a agressão a outro povo… pois, não há “defesa” nesta questão, apenas “agressão”.

Um exemplo mais recente de invasão é a americana, estão no Iraque, no Afeganistão, e estão a ver como entrar no Irão, na Venezuela, e algum outro país com potencial económico para controlar, e fazem-no em nome do “mundo livre”. Mundo livre, hem? Quer dizer viver em constante lei marcial é liberdade?

Os americanos tal como os colonizadores portugueses fizeram, invadem um país alheio, exterminam inocentes, porque são casualidades, danos colaterais, destroem tudo o que estiver pelo caminho e voltam para a casa com as mãos cheias de sangue e ainda assim recebem nomeações e homenagens. Não vêm que isso é ofensivo, mas reclamam porque a MVRDV desenhou umas torres que, segundo eles, lhes lembram o 11 de Setembro.

Qual é o significa disso, destes monumento, senão dizer que ao fraco não é permitido sentir-se ofendido? 

Por isso volto a repetir: os soldados homenageados neste monumento e em muitos outros do género tiveram o que bem mereceram. 

20 de junho de 2011

UMA QUESTÃO DE... CRENDICE



Há dois sábados vi na SIC Notícias uma reportagem sobre albinos em Tanzânia que sofrem discriminações racistas, entre outros tipos. Sim, amigos, racistas. Não obstante o racismo tenha derivado da palavra raça, ela praticamente não se limita a questões raciais (vou ignorar de antemão aqueles que vão objectar que somos todos da mesma raça – a humana), mas à questão de cor, aliás, parece que a raça é definida pela cor da pele.

Vou tergiversar um bocado. Na minha língua materna, guineense, raça é muito mais plurissignificativo, é sinónimo tanto da religião, como da etnia, da nacionalidade, entre outras divisões, mas raras vezes da cor; a cor é simplesmente a cor. Por exemplo, pode dar-se este diálogo: O fulano é de qual raça? “É cristão.”[1] Não, a sua raça? “Ah, ok! É budjuku (bijágo). Mas ele é vermelho (mulato)?  “Sim, a mãe dele é tuga[2]. Com isto, repito, raça significa muita coisa em guineense, mas quase nunca a cor, pelo menos quando o guineense se encontra entre os seus. No entanto, hoje com o aportuguesamento do guineense (tanto a língua como a pessoa) por parte dos mais lidos e que, portanto, se julgam mais civilizados e melhor falantes, a distinção entre etnia, religião e outras divisões sócio-antropo-culturais (eu sei lá o termo certo) tornou-se mais óbvia como em português, chegando mesmo alguns a criticar aqueles que ainda usam o termo raça como há uns quinze anos ainda era amplamente usado. Pronto, como não quero aqui falar da linguagem da raça, nem mesmo do seu conceito, mas dos seus problemas, vou ficar em como a diferença é usada para o prejuízo de outrem.

Os albinos na Tanzânia são discriminados pela sua cor e pelo medo que alguns curandeiros, bruxos ou xamãs vendem às pessoas contra eles. Os mais ilustrados sabem que o albinismo resulta de uma deficiência genética na produção de melanina, o responsável pela pigmentação da pele, o que lhes deixa muito desfavorecidos, mais fotossensíveis e atreitos ao cancro da pele (o que é piorado pelo sol da África). Mas como se isso não bastasse, ainda são discriminados por serem diferentes, alguns idiotas até acreditam que possuir uma parte do corpo dos albinos lhes trará boa sorte e usam-nos como amuletos (alguém se lembra do filme Distrito 9, onde um líder nigeriano praticava canibalismo confiante de ganhar mais poder dessa forma?) Alguns bruxos e curandeiros tanzanianos recomendam e encomendam partes de corpo de albinos, e logo há assassinos desalmados que tratam de caçá-los para prover ao bruxo, sem contar ainda com os linchamentos populares quando alguma desgraça é atribuída a eles.

Vou derivar outra vez. Na minha terra, havia o costume do infanticídio, deixando à beira do rio criança com alguma malformação genética (às vezes até com síndrome de down), à espera que o enchente a levasse, justificando depois que ela era irã (entidade sobrenatural quase sempre maléfica) e que se tranformara na sua forma verdadeira e seguido para o rio. Para eles, não matavam a criança, mas devolviam-na ao seu habitat natural. Este costume provavelmente ainda existe, porém mais discreto, considerando a criminalização do acto, embora ainda haja um fechar-os-olhos diante de tudo o que se chama de tradição, sem levar em conta a sua nocividade. Porém, nós não matamos os albinos.
Rishabh Ghimire, nepalês, antes e depois da operação, teve a sorte de ser considerado antes como a reencarnação de  deus Ganesha, pois na minha terra seria considerado uma incarnação maléfica e deixado morrer numa cerimónia estúpida qualquer



Práticas do género abundam pela África dentro, o que motiva o discurso condescendente dos ocidentais, chamando aos africanos de obscurecidos e recomendando-lhes a sua luz. Bem, em termos de práticas de crendices eu preferia comer a hóstia, que se trata de um canibalismo simbólico, que me fará ganhar protecção tanto nesta vida como na futura e far-me-á viver para sempre, do que ficar com a parte de corpo de um albino que me trará apenas protecção e boa sorte nesta vida; porém, em termos de luz, ambos os desgraçados, o ocidental e o tanzaniano, estão com a mesma falta de iluminação. É claro que o ocidente fez de Jesus branco e achou que isso legitima a sua crença; o ocidente desenvolveu, com o mundo árabe, a ciência, é claro, mas continua tão estúpido quanto antes, acreditando ainda em besteiras tais como engolir sémen faz bem à pele ou gente bonita tem melhores genes.

canadiano, albino, que faz parte da fundação
para ajudar os albinos de Tanzânia
Não pensem que estou a desculpar os actos criminosos desses imbecis tanzanianos,  ou que estou contra a reportagem, o porquê de eu ter dito aquilo lá em cima reside no tom condescendente de alguns entrevistados (ocidentais e africanos) e da própria repórter, que pelo sotaque me pareceu indiana. Havia motivos mais que de sobra para condescendência, reconheço, mas quando penso que esta reportagem foi feita para a televisão ocidental para mostrar o problema gerado pelo obscurantismo africano sem, no entanto, oportunamente, criar paralelos com obscurantismo ocidental sinto-me desgovernado. Ali lincha-se albinos por crendices supersticiosas, aqui os homossexuais e pretos por crendices superticio-religiosas e pseudo-científicas, ali penduram o dedo de um albino na garganta, aqui um crucifixo, e os obscurecidos são só aqueles? Pensem nisso.

Voltando à reportagem, foi cruel ver crianças albinas a viverem em espécies de campos de concentração porque o mundo lá fora é uma ameaça para elas. Revolta que tenham de viver assim, porque quando crescidas, fisicamente poderão estar capacitadas para se defenderem, mas psicologicamente, pela falta de contacto com a sociedade ameaçadora, largadas na selva social de repente, depois de anos de condicionamento atrás das grades protectoras, serão capazes de se desembaraçarem? Não pretendo que não devam ser protegidas, devem. Mas, por deus!, basta de proteger os ameaçados apenas quando ameaçados, tem que se criar mecanismos para responsabilizar os ameaçadores e responsabilizá-los de melhor maneira. O justo seria inverter os campos de concentração, porque o racismo e as crendices (as mal orientadas, pelo menos) destroem as hipóteses de viver em equilíbrio. 

No entanto, mal pelo pior, venha o anterior; se o ocidente não quiser tirar as traves nos próprios olhos e puder tirar a palha dos nossos, por deus!, que a tire. Se conseguirem criar sistemas que ajudem aos albinos sem que isso resulte em tais campos de concentração é bem-vinda a solução, porém, o que recomendo é, àqueles que se sentem tocados pelos problemas do género, alargarem o alcance da sua empatia para todos os problemas similares, criados simplesmente pela diferença, e façam forças para minimizar, até a sua extinção, esses preconceitos e os seus danos. E aos tanzanianos, e africanos, que cuidem dos seus próprios problemas e não fiquem parados e inactivos à espera do ocidente. 





[1] O que necessariamente não significa que professa a fé de Cristo, mas que não é muçulmano, ou então que bebe vinho (ou lhe é permitido beber); pode ser chamado também de bebedor.

[2] Tuga significa português, mas muitas vezes, em guineense, usamos o termo para significar branco. O branco é tuga, o preto é jazz.

17 de maio de 2011

UMA QUESTÃO DE... PERSPECTIVAS

Fiz esta crónica em 2004, mas por não acreditar nela, não cheguei a apresentá-la ao jornal Kansaré, para o qual escrevia, para ser publicada, porque esperava que os meus textos causassem sempre impacto e procurava escrever sobre algo realmente impactante para o meu contexto social.


perspectiva de sapo
Muitas vezes ouvi dizer às pessoas, principalmente aos jovens, em termos de desprezo ou de admoestação: és uma pessoa sem perspectiva. Ouvi-o tanto que comecei a recear ser considerado nesta mesma tabela classificativa e tentei tornar-me num jovem com perspectiva. 

Todavia, como perspectiva é razoavelmente plurissignificativo, embaralho-me por vezes e não consigo saber se sou perspectivado ou se não sou. E piorou quando descobri que ter perspectiva, o primeiro passo da caminhada, pode ser bom mas não resolve os problemas, sem falar que dependendo da perspectiva pode causar problemas até, porque há uma grande possibilidade de ter uma perspectiva errada.

Uma perspectiva errada não deixa de ser perspectiva, todavia, é errada. Então, como dizer a uma pessoa com uma perspectiva errada que ela está num bom caminho? E pensando ainda mais sobre a questão da perspectiva errada, cheguei à outra que é a da errada perspectiva, ou (para simplificar em termos de adjectivações) a má perspectiva.

Se parece que é melhor não ter perspectiva do que ter uma errada, é melhor ter uma perspectiva errada do que ter uma má perspectiva, caso a posse de alguma perspectiva seja mesmo obrigatória ou necessária. No entanto, por poder parecer difícil a diferenciação entre as duas perspectivas, vou fazer o possível para esclarecer isso, e começarei pela perspectiva errada.

A perspectiva errada, como é fácil notar, não é uma má perspectiva, e pode até ser uma boa perspectiva (não confundir com uma perspectiva boa), porém é errada conforme a nossa perspectiva, ou seja, a perspectiva com que perspectivamos uma coisa influi nessa perspectiva e molda-a conforme a nossa perspectivação… Bem, parece que estou a usar um rol de palavras gratuitas sem, no entanto, me explicar bem. Talvez seja mesmo ilustrar com um exemplo:


Estive a ler o livro de Poe, Aventuras Extraordinárias de Gordon Pym, e apesar de ter visto na contracapa que era um livro de aventura, aliás o próprio título o patenteava – quer dizer, já tinha sido pré-estabelecido uma perspectiva pela qual eu devia fazer a leitura –, depois de algumas páginas, entrei numa cena de cama tão escaldante e cheia de metáforas constituídas de puro erotismo, porém leves e pueris; pueris pela forma como Poe usava os termos para se referir a certos aspectos. E o livro ter sido escrito em mil e oitocentos e tanto, numa época de muita censura e pseudo-purismo, fazia-me admirar como é que escapara da guilhotina dos censores essa aventura que descrevia folguedos homossexuais na cama (bem, Satíricon também escapou, mas Petronius viveu numa época diferente, e provavelmente menos hipócrita em relação ao sexo), porém, mais me admirava ainda que o livro fosse considerado um clássico universal, com recomendação à juventude.

Eu estava ensonado quando comecei a ler essa obra de Poe, mas era interessante a forma com ele descrevia, porque, em boa verdade, a história não me dizia nada – culpa do sono, como depois vim a confirmar ­-, por isso, depois de algum bocado a insistir na leitura resolvi desistir e fechar o livro, não antes de ter anotado a página (mentalmente, pois não gosto de dobrar folhas dos livros, nem de escrever nelas, porque, embora os livros possam ser nossos, considero-os transmissíveis, mas com a ideia do autor a levar o futuro leitor a fazer as próprias interpretações do livro, sem a nossa interpretação escrita nos cantos da página a servir de ruído).

No dia seguinte, logo que tive tempo para ler, ataquei o livro com voracidade, não porque era um clássico, mas por causa do seu conteúdo erótico e da perspectiva que tinha dele. Na verdade, quem vai ler Memórias de Bill Clinton tendo ao lado Memórias de Monica Lewinski

Ataquei o livro, sem me preocupar com as páginas já lidas, retomei na página onde tinha parado, porém, vinte e sete páginas depois, não encontrando nenhuma alusão ao erótico, nenhuma passagem com conteúdo do género, senti-me despistado. Afinal qual era o livro que estava a ler ontem? As personagens eram as mesmas, no entanto, algo estava diferente. Voltei então para as primeiras páginas e comecei a reler. Maior confusão me fez ainda, porque já tinha lido aquelas páginas, mas não reconhecia nada... então entendi, apenas julgara tê-las lido; no entanto, continuei pacientemente a percorrer as linhas, sorvendo as passagens até chegar de novo aquela cena de cama. Afinal, no dia anterior, só tinha passado vista em cima das letras e identificado as palavras, no verdadeiro sentido de ler não lera mesmo nada. A cena de cama contava um história bem diferente.

Durante minha primeira leitura, o sono e outros pensamentos misturaram-se com as palavras lidas e criaram uma outra perspectiva sobre o livro de Poe, e vou transcrever o texto, usando supressões e acréscimos meus que me levaram ao logro.


Uma noite (…) August e eu estávamos razoavelmente tocados. Como costumava fazer em casos destes, em vez de voltar para a casa preferia compartilhar a cama dele. Adormeceu muito tranquilamente sem dizer uma palavra sobre o seu assunto preferido. (…) eu ia justamente dormir quando ele acordou e blasfemou. (…) Não sei o que se apoderou de mim, mas logo que lhe ouvi as palavras, senti um arrepio de uma excitação, o maior ardor de prazer e achei que a sua ideia louca era uma das mais deliciosas e razoáveis do mundo.
Saltei da cama, contudo, numa espécie de demência, e disse-lhe que me sentia tão decidido (…) e pronto a dar todas as voltas do mundo com todos os August Barnard de Nantucret. Envergámos os nossos fatos [de Adão] – tinha lido Tchekov à tarde –, August pegara o leme, e eu instalara-me perto do mastro (…). Corríamos a direito com grande velocidade e nem eu nem outro havíamos (…) desamarrado o barco do cais. (…) virando os olhos para ele, logo me percebi de que (…) estava perto de uma forte agitação (…). A mão tremia-lhe tanto que mal podia segurar o leme (…). Nessa época eu não era muito forte em manobras e achei-me completamente à mercê da ciência [erótica] – metáfora de Pitigrilli ­– do meu amigo (…) contudo, sentia uma vergonha de deixar transparecer o mínimo receio. Todavia não pude suportar por mais tempo e falei a August na necessidade de voltarmos para a terra. (…) permaneceu um minuto sem me responder e disse: “daqui a bocado… temos tempo… em nossa casa… daqui a bocado”.


perspectiva de pássaro
Foi mais ou menos aqui que parei de ler, e mesmo assim transcrito o texto continua pueril, no sentido erótico, mas apesar da perspectiva do livro, a minha perspectiva mental levara-me a confundir as perspectivas e a ver tudo consoante essa minha perspectiva. Ou seja, é algo como isto que chamo de perspectiva errada, é errada, não porque seja má, mas porque não corresponde à realidade e muito menos ao que está à mostra, errada porque perspectivamos-lhe à luz dos nossos próprios desejos e ficamos com a razão obnubilada e iludimos o real.

Entretanto, uma má perspectiva não funciona assim, uma má perspectiva ou perspectiva má é do tipo Hitler ter a perspectiva de que assar todos os judeus faria do mundo um lugar melhor. Talvez debruce depois sobre o que é a má perspectiva. Aliás, como disse alguém de quem não me lembro o nome: não são as pessoas que não pensam bem as coisas que me preocupa, mas sim as que pensam bem as coisas más.

23 de março de 2011

UMA QUESTÃO DE... MERDA


Os seres humanos amam o perfume dos seus próprios excrementos, mas não o odor de dos outros. No fundo fazem parte do nosso corpo. (…) Levantei-me e olhei para as minhas fezes. Uma bonita arquitectura em caracol, porém fumegante. Borromini. (…) O cocó é o mais pessoal e reservado que temos. O resto os outros podem conhecer (…) Inclusive os teus pensamentos. Mas o cocó não. Excepto por um breve período da tua vida, quando a tua mãe te muda as fraldas (…) Os caminhos do senhor são infinitos, disse a mim mesmo, também passam pelo olho do cu.


Realmente todos nós merdeamos (limitando a referência ao sentido biológico do termo e sem intenção de ser escatológico), todavia a merda tem um significado bastante íntimo, muito mais íntimo que o sexo, de maneira que acaba por ser ainda mais escandalosa que ele. Todo o mundo partilha o sexo, mas a merda é mais solitária que a masturbação, razão por que o fazemos à porta fechada (limitemo-nos à merda ocidental). É claro que há excepções para tudo, encabeçando o exemplo, o par de coprófagos mais famoso do Séc. XXI, as senhoras da 2 girls 1 cup, mas os nossos sapientíssimos psicólogos chamam-nas, às excepções, de desviantes, e os precavidos higienistas com razão avisam que é uma actividade pouco, ou nada saudável.

A merda, ou melhor, merdear é o maior tabu da nossa sociedade, apesar de qualquer pessoa saudável o fazer pelo menos uma vez por dia (ou devia fazê-lo com essa frequência; bem não sei precisar o melhor número diário, mas julgo que em grande número o melhor é consultar um médico). E a nova geração está tão empenhado em desafiar os tabus, principalmente à porta fechada, que práticas como o beijo grego ou o ATM (não confundir com as caixas de multibanco) são cada vez mais comuns. Será isto uma demonstração de coprofilia em estado latente?

Trabalho num supermercado e vejo todos os dias pessoas a comprarem papel higiénico, e quando, há dias vi o filme Mary e Max e as referências escatológicas ali deixadas (e que me remeteu ao texto de Umberto Eco, do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, com que abri o post) comecei a ficar com desejo de entrar na cabeça dessas para saber se pensam alguma coisa sobre o que pensam os outros pelo facto de comprarem papel higiénico ou se simplesmente estão-se a cagar, pois comprá-lo atesta claramente que a pessoa merdeia.

À merda relacionamos o peido (é melhor dizer flatulência, para não parecer ordinário, e começar a dizer excreção ou dejecção, para parecer científico e não vulgar), de tal maneira que constitui um embaraço quando este se ouve quando o queríamos calar, mesmo que o único sentido que desperte seja a audição; aliás, preferimos empestar o espaço com um fedorento que ninguém pode identificar a origem passando toda a gente a ser suspeito (tirando quando há moscas por perto, pois começam logo a voar na direcção da fonte da emissão, estragando o disfarce), do que a fazer um sonoro que não incomoda a mais ninguém.

Fico à pensar se não condenamos a defecção por sua ligação com o sexo, pelo menos no início. Ok! Eu explico: o acto de defecar expõe inevitavelmente o sexo (o órgão), e acho que o pudor tinha mais a ver com isso do que com questões higiénicas. Li um romance, onde uma senhora da corte francesa durante um passeio, manda parar a carruagem, e avia-se ali mesmo à beira da estrada, à frente dos demais. E parece que até o Séc. XVII era normal defecar em qualquer sítio que desse jeito, dentro da casa ou na rua, ou dizer um: água vai!, antes de amandar a porcaria para o meio da rua. E quando as medidas começaram a ser tomadas para acabar com essa porcariada toda, o acto de defecar era partilhado com os outros, porque não haviam separadores e nem sanitas cómodas como hoje, quando muito pias turcas.  

Se era isso prática comum na altura, começo a pensar quando é que a merda, ups!, defecção, começou a ser sacralizada? Eu sei que os muçulmanos nunca se relacionaram bem com ela, e julgo que e pela mesma razão acima sugerida, o sexo, porque também não se relacionam com a urina, motivo das suas abluções antes de começarem as orações. Mas, também, n’As Mil e Uma Noites soube que eles partilhavam banhos e latrinas, embora já evidenciassem o pudor de merdear em público; eram mais civilizados nesse sentido que os ocidentais.



Parece que os gregos costumavam defecar em público (confirmem se faz favor), sem vergonha desse acto, os próprios romanos tinham o que chamavam de Cloaca Maxima, a sua rede de esgotos, pois os actos higiénicos faziam-se na rua, mas, hey, os romanos eram muito desavergonhados para o nosso padrão actual, eram tipos que faziam hinos ao sexo e aos órgãos sexuais e louvavam o nudismo.

Tudo o que o corpo manda fora pelo seu sistema excretor é lixo, e duvido seriamente que se consiga reciclar. Eu cresci numa quinta enorme, quando criança eu costumava defecar no fundo do meu quintal e tinha sempre algum porco (animal) que ganhava assim refeição (era proibido de fazer isso, porque a minha mãe dizia que comíamos pela carne do animal o que eles comiam; mas eu cagava-me na proibição, afinal eles estavam ali para fazer desaparecer a prova), no entanto, nunca vi um porco a comer o seu próprio dejecto. Ou seja até aqueles idiotas de cérebro reduzido sabiam não ser saudável digerir a própria merda.

É claro que depois de as pessoas começarem a esconder os dejectos e a ter vergonha deles, todo o mundo começou a ganhar, as cidades começaram a ser mais saudáveis e as doenças desapareceram, por isso ninguém pense que estou a fazer um apelo a coprofilia. O que estou a tentar entender é por que raio começamos a ter vergonha de algo tão natural como merdear? E somos tão fascinados pela merda que Piero Manzoni - o grande trapaceiro que soube bem vestir o rei de nu (primeira foto) - teve o trabalho de cagar em 90 latas e nós o consideramos uma obra-prima.



PS: Eu não sabia que algo como a merda podia render um post tão comprido, pois acho que ainda vou voltar ao assunto.

PPS: A segunda foto é de uma instalação sanitária pública com vidros espelhados. Imaginem a sensação de merdear vendo todo o mundo (se conseguisse é claro, eu cá duvido muito), é como ser um deus: cago pra vocês, mas nem sabem.

6 de novembro de 2009

UMA QUESTÃO DE... NACIONALISMO

Quando ouço discursos de generais americanos, assusto-me. Nos filmes e séries eu compreendo toda aquela treta pró-americana, patriótica e tal, porque sei que aquilo é uma máquina de fazer dinheiro, um gigantesco aparelho de marketing de tal forma que estamos todos a copiar agora a cultura americana, ou melhor, o estilo de vida americana. Mas assusta-me o patriotismo da máquina de guerra americana, tal como me assusta a religiosidade extremista. Não obstante estes tipos, os americanos, andarem a dizer crer em deus, parece-me que a sua crença é outra: América.

Ontem, na TV, um almirante a ser entrevistado por Jon Stewart disse que os seus soldados são patriotas, amam o país e dariam a vida por ele. Deus do céu!!!

Na América há racismo, brancos que odeiam pretos e vice-versa, mas mais facilmente, parece-me, um afro-americano (como ridiculamente são chamados os pretos) bombardearia a África em nome da White America do que arriscar a ser chamado de mau americano, não dando a vida pelo país. (Obs.: convenhamos que nem todos eles são assim tão bestas).

Mas não só os americanos são assim tão loucos ou sofreram bastante lavagem cerebral para serem patrioticamente estúpidos, não, todo o mundo é assim. O tópico chegou-me à cabeça por causa de um deles, porém não estou a reflectir sobre eles em particular, mas sobre a humanidade.

Já ouvi pessoas a dizerem: tenho orgulho em ser português, tenho orgulho em ser preto, tenho orgulho em ser drogado, tenho orgulho em ser puta, entre outros, que fico admirado. Porque moi ici não tenho orgulho em ser nada. Sou guineense, sou preto, mas não tenho orgulho em ser nada disso (entretanto, não se confunda não ter orgulho com ter vergonha). O único orgulho que eu tenho é de ser quem eu sou e como o sou. Podia ter nascido marciano, azul ou transparente, e embora saiba que isso contribuiria para me formar, não seria a minha essência, tal como a minha pele e o sítio onde nasci não a são.

Eu amo o meu país, Guiné-Bissau, porque deu-me o berço e sinto-me melhor nele do que em qualquer outro sítio do mundo, mas amo Portugal, porque nesta altura é a minha casa e tenho o dever de gostar e cuidar da minha casa para viver nela melhor, mas eu não atacaria a ninguém e nem daria a vida por nenhum deles. (Bom… se neste momento a América resolvesse atacar Portugal provavelmente eu estaria nas fileiras dos que iam levantar a arma contra, não por patriotismo mas simplesmente porque intrusos me estão a invadir a casa com intuitos impróprios.) Por que razão devia ter orgulho em ser preto ou em ser guineense, se não escolhi ser nenhum deles? E por que razão teria orgulho em ser americano ou branco se de igual modo não teria escolhido sê-los? Eu tenho orgulho em fazer este blog, eu tenho orgulho em assumir os meus pensamentos e palavras (mesmo sabendo que o que estou agora a dizer um dia poderá vir a custar-me sendo erroneamente interpretado), eu tenho orgulho dos meus (embora não os tenha escolhido também, mas são gentes e não coisas ou ideologias), mas orgulho da raça ou nacionalidade, não, não tenho.

Fala-se globalização, mas tal nunca irá acontecer (pelo menos em termos de humanismo e não de controlo económico), porque nós não pensamos no círculo do universo, mas em círculos mais pequenos, individuo, famílias, parentes, amigos, grupos, classes, bairros, distritos, país, continente, para em último chegar a humanidade… Ok!, eu sei que há grupos que já formaram comissão de boas-vindas para os aliens, porque são criaturas vivas, mas também esses são tão progressivos que nem vêm o que acontece aos seus vizinhos.

O patriotismo ou o nacionalismo é a capa de inocência com que envolvemos a xenofobia e o racismo. Um judeu ataca a palestina por nacionalismo; o americano é ensinado a odiar o árabe por nacio… por petróleo; a Frente Nacional quer correr com os estrangeiros por nacionalismo; um hooligan ataca um francês num jogo de mundial por… estupidez.

Uma coisa que admiro nas Testemunhas de Jeová é que os desgraçados não saúdam a bandeira, nem cantam hinos nacionais porque perceberam que isso é idolatria, uma religiosidade não declarada.

Eu recomendaria aos activistas one-worldianos que se concentrassem mais em curar o nacionalismo, pois revela-se mais perigoso que as questões dos círculos menores, pois é fonte que as alimenta e legitimiza.