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28 de julho de 2012

COBARDIA (soneto)

Os ratos estavam na reunião,
Pra pôr fim as ameaças do gato.
Levantou-se então o mais pequeno rato,
Após mil discussões sem solução,

Deu a sua brilhante opinião:
Fosse posto um sonoro artefacto
No pescoço do tão temível gato,
Viam sempre a sua situação.

Boa ideia! O pequeno aplaudiram,
Pois, de todos, foi mais inteligente.
Quem porá no gato o sino?, inquiriram.

Temeram, desde o mais velho ao mais novo,
Até o mais ousado sentiu-se doente.
Eis, nesta estória, a fraqueza do povo.



versão de 1998

18 de julho de 2012

JUVENTUDE PERDIDA - A HISTERIA COLECTIVA

Como referi no artigo anterior com o mesmo título, estas reflexões começaram por causa de um único incidente. E desta vez pretendo falar da histeria colectiva e peço então que não liguem muito à juventude perdida que aparece no título, e pensem mais em sociedade perdida.


A HISTERIA COLECTIVA

Não haja dúvidas, nós somos ovelhas, e apenas ovelhas (embora eu goste de me considerar uma ovelha negra – e não, não por causa da minha cor), no entanto, comparados com as ovelhas animas somos ainda mais estúpidos.

A histeria colectiva acontece em diferentes planos: há o plano religioso, há o plano de modismo, há o plano académico ou pseudo-académico (referido antes aqui), há o plano ateísta-científico, o plano cool-nerd-liberal, enfim… mas destaco aqui o plano nacionalista.

Só publico isto agora, mas escrevi-o quando a selecção de Portugal estava ainda nos quartos-dos-finais no Euro 2012. Nas conversas com as pessoas, nessa altura, dois assuntos saltavam sempre: "a crise e o raio dos políticos opressores" e "O Cristiano Ronaldo e A Selecção Portuguesa", este último ditatorialmente inevitável. No entanto, se sabiam todas as vírgulas acerca da selecção, referiam-se à crise de modo genérico, tal como o meu sobrinho faz. Admirava-me que as pessoas não sabiam que novas leis do trabalho tinham sido ratificadas pelo Cavaco e que punham ainda em piores lençóis (posso dizer assim?) os trabalhadores; admirava-me que dos pouco com quem falava e que o sabiam estavam-se nas tintas, preocupando-se mais com a vitória da selecção. Não me admirou que os média não tivessem dado muita atenção a esse facto e estavam mais interessados em fazer reportagens sobre a selecção, pois esse é o trabalho deles: manter as massas massudas e histericamente cegas para o que realmente importa.


O espírito do povo revelou-se bem nesta carta (vídeo acima) de um miúdo à selecção portuguesa (que faz publicidade a uma marca que não queria dizer, pois mesmo a má publicidade é publicidade) onde ele diz que o futuro do país está nos pés dos jogadores… Não importa que a carta tivesse sido o resultado de uma visão muito mais que ultra-limitado de um miúdo (ou dos seus pais que não lhe deram orientação ilustrada) ou forjada pela marca publicitária, a verdade é que a carta é mesmo o retrato do espírito do povo. Senão vejamos, está todo o mundo a vestir-se de verde e vermelho e a acompanhar pela televisão como dorme, como come e como caga a selecção (aposto que nos outros países acontece a mesma coisa) e não dá atenção às coisas que realmente fazem parte da sua vida e das quais dependem o seu futuro. Aliás, algumas até são forçadas a isso, sei de uma empresa que obrigou os seus funcionários a apoiar a selecção com risco de incorrer num processo disciplinar; ou seja, mesmo que o funcionário quisesse apoiar outra equipa esse direito lhe é negado.

Disfarçadas de nacionalismo e patriotismo são dadas cordas às pessoas e elas, patrioticamente, adornam com elas o pescoço sem se preocuparem em entender que isso são manobras para criar letargia e não faz sentido. Ok! Eu prefiro que as pessoas andem a sacudir bandeiras nacionalistas por causa de um jogo de futebol do que a pedir para o governo invadir outro país, mas a questão é que quando se está habituado a sacudir bandeiras por um motivo aparentemente inócuo, mais facilmente se sacode por um outro motivo mais… nefasto. 

E a eficácia da lavagem cerebral que se revela nesta histeria colectiva vê-se principalmente nos imigrantes africanos, por exemplo, que por uma vírgula põem-se a falar mal de Portugal e dos portugueses e a reclamar de como são lixados, que, no entanto, se levantam nos dias de futebol a apoiar o nosso Portugal. Primeiro eu julgava que era hipocrisia, mas depois vi que não, a manifestação é mesmo genuína e eles sentem-se mesmo afectados com as derrotas da selecção, ou seja, deixaram-se levar na corrente e foram apanhados pela histeria, pois nesses instantes sentem-se a fazer parte de algo. E é por essa razão que eu sinto que a histeria colectiva acerca da selecção não é necessariamente patriótica, mas resultado de um processo de condicionamento.

não tenho nada contra portugal como país ou povo, entenda-se (por isso estão aí as bolas de futebol para contextualizar)

Há determinadas actividades publicitadas como próprias de uma idade… vou ater-me à juventude… ou seja, para se ser completamente jovem tem que se participar nessas actividades, bebedeiras às sextas, concertos de verão, um pouco de vandalismo ligeiro (alguém percebeu o teor da mensagem da publicidade da geração aleatória da moche? Ou que ela é muito parecida com a série inglesa Skins que retrata uma juventude conturbada e auto-destruidora?), essas imagens são vendidas e o jovens, impressionáveis, tentam integrar-se e seguir à risca, pois querem fazer parte de algo, abafando a originalidade, e diluindo-se na multidão. Mesmo aqueles que gostam de ser diferentes, o mais nerds, por exemplo, que se sentem mais atentos e percebem que existem essas armadilhas acabam também a fazer filas histéricas, não às portas das discotecas, mas em convenções de banda-desenhadas e afins. Ou seja, a necessidade de fazer parte de um grupo leva as pessoas a ceder à pressão dos pares ou então à dobrar-se perante as generalidades.

Foi assim que saímos da geração rasca para a geração à rasca, seguindo às riscas os preceitos de ser um jovem, pois só quando é tarde é que conseguimos tempo para começar a analisar. Mas parece que os da geração à rasca são apenas os antigos da geração rasca, porque essa nova geração, que tem a idade que tínhamos quando éramos da geração rasca, tem um bounce diferente (também quero parecer cool!), é tão fútil quanto à nossa, porém tecnologicamente armada e ainda cheia de brilhantina (deus do céu!, o que é que muda afinal?).

Um homem é um ser social, portanto participa na sociedade, no entanto quando participar começa a sinonimizar seguir cegamente as tendências é porque alguma coisa está errada; quando olhamos para o que os outros fazem e repetimos, costumamos dizer: por que não?, não me causa mal nenhum…, porém é mesmo nisso que a armadilha se localiza, pois quando o receio do ostracismo te leva à ceder à pressão dos pares, podes estar certo de que já perdeste a tua capacidade de acção, perdeste a vontade, e és um individuo simplesmente reactivo. 

16 de julho de 2012

ÚLTIMA TRAGÉDIA, A, Abdulai Silá (1995) - a alma de um povo

Livros escritos por guineenses eram raros (ainda hoje são), a literatura guineense mais conhecida era uma recolha de contos feita por Teresa Montenegro e Carlos Morais (duas pessoas que me orgulho de conhecer, e gabo-me de ser amigo da primeira) e alguns outros livros de poesia, dos quais destaco A Luta é a Minha Primavera de Vasco Cabral e a antologia Mantenhas Para Quem Luta (não cheguei a ler nenhum dos dois livros), mas vários dos seus poemas  que vinham em livros didácticos, e foi assim que os conheci). Romances? Não havia nenhum. O mais parecido com isso era uma novela (acho que o posso chamar assim), do brasileiro João Ferreira (o autor nem era guineense, redundo).

Quando nesse deserto surgiu A Última Tragédia de Abdulai Silá (outra pessoa que me orgulho de conhecer) o meu círculo de leitores explodiu de entusiamo e de consternação, o segundo porque só um de nós possuía o livro e fazia-o circular entre quê?, umas sete ou oito pessoas e mais alguns curiosos que nunca liam mas queriam provar o sabor de um romance guineense e como a velocidade da leitura diferia bastante, e como o tempo passa mais lento para quem espera, era uma seca estar na lista de espera. O título nem era o primeiro romance guineense publicado, embora o primeiro, Eterna Paixão, também fosse do mesmo autor, mas foi o primeiro de que tivemos conhecimento.

Eu li A Última Tragédia de uma assentada, não é volumoso, nem nada que pareça, e tem um bom ritmo. E quando tive o conhecimento dele foi em 1998, um bocado tardio, porque fora publicado três anos antes. Lera-o com um misto de orgulho e de inveja, talvez mais de inveja porque não gostei muito dessa primeira vez, o que só aconteceu anos mais tarde, depois da guerra no meu país, quando amadureci (?) e passei a ler o livro dentro do livro.

A Última Tragédia engana apenas numa coisa: não era a última, é um retrato de um país fragilizado e obstruído, tanto pelos problemas exteriores, como, e principalmente, pela auto-limitações a que se impõe em nome de uma tradição. É uma aspiração a uma realidade ideal, como lemos através de um régulo que aparece na história, mas que parece ser inalcançável, mantendo o ritmo da tragédia. E, desligando-se de fronteiras, e alienando-se do pano do fundo, facilmente percebemos que é também um retrato de nós mesmos, independente da sociedade em que vivemos: a história do livro situa-se na Guiné colonizada, fortemente limitada e que dança ao chicote, entretanto, a colonização tal e qual era não existe mais, o que não quer dizer que desapareceu, hoje somos colonizados (não estou a falar do país, mas das pessoas de todo o mundo) pelos nossos próprios governos, que são colonizados pelos bancos... mas... ok!

Tenho uma boa relação com o livro, porque foi a primeira literatura guineense que eu li e senti… e é, entre outras, a razão por que o recomendo.

9 de julho de 2012

ACOSSANDO UMA FIGURA POLÍTICA: david vs. golias


Numa época de legalidade extremista e da opressão do politicamente correcto como a nossa, onde por dá cá aquela palha as pessoas incorrem em processos legais, admiro que alguém ouse publicamente caluniar uma outra, sem base sólida para se apoiar. 


Caluniar!!!Eu disse caluniar? Pois disse! No entanto, se caluniar é dizer inverdades sobre alguém, não sei se devia ter aqui usado a palavra, por outro lado, por não saber da veracidade do dito não sei se não devo usar. 

Deixem-me explicar, mas quero antes deixar claro que tenho uma posição neutra em relação ao assunto (não vá o diabo tecê-las), se manifesto a minha opinião e inquietação (?) - digamos assim - é porque estou intrigado pelo tratamento que o caso está a receber, ou seja, nenhum.

Sei que há manifestantes que usam cartazes com dizeres mais ofensivos que este aqui, entretanto, nenhum desse apelam pelo lado legal das resoluções dos problemas... mas, peraí... acho que estou a pôr os bois à frente das vacas...

Eis a situação: Há uns pares de dias, no metro e estações, andava um senhor, José Vieira da Silva (ou a representá-lo), com o cartaz acima (fotos catadas aqui), fazendo séries acusações ao professor Marcelo Rebelo de Sousa. E como eu disse antes, não faço ideia da veracidade do expresso pelo cartaz, entretanto, supondo que o Sr. Vieira deve ter certezas do que está a dizer para ousar se expor desta forma com acusações deste calibre, acho que pelo menos uma resposta deveria ser dada.

Pela importância da figura em questão e pela gravidade do escrito no cartaz esperava que a média, sensacionalista como é, se focasse no assunto, ou que o visado se manifestasse. Compreendo, no entanto, o a posição do visado, pois pode usar a máxima de: quem alterca com parvos, mais parvo é!, e assim mostrar que não é parvo e dignificar-se a si mesmo. Entretanto a média, essa sanguessuga, é que me deixa incrédulo como o seu silêncio sobre o assunto. Por isso pergunto: este é mais um desses casos que mais parecem filosóficos (tanto faz que se saiba ou não, que não muda nada)? Ou é um assunto realmente sério que está a ser contido por uma censura velada?

Não faço nenhuma ideia, e parece que estou apenas a atirar achas à fogueira. No entanto, considerando que jornalistas ditos conceituados muitas vezes começam rumores, dizendo que têm uma fonte anónima, por que desta vez há silêncio quando a fonte se expõe publicamente?


Eu gostaria de ouvir o pronunciamento do professor Marcelo de Sousa acerca disto (embora ele possa querer conservar a sua dignidade, ou, por ser assediado constantemente com cenas do género, já não esteja virado para essas difamações - de qualquer forma é difamação, verdadeira ou não), porque se a média se cala e o Sr. Vieira fala, provavelmente ele pode ter alguma razão no que diz.

Apesar de tudo, vejo vacuidade na acusação do Sr. Vieira, parecendo ter uma querela pessoal com o Prof. Marcelo de Sousa, e anda despeitado, do que propriamente sentir uma necessidade de justiça com intuito de trazer melhorias a todos e prevenir repetições.

De qualquer maneira, seja qual for a intenção de um e do outro, eu gostaria de ver um desenvolvimento do caso, embora hoje aos Davids não se dão hipóteses sequer de enfrentar os Golias(es)... até lá, então.

2 de julho de 2012

EXPLORAÇÃO INFANTIL PELA PUBLICIDADE

As crianças viciam-se facilmente no canal Panda, não sei por quê? Já até pensei que talvez usassem mensagens subliminares, mas esse sou eu a fazer filmes. Eu costumava ver o Canal 2 (o melhor canal português) à tarde, tinha muitos desenhos animados iguais ao do Panda, mas quando comecei a ver a TV com o meu sobrinho, rapidamente ficamos pelo Panda. Não sei se foi porque ele começou a frequentar a escola e quer fazer como os colegas ou se, volto outra vez ao filme, o canal utiliza mesmo mensagens subliminares que prendem a ele e a outros miúdos ao ecrã. 

De qualquer maneira, não é disso que me queixo. O que me preocupa é a quantidade de publicidade com que as crianças são bombardeadas nesses canais, convidando-as, ou melhor, coagindo-as a comprar lixo, aliás, a obrigar os pais a comprar lixo. A quantidade de energia que uma criança gasta a chorar por um brinquedo no supermercado é inversamente proporcional ao tempo que leva entusiasmada com ele. Mas só porque viu na televisão quer ter, porque é moda e todos os amigos têm.

Eu sei que estamos num estado capitalista e o consumismo é uma medida prática e essencial para a sobrevivência do sistema, no entanto, tendo em conta que todos os dias se fala dos direitos da criança e da necessidade de as proteger, será que ninguém pensa nessas publicidades como exploração infantil? Ou legalmente a exploração infantil não é quando se usa criança para ganhar dinheiro, porém apenas quando se lhe põe a fazer trabalhos mal remunerados? Claro que para o hipócrita do Ocidente a exploração infantil só acontece na China e na Índia, porque são a mão-de-obra barata que ele mesmo usa e abusa em seu benefício, apesar de andar todos os dias a falar contra em público.


trabalhando num supermercado acabei por entender por que esta publicidade de mau gosto tem piada


Não vou falar de novo das crianças trabalhadoras do Ocidente civilizado (visto já ter falado antes disso aqui), vou ficar apenas na publicidade como forma de exploração infantil. Se pessoas com opiniões formadas e que se julgam blindadas, como eu, somos susceptíveis de sermos influenciados pela publicidade, imagine-se qual não será o efeito numa criança que ainda acredita no Pai Natal e que julga que Portugal anda bem. E por ver como os meus sobrinho são afectados é que a "concentra", o maior publicitário do canal, e o próprio canal Panda são os objectos do meu ódio de estimação. 

Devia haver leis que protejam as crianças dessa coisa nefanda que é a publicidade ou que, pelo menos, obrigasse que aquelas dirigidas às crianças fossem honestas. Por exemplo, quando publicitam um boneco de homem-aranha, põem-no a atirar teias e a escalar paredes, depois, quando o miúdo, à gritaria (ou de outra forma coerciva), obtém o boneco e tem de ser ele a fazê-lo mexer, sem teias e sem adesivo, sente-se desiludido e traído e perde o entusiasmo ao fim da segunda hora, preparando os pulmões para os bonecos de bakugan na próxima vez. 

Está-se cada vez mais a fabricar zombies, pessoas descerebradas que exigem que toda a gente sejam como elas, praticando as mesmas modas e modismos, consumindo as mesmas porcarias, não vingando a utilidade nem mesmo a qualidade, apenas para satisfazer a vontade de poder usar a mesma coisa que o vizinho, porque apareceu na TV e isso significa que é um must (ainda se usa esta expressão?).

Espero que a TV digital venha a permitir que se veja a TV sem ver a publicidade, embora duvide dessa hipótese (se até para ver o youtube agora temos de levar com ela) ou então a pessoa vai ter de pagar uma bela soma para se ver livre dessa maleita. Eu deixei de gostar de ver a TV com o meu sobrinho porque a todas a publicidades ele diz: tio, compras-me isto? E dizer muitos nãos a essa pergunta deixa-me com uma sensação desgostante. O meu apelo é: Por favor, protejam dessa exploração as crianças! 

19 de junho de 2012

TENTANDO ENTENDER... A CRISE


Muitas vezes ouvi pessoas a dizer: então, se a crise é uma questão de falta de dinheiro, por que não se pode simplesmente imprimir mais dinheiro? Pois, por que não? Bem, porque a estrutura económica decidiu que não é assim tão simples. 

E a verdade é que a crise não é necessariamente uma questão de falta de dinheiro, mas do excesso do mesmo, porque há mais dinheiro  electrónico do que físico e se o físico precisa de ser impresso, o electrónico cria-se automaticamente a partir de uma promessa de dívidas ou juros ou benefícios. Por exemplo: vais sem dinheiro comprar qualquer coisa, o banco autoriza a compra e não te dá dinheiro físico, faz transferência electrónica para o vendedor, e, voilá, essa quantidade que requereste acaba de ser criada, e depois, como vais pagá-la com juros, novas quantidades se criam a partir dessa. E sendo que o que não falta hoje são dívidas, conclui-se facilmente que não é o dinheiro que está em falta, além do mais, se há uma coisa que contraria a teoria do Lavoiser é o dinheiro, ela é a única coisa na natureza que não desaparece (quer dizer, até desaparece dos nossos bolsos), pois não é natural, apenas muda de mão. Portanto a pergunta devia ser: para onde foi o dinheiro?

Considerando isto, entende-se que a crise não existe por falta de dinheiro, mas porque um grupo de bilionários ficou entediado e resolveu monopolizar os bancos, legitimado pelo sistema, controlando a circulação monetária, desequilibrando ainda mais balança desequilibrada, pondo na corda bamba os países menos poderosos, para a partir disso, comprar os governos e ganhar o controlo do mundo. De momento parece que os donos da Europa são a Alemanha e a França (representados por Merkel e Sarkozy), mas se formos mais analíticos percebemos que não são verdadeiramente os dois países que controlam a Europa, mas um punhado de pessoas que usa os dois representantes como o seu pau-mandado. 

Alguém já perguntou a quem responde a Troika? O Banco Europeu, o Banco Central e o FMI são bancos pertencentes a uma coligação de países ou são simplesmente bancos privados (com acções distribuídas por quem as puder comprar, é claro, e que não é qualquer um)? A Troika não responde a nenhum governo ou estado ou coligação de nações, nem nada, a Troika responde a uns grupos de capitalistas que sempre que sentem que lhes está a fugir o controlo, ou se sentem aborrecidos com o estado do mundo, apertam as cordas ao redor do pescoço dos governos que praticamente fazem tudo o que lhes é mandado. Por exemplo, vejamos o caso de Portugal, um país, soberano, que se encontra refém dos bancos.

Não é preciso imprimir mais dinheiro, porque o dinheiro existe, e como já tinha dito, mesmo que não exista, é criado, senão como é que se explica que haja crise e suposta falta de dinheiro e mesmo assim a Troika consegue injectar biliões a qualquer país que se submeta aos seus caprichos? Ou será que eles estão a dar dinheiro que não têm aos países em desespero? Estarão a aplicar um esquema de Ponzi?

Aliás, bem visto as coisas, os bancos funcionam todos à base do esquema de Ponzi, a única diferença é que são legitimados pela lei para aplicar o esquema, porque supostamente pagam impostos, quando na verdade sugam impostos por causa das cagadas constantes dos seus administradores. Vamos ver, o banco promete-te 20% (ou qualquer outro valor) de retorno sobre o teu investimento (reconheço não ser bom com esses termos técnicos, mas creio que me faço perceber) sendo que tudo o que tens de fazer é deixar com eles o teu dinheiro, e sabemos que dinheiro parado não gera dinheiro, ou seja, o que eles vão fazer com o teu dinheiro é salvaguardar a promessa que tinham feito a outrem dando-lhe o seu valor inicial mais o acréscimo em juros proporcionados pelo teu dinheiro, e quando chegar a tua vez, fazem-no com o dinheiro de alguém (ou pelo menos é o que dizem, porque na verdade, eles continuam a criar dinheiro a partir de cada empréstimo que alguém faz, necessitando mais que as pessoas façam empréstimos, sendo os pagamentos simples bónus). 

Imaginemos uma situação (como já aconteceu com uns bancos do meu país): a corrida ao banco, toda a gente ou a maioria resolve ir levantar o seu dinheiro com os benefícios prometidos, o banco colapsa porque não consegue responder a todos os pedidos, além de mais quando o levantamento é feito, o cliente recebe o dinheiro físico e como eles têm mais dinheiro electrónico do que físico, percebe-se o embuste com o qual nos têm controlado. Mas não importa, a eles é permitido o esquema de Ponzi, desde que se unam com os governos nessa ladroagem. E é exactamente o mesmo esquema que a Troika está a aplicar aos governos agora, e eles encontram-se de mãos atadas por terem sido eles a legitimar o processo.

A Troika está a dar o dinheiro que não tem aos governos endividando-os ainda mais? Ou será ela a fabricante mundial de dinheiro? E quem a legitimou como tal? Foi um acordo tácito ou uma espécie de imposição feita com a cumplicidade dos países mais poderosos (ou melhor das pessoas mais poderosas dos países mais poderosos)? O sistema é claramente canibal e está a alimentar-se dos mais fracos.

Não sei a resposta; nem estou a escrever isto para tentar esclarecer nada a ninguém, antes para tentar elucidar-me a mim mesmo, mas uma coisa eu sei: existe dinheiro e a crise é só uma fantasia para destilar mais as classes sociais, acabando com a classe média e as tentativas de homogeneização. 

Algumas pessoas podem pensar que todos poderem usar a net, ou comprar iPod, iPad, iPhone, Ai-meu-deus!, ou assistir a um concerto de um artista qualquer no mesmo estádio, não importa o preço do bilhete, garante a igualdade, mas enquanto existirmos apenas para contar os tostões para uns poucos se refocilarem com o que suamos, não podemos pensar nem na igualdade, muito menos na liberdade. Aliás, mesmo para recebermos o nosso salário, suposta compensação do nosso esforço, somos obrigados a dar pelo menos uns sessenta euros anuais a um banco qualquer (sem falar dos impostos agressivos) porque estão todos de conveniência com as empresas e com os governos. Não te é pago simplesmente o salário para guardares em casa, tens de ir buscá-lo a um banco qualquer. E se falo muito aqui dos bancos é porque eles são os tentáculos dos mais poderosos, como a Troika, por exemplo, e os principais gestores da crise. E note-se que nos países do terceiro mundo quase não se fala da crise, considerando que estão em "crise" constante, a crise afecta principalmente o ocidente (primeiro mundo), pois os restantes já foram e são melhor controlados.  

E por que razão se toda a crise gira em torno dos bancos, parasitas dos povos, ao injectarem dinheiro para salvaguardar o país da crise, injectam-no nesse mesmo sistema bancário que a criou? Não é, no mínimo, ridículo?

Que os governos vão acabar por ser controlados pelas multinacionais e corporativas como a Troika (mais indiscretamente quero eu dizer), se continuarmos como estamos, não há menor dúvidas; estamos cada vez mais perto de uma dominação mundial escancarada promovida por empresários multi-trilionários… pois efetivamente já existe há muito tempo... mas até lá…

9 de junho de 2012

HOMEM RESIGNADO (soneto)

Ao homem resignado não há o que valha,
Já tem para si a mansidão da ovelha,
Mesmo com fúria e face groselha,
Nem com fraqueza no ferro frio malha.

O homem resignado ao Fado não ralha,
Às vezes nota que a vida está velha,
E que a mudar de cor já tem a telha...
Mas não age, habituado a ser tralha.

O homem resignado é deserta ilha,
Finge aceitar do Fado a amarga trolha
Mas chispa na alma odiosa faúlha.

O homem resignado é briga sem bulha,
Revoltas e ódios, com rancor, empilha
Desejando calado a própria escolha.

2 de junho de 2012

JUVENTUDE PERDIDA - A TRISTEZA DA JUVENTUDE ACADÉMICA

Estava a ver na TV o final do concerto dos Metallica no Rock In Rio, e um deles regurgitava água (ou uma bebida qualquer) e cuspia-a para cima dos espectadores todo eufóricos; no entanto, o pior aconteceu quando um deles abre a boca para receber o líquido expelido pelo seu ídolo, atitude doentia, submissa e pornográfica. Que eu me lembre, tirando aquela tribo africana do filme Ace Ventura, não há nenhuma sociedade onde cuspir em cima de alguém não seja um acto de desprezo (tirando algumas sub-sociedades sexuais sadomasoquistas).

Este incidente despoletou em mim uma série de reflexões, todas conectas, considerando que são todas manobras para manterem as pessoas ocupadas e abstraídas do realmente importante, que,  no entanto, vou apresentar em quatro grupos temáticos, sendo eles: a histeria colectiva, a juventude controlada, a submissão doentia e os novos deuses e a juventude académica; e vou começar pelo último.


A TRISTEZA DA JUVENTUDE ACADÉMICA

A única actividade que sei que a associação académica da minha universidade realiza é: festas! Ah, e quem está inscrito nela tem descontos no valor dos exames da segunda época e afins (ou seja, podes faltar as aulas e não entregar os trabalhos a tempo que terás descontos depois para o fazer mais tarde). É tudo o que eu sei… tem outras vantagens ou faz outras coisas? Talvez, mas em seis anos nunca tive conhecimento disso.

Mas, hey, como já verifiquei lá em cima, não pretendo falar mal da associação académica da minha universidade, não, longe de mim essa ideia, pretendo é falar mal do estado académico em geral.

Na minha terra, quando se ouve falar de uma semana académica é mesmo académica, e a adesão não costuma ser muita, geralmente apenas um terço da escola ou faculdade adere, metade ou mais fá-lo no último dia, que costuma ter mais actividades lúdicas; e essa fraca adesão dá-se exactamente porque na semana académica acontecem actividades científicas ou pseudo-científicas, palestras e debates sobre determinados temas que se consideram importantes, não obstante, convém dizer, acabem por ser apenas um exercício mental para alguns e nada realmente melhore.

os cartazes das semanas académicas
são todos deste género, publicitam copos
Posto isto, fez-me espécie quando, cá em Portugal, Europa (?), ao ouvir falar da semana académica dar conta de que não de académico não tem nada e que é apenas um motivo para agrupar jovens e dar-lhes de beber até cair em nome do espírito universitário. Até me admira que Portugal consiga ser mais desenvolvido que o meu país se os seus académicos são o que tenho visto; a maioria é borrachona, irresponsável e a semana académica é para mostrar aos bares de má fama de que precisam de se esforçar mais para manter a reputação. Senão vejamos: há bêbados e bebedores descontrolados nesses bares, também nas semanas académicas, há passadores e drogados nesses bares, nas semanas académicas idem, há sexo comprado nesses bares, e é aí que perdem, porque o há grátis nas semanas académicas (nada contra) e irresponsável ainda por cima, pois de tão mamados muitos acabam por pensar que o preservativo, quando se lembram dele, é pastilha elástica.


Não sei se as semanas académicas são uma tradição secular, embora duvide, considerando que antes as universidades costumavam estar sob as estritas ordens dos padres e confrades, e até antes do 25 de Abril (pelo que julgo saber) as restrições sobre ajuntamentos do género era outras. Não, não quero e nem estou a justificar esses tempos, sou a favor da liberdade de se juntarem pessoas quando querem se juntar e sou a favor do afastamento das regras dos conventos das universidades, embora ainda tenhamos ficados com as togas e as bênçãos de fitas que mostram que apesar de ser um antro científico as universidades são ainda católicas no seu âmago, pelo menos as portuguesas (que são as que conheço).

Não levo o estado universitário tão a sério como antes, aliás tenho uma relação amor-ódio com ele, amor porque gosto de saber coisas e de estudar e ódio porque preciso de um canudo tutelado por um desses prostíbulos… desculpem, antros de saber para que esse conhecimento seja valorizado. Não consigo levar a sério uma instituição que é apenas uma desculpa para manter as pessoas ocupadas com coisas que nunca irão usar (enalteço assim os cursos técnicos) e cujo 80% de frequentadores, senão mais, estão ali não pelo amor ao saber, mas à pesca do estatuto. Sim, estatuto, ser universitário é ainda um título de respeito, porque associado a isso, no senso comum, vem a ideia de inteligência, conhecimento e responsabilidade, e não importa que tenhas menos disso do que um aluno do ciclo, é diferente a forma com as pessoas olham para ti e falam contigo. Eu já fui tratado diferente quando se descobriu que andava a frequentar mestrado, apesar das coisas que costumava dizer não se terem alterado passaram a ser já ouvidas com mais atenção.

Antes de entrar para a universidade eu admirava muito os universitários, e quando maior o título mais eu admirava, depois que comecei a lidar com universitários piores do que eu, e uns tantos professores doutorados que andam a repetir pensamentos ultrapassados e obsoletos, arrogantes e quadrados, e que usam mais o argumentum ad verencundiam (sim, usei o latim para parecer mais inteligente, como fui ensinado a fazer), ou seja argumento da autoridade, do que um raciocínio lógico que realmente convença, comecei a perder cada vez mais o respeito que tenho para o meio.

A universidade é apenas um lugar para perpetuar estereótipos, boa parte deles disfarçados de científicos (não estou a dizer que todos os que para lá entram saem tão ou ainda mais vazios do que quando lá entraram, não, tem muitos bons estudantes – não alunos apenas – ali dentro) e a semana académica por conseguinte mostra a vacuidade do sistema. Quando vês pessoas com o traje universitário, podes desconfiar que vão faltar as aulas nesse dia e estarão num jardim qualquer a praxar ou a serem praxados ou numa confraternização (leia bebedeira) num bar qualquer.

Dizer-me que és licenciado ou doutorado era um motivo para te respeitar, academicamente falando, mas depois de a maior parte das pessoas mais inteligentes que eu conheço não serem universitários, e por conseguinte os mais estúpidos e irresponsáveis o serem, perdi o respeito pelo sistema. No entanto, ainda estou a estudar, e aconselho a qualquer um que possa que o faça, porque preciso de um canudo e só estou a estudar para o ganhar (pois conhecimentos encontro-os eu mesmo, procurando por eles), pois a nossa sociedade está desenhada para “facilitar” e valorizar que tenha um.

Se as universidades e academias (tirando na semântica brasileira, ginásios) fossem lugares sérios, eu recomendaria que chamassem de outra coisas às semanas académicas, mas como um só espelha o outro… bah, que se lixe... eles precisam que os jovens se mantenham inactivos, ou activos a emborracharem-se do que a usar o tempo para pensar e procurar fazer coisas que realmente importem, pois bebem e drogam-se mais à vontade quando sabem que isso está sob a protecção de uma instituição universitária (feitores do progresso e do futuro), e a acreditar neste artigo da ciência hoje, o efeito nefasto ver-se-á principalmente no futuro.

8 de maio de 2012

DON PINA (REVOLUÇÃO MENTAL) - pensamentos em rimas e ritmos

Senhoras e senhores, damas e cavalheiros, é com muito orgulho que apresento DON PINA e a sua Revolução Mental

Sim, escrevi orgulho, porque o fulano é meu irmão, o que vai tornar um tanto difícil falar dele sem parecer tendencioso. No entanto, os trabalhos vão estar disponíveis aqui e podem vocês mesmos avaliar.

Demorei muito para apresentar aqui o Don Pina, mas antes tarde do que nunca. E se normalmente só apresento cinco músicas do artista, não importa o número de álbum que tenha lançado, e aqui apresento mais, devem compreender o porquê.


Don Pina é um rapper, letrista, produtor, editor e arranjador, que trabalhou todos os seus álbuns, tirando alguns temas que fez em parceria e que aparecem nos seus EPs; e este artigo é para falar do seu primeiro álbum Revolução Mental, lançado em 2010, e que podem baixar aqui, e para o qual escrevi (aproveito para auto-promover-me) algumas letras. A Revolução Mental é composta por 18 faixas musicais, no estado físico, no álbum para download, só podem ter acesso a 17.

MdP: Por quê a Revolução Mental, não te parece um título um tanto pretensioso? 

DON PINA: Por acaso, não! Porque a revolução mental que o título exprime é fundamentalmente aquela que aconteceu comigo. O que estou a fazer com este álbum é mostrar o amadurecimento mental que tive e esperar que isso inspire mais pessoas, tal como outros me inspiraram.


o dinheiro


MdP: Quem são aqueles que te inspiram?

DON PINA: As minhas inspirações vêm de várias fontes; as minhas influências musicais variam de origem, tanto vêm de uma música gregoriana como de uma música hip-hop, mas a "filosofia" expressa no álbum vem da orientação e da análise de alguns filósofos que leio, de líderes espirituais, escritores de auto-ajuda, da Bíblia, da observação do que se passa à minha volta, de ti também, por acaso, e até mesmo das coisas negativas que vejo, tendo em conta que me impelem para o lado oposto.


a lama da humanidade


MdP: Pois, falando em Bíblia... não achas contraditório que nas tuas letras critiques muito a religião (como no tema A Lama da Humanidade, onde a consideras o principal gerador de problemas dos homens) e no tema Sente a Dica, depois dizes que ela possui frases que ajudam, e ainda dizes que te inspira?

DON PINA: Não, não é contraditório de forma nenhuma. A Bíblia, tal como todos os outros livros, foi escrito pelo homem. Lá por não acreditar em Deus ou na religião, não quer dizer que não acredite na existência da Bíblia, e lá por achá-la um trabalho ficcional não significa que não tenha algumas frases educativas. Por exemplo, O Senhor dos Anéis é uma obra de ficção, todo o mundo sabe, mas tem os seus aspectos educativos. Aliás, mesmo os filósofos e líderes que referi, e tu inclusive, só me inspiram de uma certa maneira, muito do que defendem são patranhas e muito parece patranha.


MdP: Não tens medo de ferir sensibilidades com este álbum?

DON PINA: Já superei essa fase; é certo que com determinadas pessoas evito discutir determinados temas, mas como com o álbum não procuro impor nada a ninguém, apenas manifestar a minha opinião, e além disso quem for atrás do álbum vai fazê-lo porque quer, logo não, não me preocupo muito com a sensibilidade dos outros, principalmente porque não são dogmas as coisas que digo.

o fim do mundo


MdP: Mas por que escolheste o tríptico deus, dinheiro e o povo para este álbum? Praticamente 80% do álbum se trata disso.

DON PINA: Bom, desconfio que até os meus próximos trabalhos vão tratar do mesmo assunto. Pois, por enquanto, até onde consigo ver, o verdadeiro problema é o poder, que é personalizado pelo dinheiro, e criou-se diversos mecanismos para não se perder o poder, e a religião é a principal, porque mesmo sociedade que não usam dinheiro, por exemplo, as índias, usam a religião para manter o poder, de maneira que a religião e o dinheiro acabam por ser apenas meios. E tudo isso afecta principalmente o povo, por ser quem  sustenta o mito e quem mais sofre as consequências. E, ao contrário de ti que escreves e podes dissertar sobre um tema o quanto quiseres, eu só tenho um limite de 48 versos para sintetizar o que digo, e desse modo fica sempre muito por dizer. Além disso, sempre depois ao pensar sobre um assunto, descubro uma nova forma de abordagem sobre ele que me tinha escapado, de maneira que acabo sempre a voltar a ele. Em resumo: a mesma situação pode criar diferentes respostas, e, tal como na matemática, diferentes abordagens podem levar a mesma solução. Eu tento é não deixar de abordar os problemas, mesmo que no final não consiga chegar a solução.

quero voar daqui


MdP: Para quando o próximo álbum?

DON PINA: Neste Maio vou lançar a Visão Holística! Lancei antes uns EPs para servir de introdução. O novo álbum vai apresentar uma forma mais madura de abordagem e raciocínio. Pode-se dizer que é uma continuação da Revolução Mental, e se aqui eu manifestei a revolução que aconteceu em mim e comigo, já no próximo álbum, Efeito Dominó, quero mostrar mesmo isso. 

Portugal Hoje

downloads:
DON PINA - REVOLUÇÃO MENTAL (2010)
DON PINA - CAUSA JUSTA (EP 2012)



bónus
relatório (max poss ft patche di rima & don pina)

3 de maio de 2012

KANA SEKU KA TA DOBRADU - cronices crónicas

Alguns dos termos mais recorrentes nos discursos de quaisquer políticos, e também de comentaristas, jornalistas e críticos sociais: mudança de mentalidade, engajar para a mudança, encarar a responsabilidade (?), essas geralmente são as condições sine qua non que se apresentam para acontecer o desenvolvimento sustentável (termo emprestado de políticos europeus cujo significado parece que nem mesmo muitos deles entendem).

Simplifica-se assim os problemas do país nesta solução: mudar a mentalidade, o que só se pode conseguir pelo engajamento, porque hoje há a globalização e todos são responsáveis, devendo acompanhá-la para presidir a um desenvolvimento sustentável. Bonitas palavras para formar um conjunto, entretanto de tão batidas soam a oco, acabando por erroneamente parecer sem alma. A culpa não está, no entanto, no conjunto, mas naqueles que o entoam. Adolf Hitler já dizia: não tomem o povo por mais estúpido do que é. Acreditam mesmo que acreditamos que repetir esta novena vai mudar o país?

Eu concordo que seja necessário mudar a mentalidade, aliás, o passo mais básico de qualquer mudança passa por aí, mas não é falando constantemente disso que ela vai acontecer. Se se quer mudar a mentalidade tem de se apresentar alternativas ou indicações para o que se vai mudar, não é só falar e esperar que a mentalidade mude por si só.

Sociólogos competentes poderiam apresentar listas de plausíveis soluções para essas mudanças se as mentalidades dos governantes fossem bastante mudadas para pedir um estudo especializado, mas está-se muito mais ocupado a falar de mudanças do que a agir nesse sentido.

Não sou sociólogo, mas acredito ser competente, significando que pelo menos metade das propostas que vou apresentar poderá ser correcta. Porém, não se espere que em apenas uma página apresente infalíveis soluções para décadas de problemas, pelo que vou passo a passo apontar o dedo para os problemas.

Para começar, vou falar de um ponto.



KANA SEKU KA TA DOBRADU - Os Nossos Contos

A nossa corrupção mental começa no berço, ou então (para os que acharem isto muito precoce), na infância. Somo aleitados com contos maliciosos, sem propósitos morais, com a única finalidade de mostrar que o mundo é corrupto e vil e a melhor forma de sobressair é meter os outros em alhadas, mesmo que não venham daí nenhuns benefícios. (Encontram-se, é certo, contos excepcionais, que vêm imbuídos de moral, mas quantificando os nossos contos, vê-se que são poucos, quase inexistentes, sem dizer que não são populares).

O maior herói dos contos infantis é o Djon Bulidur. Características: é tão malcriado e desordeiro que até chega a percorrer o mundo todo à procura de quem é melhor que ele nessa arte (ou devia ter dito pior?), entretanto apresenta ares de um menino adorável, visto que conquista sempre a simpatia e a confiança daqueles com quem contacta. Os seus grandes feitos, entre outros, foram: matar uma criança e dá-la de comer a um pássaro (quando a ordem era para fazer o contrário), queimar a casa de uns casal de velhinhos que o abrigaram, partir as asas de um pássaro que lhe deu boleia, queimar os testículos de um benfeitor seu e levá-lo a matar o próprio filho quando este tentou vingar-se dele.

Tem outra versão de Djon Bulidur, sendo que para este o apelido bulidur não significa necessariamente brigão, agitador e desordeiro (bully), mas esperto e desembaraçado, todavia duvido que este seja o mesmo Djon que o primeiro, porquanto este é correcto, íntegro e inteligente, caçula de um par de gémeos, Pedro e Paulo (dois irmãos semi-estúpidos), e aquele é filho único (não sei precisar se órfão ou se fugido de casa).

Entretanto, a contraparte de Djon Bulidur, o malcriado, nas fábulas, é a Lebre. Uma criatura maliciosa e odiosa com que todos simpatizam porque, supostamente, é inteligente e sabe safar-se, perdendo apenas pela Tchoca (a perdiz). A Lebre engana o pobre tapado do Lobo, leva-o a sofrer inúmeras provações, inclusive enganou a própria Morte fazendo-lhe cobrar ao Lobo, tudo isso para mostrar o quanto é esperta e inteligente, quando na verdade é apenas má e o pobre Lobo é que é crédulo. E ao Lobo, cujas características principais são a estupidez e a gulodice, nunca correm bem as coisas, acaba sempre tramado e gostamos quando isso acontece porque ele é tolo e fraco, ou pelo menos assim o pintam.

A diferença entre os nossos contos e os contos europeus encontra-se fundamentalmente no facto de estes tentarem atribuir alguma moral à história, moldando o espírito das crianças desde cedo para o correcto, enquanto os nossos parecem mostrar apenas a mesma coisa: tramar os outros. Até que podia ser legítimo o ensino se fosse: tramar para não ser tramado – remetendo ao Bugs Bunny, - ou esteja atento aos tramadores para inverter o jogo – Tom & Jerry - mas infelizmente é: tramar apenas por tramar – Itchy & Scratchy d’Os Simpsons.

É possível alegar que os contos não espelham o espírito de um povo e, sendo assim, não tem fundamento o que aqui digo, assim como é possível dizer que os filhos não tendem a seguir a religião dos pais ou a adorar a sua equipa de futebol. Mas, na verdade, como diz uma publicidade da Rádio Clube Português: o que pensa começa no que ouve, as crianças são recipientes ou massas moldáveis cujas prováveis formas finais são aquelas que lhes damos nessa altura. Aliás, como diz Kant: A imensa maioria da humanidade considera a passagem à maioridade difícil e além do mais perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram a seu cargo a supervisão dela, ou mesmo até os adultos deixam-se guiar porque não querem a responsabilidade de pensar por si.

Agora, confrontando os nossos contos com a situação do nosso país e com a forma de agir dos que estão à cabeça do país e dos que se esforçam para lá chegar não será muito difícil estabelecer pontes alegóricas. Ou seja, um bom exercício era trocar as personagens dos contos pelas identidades públicas, ou mesmo por algum vizinho com quem não nos damos bem, ou usar essas personagens na situação real... e perceber-se-á como esta minha observação é justificável. Daí passo para a pergunta: por que não contamos outras histórias às nossas crianças?




Artigo publicado em 2010, no Jornal Kansaré.

23 de abril de 2012

A SOMBRA - HANS CHRISTIAN ANDERSEN (parte 1)

Quando criança, eu não gostava muito de Hans Christian Andersen, porque os seu contos eram, para mim, cruéis e demasiado trágicos, e considerando que eu estava mais habituado aos contos de faz-de-conta de Perrault, Grimm e companhia, e aos seus finais felizes e nada realistas, não conseguia atinar com as razões dos contos de Andersen serem tão lúgubres. 

Levei metade da minha vida até começar a perceber as razões, ou as supostas razões de Andersen, e começar a ver que os seus contos afinal espelham mais a realidade do que o ideal cor-de-rosa com que as crianças são alimentadas, como uma forma de as proteger da dureza do mundo real; embora os contos de Andersen manifestem um determinado tipo de esperança no final que nos leva a achar que tudo acabou bem (alguém se lembra do final d' O Labirinto de Fauno '?'), eles ainda continuam a mostrar a moral do nosso mundo, e manifestam um teor filosófico, podendo desta forma servir tanto para ilustrar adultos como crianças, sem perder o encanto e a magia. Os contos de Andersen, no entanto, apesar de gostar, deles, não os recomendo a crianças de tenra idade (pelo menos se não na versão Disney). 

Como quero falar aqui de um conto em particular, A SOMBRA, vou separar este post em duas partes, esta primeira servindo de introdução e apresentação do referido conto, que vou em seguida mostrar (está em português do Brasil, mas who cares?), e a segunda vai tentar dissecar o conto em si, e, mais ou menos, o grosso do trabalho de Andersen.



A SOMBRA
Hans Christian Anderson


Nos países quentes, o sol possui um outro ardor que o nosso não tem. As pessoas tornam-se acajus. Nas regiões mais quentes ainda, chegam a ser negras. 


Mas foi justamente para um desses países cálidos que um sábio de nossos países frios resolveu ir. Imaginava que poderia circular por ali como em nossa pátria; mas logo se desiludiu. 

Assim como todas as pessoas razoáveis, ele era forçado a ficar em casa, com as venezianas e as portas fechadas durante o dia inteiro. Dir-se-ia que todos dormiam na casa, ou que esta não era habitada. Além do mais, a rua onde ele morava ficava situada de tal maneira, que desde manhã o sol batia na casa toda. Era verdadeiramente insuportável. 

Este sábio dos Países frios era um homem jovem e inteligente. Parecia-lhe estar sobre um fogo em brasa. Como sofria. Emagrecia ao extremo, mesmo sua sombra diminuía. Estava bem menor do que em sua pátria. Estava ficando assim por causa do sol. Só se animava à noite, quando o sol desaparecia. Então era um prazer vê-lo e à sua sombra. 

Assim que ele levava a luz para o apartamento, a sombra se alongava na parede até o teto. Crescia e se estendia a fim de refazer as forças. O sábio ia para a varanda e assim que as estrelas luziam no céu claro, ele era inundado de uma vida nova. Em todas as varandas rua – e nos países quentes quase todas janelas possuem a sua varanda – as pessoas se mostravam. Pois é preciso tomar ar, mesmo quando se está acostumado a ser acaju. 

A vida se manifestava em todas as formas. Muitas pessoas andavam pelas ruas; levavam para fora as mesas e cadeiras; havia luzes por todos os lados. 

Conversavam e cantavam; havia uma multidão de transeuntes e de carros. Cavalos e mulas passavam tilintando, pois possuíam campainhas. 

Enterravam seus mortos em meio aos cânticos; as crianças faziam barulho; os sinos das igrejas tocavam. Havia vida e movimento nas ruas. Somente a casa que ficava em frente à do sábio estrangeiro permanecia silenciosa. 

No entanto, ali devia habitar alguém; pois na varanda havia flores que aproveitavam esplendidamente o calor do sol, o que não seria possível se não fossem regadas, o que queria dizer que alguém as regava. 

Forçosamente morava alguém naquela casa. Além do mais, a porta se abria também à noite; mas o interior era sombrio, pelo menos no primeiro aposento, pois ouvia-se música vinda do fundo. Esta parecia ao sábio incomparavelmente bela. 

Talvez fosse fruto da sua imaginação: ele acharia tudo maravilhoso nos países cálidos, se o sol não fosse tão forte. O senhorio do estrangeiro dizia não saber quem alugara a casa em frente: jamais se via alguém. Quanto à música, na sua opinião, era muito enfadonha; achava que uma criatura exercitava uma peça muito difícil para ela, e, já que não conseguia tocá-la satisfatoriamente, tornava a recomeçá-la. 

- Acabará conseguindo, não há dúvida. 

Mas por mais que tocasse, não o conseguia. Certa noite o estrangeiro acordou. Ele dormia perto da porta aberta da varanda, da qual pendia uma cortina que balançava ao vento. Pareceu-lhe que da varanda em frente vinha uma luz extraordinária. No meio das flores que brilhavam com as cores mais magníficas, encontrava-se uma jovem amável e bonita. Parecia até que ela também brilhava. Ele ficou completamente cego; lá não havia nada de extraordinário; ele abrira demais os olhos e acabava de sair do sono. De um salto, ele abriu a cortina. Mas a moça desaparecera e, com ela, toda a luminosidade. As flores não – brilhavam mais e só tinham a sua beleza costumeira. 

A porta estava encostada. E do fundo do apartamento vinha uma música agradável, suave, própria para despertar os mais doces pensamentos. Era um verdadeiro encantamento. Quem moraria ali? E onde ficava a entrada? No rés-do-chão as boutiques se seguiam e era impossível passar por ali constantemente. Certa noite, o estrangeiro estava também na sua varanda. Atrás dele, em seu quarto, a luz estava acesa. E assim, era natural que sua sombra se desenhasse na parede em frente. Sim, ela estava lá, na varanda, no meio das flores, e de cada vez que o estrangeiro fazia um movimento, a sombra fazia outro correspondente. 

- Creio que minha sombra é tudo o que possa existir de vivo lá dentro – disse o sábio. – Como é ela graciosa assim no meio das flores! A porta não está senão encostada. Ela poderia ser bem sabida para entrar, examinar o que há no interior, e, ao voltar, contar-me o que viu. Sim, sim – disse ele brincando. – Você bem podia prestar-me esse serviço. Faça o favor de entrar. Vamos, você não quer ir? Debruçou-se sobre a sua sombra que lhe respondeu: - Vá! mas não fique muito tempo. 

O estrangeiro levantou-se. Na sua frente, na varanda, sua sombra levantou-se também. Ele virou-se e a sombra fez o mesmo. E se alguém prestasse atenção, veria a sombra passar pela porta entreaberta da varanda da frente, justamente no momento em que o estrangeiro penetrava em seu quarto, deixando cair a cortina atrás dele. 

Na manhã seguinte, o sábio saiu a fim de tomar café e comprar os jornais. 

- Que é isso? – gritou ele assim que ficou sob o sol. - Eis que eu não tenho mais sombra! Então ela partiu ontem à noite e não mais voltou. Isso é muito estranho! 

Não era tanto a perda da sombra que lhe trazia tanto mau humor. Mas na terra dele, nos países frios, todos conheciam a história do homem que perdera a sombra. Atualmente, se ele voltasse ao seu país e contasse sua aventura, iriam chamá-lo de plagiário. E isso o contrariava. Eis por que resolveu não dizer nada, o que era muito sensato. 

À noite ele voltou à sua varanda; colocara a luz bem atrás de si, sabendo que a sombra exige que seu dono esteja entre ela e a luz. Mas não conseguiu fazê-la voltar. Abaixou-se e levantou-se. Não possuía mais sombra, não apareceu nenhuma. 

- Hum! hum! – fez ele. O que não adiantou de nada. 

Era verdadeiramente enfadonho. Felizmente tudo passa depressa; no fim de oito dias, ele se deu conta, para grande alegria, que, assim que chegava ao sol, uma nova sombra começava a estender-se aos seus pés. Três semanas mais tarde, ele já possuía uma sombra bem razoável. 

E quando voltou para o seu pais, em direção ao Norte, ela crescia à medida que ele viajava, crescendo tanto, que dentro em breve alcançou a metade do seu tamanho. O sábio voltou para casa e escreveu sobre o belo, a verdade e o bem no mundo. Passaram-se anos. Um longo tempo se passou. 



Uma noite em que estava sentado em seu apartamento, bateram ligeiramente na porta. 

- Entre – disse ele. 

Mas não entrou ninguém. Então ele mesmo foi abrir. 

Na sua frente estava um ente magro ao extremo, que lhe causou uma estranha impressão, mas que, ao examiná-lo, o sábio viu que estava elegantemente vestido. Devia ser alguma pessoa de bem. 

- A quem tenho a honra de falar? perguntou o sábio. 

- Ah! bem que eu duvidava que você não me reconheceria – disse o homem elegante. – Tornei-me muito material. 

Ganhei carne e ossos. E, sem dúvida não pensava em me ver em tão bom estado. Não reconhece a sua velha sombra? Certamente não esperava que eu voltasse. Tive uma sorte extraordinária, depois que o deixei. Consegui meios sob todos os pontos-de-vista. E tive a possibilidade de me livrar da minha servidão. Ao mesmo tempo fez soar uma quantidade de berloques preciosos que pendiam de seu relógio e passou a mão por uma corrente de ouro maciço que trazia ao pescoço. Em todos os seus dedos diamantes lançavam chispas. E nenhuma dessas jóias era falsa. 

- Não, não posso acreditar! – disse o sábio. – Como é possível? 

- Não é muito comum, realmente disse a sombra. 

- Mas você também não é uma pessoa comum, e eu, sabe-o muito bem, segui-o desde a infância. Assim que me julgou bastante amadurecido para deixar-me só no mundo, segui a minha própria vida. Encontro- me numa situação das mais brilhantes. Mas uma espécie de nostalgia tomou conta de mim e a vontade de vê-lo mais uma vez antes da sua morte, pois você – é claro – vai morrer um dia. Além do mais, queria rever este país; sempre se ama a própria pátria. Sei que arranjou uma outra sombra. Tenho algo a pagar-lhe, ou a ela? Peço-lhe o favor de dizer-me. 

- Não! Então é você mesmo! – disse o sábio. – É maravilhoso. Nunca pensei que poderia ver novamente a minha velha sombra sob uma forma humana. 

- Diga-me o quanto tenho de pagar disse a sombra. – Não gosto de ter dívidas. 

- Como pode falar dessa maneira – disse o sábio. 

- Não se trata de dívida. Use a sua liberdade como todo mundo faz. Estou muito contente com a sua felicidade. Sente-se, meu velho amigo. e conte-me tudo o que lhe aconteceu e o que você viu nos países quentes na casa do meu vizinho da frente. 

- Contarei tudo – disse a sombra sentando-se – mas prometa-me em troca que não dirá a ninguém aqui, nesta cidade onde terá várias ocasiões de encontrar-me, que eu fui sua sombra. Estou pretendendo ficar noivo. Possuo o suficiente para manter uma família. 

- Pode ficar tranqüilo – disse o sábio. – Não contarei a ninguém quem você é na realidade. Prometo. Um verdadeiro homem só tem uma palavra. 

- Um verdadeiro homem só tem uma palavra – repetiu a sombra que era obrigada a se exprimir assim. 

Era realmente espantoso constatar como ele se tornara um homem perfeito. Seu traje negro era do tecido mais fino; usava botinas de verniz e um chapéu de coco elegante, sem falar nos berloques que já conhecemos, da corrente de ouro e dos anéis. Sim, a sombra estava impecavelmente trajada e é justamente isso que faz um homem. 

- Vou contar-lhe – disse a sombra pousando o mais forte que pôde o pé calçado de verniz sobre a nova sombra do sábio, que jazia à sua frente como um travesseiro, fosse por orgulho ou por querer descansar. 

A nova sombra, porém, quedou-se tranqüila: sem dúvida queria saber também como poderia livrar-se de seu amo. 

- Sabe quem morava na casa nossa vizinha? – perguntou a sombra. - O que há de mais belo; a poesia. Fiquei lá três semanas, as quais aproveitei como se tivesse vivido três mil anos, lendo todos os poemas e todas as obras dos sábios. Estou dizendo a verdade. Li tudo e aprendi tudo. 

- A poesia! – exclamou o sábio. - Sim, sim, ela vive solitária nas grandes cidades. A poesia vi-a um breve instante, mas dormia ainda. Ela estava na varanda, entrou pela porta e depois … 

- Depois eu fui até a antecâmara prosseguiu a sombra. – Não havia luz; reinava uma espécie de penumbra. Os aposentos numerosos estavam dispostos em fila e pelas portas abertas podia-se vê-los com um só olhar. Estavam tão claros como em pleno dia e a violência desse mar de luz certamente me teria matado, se eu me aproximasse da jovem. Mas fui prudente e soube o que fazer. 

- Que viu a seguir? – perguntou o sábio. 

- Eu tudo vi. Vi tudo e sei de tudo! 

- Como eram os aposentos lá dentro? interrogou o sábio. 

- Eram como na fresca floresta? Como uma santa igreja? As salas eram como um céu de estrelas, como quando se está nas altas montanhas? 

- Tudo estava lá – disse a sombra. Não entrei totalmente; permaneci na primeira peça, na penumbra, mas encontrava-me perfeitamente bem. Sei tudo e vi tudo. Eu estava na corte da poesia, na sua antecâmara. 

- Mas que foi que viu? Os deuses da antigüidade estavam nas grandes salas? Os antigos heróis e os combatentes? Crianças amáveis brincavam e narravam seus sonhos? 

- Vou contar-lhe e você vai compreender o que eu vi e o que havia para ver. Passando pelo outro lado, passaria pelos limites da humanidade. Eduquei-me, aprendi a conhecer a minha própria natureza e minhas relações com a poesia. Outrora, quando estava ao seu lado, eu não raciocinava. Desde que o sol nascia e se punha, eu me tornava bastante grande. 

Ao luar eu ficava do seu tamanho. Naquele tempo eu não conhecia a minha própria natureza; só percebi a sua essência na antecâmara da poesia: tornei-me um homem. Somente, como ser humano, envergonhava-me de sair como estava: faltavam-me roupas, sapatos, todo o verniz que dá significação à humanidade. 

Procurei um abrigo, e – posso confessar-lhe, pois que você não vai dizer a ninguém – encontrei-o nas vestes de uma cozinheira. A honesta mulher nunca soube da proteção que me deu. Parti naquela mesma noite. E corri para cá e para lá, na rua, sob o luar. Encostava-me nas paredes. Corri da direita para a esquerda, olhei pelas mais altas janelas dos apartamentos e sobre os tetos. Lancei um olhar até onde ninguém pode fazê-lo e onde ninguém me poderia ver. Afinal, o mundo é mau. 

«Não gostaria de ser homem, se não fosse admitido comumente que ser homem significa algo. Eu vi, em casa de homens e mulheres, nas casas de pais de crianças doces e angélicas, as coisas mais incríveis. 

«Eu vi, disse a sombra, o que ninguém deveria saber, mas que todo mundo precisava conhecer, a maldade de seus vizinhos. 

«O que eu teria de leitores se possuísse um jornal! Mas eu escrevi da mesma forma às pessoas interessadas. 

«O terror tomou conta de toda as cidades onde eu chegava. Como me temiam, comportavam-se corretamente para comigo. Os professores me elevaram à sua condição, os alfaiates deram-me roupas novas, de maneira que pude andar bem vestido. 

«Deram-me também dinheiro e as mulheres diziam que eu era lindo. Foi assim que me transformei no que sou hoje. Agora vou dizer-lhe adeus. Aqui está o meu cartão. Moro do lado do sol, e, quando chove, fico sempre em casa.» 

Depois disso, a sombra se foi. 

- Eis uma coisa notável – disse o sábio. 



Passaram-se alguns anos e a sombra voltou inopinadamente. 

- Como vão as coisas? 

- Ora! – respondeu o sábio – escrevi sobre a bondade, a verdade e a beleza; mas para isso só existe gente surda. Estou desesperado, pois isso me entristece muito. 

- Nunca me entristeço – respondeu a sombra. 

- É por isso que engordo, o que deve ser a finalidade de todo indivíduo razoável. Você continua a não entender o mundo. Acabará ficando doente. É preciso viajar. Vou fazer uma viagem neste verão. Quer me acompanhar? 

Eu gostaria muito de tê-lo comigo. Pagarei a viagem. 

- Você vai muito longe? – inquiriu o sábio. 

- Isso depende – disse a sombra. 

Uma viagem vai restabelecer-lhe as forças. Se vier como minha sombra, farei todos os gastos. 

- É uma loucura – disse o sábio. 

- Assim é o mundo – disse a sombra. E assim ficará. A sombra partiu sem dizer mais nada. 

O sábio não ia bem. Estava cheio de ansiedade e aborrecimento. O que ele dizia sobre a verdade, a beleza e o bem, era, para a maioria, o que são as pérolas para os porcos. Finalmente caiu verdadeiramente doente. 

- Você tem mesmo o ar de uma sombra – diziam-lhe os outros. 

E, a esse pensamento, o sábio tremia. 

- Você precisa mesmo viajar – disse a sombra quando foi visitá-lo. 

- Não há outro meio. Nós somos velhos conhecidos, eu o levo. Pagarei a viagem. Você poderá escrever mais tarde sobre a mesma e, ao mesmo tempo, ajudar-me-á a não me aborrecer. Quero ir para uma estação de águas: minha barba não cresce como deve. Também é uma doença, pois todos devem ter barba. Seja condescendente, aceite a minha proposta; viajaremos juntos. 

Partiram. Agora a sombra era o mestre e o mestre transformara-se em sombra. Viajaram juntos, de carro ou a cavalo, lado a lado, ou um atrás do outro, de acordo com a posição do sol. A sombra ficava sempre ao lado do seu mestre, sem que o sábio dissesse nada. Tinha muito bom coração, era doce e amável. 

Eis por que ele disse um dia à sombra: 

- Já que agora nós somos companheiros de viagem, e que, além do mais, estamos; ligados desde a infância, não poderíamos beber à nossa fraternidade? Nossa amizade ficará ainda mais sólida. 

- Você acaba de dar a sua opinião – disse a sombra, que agora era o mestre. – Falou com a liberdade do coração e eu farei o mesmo, já que é sábio, deve saber o quanto a natureza é caprichosa. Muitas pessoas não podem ouvir barulho de papel, outras ficam nervosas quando se arranha um vidro com um alfinete. Eu ficava assim quando era obrigado a tratá-lo como senhor. Veja que não se trata de orgulho, mas de sensação. Mas já que você não se incomoda, faço questão que, de agora em diante, me trate como senhor. 

E assim, o antigo mestre passou a ser tratado como servo. E o sábio, quisesse ou não, tudo suportava. 

No entanto, os dois chegaram à estação de águas. Muitos estrangeiros descansavam no local, e, entre eles, havia a graciosa filha de um rei, cuja doença consistia em ter uma vista muito aguda, o que não deixa de ser uma coisa séria. 

E assim ela logo percebeu que o recém-chegado não era uma pessoa igual aos outros mortais. 

– Ele está aqui para fazer crescer a barba, é o que dizem; mas eu vejo bem qual o verdadeiro motivo: ele não tem sombra. 

Teve um grande desejo de conhecê-lo; assim que pôde iniciou conversa com o estrangeiro, durante um passeio. 

Sendo a filha de um rei, ela não precisava usar de muitas cerimônias. 

- Sua doença – disse ela – consiste em que o senhor não pode projetar uma sombra. 

- Vossa Alteza Real – replicou a sombra – está melhorando muito. O mal de que sofria, de ter a vista muito aguda, desapareceu. Está curada: eu possuo, pelo contrário, uma sombra extraordinária. Não vê a pessoa que não deixa de me acompanhar? Os outros possuem uma sombra comum, mas eu não gosto do que é comum. Da mesma forma que alguns fazem seus servos se vestirem melhor do que eles mesmos, eu transformei a minha sombra em homem. Como pode ver, eu cheguei a dar-lhe até uma sombra própria. 

«Sem dúvida é uma fantasia dispendiosa, mas gosto de ter algo para mim só.» 

Como?, pensou a princesa. Estarei verdadeiramente curada? Esta estação de águas é certamente a mais proveitosa para o meu estado. A água deve ter virtudes milagrosas. Mas, de qualquer forma, não vou partir daqui, pois isto começa a ficar interessante. Gosto muito deste estrangeiro. Contanto que a sua barba não cresça! Senão ele iria embora imediatamente. 

A noite, na grande sala de baile, a filha do rei dançou com a sombra. Por mais leve que ela fosse, ele o era ainda mais; jamais ela vira um tal bailarino. Contou-lhe de onde vinha. E ele conhecia seu país; lá estivera, mas ela não se encontrava em casa. Ele olhara por todas as janelas, altas e baixas e observara tudo. 

Pôde assim responder à filha do rei e dar-lhe indicações que a deixaram estupefata. Devia ser o homem mais sábio do mundo. Levou a sua sabedoria em grande consideração. E quando dançaram uma segunda vez juntos, ela apaixonou-se perdidamente por ele, o que a sombra percebeu muito bem. Ao dançar novamente, ela esteve a ponto de confessar seu amor. Mas pensou um pouco em seu país, seu reino e em tudo aquilo que teria de governar um dia. Trata-se de um homem sábio, dizia ela para si mesma. Dança maravilhosamente bem. Mas o importante é saber se possui também conhecimentos fundamentais. Vou fazer-lhe um exame. Então ela começou a fazer-lhe as perguntas mais difíceis. Ela mesma não seria capaz de respondê-las. A sombra fez um gesto singular. 

- O senhor não poderá responder ­– dizia a filha do rei. 

- Mas eu sei o que me pergunta desde os tempos da escola – respondeu a sombra. – Chego até a pensar que minha sombra, que está encostada na porta, poderá responder. 

- Sua sombra! – replicou a filha do rei. – Eis uma coisa que seria admirável! 

- Não afirmo que ela o faça – continuou a sombra – mas acredito que sim. Há tantos anos que me acompanha e me ouve. Mas Vossa Alteza Real me permite dizer-lhe que ela tem o orgulho de passar por um homem e que, se estiver de bom humor – e ela deve estar para poder responder convenientemente – é preciso tratá-la como tal. 

- Gosto de um tal orgulho – disse a filha do rei. Foi reunir-se ao sábio, na porta, e falou-lhe sobre o sol e a lua, sobre o homem exterior e interior. E ele respondeu bem e inteligentemente. 

Como deve ser o homem que tem uma sombra tão sábia!, pensava ela. Será uma verdadeira bênção para meu povo e para o Estado se eu o tomar para marido. Vou fazê-lo. E suspirou. 

- Você tem um caráter nobre – disse a filha do rei. 

À noite, toda a cidade foi iluminada. O canhão troou e a filha do rei e a sombra acertaram tudo. Todavia, ninguém devia saber de seus planos antes que ela entrasse em seu reino. 

- Ninguém, nem mesmo a minha sombra – disse a sombra. Estava pensando em algo. 

Logo eles se encontraram no país da filha do rei. 

- Ouça, meu bom amigo – disse a sombra ao sábio: - Atualmente eu me tornei mais feliz e poderoso do que qualquer outra pessoa no mundo; e vou fazer por você algo de excepcional. Morará constantemente comigo no castelo, viajará em minha carruagem real e terá um grande ordenado anual. Somente é preciso que não diga a ninguém que é um homem; e, uma vez por ano, quando eu estiver sentado ao sol para que todos me vejam, você se deitará aos meus pés, como convém a uma verdadeira sombra. Confio-lhe que vou me casar com a filha do rei; o casamento será celebrado esta noite. 

- Não, isso é uma loucura! – disse o sábio. – Não quero e não o farei. Seria enganar o país inteiro, e, sobretudo, a filha do rei. Vou contar tudo: que o homem sou eu e que você é somente uma sombra que veste roupas de homem. 

- Ninguém vai acreditar – disse a sombra. - Tenha juízo, senão chamarei os guardas! 

- Vou procurar a filha do rei – disse o sábio partindo. 

- Também vou – gritou a sombra. – E você irá para a prisão. 

Foi o que aconteceu, pois os guardas lhe obedeceram, sabendo que a filha do rei o escolhera para marido. 

- Está tremendo? – perguntou a filha do rei à sombra que chegava. - Aconteceu alguma coisa? Não deve ficar doente justamente na noite de nossas núpcias. 

- Aconteceu-me a coisa mais espantosa que se poderia conceber – disse a sombra. – Imagine só – é verdade que um pobre cérebro de uma sombra não pode ser muito sólido – imagine: minha sombra enlouqueceu. Ela acha que sou eu e que eu sou a sua sombra! 

- É incrível! – disse a princesa. – Prenderam-na? 

- Sim, mas tenho medo de que nunca mais recupere a razão. 

- Pobre sombra! – replicou a princesa. – Deve ser muito infeliz. Seria uma boa ação, realmente, dispensá-la da sua vida de sombra. Quanto mais penso, mais me parece de bom alvitre desembaraçarmo-nos dela sem escândalo. 

- É realmente penoso – disse a sombra. – Sempre foi um leal servidor. 

Os soldados apresentaram armas. Era a noite do casamento. A filha do rei e a sombra apareceram no balcão para que fossem vistos e saudados mais uma vez pela multidão. 

O sábio ficou ignorando toda essa solenidade: haviam-lhe tirado a vida.