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20 de janeiro de 2019

OS MESSÍASES: AMÍLCAR CABRAL E JESUS CRISTO - cronices crónicas

Eu fui criança nos anos 1980, quando ainda o PAIGC era o único partido legal autorizado, e outros como o Fling tinham sido amordaçados e eram perseguidos se se atrevessem a falar de democracia ou multipartidarismo.


As escolas serviam para criar seguidores do PAIGC, os heróis nacionais eram comemorados, contava-se sobre Amílcar Cabral e sobre a luta de libertação de uma forma básica, propagandista, doutrinária e superficial (e depois no ciclo tínhamos Formação Militante), mas contava-se, sabíamos alguma coisa sobre o processo da Luta, sabíamos sobre outros resistentes africanos, o que infelizmente não acontece hoje.

Como não podia deixar de ser, eu fiz parte dos “Flores de Setembro” e depois “Pioneiros” e a minha aspiração na altura era chegar a “JAAC – Juventude Africana Amílcar Cabral” quando fosse grande, para depois ser membro do partido, PAIGC, tal era a doutrinação. Eu era tão orgulhoso de ser um “Pioneiro” e por ter Cabral no meu nome dizia (porque pensava) que era parente de Amílcar Cabral, afinal erámos os dois vermelhos e descendentes de cabo-verdianos (eu era parcialmente) e ele e a minha avó tinham sido vizinhos em Cabo Verde.

Naquela altura, todavia, Cabral era um enorme quebra-cabeça para mim. Era algo que não conseguia entender, principalmente quando diziam “CABRAL KA TA MURI”, mas todos os 20 de Janeiro, “celebrava-se” o assassinato de Cabral. Como se falava de Cabral Imortal e de assassinato, levou-me algum tempo até perceber que assassinar era matar, e que Cabral tinha sido morto. E era isso que eu não entendia, como alguém imortal estava morto?

Duas figuras iam para além da minha compreensão: Amílcar Cabral e Jesus Cristo, e para mim eram similares.

1. Jesus Cristo tinha morrido para salvar o mundo. Cabral tinha morrido para salvar a Guiné-Bissau. (Eu achava que a morte de Cabral fazia mais sentido, porque a de Jesus não salvara a Guiné, mas o meu catequista, João Lima, disse-me que falar esse tipo de coisas podia levar-me para o inferno, e eu tinha seis ou sete anos, portanto fiquei cheio de medo). Em suma: eram ambos Messias.

2. Na escola nunca tinha aprendido nem sobre o pai de Cabral, muito menos sobre a sua mãe. Por isso pensava que ele também tinha nascido de uma virgem. E ele tinha um meio-irmão, Luís Cabral, que estava sempre com ele, como Jesus que tinha o seu meio-irmão Tiago.

3. Todos os anos, tinham feriados e “comemoravam-se” os dias de nascimento, morte, ressurreição tanto de Cristo como de Cabral (para mim a ressurreição de Cabral comemorava-se no dia 24 de Setembro).

4. Cristo tinha 12 apóstolos, Cabral tinha os seus companheiros e outros heróis nacionais: Domingos Ramos, Pansau Na Isna, Francisco Mendes (estavam no dinheiro), Luís Cabral, Nuno Vieira, Aristides Pereira (blá, blá, blá, conseguia contar-lhe 12 companheiros).

5. Jesus tinha sido traído por Judas e condenado tanto por romanos (dominadores) como por judeus (dominados). Cabral tinha sido traído por Momo (da Guiné), Seco Turé (de Conacri) e Spínola (de Portugal) – as minhas informações não eram coerentes – ou seja, tanto por portugueses (colonialistas) como por guineenses (colonizados). E depois, como todo o mundo varria palha ao Nino Vieira, o discurso era que Luís Cabral também tinha traído o sonho do irmão, por isso é que se fez o golpe de 1980, portanto, eu considerava Luís Cabral também uma espécie de Judas.

6. Jesus tinha a Maria Madalena. Cabral tinha Titina Silá. Eu pensava que eles eram casados.

7. Tanto Jesus como Cabral tinham sido mortos, mas ambos eram imortais.

8. Tanto Jesus como Cabral tinham morrido para salvar as pessoas, mas os problemas ainda continuavam a existir e pelo que me diziam, eu tinha ainda de continuar a trabalhar para salvar a minha alma, ou para garantir o meu futuro e o futuro da Guiné. No final, parecia-me que os dois tinham morrido amonton, porque eu ainda tinha de fazer o trabalho todo (dizer isso foi-me desaconselhado tanto pelo meu catequista como pelo meu formador de pioneiro, Aliu Nhamadjó).

9. Tanto Jesus como Cabral tinham deixado adoradores. Uns chamavam-se cristãos, outros chamavam-se guineenses. (Se fosse hoje teria dito, uns chamam-se cristãos, outros cabralistas, mas provavelmente 95% deles nunca leu a Bíblia ou os escritos de Cabral).

10. Invejava os dois porque tinham lutado e morrido por “causas nobres” e eu pensava que não já não tinham mais causas nobres pelas quais lutar ou morrer. (Só recentemente alguém me fez ver o quão é mórbido uma criança pensar em morrer por alguma causa. Na altura, eu julgava que isso faria de mim um imortal e que valeria a pena, pois ressuscitaria… não é como se fosse perder muito na verdade. Por isso sempre pensei que o “sacrifício” de Cristo não foi lá muita coisa, porque depois foi ressuscitado e deram-lhe o universo para governar como prémio).

Ainda hoje se fala de Cabral em todos os 20 de Janeiro. Alguns políticos não o fazem, porque isso é como dar visibilidade ao PAIGC, uma vez que não se pode separar do partido a figura. E desta forma a figura da nossa única referência parece desbotar-se da memória coletiva, sendo conhecida mais como sobra de alguma coisa de que como uma imagem vívida.

Na escola estudamos na História (só em três anos):

No 7º ano, a origem do ser humano, as raças humanas (caucasianos, mongoloides e negroides – nem dizem brancoides), o paleolítico, o neolítico. Não sei os capítulos todos porque a greve sempre interrompe as aulas.

No 8º ano, o império de Gana, Mali, Songai, o império de Gabu é o último capítulo, mas eu não lá cheguei porque a greve sempre interrompe as aulas.

No 9º ano, os três setores da produção, a revolução industrial, as teorias malthusianas, não sei os próximos capítulos porque a greve sempre interrompe as aulas.

Enfim, estuda-se sobre tudo, mas estudar sobre a Guiné-Bissau e a sua história, nada, porque os outros partidos parecem temer que estudar sobre isso é favorecer a doutrinação paigcista. Mas como querem separar o PAIGC da História da Guiné? Lubu, negal te, ma ka bu dal padja di bobra. E o pAIGC tem medo que se descubra que fazem tudo menos seguir os preceitos do homem que usam como bandeira (pois atuam como se fosse o PAIGC que gerou Cabral e não o oposto).

As disciplinas chamadas “Educação Social” que podiam focar-se sobre a sociedade Guineense, ao invés pareciam introdução ao direito internacional; a única coisa que me lembro disso é que andei a estudar a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e tive de fazer um exame onde o professor perguntava algo como “o que diz a 15ª lei, ponto 2, alínea c), da declaração”? Ou seja, mesmo essa coisa era para ser memorizada e não entendida.

E isso eu estudei entre 1991 e 1994, e pelo que me disseram, o programa escolar continua a ser, em 2019, a mesma merda.

Para quando vamos começar a estudar Cabral e as suas ideias na escola? E para quando vamos começar a estudar sobre as outras figuras (femininas, princialmente), como a Titina Silá que hoje está completamente esquecida?

1 de novembro de 2018

SINTIDUS - REVISTA DE ESTUDOS CIENTÍFICOS E INTERDISCIPLINARES (1º número)


Durante muito tempo só existia uma revista científica na Guiné-Bissau, ou melhor, produzida na Guiné-Bissau: Soronda, uma revista do INEP, que desde 1986, durante 10 anos foi semestral, fez uma pausa de um ano, voltou em 1997 e durante 8 anos tornou-se anual; fez outra pausa de 13 anos e voltou a publicar em 2017, e só espero que não mantenha a frequência.

Para não deixar a Soronda sozinha, eis que aparece, em 2018, SINTIDUS (Revista de Estudos Científicos e Interdisciplinares da Universidade Lusófona da Guiné), que publicou o primeiro número, em formato eletrónico e, agora, físico.

É hábito estudantes (guineenses) dizerem que não há muito material científico sobre a Guiné-Bissau, eu não concordo, quer dizer, em certas áreas há mais que em outras, e podia-se produzir mais. Sem falar da Soronda que contraria essa ideia, a SINTIDUS está a mostrar também agora que ela não é verdadeira.

A Revista nº 1 tem artigos de qualidade e de relevância sobre a Guiné-Bissau. Sem dizer que tem a pinta de fazer os resumos todos em kriol. Estudantes, investigadores e curiosos hão de gostar das matérias. 

O primeiro número consiste da observação sobre a observação da Guiné do ponto de vista de um “observador ou investigador” português, e passa pela relação entre os fulas e o mandingas no Kaabu, que apesar de analisar o passado é bastante pertinente para a situação atual e para a compreensão a parte da nossa sociedade, passando pela literatura e análise social pela escrita, ainda pela questão do kriol e da necessidade de normalizar a sua escrita, e também pela questão da justiça na Guiné-Bissau e relação entre o poder do estado e o poder tradicional nessa esfera, até ao assunto das alterações climáticas e seus indicadores, o que é bastante importante, considerando o que vimos neste último ano em Bissau. Por fim, a revista fecha com um ensaio fotográfico sobre a cidade, que apenas critico porque quer mostrar a África através da Guiné-Bissau, quando nem pode mostrar a Guiné-Bissau através de Bissau, por causa da miríade cultural guineense, o que me faz bradar: “DEUS DO CÉU!, ÁFRICA NÃO É UM QUINTAL NUM BAIRRO! ÁFRICA É IMENSA, PAREM COM SIMPLIFICAÇÕES”.

SINTIDUS encontra-se agora em formato físico e pronto para ficar na tua biblioteca e auxiliar-te nas tuas investigações e se não o quiseres aí, podes sempre adquiri-lo para oferecer a um amigo, e para isso precisas apenas de escrever sintidus.revista@gmail.com ou (se estiveres em Bissau) contactar +245 955977108 ou ir à Universidade Lusófona perguntar, ou mandar menino.

Aproveita e vai comprar que o número é limitado. Kim ki tchiga prumeru siti ku liti bas di kama di si mame.

Eu já tenho o meu. Na verdade, tenho mais dois outros outros e vou oferecer um à primeira pessoa que me responder a esta pergunta: Si kinkinhin kankanhan i “prenhada bambu n’ utru”, nton ke ki kankanhan kinkinhin? Pa konvensim, bu tem nam k' kontam kal ki signifikadu di es dus palabra.

O segundo livro, para ser justo para os meus amigos não falantes de kriol, vai para quem responder a esta pergunta: “uma meia meia feita, outra meia por fazer, quantas meias são?

N.º 1, 2018
AUTOR
ARTIGO
Raul Mendes Fernandes
Manuel Bívar & Sadjo Papis Mariama Turé
Jorge Otinta
Luigi Scantamburlo
Sara Guerreiro
Orlando Mendes
Gustavo Lopes Pereira & Ana Filipa Lacerda



2 de setembro de 2018

LÍDERES: O PROBLEMA DA GUINÉ - cronices crónicas


Quando há séculos os portugueses chegaram àquelas paragens hoje conhecidas como Guiné-Bissau e quando resolveram começar a desenvolver o negócio de escravos, foram os nossos líderes, os nossos reis (ou régulos) que tratavam de fornecer a mercadoria.
Diz-se que o régulo papel, Bacampoló Có, teria dito aos portugueses que em Bissau queriam se instalar e fazer um forte “que não criaria no seu quintal uma onça que depois o mataria”. Mas lá se fez o forte e lá se criou a onça. Motivo: deram-lhe bastante prendas que hoje para nós são ninharias: tecidos e tabaco, principalmente. Na altura, para ele, tinha feito um bom negócio.

Os líderes “guineenses” participaram no mercado de escravos, eram tão escravocratas como os europeus iam a Guiné comprá-los. Balantas, papéis, biafadas, bijagós, fulas e mandingas vendiam-se uns aos outros e a moeda de compra era, usualmente, o tabaco. Vendiam os próprios irmãos pelo tabaco (bem, eles não se consideravam irmãos na altura, mas reinos e povos diferentes).

A ganância dos líderes de então permitiu a instalação dos colonialistas na Guiné, a ganância permitiu que fossem atirados uns contra os outros, pavimentando a via para a sua dominação.

A ganância dos nossos líderes levou-os a alinharem com os colonialistas na luta contra o PAIGC.

Quando o PAIGC tomou o poder, mudou a liderança. Começou por fuzilar publicamente os líderes que se tinham aliados com os colonialistas e a tirar poder aos régulos, por achar que eles eram “não intelectuais” e não aptos para governar. Essa atitude, todavia, não era nada diferente da dos colonialistas com que lutaram ou desses próprios líderes que eles estavam a fuzilar.

A ganância de PAIGC levou o país ao seus estado de desgoverno atual. E a fome de liderança levou a que um país de cerca de 1.800.000 de habitantes tenha, em 45 anos, 45 partidos.

De 1974 até hoje, apenas a liderança mudou, o procedimento?, nada. Os régulos ainda vendem terra para benefício próprio, na questão de desmatamento de há uns anos, os régulos recebiam dinheiro e permitiam que se cortassem árvores nas zonas que dizem sob sua responsabilidade. Os régulos vendem e influenciam os votos das pessoas por quem são responsáveis, em troca de uns poucos benefícios que só aparecem durante as campanhas e que só ajudam a si próprios e não às suas gentes. Portanto, quando depois se levantam para falar mal contra os nossos governante, não lhes vejo autoridade nenhuma.

E os nossos governantes? Se antes vendiam pessoas, hoje vendem os recursos naturais, vendem a terra, vendem tudo. E se antes os europeus iam à Guiné comprar, hoje os nossos governantes é que vêm cá apregoar e garantir privilégios em troca do “investimento estrangeiro”.

O projeto de central hidroelétrica para a Lagoa de Cufada, a turistificação dos bijagós traduzido em tirar terras aos locais, ou o projeto Augustus para Bolama, que trata aquele espaço como terra de ninguém e inabitado, são exemplos do alinhamento dos nossos líderes com o colonialismo que nunca deixou de existir e apenas mudou de capa.

Neste momento, não se preocupam muito, pois os líderes ganham muito dinheiro com o processo, mas também os régulos na altura do colonialismo júnior não se preocupavam, pois continuavam a ter poder… até deixarem de o ter.

Eu costumava culpar a Portugal pela escravatura, pois foi o que aprendi com os livros de PAIGC, até descobrir que os nossos próprios líderes e povos tinham tomado parte nisso. Ainda hoje, 45 anos depois, culpamos a Portugal pelos problemas da Guiné: ou porque a colonização foi má, ou porque a descolonização não foi bem feita, ou porque Portugal só se preocupa com Cabo Verde e não nos trata como "filhos"(?). 

Culpar a descolonização é um tanto estúpido e desrespeitoso aos que morreram para a alcançar, acho eu. Culpar a Portugal por não nos tratar como "filhos", nem vou comentar... E a colonização?, claro que a colonização foi má… mas se sabemos isso, porque ainda os nossos líderes a continuam a praticar? A colonização do passado já não é uma desculpa válida. Os nossos líderes são cúmplices na colonização que hoje se pratica.

Hoje culpamos o Ocidente (forças capitalistas) pelos problemas da Guiné, mas a verdade é que são ainda os raios dos nossos líderes que não têm estratégias e se deixam enganar pelo conforto que arrecadam para si próprios.

Os nossos líderes não se responsabilizam e não são responsabilizados pelos seus próprios atos, o problema são sempre os outros, como já tinha falado aqui (Até Quando?)

Vou parar aqui, por agora. Desenvolvo o tema mais tarde.

2 de junho de 2018

ABRIL, ABRIL...


Quando olho para as pessoas a cantar aleluias ao 25 de Abril, com a emoção a mil, à minha cabeça vem uma ideia que termina nesta questão: Afinal onde estão aqueles que de coração apoiavam o regime do Salazar?

Então, presto atenção e percebo sem emoção que eles ainda estão à cabeça da nação, a tratar da condução. Estão ali no parlamento, sedentos do poder, a foder com a política de forma crítica. Estão ali marcados no mercado, embarcados na banca, salgados e sagrados. Trocaram de casacas e continuaram sentados na crista do Abril, a surfar de forma febril nas costas do povo.

Hein!, onde estão aqueles tipos que apoiavam o salazarismo? Eles estão ali no poder, eles estão ali no poder. 

Sequestraram o Abril, amarram-lhes os braços e venderam-no aos pedaços, mas mantiveram a carcaça para expor ali na praça, nos 25 todos os anos. E nós… nós apoiamos.

Olho para os políticos que mandam no país, esses políticos que falam sempre do Abril e que me dizem com todo o brio que eu devia ser feliz, porque a revolução mudou este país. 

Pois sim, acredito que sim, o país mudou, mas eles não mudaram, pois só vejo afilhados e filhos, netos e sobrinhos, cunhados e primos dos tipos que andavam a fazer bico ao salazarismo. Que raio, num ato edipiano, destronaram os seus pais para foder com a mãe-pátria. E para o nosso azar até há um que ali reside, que teve ficha da PIDE. Teria sido um agente? Não sei, mas foi ministro e foi presidente.

Desculpem-me se não consigo embarcar no entusiasmo do Abril, porque nos anos 80 eu nasci, e nem sequer foi aqui, portanto não vivi nem conheci a dificuldade pré-Abril. Desculpa-me aí o meu pouco entusiasmo, porque o que vejo no país é uma traição ao Abril, ouço gente a dizer: “o povo é que mais ordena!”, e fico a perguntar que mas merda o povo ordena? Um ordenou ao Cavaco para que fosse trabalhar e todos vimos o resultado: mandam-no multar; é claro, se fosse famoso e aparecesse na TV podia chamá-lo de palhaço e nada ia acontecer.

O povo nada ordena, o povo serve para ordenha; o povo mata-se a trabalhar para uns poURcos triunfar. O povo é posto na engorda e tratado como porco, porque esses gajos no poder adoram o nosso lombo.

O Abril nos trouxe liberdade, liberdade de expressão, pois é, temos liberdade, só não temos é pão. Sim, Temos a liberdade de não ficar calados enquanto estamos manietados e a ser enrabados…. e quando reclamamos somos logo avisados: precisamos do teu rabo, portanto aquenta aí, bacano, pois este é o resultado da tua escolha de deputados; aguenta aí os danos que te fazemos ao ânus que daqui a quatro anos poderás escolher... uma nova marca de vaselina.

7 de maio de 2018

AJOELHOU, VAI TER QUE REZAR!


Mas que… já pensaram que alguém pode ter-se ajoelhado apenas porque pode, ou simplesmente para meditar… ou melhor, já pensaram que ELA até poderia ter querido rezar, mas que também tem direito de mudar de ideias?

Há poucos dias, no comboio, um homem guineense a falar com uma mulher dizia: “larguei o meu bode, que cada um segure a sua cabra”. Eu pensei, um tanto chocado: “Bolas!, isto ainda se diz?”, mas chocado mesmo fiquei quando a mulher respondeu positivamente àquela besteira. 

Que os homens guineenses, com alguma idade, principalmente, sejam idiotas machistas não me faz espécie, afinal viemos de uma cultura de poligamia onde a mulher costumava ser negociada como mercadoria, e ainda continua a ser (e eu nem sou contra a poligamia, desde que a mulher possa também se casar com tantos quantos quiser). O maior problema foi ouvir a mulher a defender essa posição, essa mulher que um dia, na conceção do tal homem, já foi também cabra.

Esta mentalidade machista, essas frases idiotas, que aparecem nas músicas populares e tidas como engraçadas, justificam, perpetuam e incentivam as violações que diariamente ocorrem, não só em Bissau, mas em toda a parte do mundo.

Se uma violação acontecer na rua, começa-se por querer saber se foi “de noite” (o que ela estava a fazer na rua a essa hora? por que tinha de ir à discoteca? estava a pedi-la.), se ela tinha vestido um “tchuna” ou “toma-nha-numur” (vestido dessa forma! estava a pedi-la.), se ela tinha muitos namorados ou nenhum (já estava acostumada com a coisa. estava a pedi-la.); se a violação acontecer no quarto de um rapaz (o que ela foi buscar no quarto de rapaz? estava a pedi-la.). 

A rapariga está sempre a pedir para ser violada ou porque quando dança rebola demasiado ou porque é muito atrevidinha ou porque é “catorzinha” (disso eu falo num outro artigo). Os homens… não, não pensamos, afinal o mundo gira à volta do nosso pénis.

Cresci a ouvir histórias de rapazes que bicharam (de fazer bicha) uma rapariga, e eram contadas com os rapazes no lugar de heróis e contadas de tal maneira que eu também desejava estar nessa bicha, levou-me bastante tempo a perceber que eram nada mais que violações e não um jogo que "os meninos machos fazem".

Os rapazes são ensinados de que as raparigas são umas fingidas, mesmo quando querem, dizem: “Não!”. Algumas raparigas também são ensinadas que têm de fingir e dizer “não”, mesmo quando querem, o que por vezes atrapalha completamente a coisa. Assusta-me ouvir homens ao contar as suas conquistas a dizer coisas como: “ah, agora que me fizeste despir é que vais dizer ‘não’”, ou seja, uma vez que a rapariga manifeste algum interesse nele, uma vez que ela entre no seu quarto, não há volta a dar, “ela tem de rezar”. 

Mas já pensaram que quando nos vê despidos pode ter-lhe passado todo o brio? Ou que a nossa atrapalhação nos preliminares pode matar o desejo? Ou que ela de repente se lembrou de alguma coisa que lhe tenha cortado o desejo? 

Não, porque pensamos que os nossos desejos devem ser satisfeitos a todo o custo. Mas não sabem que existem óleos de todo o tipo e feitio, sabão, sabonete, ou pensam que a saliva é apenas para engolir… cuspam na palma da mão, caramba.

E quando queremos não importa que ela diga não, mas... não é não! Temos de aprender a viver com isso. Quando ela diz “não”, é para ser levado a sério como um “não”.

Muitas vezes vamos a uma entrevista de emprego, tudo corre bem e no dia seguinte dizem-nos que encontraram candidato melhor ou que não éramos o que pretendiam, o que fazemos? forçamo-nos na empresa porque nos tinham entrevistado antes? Os políticos prometem-nos mundos e fundos e depois dizem "não" (aliás, nem dizem, só nos viram as costas). Mas se sabemos aceitar esses tipos de “não”,  por que não o “não” de uma mulher?

15 de maio de 2017

MUNDO NAS MÃOS, O, John Pilger (2002) - o terrorismo capitalista

Entrou para a ordem do dia o terrorismo, desde 2001, e a cada ano que passa tem de acontecer alguma desgraça no mundo civilizado para carimbar esse medo na mente das pessoas. Compreende-se por quê; povos que sempre viveram tranquilos, pelo menos desde depois da Segunda Guerra (embora estejam constantemente a fazer guerras em territórios alheios e a vender armas a grupos suspeitos), de repente se vêem à mão com problemas explosivos, é normal que sejam tomados pelo pânico e assinem abaixo toda e qualquer ordem de retaliação contra o “inimigo”. Com os mais recentes ataques é compreensível que os média se concentrem todos a apregoar eufónica e euforicamente a necessidade de lutar contra o Estado Islâmico (bombardear alguns países muçulmanos, pela geoestratégia e recursos naturais, entenda-se… só que não o podem dizer em voz alta!) Numa Europa dividida pela economia, que melhor cola poderá existir do que um inimigo comum: o medo dos europeus de serem mortos na segurança da Europa?

Este preâmbulo é um tanto longo e parece meio deslocado para este artigo, no entanto, se lerem este livro de John Pilger, O MUNDO NAS MÃOS, com o subtítulo: o que os Média não Dizem sobre os donos do mundo, vão compreender a sua adequação.

John Pilger é um jornalista australiano que coleciona importantes prémios de jornalismo e de televisão pelos seus trabalhos como correspondente de guerra e pelos seus documentários, portanto, nesta sociedade, onde só tem crédito quem aparece na televisão, as suas palavras valem muito. E valeriam ainda mais se ele aparecesse muito mais vezes, mas como ele não escreve de acordo com o que manda a cartilha dos manda-chuvas e donos do mundo, que controlam o dinheiro e a informação, ele não é, consequentemente, muito popular.

O MUNDO NAS MÃOS fala de terrorismo, terrorismo ocidental, institucional e económico, porém limpo, limpo por ser praticado pelos donos do mundo e em nome da economia, do desenvolvimento, da democracia e dos direitos humanos, e por esses exatos motivos, mais aterrorizantes ainda. E se no ocidente só praticam o terrorismo económico, no resto do mundo vão ainda mais fundo.

O MUNDO… começa com a Indonésia, um país violado e destruído em nome da economia global, chamado pelo ocidente económico de “aluno modelo da globalização”. Pilger conta como, em 1967, os gigantes empresariais e económicos ocidentais dividiram entre si as riquezas e os recursos da Indonésia, em troca de apoio ao General Suharto para derrubar o governo existente, o que este fez, acabando por ficar no poder até 1998, com um saldo de mais de 1.000.000 de indonésios mortos, sem falar dos milhares de timorenses levados no processo. E enquanto isso recebia elogios dos média, por ser aquele que modernizou o país (e fê-lo mesmo, transformando-o num gigantesco complexo industrial a operar para os multinacionais ocidentais).

Suharto foi um ditador que matou milhões sem sanção do Banco Mundial ou do FMI, porque estas instituições, conforme relata Pilger, asseguram que não discutem a política de um país, apenas a sua economia.

Apoiaram Suharto, porque o presidente anterior, Sukarno, era considerado comunista. Tinha expulso da Indonésia o Banco Mundial e limitado o poder das grandes companhias petrolíferas e tinha recusado veementemente o empréstimo dos americanos. E assim, a Indonésia, que em tempos não devia nada, foi espoliada do seu ouro, pedras preciosas, madeira, especiarias e outras riquezas naturais pelos seus dominadores e hoje (2002) tem uma dívida de 170% do seu PIB.

Não obstante a extrema industrialização da Indonésia, os seus habitantes vivem na extrema pobreza a ganharem salários miseráveis e a viverem em situações miseráveis para trabalharem nas grandes fábricas e indústrias ocidentais que recorrem à mão-de-obra barata (trabalho de escravo) e trabalho infantil.

O que me revolve o estômago (este sou eu e não Pilger) é ver grandes marcas ocidentais a venderem os seus produtos utilizando slogans e desculpas humanitárias, por exemplo: por cada peça que comprares, 10% vai ser utilizado para a luta contra o trabalho infantil no terceiro mundo ou compra um par de sapatos e damos outro par aos africanos (como se os nossos problemas fossem falta de sapatos). Os inspetores ocidentais (esses fulanos que adoram falar de direito humano) visitam as fábricas indonésias, não com o objetivo de melhorar a vida dos funcionários e de criar condições mais saudáveis de trabalho para eles, mas com o objetivo de verificar a qualidade dos produtos e de cortar os custos de produção se for necessário.


Como esta descrição se estendeu muito, vou rapidamente fechar o artigo.

Pilger fala da propaganda ocidental da luta contra o terrorismo para governar pelo medo e legitimar o ataque a outros países para o benefício das multinacionais que realmente controlam o poder no mundo e controlam também os media, através dos quais nos manipulam. 

Pilger ainda fala do Iraque, do saque americano efetuado nesse país, da destruição do país e da forma de vida dos seus habitantes, numa postura aberta de terrorismo em nome de luta contra os terroristas. Começou com o Bush pai a bombardear iraque com bombas de urânio empobrecido, deixando um rasto de mortes e de crianças com cancro ainda hoje (e o seu clímax seria com o Bush filho, continuando o país débil por causa da avidez das petrolíferas ocidentais).

O livro fecha com o que Pilger chama de apartheid australiano, embora o que os media mostram é uma austrália justa para toda a gente.

O MUNDO NAS MÃOS é uma leitura obrigatória.



Se estás com preguiça de ler o livro, bem... tem o documentário aqui (com legenda):


John Pilger - New Rulers of the World

11 de outubro de 2016

TEREMOS EXCESSO DE JURISTAS NA GUINÉ-BISSAU?

No Encontro de Estudantes Guineenses em Coimbra (que decorreu nos dias 8 e 9 do corrente) surgiu esta observação, em tons quase anedóticos, de que temos na Guiné-Bissau um excedente de estudantes de Direito, ou mesmo de juristas (e também de estudantes de ciências políticas).

E daí a questão: com tantos doutores (ou serão Dr.?) da lei, com tantos cientistas políticos, como é que a situação política e legal do país se encontra absolutamente torta e desordenada, não sobrevivendo nem a observações empíricas? Será que estudam direito de forma errada?

Talvez seja este facto que crie esta predisposição de fazer piadas e de achar que nos nossos canteiros de juristas e de cientistas políticos deviam ser cultivadas outras profissões (ou devia dizer áreas académicas?) e crie esse, vou chamá-lo assim, “preconceito” em relação aos estudantes do direito. Preconceito que eles mesmo ajudam a sustentar, porque se consideram os mais lidos, mais conhecedores, mais bem-falantes e mais bem preparados para pôr as coisas a andar bem. E os dos outros cursos, ou profissões, acham que eles se consideram dessa maneira.

Mas a verdade é que, no caso da Guiné-Bissau, alguém acha que existe alguma possibilidade de termos menos estudantes de Direito, se uma das melhores ofertas em termos académicos continua a ser a Faculdade de Direito de Bissau, e durante muitos anos, foi basicamente a única oferta? Alguém acha que num país onde grassam problemas políticos e legais e onde parece que os juristas (olhem que nem digo advogados) são o que necessitamos para pôr as coisas nos eixos, não será essa a profissão mais desejada?

Eu sei que temos outros problemas e penso, às vezes, que não temos necessidade de tantos juristas e cientistas políticos na Guiné-Bissau, mas tal como não diria que temos excesso de médicos, de engenheiros agrónomos (que já foi o curso mais querido após a independência, porque era o curso de Cabral, mas que por causa das nossas políticas a quase totalidade desses profissionais estiveram e alguns ainda estão em risco de passar fome, enquanto um nova elite surgia), ou excesso de quaisquer outros tipos de profissionais, também não direi que temos excesso de juristas (aliás, eu sou arquiteto e quero trabalhar na Guiné-Bissau; um país onde cada um constrói a sua própria casa, que necessidade têm de mim?). Todavia, acredito que deve haver comedimento, só que não sei como fazê-lo sem pôr em questão liberdades individuais.

Enquanto continuar a parecer que a forma mais fácil e imediata de ter sucesso profissional na Guiné-Bissau é através de direito ou de ciências políticas, porque todos os anos (desculpem, queria dizer todas as semanas), os nossos políticos fornecem-nos materiais absurdos para debates e bate-bocas; e os nossos juristas clamam para si o domínio do conhecimento das leis escritas e a exclusividade de citação de memória dos artigos que a constituem, e os nossos cientistas políticos estudaram a política e sabem como ela funciona, dizem por sua vez que o entendimento está com eles, então os restantes e a população são obrigados a calar, embora utilizando apenas o senso comum consigam ver o irrisório de toda a situação.

E mais que isso, parece que a única forma de ganhar dinheiro na Guiné-Bissau é através da política e muitos fazem um ligação direta entre a política e o Direito, e também, as ciências políticas (afinal esta última até tem "política" no nome); muitos estudam direito por motivo errado.

Bem, a questão principal talvez deva ser, se se acredita que temos excesso de juristas (e de cientistas políticos), então o que é que temos em falta?, e o que se deve fazer para a suprir?

24 de junho de 2016

BREXIT - ADVENTO DE UMA CRISE OU REVOLUÇÃO EUROPEIA

Não preciso de avisar que este artigo é altamente especulativo.

Com o BREXIT aprovado, começa um efeito dominó que pode e, de certeza vai, ter um fim imprevisível (ou talvez tudo já tivesse sido planeado adequadamente). O imperialismo anglo-americano ganha assim novo fôlego (falta o Donald Trump ganhar no outro extremo para se relançar com renovado alento). A Libra cai, o Euro vai por arrasto, diminui-se o espaço comercial do Euro e a sua influência, o que vai fazer com o Dólar, que tem estado a perder a supremacia, volte a ganhar força e garantir a sua posição de moeda de tráfico internacional. Pontos para os EUA.

Entretanto, no referendo que tinha sido feito em 2014 sobre a saída da Escócia do Reino Unido, houve ameaças da UE de que se Escócia abandonasse o UK (Reino Unido), seria subsequentemente expulso da UE. Eles escolheram a permanência. Sentindo-se traídos agora, e considerando que a maioria votou a permanência na UE, podem agora decidir a sua saída do UK. Conseguindo isso, vão abrir um precedente que favorecerá grandemente a Catalunha e o País Basco. O que acentuará uma tendência de desintegração em toda a europa.

Se este BREXIT vier a revelar-se apenas como um jogo que o UK fez para chantagear a UE em troca de acordos mais favoráveis, será copiado por vários países, o que inevitavelmente levará a desintegração. Aliás, independentemente do que vier a revelar-se, outros países seguirão os passos do UK.

A desintegração da UE não parece ser má de todo, considerando a sua aparência atual.  A UE tem como o núcleo o capital, em vez de pessoas; subverte as vontades dos estados membros, anula a democracia desses países e governa-os com regras económicas só por ela mesma conhecidas. Quem manda na Europa são pessoas que não são votadas (DITADURA DO CAPITAL). E alguém já se esqueceu do que a UE fez à Grécia? Isso precisa mudar, é preciso alterar o núcleo da UE, e talvez este BREXIT leve a isso, a não ser que queiram deixar tudo nas mãos dos EUA novamente. 

Por isso, se se desintegrar a UE para se reconstruir, ou melhor, se se reconstruir para evitar a desintegração, será mais sólida. Mas enquanto continuar a dizer que a França não se pode sancionar por ser a França, mas Portugal é já sancionável, ou que a Grexit só é mau por causa da estratégia militar, mas o BREXIT é catastrófico, com esses dois pesos e duas medidas, continuará sempre a ser um gigante com pés de barro (pois são os povos que fazem os pés, são os povos que sustentam a política, religião, economia e tudo o mais).

O problema, todavia, é que se a UE se desestabilizar não vão ser apenas os EUA a tentarem rapiná-la, mas também a Rússia, que há muito tempo está a tentar alterar as balanças do poder e acabar com a hegemonia económica dos EUA e com a supremacia do FMI, pretendendo criar através dos BRICS, um novo núcleo de poder económico. Não que a UE ou os EUA estejam a dormir quanto a isso, porque operaram para desestabilizar tanto os BRICS como o MERCOSUL, com a Argentina nas mãos de Macri, o problema com que o Maduro tem lidar na Venezuela e o afastamento de Dilma no Brasil, entregando o poder nas mãos de direitistas pró-liberalismo-esclavagista-capitalista.

BRICS
No entanto, sendo a UE uma grande parceira dos EUA na luta contra a estabilidade da influência económica da Rússia, sob a égide do FMI, se se fragmentar a segunda, neste sistema canibal, como os EUA irão atrás dos despojos e a Rússia também, vamos ser levados a uma mais aberta nova Guerra Fria. Mas, se a UE se recuperar através de uma política menos orientada para o capital, e mais inclusiva, provavelmente sairá mais forte do que antes, pois caso contrário, vai receber um novo PLANO MARSHALL do qual vai levar outra centena de anos a tentar se livrar. Sem dizer que a sua aliança com a NATO, que só por si já é forte, solidificar-se-á ainda mais, deixando-a totalmente entregue nas mão dos senhores da Guerra (olá os EUA).


E nesta crise política e mundial que se avizinha, quem vai sair a ganhar é o FMI e o BM, porque são eles que impõem as sanções, pois são quem controlam o dinheiro, e os países, organizados ou não, vão sempre correr atrás de dinheiro, a não ser que a UE crie outra alternativa bancária, dela mesma e não submissa ao FMI, pois se os BRICS o conseguirem primeiro (e espero que consigam), a UE nunca conseguirá reerguer-se, caso vá abaixo, a não ser, talvez, com o poder militar da NATO.

Eu espero que este BREXIT se consolide numa revolução a favor da democracia e dos povos, e não se venha a verificar que é uma mera estratégia para a recuperação imperialista anglo-americana, como um contragolpe ao neo-imperialismo-germânico.

26 de setembro de 2015

VOTO ÚTIL vs GENTE INÚTIL

Não existe o VOTO ÚTIL, apenas GENTE INÚTIL.
Como se não bastasse o apoio eleitoral sistematicamente efetuado pelos médias, com a constante cobertura das campanhas e dos comentaristas que lavam o cérebro do povo, a favor do PS (Costa) e PSD (Coelho), ainda têm agora a cantiga do VOTO ÚTIL para confundir os preguiçosos, os que não querem pensar e gostam de tudo mastigado.

VOTO ÚTIL não se trata de votos não nulos ou não abstentos, não, trata-se de votar no candidato com a maior probabilidade de ganhar, independentemente se o votante concorda com ele ou não. As sondagens dizem que ou é o Coelho ou é o Costa e que os demais partidos são irrelevantes, portanto, está todo o mundo mediático a apelar ao VOTO ÚTIL.

O que acontece é que milhares de pessoas não votam nos partidos que desejam, enganados pelo voto útil, acabando por fazer com que o partido com o qual simpatizam não tenha muita relevância política no parlamento, asfixiando desta forma o crescimento dos mesmos.

As pessoas, por exemplo, têm medo de austeridade e vão votar no Costa para o Coelho não ganhar, e os que desconfiam do Costa, vão votar no Coelho para o Costa não dar à costa.

Não há VOTO ÚTIL, há GENTE INÚTIL. Uma pessoa inútil é aquela que não consegue agir de acordo com o seu pensamento e só faz o que os outros lhe dizem. Ponderem, votem no partido que vos agrade, não caiam na balela do voto útil, porque só serve para eternizar o ciclo vicioso, sufocando os outros partidos que oferecem outras alternativas.

E basta de estupidez. Acredito que qualquer pessoa que apanhe sempre diarreia ao comer num restaurante muda para outro para evitar essa maleita. Então por que razão depois de muitos anos de diarreia a comer nos dois mesmos restaurantes não querem experimentar os outros? Será que acham que vão acabar por ficar resistentes às más comidas e não mais ser incomodados?

Os que querem votar no PSD, votem no PSD, o que querem votar no PS, votem no PS, os que querem votar nos restantes, votem neles, mas não votem pelo VOTO ÚTIL.

Como já disse, não existe o VOTO ÚTIL, mas PESSOAS INÚTEIS.

10 de julho de 2015

O PESO DAS DÍVIDAS NO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO

O peso da imposição das dívidas da TROIKA, ou Instituições, como agora se chama, é terrível para os povos e para a soberania das nações. Entretanto, não haja dúvidas que o mundo todo salta hoje conforme o FMI puxa os cordelinhos.

Sócrates, não o filósofo, disse uma vez que aprendeu que “pagar a dívida é ideia de criança” e foi ridicularizado, porque não falou conforme manda a cartilha, mas a verdade é que a dívida nunca é paga. 

Um país contrai uma divida de, digamos, 20 €, para pagar em 2 anos, no final do primeiro ano, poderá ter pago 15 €, entretanto os juros nesse período, condicionados pelo aumento de capital, que não devem ficar obsoletos, e por inflações, deflações e toda a sorte de ações que só favorecem aos credores, já ascenderam o valor total para 30 €, e por causa dos prazos apertados, o país, para cumprir o acordo, faz novas dívidas para pagar a anterior, aumentando o tempo da pena e o valor do mesmo. Ao fim de 4 anos, já terá pago o dobro da dívida inicial, continuando no entanto a dever ainda mais aos credores. 

Numa perspectiva de emagrecimento, a dívida de um país passa por esta definição: é o único peso que quanto mais o perdes mais gordo e mais pesado ficas.

No caso europeu, para pagar ao FMI, pede-se dinheiro ao BCE, e depois para pagar ao BCE vai-se ao FMI, ou ao próprio BCE, e fica-se num ciclo vicioso eterno, onde o que só aumenta é a mesma dívida.

Fazer um país vergar-se perante uma dívida da qual a sua população não beneficiou pode levar a ruturas ou revoltas sociais, porém os bancos não se importam com isso, porque venha quem vier, esteja quem estiver no poder, precisará sempre de dinheiro, portanto quem controla o dinheiro controla tudo, portanto, até se arranjar uma alternativa ao dinheiro, ou um sistema paralelo, nada do que se fizer ou revoltas e revoltas serão feitas, o resultado será sempre o mesmo, substituição das classes dualistas: dominada e dominadora, por outra nova classe, mantendo o dualismo.

Há uma frase atribuída a Rothschild: Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importa quem faz as suas leis. Esta é a verdade pura e dura. E neste momento em que as nações são controladas pelos bancos, ao ponto de um primeiro-ministro, Passos Coelho, dizer que foi sensato em simplesmente fazer como os bancos disseram em vez de tentar negociar, mostra o quanto os bancos mandam neste país e como nós somos simples mercadorias. Negociar pelo bem do povo seria trabalhar para o povo, não negociar é trabalhar para os bancos a fingir que o faz pelo povo, simples como isso.

No entanto, tudo o que possa aqui dizer, por mais sensato que seja, não se terá em tanta conta como o que um capitalista dirá, porque o capital controla o mundo, controla o pensamento, controla as universidades, escreve as cartilhas e dita as regras, pessoa alguma que se atreva a fazer ou pensar diferente é abertamente ridicularizada, mesmo nos meios científicos onde o pensamento devia ser mais livre.

Por essa razão, vou transcrever aqui um texto de Keynes, considerando a autoridade científica e económica que lhe é conferido. (Keynes, John Maynard, As Consequências Económicas da Paz).

Pode ser exagero dizer que é impossível aos aliados europeus pagar o capital e os juros que devem em relação a estas dívidas, mas obrigá-los a fazê-lo seria certamente impor um peso esmagador. Pode esperar-se, portanto que eles façam constantes tentativas para se evadirem ou escaparem ao pagamento, e estas tentativas serão uma fonte constante de fricção internacional ou de má vontade durante muitos anos vindouros.
Haverá um grande incentivo para procurar amigos noutras direções, e qualquer rutura futura de relações pacíficas carregará sempre a enorme vantagem de escapar aos pagamentos das dívidas externas. Se, por outro lado, estas grandes dívidas forem perdoadas, será dado um estímulo à solidariedade e verdadeira amizade entre nações recentemente associadas. A existência de grandes dívidas de guerra é uma ameaça à estabilidade financeira em todo o mundo.
Nunca mais nos conseguiremos mexer outra vez, a não ser que livremos os nossos braços e pernas do peso destes papéis. Uma fogueira é uma necessidade tão grande que, a menos que conseguimos fazer dela um assunto ordenado e temperado com boa vontade em que não seja feita nenhuma séria injustiça a ninguém, ela crescerá, quando finalmente vier, para uma conflagração que pode destruir tanto.


Não estamos em guerra, pelo menos não abertamente, mas este texto mostra claramente que a dívida não leva a desenvolvimento nenhum como constantemente nos tentam fazer crer os principais médias. Não podemos fazer muita coisa, porque só votamos, e quando fazemos marchas e greves só servem para a diversão pública e para preencher as grelhas da programação televisiva, porque isso não assusta os políticos, as únicas coisas de que eles têm medo são: as forças armadas e os bancos. 

E para fechar este artigo faço um gesto de pesar em memória de uma desilusão chamada Syriza, este atirar da toalha ao chão de Syriza (ou pelo menos do seu dirigente) vai desestabilizar todas as possibilidades que os partidos de esquerda tinham na Europa de ganhar e mudar qualquer coisa (e transformar um rotundo e volumoso NÃO num SIM ao quadrado é uma traição dos piores tipos). Já vimos quem manda: Os Bancos. E ou reconheçamos os nossos deuses ou finjamos que não existem, mas que eles vão estar sempre lá, vão.