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25 de julho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - CAIM E ABEL - A Guerra do Fogo - pt.2


THEN,on CAIM E ABEL:



NOW:

Samael no entanto era contrário à ideia; havia rumores de que tinha sido ele que engravidara Eva e era por isso mesmo que Azrael queria o filho de Eva morto. Azrael era a favor da pureza racial e não queria que misturássemos as espécies, principalmente fora do laboratório, onde o nosso controlo era ultralimitado.
um sábado qualquer - carlos ruas
Os humanos e todos os animais terrestres tinham sido criados a partir do caldo orgânico que incubamos durante séculos no núcleo Terra, misturado com o ADN de Eloim em pessoa (ele era o dono do projecto, por isso não houve objecção), e a cada geração houve remisturas, para conseguir a espécie perfeita. Passaram milhões de anos até chegarmos ao homem; milhões de anos na cronologia do núcleo, considerando as voltas que dá em redor ao seu sol, mas para nós, de uma linha temporal diferente, só decorreram seis dias, Adão e  Lilith foram feitos no sexto dia – o projecto não se chamava ainda Lilith, mas sim Adama. Porém o projecto Adama foi suspenso, porque tinha maiores quantidades de ADN da nossa espécie do que da espécie que antecedeu a Adão; ou seja, era muito mais perfeita que Adão, muito mais ainda do que Eva viria a ser, e tinha bastante das nossas características e potenciais. Deus preferiu deixá-la em criogenia e fazer Eva para acompanhar a Adão.
Ou seja, os humanos tinham muito das nossas características, mas uma coisa é seleccionarmos no laboratório as capacidades genéticas para lhes atribuir e outra é deixar o acaso fazer isso através da reprodução natural. Por que Samael tinha dormido com Eva ninguém inquiriu, éramos livres no Inferno o suficiente para cada um tomar a sua decisão, desde que isso não prejudicasse o colectivo. No entanto, para Azrael era bestialidade, e por isso era totalmente contra, embora por respeito nunca tivesse chegado a mencioná-lo a Samael. Os nossos arquivos dizem que havia muito prazer nas relações sexuais, que se libertava uma enorme quantidade de dopamina para o cérebro, mas quando os nossos cientistas sintetizaram dopamina com maior intensidade e duração do efeito, que podia ser aplicado por outras vias sem a necessidade do vigor físico característico do sexo, o sexo foi pouco a pouco perdendo o interesse. E quando começamos a mesclar os géneros, ficando mais andróginos (oh! por Deus!, amo os gregos!), o sexo ficou ainda mais desnecessário. Por isso não posso dizer que tenha sido apenas a necessidade do prazer sexual que fez com que Samael se metamorfoseasse em Adão mais vezes para enganar a Eva. 
Sim, meus amigos, a primeira vez de Eva no Paraíso não tinha sido com Adão, fazia parte do nosso plano para que houvesse expulsão. Queríamos a expulsão para que houvesse equilíbrio de novo no Paraíso, pelo menos para os nossos irmãos, alguns que se juntaram a nós queriam-no por inveja ao sucesso de Eloim, outros por vingança à sua ineptidão diante dos abusos de Adão; eu, pelo menos, queria-o porque acreditava que Adão poderia vir a ser melhor do que nós. Eu desenhei os projectos todos, sabia da sua potencialidade, acreditava que podíamos criar um ser infinitamente superior a nós, porém Eloim não estava disposto a ir por aí, acagaçado, dizendo ser anti-ético, e que o Conselho Supremo podia tirar-lhe a licença. Eloim amava a sua criação, amava-o e ama-o mais do que tudo, mas amava a sua posição no Concelho e a promoção que tinha acabado de receber era um sinal de que podia vir ser melhor posicionado.



Eu estava a marimbar-me para a Ética, não via razão para que uma criação tão maravilhosa e com pernas para andar por si fosse limitada por fios que titereiros puxariam como se não fossem mais do que brinquedos, foi por isso que mexi na fruta. Para Eloim, as frutas da Árvore Morta eram simples objectos para testar a obediência de Adão, (pelo menos assim julgava eu) não chegou a saber que as tínhamos sabotado, inserindo nelas um composto que reagisse com o ADN de Adão, libertando capacidades adormecidas, despertando mais neurónios, e quebrando o bloqueio evolucionista que Ele tinha instalado. Só que eu não contava que Deus também tinha trapaceado e mudado o código de bloqueio, razão porque não consegui muita melhoria. Todavia, poucos dos que foram comigo para o inferno sabiam dessa parte do meu plano.
Entretanto, voltando para trás, Samael era contra a ideia de deixar morrer Eva, porque, embora não o confessasse, ele amava a Eva; todavia, fazia todo o sentido o que Azrael defendia, Lilith combinado com Adão podia levar a humanidade a patamares mais elevados do que Eva e o acaso (Lilith e Eva seriam a melhor combinação, mas infelizmente por serem do mesmo género não havia hipóteses de reprodução). Azrael também não sabia do meu plano de fazer da humanidade uma espécie superior à nossa, ele pensava que a sua evolução podia ser controlada, e desenhava bloqueios constantemente, porém eu adulterava esses seus bloqueios. Já bastava os bloqueios de Eloim, os quais não conseguíamos ainda quebrar, receava que a combinação desses com os do Azrael, pudesse vir a criar uma involução tornando os humanos mais estúpidos e selvagens, o que seria um perigo visto que lhes desbloqueámos a capacidade cerebral. Porém, eu era contra começarmos a matar a criação por mera eugenia, preferia deixar que eles se adaptasse e se tornassem mais complexos por si mesmos, assim, a eugenia far-se-ia naturalmente conseguindo sobreviver apenas os capazes e melhor adaptados. Para Samael isso também não tinha sentido, porque preferia capacitar todos os humanos, para evitar que tivessem que concorrer para a sobrevivência, pelo menos até descobrirmos a Pedra Filosofal. À Pedra Filosofal chamávamos o código para hackear o pior bloqueio de Eloim, a finitude da vida humana. Na verdade a fruta da Árvore Morta estava projectada para bloquear a renovação celular depois de algum tempo, mas Deus não me tinha informado disso, de modo que eu pensei que tinha ali apenas uma fruta normal. Já nem sabíamos o que tínhamos feito aos humanos jogando assim com eles.
Devíamos, no entanto, tomar uma decisão, deixar morrer Eva ou ajudá-la a dar à luz. E não havia muito tempo, porque para poupar a energia que precisávamos para o laboratório, desligáramos a suspensão do tempo, e ele decorria da mesma maneira para nós e para os humanos. Não podíamos dar-nos ao luxo de mantê-lo a funcionar como no Céu se faz, porque o Céu fora projectado tendo isso em conta, mas o Inferno foi uma alternativa que criamos quando decidimos abandonar o Céu, e não temos aqui tantos recursos assim. No entanto, não julguem que por o tempo passar mais lento no Céu, eles conseguem saber das coisas antes de nós. Não, isso não acontece, apesar de toda a rapidez com que vivemos aqui, eles sabem das coisas exactamente no momento em que acontece, não é como se viajassem no tempo. Entretanto, por não podermos ligar a suspensão temporal para reunir a Assembleia Infernal, e porque não nos restava muito tempo, tínhamos que decidir entre nós o que fazer e assumir as responsabilidades depois perante o conselho. Tínhamos de votar entre salvar ou deixar Eva morrer.
Não vou fingir suspense, porque certamente vocês já terão lido a Bíblia na altura em que vou libertar este diário, e sabem que Eva vive. Azrael foi escolhido para ajudar a Eva, embora não confiássemos nele, mas como Samael estava numa experiência que lhe obrigava a usar um dispositivo que lhe impedia de jauntar, ou seja, de teletransportar-se, e eu não podia ir, receando deixar os laboratórios sem supervisão, não restou outra alternativa. No entanto, esperávamos que ele tomasse a decisão certa e agisse em função do colectivo, e não fosse dar apenas numa de Anjo de Morte e substituir Eva por Lilith, visto serem as duas parecidas.   
         



Ali na Terra. As contracções de Eva aumentavam cada vez mais e os gritos dela aumentavam proporcionalmente. Quanto a Adão, bem ele estava alo, estirado no chão, junto à porta, desmaiado. O choque ultrapassara os seus nervos, mas Eva aguentava firmemente, quer dizer, tão firme quanto as suas pernas permitiam, estava em pânico, e não sabia se devia ficar sentada, de pé ou deitada, porém a certa altura, já não tinha dúvida, intrigava-lhe que aquela coisa fosse sair por um orifício tão pequeno, mas sabia que ia sair por ele, tudo indicava a isso. As suas pernas estavam bambas, o que a fez ficar de joelhos. Olhou para onde o covarde de Adão tinha caído, mas não o encontrou, ficou intrigada, mas não era a altura para dar atenção a Adão, ou melhor, não parecia ser, porque:
- Aaaaaddãooo!, seu filho da puta! Nunca mais vais meter essa coisa em mim!... Aaaadaaaãooo, grande corno…
Bem, considerando a pudicícia daqueles para quem escrevo estas memórias não vou reproduzir as falas de Eva que seriam capazes de fazer corar a uma profissional de um bordel.
De repente Adão entrou pela porta, muito determinado e aproximou-se de Eva, sussurrando: calma, querida!, calma querida!, foi segurar-lhe a mão e com técnicas precisas de respiração e relaxamento, ajudou-lhe a dar à luz à coisa. No mesmo instante em que Eva pôs os olhos sobre a coisa, algumas amaras do seu coração desmancharam-se, ela sentiu-se como uma borboleta a metamorfosear-se, sentiu que não era apenas a coisa que tinha nascido, mas ela também tinha. Aquele espaço no coração que parecia todo preenchido por Adão, de repente alargou-se de uma maneira extraordinária, e ela percebeu que ele era apenas um ponto nesse espaço, que a coisa quase o ocupava todo. Nunca julgou que tinha tanto lugar na sua alma para tanta gente. Adão lhe pôs a coisa no braço, ela resolveu que aquilo era seu filho, e que, realmente, agora eram mesmo deuses, porque conseguiram gerar uma criatura viva. Eva deitou o filho sobre o seu peito, enquanto Adão lhe sorria e lhe acariciava a cabeleireira.
- Não é lindo?, perguntou ela.
Adão não falou, apenas sorriu, concordando com a cabeça. Então, junto à cama, debaixo de uns lençóis tirou uma seringa, sob o olhar estranho da Eva, e picou Eva antes que ela pudesse reagir, pelo que tudo o que ela pôde fazer foi: O que é isso, querido?, para logo a seguir adormecer. 



13 de julho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - CAIM E ABEL - A Guerra do Fogo - pt. 1


THEN, ADÃO E EVA - O Mundo Perdido:



NOW:

CAIM E ABEL - A GUERRA DO FOGO

O nascimento de Abel não foi muito complicado, quer dizer, em termos psicológicos. Adão já estava melhor preparado e não fora apanhado totalmente de surpresa, mas de qualquer maneira ainda não estava muito bem preparado, nem ele nem Eva, mas ela desenvincilhava-se melhor, porque tinha comprado o instinto de Adão quando ainda estavam no Paraíso e, por isso, percebia mais rapidamente as coisas.
Depois do susto que tiveram aquando do nascimento de Caim, ela insistiu que começassem a observar os animais à socapa, para perceber como eles faziam depois de darem à luz. Dar à luz? Termo engraçado, achava Adão, só porque ele estava na tua barriga, achas que ele estava na escuridão? Adão não via o sentido disso, a sua razão, a única coisa que Eva não quis comprar, era muito fria para compreender metáforas nascidas da emoção, mas compreendia bem a emoção do amor que Eva causava nele, por isso aceitava quase todas as sugestões dela. Também fazer o quê? Ou era aceitar logo ou ouvi-la o dia todo a martelar-lhe o cérebro com solilóquios, aliás, mesmo quando aceitava logo ainda tinha de ouvir duas horas de justificação do porquê. Quando Caim chegou… não era bem de Caim que o queria chamar, mas de Caí, porque ele veio de repente, só que Eva não gostou e queria chamá-lo de Caiu de Mim, mas ele achava ridículo, por quê de mim, se supostamente, ainda não tinha a certeza, ele também tinha parte na chegada do menino. Foi assim que decidiram suprimir algumas letras e ficou apenas Caim. [Ah!, minha amiga, esqueça os hebreus, não se falava hebraico no Paraíso, mas português]. Como estava a dizer, a chegada do Caim apanhara-os aos dois de surpresa. Vou fazer um flashback.

carlos ruas - um sábado qualquer


Uaaaaashhhh! Flashback:
– Porra, Eva, por que estás a mijar na cama?
– Não estou, querido ­– disse Eva, levantado o cobertor. – Ah! Porra, estou mesmo. Adão estou a mijar mas não estou a mijar. Isto é água. Adão, estou a deitar água. Por que estou a deitar água, Adão? Não é possível, nem sequer estou excitada. E esta quantidade é absurda. Estou doente, Adão? Por que não respondes, Adão?
– Porque…
– Adão, será que estou a morrer. Já me dói a barriga. Ai! Será que essa coisa na minha barriga vai arrebentar-me? Ela vai sair arrebentando a minha barriga, ai, meu deus.
Adão sempre esteve curioso sobre como aquele filho iria nascer. Sabia que a mãe não morria, por que já tinha observado algumas fêmeas de animais grávidas e depois visto as mesmas com uma cria, sem estarem mortas, porém nunca sentira curiosidade em observar o momento em que as crias vinham para fora. A única ligação que ele via para barriga de Eva era a boca, e não conseguia imaginar como é que uma coisa tão grande poderia sair pela boca. Por isso quando Eva falou em morrer, Adão entrou em Defcon -1. Não sabia o que fazer, ficou histérico, e tudo o que conseguia era amplificar os gritos e gemidos de Eva. Quando ela gritava de dor, Adão berrava a plenos pulmões. Foi a primeira vez que chamou por Deus desde que saiu do Paraíso.

Lá no Céu. [Esta parte fui eu mesmo que o contei a Lúcifer; apesar das diferenças ainda continuávamos (e continuamos) amigos, afinal estudámos na mesma escola desde crianças].
- Gabriel, o que é que se passa?
- Adão o chamou, Pai. – Depois da partida de Adão, Deus, talvez por saudades, decidiu que todos deveriam chamá-lo de Pai.
- Quem está a monitorá-lo agora?
- Miguel.
- E ele disse o que se passa?
- Parece que Eva vai ter um filho e Adão não sabe o que fazer.
Deus levantou-se de um salto, preocupado. Ele sempre fora um teórico, além do mais nunca tinha visto um nascimento; todas as criaturas que tinha posto na Criação surgiram no laboratório, em tubos de ensaio, e tirando a da Eva, não esteve presente na criação de mais nenhum. Mas precisava de tomar uma atitude, e dizer que não entendia de parto era mostrar-se impotente, por isso como qualquer bom chefe quando não sabe o que e como fazer, delegou:
– Olha, Gabriel, liga o satélite que está a vigiar Adão neste momento ao monitor, e diz ao Miguel que estou a dormir e não quero ser acordado. Manda chamar o Esculápio, pois ele já monitorou muitos nascimentos de animais para o Disco-a-Ver Channel e pode saber de alguma coisa, e manda-o ter com Adão.

Cá no Inferno. Estávamos eu e Samael a trabalhar no projecto LILITH (Legitimidade, Individualidade, Liberdade e Independência Total aos Humanos) – humanos, sim, chamamos humanos a Adão e Eva, para os diferenciar dos restantes animais, porque eles têm a fala, e estes não … como comecei a dizer, estávamos nisso quando Azrael entrou e disse que Eva estava em apuros. 
O parto natural era uma coisa muito perigosa, mesmo a minha espécie, antes da evolução, com toda a ciência que tinha desenvolvido, sofria muito no parto; quando começamos a conceber fora do corpo, e a mesclar os géneros, não precisamos mais de correr esse risco. Porém há muitos séculos que nenhum parto natural havia sido reportado e mesmo os nossos cientistas não estavam preparados para isso; não foi negligência não, numa linguagem compreensível para vocês: quem, com isqueiros disponíveis a qualquer altura, iria ensinar os seus a fazer fogo batendo sílex? No entanto, tínhamos arquivos, e em cinco minutos, um de nós três devia aprender a fazer um parto para ajudar a Eva. Mas aí é que começou o problema. Azrael achava que devíamos deixar morrer Eva para Lilith ser a nova parceira de Adão. 

1 de julho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - Recontextualizado


Todos os contos da Memórias de Lúcifer tiveram fontes de inspiração diferentes, e escritos em estado de espírito diferente, resultando daí o tratamento ser diferente em todos eles. A única coisa em comum que têm é a presença da influência de Pitigrilli, que foi o autor que mais impressionou, pois escrevia histórias sobre tudo, tudo mesmo, cada momento do quotidiano podia ser um motivo para uma história para ele; e eram histórias anedóticas, no entanto, ou eram anedotas transformadas em histórias, e a cada dois parágrafos enxertava aforismos, frases de espírito e observações sobre a psicologia do homem. Tentava sempre escrever como ele, sem sucesso, na maior parte das vezes, reconheço, mas procurava sempre fazer uma observação curiosa sobre o espírito humano. Ups, empolguei-me.

Aconteceu, no entanto, ao escrever Caim e Abel, ter lido Robert Charroux, (li três livros dele), e resolvi fazer de Deus e companhia extraterrestres (se bem que de uma forma ou outra eles são mesmo), larguei a linha totalmente idiota do Adão e Eva e tentei ser em algum ponto tão pitigríllico como no Noé – O primeiro Messias, que escrevi antes deste, mas fui muito descritivo e tentei amarrar pontas de Adão e Eva para dar uma maior consistência ao conjunto.

Não ficou uma coisa com piada como Adão e Eva, porquanto tentei fazer ficção treta-pseudo-científica, nem teve as matizes pitigríllicos de Noé (mas isso não poderão saber porque não leram ainda essa história), porém usando todas as lendas que encontrei acerca do Caim, lendas da Criação que resolvi readaptar, e mantendo as anacronias, derrubando por vezes a quarta parede, para me alienar a mim mesmo, porque a certa altura já estava a acreditar numa visão profética do que escrevia, confundido e impressionado com tantas leituras de esoterismo e tal, porque na altura não só lia Robert Charroux, como outros tantos escritores do género, e ainda os três volumes de Na Luz da Verdade de Abdruschin. Naquela altura desencontrei-me durante algum bocado, e usar os recursos que referi acima no Caim e Abel, e o próprio escrever da história ajudou-me imenso a manter os pés na terra, porque me permitiu ver que até mesmo eu era ser capaz de inventar uma lenda, e, portanto, não devia levar a sério tudo o que lia. 

23 de junho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - parte finalle


THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Adão já está a passar das marcas. Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
 Como soubeste que estavas nu? - perguntou Deus. - Por acaso comeste a fruta proibida?
– Como soubeste então que estavas nu?
 Merda! Não sou cego.
No entanto, fez-se uma luz no cérebro dele, e Deus lembrou-se dos códices, afinal não precisava expulsá-los, sempre havia uma chance.




NOW


A nova no paraíso espalhava-se com uma rapidez que fazia um relâmpago morrer de vergonha. Deus nem acabou mesmo de pensar no códice quando o seu telemóvel tocou. Ele não queria atender, diante das circunstância, mas talvez porque precisasse de ganhar tempo para pensar, ou porque esperava que eu talvez O aconselhasse, achou melhor fazê-lo. Pediu licença e afastou-se do grupo.
- Eloim! Que história é essa dos códices?
- Quais códices? Ah, sim! Os códices sou eu que os faço; era para ser uma desculpa. Decidi remodelar os homens.
- Mas sabes que se remodela-los já não serão as mesmas pessoas, já não se lembrarão de nada, e provavelmente poderão fazer o mesmo erro?
- Poderão se eu deixar a Árvore Morta no mesmo sítio…
- Mas tu não podes destruir a criação…
- Por isso é que vou fazer novos códices.
- Eloim, não podes voltar atrás com a tua palavra. Se fizeres isso, os teus anjos irão perder respeito por ti, acredita em mim. O que podes fazer agora é criar um plano de contenção de maneira a que possas recuperar os homens para o Paraíso…
- Não posso simplesmente expulsá-los, Lúcifer, não estás a ver?
- Mas remodelá-los é o mesmo que destrui-los, porque matarás as suas experiências, já te disse...
- Mas expulsá-los é abandoná-los, e isso não é uma atitude ética. Que tipo de pai eu seria?
- O tipo de pai que não mata e é obrigado a tomar decisões que beneficiem o filho.
- Não, Lúcifer, não. Vou remodelá-los. Expulsá-los é demasiado cruel, eles não estão preparados para se autogovernarem. Vê o estado em que Adão tem o Paraíso, com todas a regalias e facilidades que ponho a seu dispor, imagina o que faria se não tivesse tudo isto.
- Ele aprenderia, Eloim – eu estava desesperado, quase a chorar, precisava que o Eloim não destruísse Adão e Eva -, ele só está assim como está porque nunca lutou para alcançar nada, teve tudo de bandeja. Se tiver que trabalhar para si mesmo, desenvolverá os seus talentos, tu subestimas o potencial dessas duas criaturas.
- Esquece, Lúcifer – Eloim também estava quase em lágrimas, a sua voz tremia de comoção. – Não poderei ficar parado a ver Adão em dificuldades de o expulsar daqui.
- Mas, El, então por que raio puseste as frutas nas árvores?
- Porque tu assim mo aconselhaste… porque eu estava entediado… eu nunca quis expulsar os homens, esperava que Adão fosse mais forte… Sabes, eu queria expulsa-lo mesmo e criar novos homens… Ah, Lúcifer, não sei mesmo… Realmente não sei… - Deus estava a chorar. Ele ama os seus filhos.
- Vamos fazer uma coisa, Eloim. O plano da expulsão foi meu, portanto, podes culpar-me de tudo, mas não destrua Adão e Eva. Expulse-os, culpando-me, e assim, nada te inibirá, ética ou legalmente, de prestar-lhes socorro posteriormente. E, como eu tinha dito, faz um plano de contenção que te permita recuperá-los. Eu prometo ajudá-los também como puder, enquanto eles estiverem fora.



O instante em que Deus deixou a multidão para ir falar comigo e o instante em que voltou estava separado por uns poucos segundos, mas na verdade, demorou muito mais tempo, porque ele teve que traçar todo um plano para recuperar Adão e Eva. Deus tinha esse truque de congelar o tempo e usava-o sempre que precisasse.
- Cavem daqui – gritou Deus, todo vermelho, para Adão e Eva. Tocou a campainha, vieram anjos. – Ponham-me estes dois fora deste sítio – ordenou. Virou-se para Adão: – Não sabes o que fizeste. Eras o chefe disto – abriu os braços indicando o Paraíso –, todos os animais estavam sob a tua alçada. Provocaste a tua expulsão, tens de levá-los contigo...
Enquanto Deus ainda falava, os animais vinham para reclamar. A nova no Paraíso, como eu disse, viajava rápida.
Na dianteira dos animais estava a serpente.
- Que significa isto, pai?
- Cala-te, serpente – ordenou Deus.
- Vamos pagar pelo erro dos homens? Foram eles que comeram a fruta e nós também vamos ser expulsos?
- Eu disse: cala-te, serpente.
A serpente não se calou e os outros animais juntaram a sua voz à dela numa berraria infernal. Cada um reclamava. Não está certo que alguém pague pelo pecado que não cometeu. Onde está a justiça? Adão tinha sempre mais do que todos, abusava em tudo e de todos, fazia o que queria e eles tinham que se resignar, e agora que ele fez merda, por que razão deviam ser eles a comê-la. Adão que comesse sozinho a sua merda.
- Isto não é justo. Não pode ser. É injusto – berravam os animais.
- Estão surdos, não? – gritou Deus. – Disse-vos para calar e não me querem ouvir. Está bem. A partir de agora, como querem fazer-se de surdos, passarão a ser mudos, nunca mais falarão. E tu, serpente resmungona, serás a eterna amiga dos homens, morder-lhe-ás os calcanhares e eles pisar-te-ão a cabeça; e dissecar-te-ão para estudar nos laboratórios, e usarão o teu veneno para fazer antídotos e alguns ate irão comer-te e fazer sapatos com a tua pele. Hás-de ver.
Todos os animais a partir de então emudeceram... bom, não era bem emudecer. Desaprenderam a fala. Abriam a boca, mas apenas sons estranhos saíam dela.
- Pai – apelou Adão, avisado –, não nos ponhas no mesmo mundo com estes brutos. Eles nos odiarão por sermos a culpa da sua expulsão e perda da fala.
- Não te odiarão – disse-lhe Deus –, terão medo de ti. E não exageres na comiseração, da sua expulsão és a razão, mas da perda da fala são eles os culpados.
- Pai, desculpa-nos – suplicou Eva, com lágrimas nos olhos, sacudindo o silêncio de si. Sentindo-se não atendida, acrescentou: – Desculpa, pelo menos, a Adão e a estes animais inocentes, até mesmo a serpente.
- Cala-te, Eva – gritou Adão. – Não vês que é isso que Ele quer, que nos lamentemos e prostremos diante d’Ele como se fosse o centro do mundo?
– Se fosse só por ti... – ameaçou Deus, apontando o dedo a Adão. Virou-se para Eva, tocado pela sensibilidade dela: – Um dia, hoje te prometo, uma mulher vai dar a luz ao vosso passaporte para cá.
- Mas sou a única mulher – admirou-se Eva, com medo de que Adão se transviasse por outra.
Deus sacudiu a cabeça, era difícil explicar a Eva o que queria dizer.
- Fica assim como está. Não tentes sondar os meus mistérios.
Então uma luz forte incidiu verticalmente sobre Adão e Eva, e lentamente o céu começou a abrir, revelando-se uma cúpula. A luz incidente era confusa, não havia certeza se a vinha de cima ou de baixo, porque não fazia sombra. Eis que de repente um espelho surgiu lá de cima, volteando no ar, e no instante seguinte, todos os animais foram arrebatados por ele, aparecendo à frente Adão, Eva e Serpente, a bater na superfície interior dele, a gritar:
- Forquinhas! Forquinhas!

E assim Adão e Eva perderam assim o Paraíso, tendo Deus os mandado para a zona fantasma, quer dizer, Terra. Entretanto, tirando o próprio Deus, Os únicos no Paraíso que ficaram com pena deles foram os que mais Adão chateou, os anjos da DIABO e da SATANAS. Como reclamação, eles abandonaram o Paraíso e vieram se juntar a mim, no Inferno. Não concordaram com a decisão de Deus.




Anos depois, após muito trabalho para construir o novo Paraíso, Adão perguntou a Eva, lembrando-lhe o assunto há muito tempo hibernado. Não falavam disso para não chamar a nostalgia dos tempos passados, quando tinham rádio, televisão, Internet, luz e água canalizada.
- Por que mesmo comeste a fruta, querida?
- Foi a serpente que me enganou, disse que era a fruta do poder.
- Poder? – Adão riu-se, sem graça. – O único poder que ganhámos com isso foi que somos nós a garantirmos agora a nossa sobrevivência e a mandarmos em nós mesmos.
Eva calou-se, não gostou nada de levar com a culpa de tudo. Afinal de contas, Adão comeu a fruta da sua livre vontade, não podia e nem devia atirar as culpas nela e dizer: foi a mulher que me deste. Eva sempre se lembrou disso, nunca o conseguiu esquecer, mas... pronto! Adão que falasse dela o que quisesse, por conseguinte, faria dele o que quisesse.
– Mas como queres que eu soubesse, Adão? A serpente me disse que eu aprenderia a conhecer o belo e o feio, que teria pessoas que tentariam se medir comigo, como tentam medir-se com Deus... e acima de tudo, que ias amar-me.
O Amor, oh!, o amor.


- Que eu ia te amar? – repetiu Adão. – E não é que não amei... Mas, merda! Querida, fizeste isto tudo para seres a número um?
- Não, fi-lo pelo teu amor – respondeu Eva, chateada.
Adão, de repente, começou a berrar, despejando sobre Eva os nervos há anos contidos. Berrou tanto que começou a perder a voz. Eva não pôde suportar e começou a chorar.
- Fiz tudo por ti e é com isso que me pagas.
Eva chorava e gritava, puxando os cabelos e rolando no chão pedregoso, provocando nódoas no próprio corpo. Adão ficou assustado, e pensou que ela estava a enlouquecer.
- Eva! Querida...
- NÃO! NÃO QUERO SABER DE NADA. VAI-TE EMBORA.
- Querida!
- Vai – voltou ela a gritar. Não quero mais te ver.
- Eva, calma! – conseguiu Adão finalmente dizer. Agarrou-a pelos ombros, sacudiu-a para fazer passar aquela onda de histeria que lhe circulava nos neurónios. – Está bem, aceito – disse, pondo-lhe o indicador sobre os lábios, pedindo atenção. – Acredito que tudo o que fizeste foi por me amares, sei que não sabias que isto ia dar para o torto. – Depois de ver que estava a ser ouvido, explicou: - A minha gritaria não era para ti dirigida, acabei de perceber uma coisa: a nossa expulsão foi coisa planeada. Se calhar estávamos a minar o Paraíso.



Eva franziu o sobrolho, muito admirada. Nunca pensara nisso, e não conseguia acreditar no que disse Adão. Se todos os anjos gostavam dela, como podia ela estar a minar o Paraíso? Não perguntou nada, porque Adão explicou o porquê do que disse:
- Disseste que fora a serpente a autora daquele texto que me mostraste daquela vez. Aquilo não podia ser uma coisa vinda dela própria; mesmo eu tive que ir ao dicionário e invocar Cristo para que me ajudasse a compreender o que queriam dizer as palavras dela. Tudo aquilo fora-lhe ensinado, ela não possuía cérebro suficiente para imaginar tantas coisas e conhecer toda aquela filosofia. Só não sei quem a mandou dizer-te aquilo... mas desconfio que tenha sido o pai; pois, quando os animais foram reclamar, a serpente era a porta-voz, toda convencida de importância, e estava também ali esquecendo-se que fora ela mesma que te enganou... e ainda estava a deitar-te as culpas. Talvez seja mesmo o pai que a mandou, visto que lhe tirou a fala para não ser acusado.
Isto foi o que Adão pensou e disse. No entanto, Eva não acreditou nele, porque não conseguia ver nenhum motivo para que o pai os quisesse expulsar do Paraíso. Defendeu o pai, contando a Adão o que nunca lhe tinha dito, que a serpente usava Internet e era por esse meio que falavam, quando ele as proibiu de se encontrarem, e que talvez ela tivesse lido tudo aquilo lá. Adão não ficou convencido, mas deram o assunto por terminado, principalmente porque acusou Eva de desobediência e ela o acusou de tirania, reclamando a liberdade. Nunca mais voltaram a tocar nele.
Adão e Eva viviam entre dificuldades, mas desenrascavam-se bem no viver. Que valia o Paraíso, perguntavam às vezes, se estavam ao lado um do outro?

8 de junho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - pt. 4


THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Adão já está a passar das marcas. Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
Através de bocas alheias, Adão soube que Eva foi passear no Jardim Proibido e foi vista na companhia da serpente. Desconfiou que algo estava errado, e foi avisar a Deus:
- Pai, a serpente anda muito a falar com Eva, eu vou escamá-la. 


NOW

- Adão, não podes escamar a serpente. Não se pode destruir nenhuma criatura viva.
- Pai, eu já Te disse, se eu vir a serpente de novo a falar com Eva, escamo-a. É melhor que a avises, não quero problemas com ninguém. Que está ela a dizer a Eva? Pataratas apenas. Se as vir juntas de novo, mato-a.
- Por que não matas antes a Eva? - provocou Deus.
- Porque... ora, porque... Por que raio fazes essa pergunta, se acabaste de dizer que não se pode destruir criaturas vivas? Por que queres que eu mate a Eva?
- Eu não quero que a mates, não quero que mates nada. Mas não achas que seria injusto matar só a serpente se ambos prevaricaram?
- Mas prevaricou o quê? Quem falou em prevaricação, só quero a serpente longe da minha fêmea, ela tem a sua, que vá conviver ela.
Adão estava com medo que Deus tivesse alguma intenção oculta, e da forma como desconfiava de tudo ultimamente resolveu não arriscar a descobrir essa intenção e por isso desconversou e foi-se embora. 
Entretanto, por causa do seu aviso, Deus falou com a serpente, avisando-a para não se aproximar de Eva.
- Mas como poderei fazer o meu trabalho, pai, se não posso aproximar-me dela?
- Não sei. Se quiseres fazer o teu trabalho, arranja maneira de o fazeres. Nunca deves desistir por falta de meios, antes pelo contrário. Quem encontrou foi porque buscou.
A serpente, aconselhada, buscou e encontrou. Descobriu que Eva gostava de ir ao cybercafé do arcanjo Gueites para entrar no chat e requisitou um computador para poder manter conversação com Eva.
Foi assim que lhe falou da emancipação da mulher e dos direitos cívicos igualitários para todos os géneros humanos. Rematava assim: a espécie é única, nasceste da costela, para mostrar que és igual ao homem, não superior nem inferior. Blá-blá-blá. O emudecimento da verdade foi quebrado, blá-blá-blá, a verdade já saiu do seu alforge, querendo ser hasteada para que todos a vejam.
Eva não compreendia essa última parte, não lhe via sentido, mas parecia bem construída, portanto tinha de ter algum. Talvez estivesse mesmo a precisar de inteligência se até mesmo a serpente sabia mais do que ela. Raios! Imprimiu tudo e levou para Adão, para que este a ajudasse. Adão leu e releu, nada entendeu, mas deu a Eva uma explicação tosca, que não a convenceu, apenas para não mostrar a sua ignorância. Depois, foi buscar um dicionário, mas nem por isso conseguiu traduzir a ideia. Teve que ir procurar Cristo para este lhe ajudar.

Eva, impressionada pelas palavras da serpente, passou a gastar mais tempo no chat, em conversas com ela. Gostava muito de ouvi-la, inda mais porque era com a mulher da serpente que falava agora, e esta era mais expressiva, uma feminista. Quanto menos compreendia, mais Eva admirava o que lhe era dito: confirmava sempre dizendo que era verdade e mais que certo tudo o que a serpente lhe dizia, não obstante não percebesse patavina.
Adão agora andava sem cuidados, não havia motivos para pensar que Eva tocaria na fruta, pois que desde que lhe ensinou a usar Internet, ela andava colada ao computador. Adão não sabia a verdadeira verdade do perigo, não sabia que a serpente instigava Eva a comer a fruta, incutindo-lhe muitas pataratas na mente. Eva tinha muitas outras coisas para fazer, era claro, já nem mesmo ia passear ao Jardim Colorido; se não estava na cybercafé do arcanjo Gueites, então estava na oficina da DIABO a pedir novas coisas que a divertissem muito como aquele espelho. Adão passara muito tempo a procurar um espelho para Eva, porque ela não lhe contara o nome certo, chamara-o espedo. E aquilo era a única coisa de que Eva não se enfastiava, passava eternidades a mirar-se nele.
O que mais dava paz a Adão, convencendo-o que Eva nunca tocaria na fruta, era o facto dde ter pedido a Cristo para vigiá-la, salvando-a de se perder. No entanto, um dia...
- Adão! - disse Eva, correndo ao seu encontro com uma fruta na mão. - Morde isto, é uma delícia.

- Merda!.. - gritou Adão, sobressaltado, depois de ter reparado na fruta. - Eva, por que foste tocar nessa fruta?
Eva estacou, admirada com a cara furiosa de Adão, e com um trejeito que invocava arrependimento.
- Eu queria experimentar, Adão - justificou.
- Eva, não sabes o que fizeste.
- Sei muito bem, Adão - disse Eva, recuperando a confiança, a sorrir. - A serpente explicou-me tudo, Adão, acabei de ganhar poder igual ao pai. Agora sou até superior, pois poderei negar a sua existência, mas ele não pode negar a minha.
- Acabaste de ganhar poder, o caraças. Acabaste mas é de perder o Éden.
Eva perdeu a confiança.
- Por quê? - perguntou.
- Desobediência, Eva. Desobediência. Não mexer significa não mexer. Não vês aquelas placas onde se escreve não mexer e se desenha uma criança com um pé cortado pela mina? Aquilo é o resultado de mexer onde se diz não mexer. Por que merda fizeste orelhas moucas ao meu aviso?
- Adão, estás a assustar-me - disse Eva, visivelmente aterrorizada.
- A assustar-te? Vês-me zangado, Eva? Eu estou apenas triste. Triste por ti e pelo teu acto. Eras a minha fêmea, eu tinha o dever de proteger-te, mas deitaste tudo a perder.
- Mas, Adão - comecou Eva a chorar -, por que estás a falar no pretérito?
- Será que não entendes, Eva? Vais ser expulsa daqui.
Eva rompeu em pranto. Gritos e mais gritos. Histeria.
- Que posso fazer, Adão? Que posso fazer? - perguntava ela, desesperada.
Adão abraçou-a, movido por um sentimento recém-descoberto. A compaixão era grande dentro dele e uma antecipada saudade de Eva o tinha dominado, pois sabia que os seus destinos iriam se descruzar desde essa altura.
- Se eu soubesse, Eva - respondeu-lhe. - Se eu soubesse.
Eva encostou a cabeça no seu ombro e molhava-lhe o corpo com lágrimas. Adão não gostava, mas era o seu último dia com ela, tinha de aceitar. Pensou um pouco mais que o normal e resolveu:
- Onde está a fruta?
- Está aqui - mostrou Eva.
Adão tomou-a da sua mão. Eva, intrigada, levantou a cabeça para ele.
- Que queres fazer, Adão? - perguntou, sobressaltada.
Adão ficou fascinado pela nova cara que via nela. Cara preocupada, olhos rasados de lágrimas, um pouco inchados, músculos da face distendidos. Era uma beleza. Um outro sentimento que nunca experimentara antes apossou-se dele. Instintivamente, segurou Eva pelo queixo e colou a sua boca à dela. Foi o primeiro beijo do mundo. Beijos e beijos, como animais, começaram a descobrir, um no outro, novos talentos. Quer dizer, Adão descobria, porque Eva parecia mais à vontade, talvez fosse do instinto que tinha comprado a Adão.
Depois da confirmação da sua descoberta, Adão ficou ainda mais resoluto a nunca se afastar de Eva. Afinal era ela o verdadeiro Paraíso.
- Mas não sangraste? – disse ele a Eva.
- Mas tu também não – retorquiu ela. – E por que devia ter sangrado?
- Eu sei lá quem pôs essas palavras na minha boca. Na Bíblia eu não as disse.
Eva não entendeu, acho que nem Adão entendeu o que disse, mas não se preocuparam, porque ultimamente havia muitas coisas que não entendiam. Adão fez uma espécie de saia com folhas de árvore – ainda não tinha vendido o engenho - para cobrir as partes, a partir de então, íntimas dele e de Eva. Estava nisso quando ouviu Deus a assobiar, vindo na sua direcção. Envergonhado com as partes íntimas, empurrou Eva para uma moita, tratando ali de tapá-la e de tapar-se a si mesmo.
- Adão, Adão! - chamou Deus. - Onde estás?
- Estou aqui na moita - respondeu Adão. - Ouvi os teus passos e como estava nu, escondi-me.
- Como soubeste que estavas nu? - perguntou Deus. - Por acaso comeste a fruta proibida?
- Não, não comi - respondeu Adão.
- Como soubeste então que estavas nu?
- Como soube? Merda! Não sou cego. - Deus engoliu em seco, não esperava por isso. - Espera um pouco - pediu Adão -, já venho. É só dar um ajuste nisto. Pronto. Já está.
Adão saiu da moita acompanhado de Eva, com uma saia de folhas que provocou gargalhadas em Deus.
- Pelo menos nós estamos vestidos - disse Adão a Deus, irritado com a gozação.
Deus pôs-se sério então. Sabia que a sua ordem não fora cumprida.
- Um de vós comeu a fruta - acusou.
- Foi Eva... - aprontou-se Adão a responder.
- Foi a serpente que me enganou - justificou Eva, rapidamente, olhando para Adão com uns olhos a dizer: linguarudo.
- Eva comeu a fruta? - exclamou Deus, fingindo-se admirado.
- Estás surdo? - perguntou-lhe Adão. - Não foi o que acabaste de ouvir?
- Sabes o que significa isso, Adão? - perguntou Deus.
- Sei sim.
- Ela vai ser expulsa...
- Já disse que sei - gritou Adão, cortando-lhe a palavra.
Deus olhou para ele dentro dos olhos. Adão perguntou:
- Será que ela não tem perdão?
- Não, Adão. Ela infringiu a primeira regra, obediência, e esta era a fundamental. Quebra-se ela, de nada valem as outras...
- Compreendo, pai. Mas só que...
- Só que... - ecoou Deus.
- Só que, ou ficamos os dois ou saímos daqui juntos.
- Como? - Deus não sabia Adão capaz desse sacrifício, ele que sempre fora bruto com todos, não se importando com ninguém. - Não estou a perceber.
Adão mordeu o resto da fruta, que tinha na mão, para lhe mostrar do que estava a falar.
- Não é esta merda o motivo para cartão vermelho? Expulsa-nos! - Olhou para Deus com desafio e alguma pena de si mesmo, e acrescentou: - Se um dia quiseres saber por que fiz o que vou fazer, lembra-te destas palavras: foi a mulher que me deste.
Deus estava surpreso pela atitude de Adão. Ficou irritado, porque começou a ver que os seus projectos estavam a ir por água abaixo, ou melhor, foram. Adão estava a culpá-Lo, atribuindo o erro ao facto dele lhe ter construído a mulher, visto que não a queria no começo; a mulher culpava a serpente e ele, Deus, culpava-me a mim de tê-lo feito pôr aquelas frutas na Árvore Morta. Queria tirá-las dali, mas como não mudava a sua palavra, isso tornou-se impossível. Contudo, esperava que pudesse reconstruir tudo, incluindo remodelar Adão e Eva, para que a ordem reinasse. Conseguira conter a greve; embora alguns dos anjos tivessem ido comigo para o Inferno, muitos outros ficaram, então decidiu que esses não seriam molestados por Adão. Já não precisava expulsar Adão do Paraíso, nem Eva, e se eles não tivessem tocado na fruta, seriam eternos ali.
No entanto, fez-se uma luz no cérebro dele, e Deus lembrou-se dos códices, afinal não precisava expulsá-los, sempre havia uma chance.