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21 de abril de 2011

SETE MINUTOS, OS, Irving Wallace (1969) - sexo não é crime

Os Sete Minutos de Irving Wallace é uma obra simplesmente soberba e avassalante, capaz de abalar até mesmo os menos conservadores, na medida em que autopsia comportamentos sociais que sabemos que existem, mas que talvez nunca tenhamos gastado o tempo a observar para lhes entender os porquês. 

A obra fala de um livro chamado Os Sete Minutos, que lhe deu o nome, considerado o mais obsceno de todos os tempos (mas é ficcionário), porque usa linguagem franca para explicar episódios de cama. Sete minutos é o tempo médio do orgasmo feminino, ou melhor que a mulher leva para chegar ao orgasmo, (não sei comprovar essa afirmação e nem para aqui importa) e o livro dentro do livro descreve o que passa na cabeça da autora durante esses sete minutos; e como agravante o facto do prazer sexual ser negado à mulher naquela altura, onde boa parte considerava o orgasmo feminino um mito, e quando verdadeiro um perigo à estabilidade social.

O livro estava à venda por um livreiro que foi preso acusado de vender pornografia [a pornografia só foi legalizada nos EUA por volta de 1974]. A acusação é feita por um Promotor público que espera com isso conseguir projecção política, pois é sabido que todo o mundo, quando se fala abertamente do sexo, fica com um pé atrás, embora com os ouvidos distendidos. E para complicar a situação, um rapaz comete uma violação e alega que foi incitado a isso pelo livro. E, por fim, um advogado ambicioso arrisca-se a sacrificar um futuro promissor para defender o livro. Eis a base para uma das mais esplêndidas leituras que fiz este ano [foi em 2006 que escrevi isto]. Li o livro com um pantagruelismo que eu mesmo nem conhecia, 600 páginas em 2 dias. 

O autor, Irving Wallace, revela conhecimentos profundos (para mim que sou leigo) sobre a posição do sexo no sistema judicial americano e o mecanismo do sistema em si, e parece ter feito um belo trabalho de base antes de se lançar à escrita d’ Os Sete Minutos. Uma das frases mais sonantes e reveladoras sobre a questão sexo que aparecem no livro é: assassinato é crime [e imoral e antiético], mas escrever sobre assassinato não é crime [nem imoral, nem antiético], sexo não é crime [nem imoral(?), nem antiético], mas escrever sobre sexo é crime [e imoral e antiético]. É verdade que hoje falar sobre o sexo não é crime, mas continua a considerar-se imoral e antiético, pelo menos quando não leva o cunho de científico.  
recentemente, em 2009, um livro que reproduzia esta imagem de um pintor francês na capa foi apreendido e proibido de vender pela PSP, porque foi considerado ofensivo, quando qualquer  banca de jornais que se preze expõe revistas pornográficas ou eróticas sem que isso seja considerado atentado ao pudor
Durante a leitura, dei-me por mim a consolidar a minha opinião acerca das perguntas que já tinha vindo a fazer: será o sexo sujo? Será que a forma de agir que consideramos a melhor não foi simplesmente estipulada por uma cultura exsicada e hipócrita? Até que ponto somos manietados e outorgamos nós mesmos aos mais poderosos o direito de nos usarem como joguetes? Até que ponto o nosso receio de não sermos aceite ou de sermos ridicularizados nos levam a agir por conveniência e a destruir o melhor de nós? Podem crer que fazemos mil outras perguntas durante a leitura. 


Ainda vemos no livro como é que as pessoas sacrificam tudo para defender aquilo em que acreditam (as corajosas e são raras), ou outras para esconder-se da vergonha (a maioria)... e vemos também como é que por causa de terceiros se lixam os… quartos.


Embora o sexo esteja tão banalizado hoje na literatura, noutras formas de artes, e na nossa própria vivência, não pensem que o livro esteja desactualizado ou que não ira trazer nada de novo, pois embora o livro fale de sexo em particular, no geral trata da liberdade individual. Acreditem que o livro (foi escrito nos anos 60) é ainda bastante actual e continuará actual por muito tempo, e chocante. Chocante porque embate contra a forma como aceitamos imposições no nosso plano sexual e como ainda sacralizamos o sexo.


Para não me perder em tergiversações baratas, (pois para falar de tudo o que o livro mostra e ensina, eu precisaria de escrever outro livro) digo que depois de ter acabado de ler Os Sete Minutos, senti-me mais inteligente e mais livre e encorajado a enfrentar certos preconceitos que já vinha a considerar estupidez. 

12 de novembro de 2010

E O ÓSCAR VAI PARA...


Não me ocorreu nenhum título melhor para este artigo, aliás, confesso o título até parece uma injustiça para o pessoal lá do Hollywood, na medida em que eles claramente negoceiam o fingimento. Por isso, finjam que estamos a falar de fingidores profissionais e vamos em frente.

Carlos Pinota, para quem não tenha lido jornais ou visto TV ultimamente, é o jornalista proxeneta que está na ribalta por motivos errados, errados na visão da nossa sociedade hipócrita. O senhor foi indiciado porque gere sites (ou site, não sei bem) de prostituição, numa palavra mais bonita, por lenocínio.

Na sua lista foi encontrada nome de políticos, juízes e figuras importantes, pelo menos é o que diz o jornal Correio da Manhã, que cita várias vezes o nome de Carlos Pinota, mas nenhuma o dessas figuras.

Pois bem, o caso é este. Porém a mim faz-me mossa que o senhor Carlos seja indiciado por lenocínio e os jornais portugueses, o próprio Correio da Manhã (CM), não sejam; qual é a diferença entre a publicidade das duas entidades? Em termos de acessibilidade o CM é mais acessível do que o site de Carlos, que segundo o primeiro, cobra por volta de 170 Euros para publicitar uma prostituta. Não sei se Carlos ganha alguma percentagem da venda dos seus publicitandos (ou lá como se diz), mas tirado essa parte, faz a mesma coisa que o Correio da Manhã, mas como ele não tem a protecção do governo é feito réu, e o CM não, e ainda por cima o CM pode ir cobrir o acontecimento e falar sobre ele nas suas páginas, quando nas páginas seguintes tem exemplos caricatos da mesma actividade do réu (nem sei se fui literariamente coerente aqui).

A pergunta que continuo a fazer é: Por que raio o governo abençoa uma actividade para uns e a impede aos outros? Isto lembra-me uma frase de Pitigrilli: o ladrão quando quer roubar infrige uma lei, o governo quando quer roubar promulga uma lei (ou algo como isso). Será que ao CM é permitido lenocínio só porque paga impostos e é um dos jornais mais vendidos do país? Ainda estou a pensar no assunto.

Uma outra questão é sobre os figurões cujos nomes constam dessa lista. Eu não tenho nada contra a prostituição e todo esse alarde que se faz à volta do assunto para mim é simplesmente fruto de moralismo exacerbado misturado com preconceitos religiosos, portanto, é normal para mim que constem nomes nessa lista, e de figurões, considerando o dito valor que os trabalhadores de prazer pagam para serem publicitados por Carlos. Só acho também hipócrita que são essas mesmas figuras de destaque que atacam a prostituição em primeiro lugar a e à porta aberta, conhecendo bem o alcance das suas palavras, para depois usarem o serviço às escondidas. Deviam ir todos para a cadeia para aprenderem. 

Ainda outra questão é o jornal Correio da Manhã (não sei de outros) referir-se às prostitutas brasileiras. Carlos não publicita prostitutas, não, que ideia!, publicita prostitutas brasileiras. Não se trata apenas do CM, todos os jornais e os media portugueses (temendo exagerar se disser sociedade portuguesa) tem essa tendência de associar prostituição às brasileiras. Não tive acesso às publicitandas de Carlos, não sei se são mesmo apenas brasileiras, mas a prostituição em Portugal não é praticada apenas por elas. 

Essa publicidade negativa das brasileiras é perigosa. Este vídeo de Francisco Menezes (comediante que eu prezava muito, mas que caiu na minha consideração depois disso) em resposta a umas declarações em vídeo da Maité Proença, demonstra essa ideia que se tem das brasileiras. 


Aliás, pessoalmente já fui testemunha de um ataque directo, em tom de brincadeira, de um português a um brasileiro, dizendo aquele: Não conheces nenhuma brasileira?, ganha-se muito com o Pinto da Costa. Ao que este responde: Pelo menos ganham algo, pois as portuguesas eu como de graça. Na altura eu nem percebi o que queriam dizer um ao outro, só depois de ele me ter explicado é que apanhei a peça.

Voltando então à questão principal, o melhor era parar com esse fingimento de anti-prostituição, ou então indiciar também o Correio da Manhã e outros tantos órgãos da média, por "pecado" duplo: o de lenocínio  e o da propagação de preconceito. Aliás nem sei se publicitar é lenocínio.


22 de fevereiro de 2010

CASAMENTO GAY AGAIN....


Os gays querem casar-se... Quer-se referendo... não se quer referendo... QUER-SE REFERENDO... NÃO SE QUER REFERENDO... QUER-SE... NÃO SE QUER... Então, porra, aonde vai isto dar?

Eu responderia, deixem casar os gajos. O casamento é uma instituição familiar, dizem os defensores do NÃO, portanto não se pode misturar com motivos de moda, deve-se preservar a sua legitimidade, e só é legítimo quando é para ser realizado entre um homem e uma mulher.

Eu cá não sei, mas quando era mais novo, lembro-me de ter visto numa enciclopédia (era uma LOGOS ou uma POLIS) definições diferentes para casamento e matrimónio. Acho que matrimónio era uma instituição religiosa e casamento instituição civil... não estou certo, mas de qualquer maneira pergunto, não estão a confundir alhos com bugalhos, levantando-se a igreja e os restantes povos moldados pela moral religiosa contra o casamento gay, sendo casamento um contrato?

Há casais, ou melhor, pares gays que querem os mesmos benefícios (se é que existem) com as pessoas que vivem casadas ou em união de facto, seja benefícios monetários (irs e tal) ou psicológicos (a sensação de confiança provocada por um aro de ouro - se na verdade é o que garante a confiança). Dêem-lhes isso! Temos um documento chamado Direitos Humanos, que defende a igualdade para todos, então porque não vão ser eles contemplados por esse documento.

Já a Câmara de Lisboa tinha cometido um gaffe ao não permitir a inscrição de gays nos casamentos de Santo António... Ok! Sejamos sensatos, a Câmara é uma instituição, a Igreja Católica outra, portanto, ela não pode imiscuir-se nas regras desta (a não ser que tenha Sarkozy à testa) sendo que são diferentes... porém, quando esses casamentos são financiados pela câmara, ai, ai, a coisa já muda de figura, os civis, gays ou não, mereceriam ser contemplados... isto é uma coisa tramada. Mas tudo bem... proibiu-se aos gays de aparecerem nos casórios e como se isso não bastasse ainda há grupos a levantar-se para marchar contra o casamento gay!!! Tenham paciência.

Estou farto dessa cantiga, deixem os gays casar... afinal não se queixam do alto índice de divórcios?... e agora que encontraram malta disposta a contrariar a tendência estão a impedi-los.

Deixem casar os gays... adoptar... hum... isso já se vê.

14 de agosto de 2009

ERÓTICO OU PORNOGRÁFICO - no plano literário



Há uns bons pares de anos, na Inglaterra, um senhor chamado John Cleland resolveu escrever um livro pornográfico e imoral, contrário aos costumes de bons cristãos e civilizados - na altura -, o que lhe valeu a cadeia, - hoje -, um clássico da literatura erótica, e não só.

Cleland descrevia no seu livro aspectos sexuais, considerados libertinos, mas que eram mais praticados pelas próprias pessoas que publicamente os condenavam, estou a falar da classe média alta. Ainda hoje, as pessoas que mais se entretém com práticas sexuais de toda a sorte, que realizam grandes orgias e poderiam ser os mais sexualmente pervertidos se escrevessem duas linhas das práticas em que se envolvem, são os da classe alta, pessoas endinheiradas, pois têm-no... o dinheiro... são eles os políticos, os moralistas, os religiosos, os pais defensores da moral, etc. Enquanto estão a dar cara na televisão, nos jornais, atacam o sexo com todas as armas que têm, cantam a moral e glorificam a abstenção, mas longe dos olhos da média, a história já é outra.

No livro de Cleland, são visto nobres senhoras e os seus nobres senhores reduzidos a nada diante da fome sexual, ou da satisfação dessa fome, contrariando o adágio de que apenas a morte iguala os homens. A classe média alta pode fazer o que lhe dá na gana, mas até estas satisfações mais básicas querem e tentam retirar aos mais desfavorecidos na hierarquia das castas.
Ontem, Fanny Hill, As Memórias de uma Mulher de Prazer, era considerado um livro imoral e pornográfico, não obstante tivesse sido um best-seller na mesma época em que foi condenada, atestando desta maneira a hipocriasia que norteia os julgadores.
Eu não cheguei a ler Fanny Hill, só vi filmes, três versões, o que li foi A Filha de Fanny Hill, de autor anónimo, mas que se crê ter sido escrito pelo próprio Cleland, visto quando foi libertado por causa do Fanny Hill lhe ter sido imposto não voltar a escrever coisa do género, e, segundo o prefaciador, o estilo dos dois é similar.
Se o estilo é similar, sendo delicioso A Filha de Fanny Hill, e sendo uma sequela, presumo que Fanny Hill também seja delicioso. Ainda hoje deve haver certamente quem chame a este livro de pornográfico e imoral, (eu pessoalmente não sei distinguir a literatura, em prosa, pornográfica da erótica), mas se pornográfico consiste em utilização dos vocábulos "xungas", tal como caralho, cona, etc, então o livro não é, e muitos outros livros que não tratam de sexo, são pornográficos, aliás, o livro nem usa termos anatómicos, como pénis, vagina, e companhia, mas fala de lanças, botãos, heranças, e outros. O livro foi um dos mais éróticos que já li, senão o mais, mas vem numa linguagem que não chocaria nem a madre Teresa.

Na altura em que li A filha de Fanny Hill, li muitos outros, alguns títulos colhidos do Sete Minutos de Irving Wallace, um dos meus escritores preferidos... estava em constrante procura de materiais para as minhas sessões de onanismo... e, sim, concordo quando dizem que alguns livros são pornográficos e imorais (embora continue sem saber o que isso quer dizer), li o Trópico de Câncer ou do Capricórnio, já não lembro qual deles (vi o título num filme com Robert de Niro, Cabo de Medo e depois no Sete Minutos), a ideia era ler a trilogia de Henry Miller, mas fiquei-me nesse porque era simplesme sem sentido, palavras atiradas à toa no meu entender. O livro não era erótico, por não estimulava nada, não era literatura porque eram só palavras ordinárias e referências ordinárias, embora isso não significa nada, pois li um tal Bobowski, ou não-sei-quê (não me lembro do nome), Mulheres, esse era ordinariéssimo e vulgar, mas era boa leitura e conseguia ser erótico.

Agora vou voltar ao Fanny Hill. Lembrei-me de escrever este post, porque há dois dias, vi, coisa estranha, no comboio quatro senhoras a ler o mesmo título, Fanny Hill, os livros eram os mesmos, ou seja, da mesma editora, o que me fez pensar: Fanny Hill está em voga outra vez e a vender como o diabo, e por quê?, porque as pessoas torcem o nariz quando se fala de sexo, mas aguçam os ouvidos. Eu não leio livros eróticos simplesmente pela literatura e prazer de ler, como já referi, mas pelas minhas práticas solitárias propriamente, e fiquei admirado que, tal como ninguém gosta de ver pornografia em público, as senhoras estivessem a ler no público o Fanny Hill. Se elas estivessem a ler Milos Manara seria mais agressivo do que estarem a ler Cleland? É esta a diferença entre a pornografia e o erótico? Manara é porno, porque tem imagens? Nos filmes eu sei que quando não há penetração explícita (não falemos de sexo explícito que isso é para enganar), diz-se erótico, mas na literatura, como classificar? Em banda desenhada, como distinguir o porno do erótico? Engraçado, já em banda desenhada eu leio mais o erorismo pela arte do que propriamente pela recolha mental de material.

E Agora, outra questão, qual é o ponto deste post, juro que não sei. Mas a ditas senhoras no comboio, eram mais corajosas do que eu, a não ser que estivessem a pensar que ninguém saberia pelo título do conteúdo do livro, tendo em conta que a maioria só vê televisão e só conhece as bibliotecas pela fachada, e embora eu pensasse que estou quase livre dos preconceitos sexuais, não estou, pois fiquei chocado naquela altura que senhoras estivessem a ler Fanny Hill em público.

13 de dezembro de 2008

EXPLORAÇÃO INFANTIL LEGALIZADA


Qual é o mais correcto?


Um filho de um vendedor cigano com 7 anos de idade a gritar na feira: olha DVDêêês, cinco euuuuurôôs!!!, ou outro com 7 meses de idade a fazer publicidade num programa de TV?

A escolha fica por vossa conta. Entretanto, a mim chateia-me a tanta hipocrisia que gira em torno de trabalho infantil. Defendem que as pessoas deviam começar a trabalhar quando atingissem a maioridade, mas apenas o fazem às crianças que andam na rua a pedir esmolas ou a ajudar os pais na venda; daquelas que aparecem nos programas da TV ou nos filmes, ou que lançam álbuns musicais não dizem nada. Por quê?

Eu sei que a Justiça, se é que existe, não é cega (se já fora, agora fez uma operação aos olhos), entretanto faz-me espécie que se condene os pais das crianças que mendigam na rua e não o façam aos das crianças que vemos nos cinemas. Em boa justiça, os pais cujas crianças estão na rua a apregoar dvds pirateados ou artigos roubados têm muito mais razão e motivo para porem os seus filhos nesse local e naquele trabalho, visto que necessitam de dinheiro para sobreviver, e possivelmente o que o filho vai ganhar até o fim do dia é que lhe vai garantir a sobrevivência do dia seguinte (pois temos mais empatia pelas crianças, e mais rápido compraremos um artigo que não precisamos de uma criança do que de um adulto). Já os pais ricos que metem os filhos a trabalhar no cinema ou na publicidade da TV não têm essa desculpa.

Passava um programa na SIC com uma miúda que fazia de assistente do apresentador, devia ter uns nove anos ela, o programa acho que se chamava dominó; na Disney Channel as crianças fazem o gosto dos telespectadores apresentando programas... mas ninguém se queixa, ninguém reclama da exploração infantil... mas ninguém pensou que isso é do pior tipo de exploração que existe. Por que metem lá crianças senão para ganhar audiência, para criar uma espécie de identificação do público infantil com os apresentador e para desta forma fazer mais dinheiro. Todos sabem que as crianças agora estão cada vez menos a quererem ser bombeiro, astronautas, polícias ou médicos, e a cada vez mais a serem músicos, jogadores ou actores famosos, o que se reflete muito na diminuição da capacidade intelectual que os professores têm acusado nos seus relatórios.

Eu não sou a favor da exploração infantil, mas vamos lá tentar ser equinames: se não vamos criticar os putos que estão a trabalhar para empresas multimilionárias para as tornar mais ricas não critiquemos o desgraçado pai que sofre por não ver poder ver o filho na televisão (e quando isso acontece é para ouvir os cretianalistas sociais a falar mal dele) e ainda o tem na rua a viver miseravelmente e a fazer o trabalho que ele não gosta.

Quem não sabe da segregação que se suporta na sociedade hodierna? E ainda não querem que os pais preparem os filhos para sobreviver da única forma que conhecem?

De dois males o menor! Eu também prefiro a situação da primeira foto do que desta última; todavia, quando se vai falar de exploração infantil não escolham a franja social desprotegida para apontar o dedo, mas apontem o dedo a vós mesmos, milionários que controlam empresas multinacionais e cadeias televisivas e etc., e verão que os pais não punham os filhos a serem explorados por vocês mesmos se tivessem forma de os livrarem disso. Portanto, basta de hipocrisia.

O TRABALHO DIGNIFICA?

Ainda era eu de leite quando começaram a ensinar-me que o trabalho dignifica o homem. Cresci a ouvir sempre isso que passei a acreditar. Também que saída tinha?, todo o mundo acreditava!!! Todavia, não sei por quê, mas não me preocupava muito com o trabalho, eu ainda era puto e não um homem.


Entretanto, hoje digo que essa frase foi criada simplesmente para meter a todos na forca, adornando-lhes a garganta com uma corda, mas sem que ninguém reclame. Vamos ver o que é trabalho!

O trabalho não é o esforço físico, não, que simples era se fosse assim.

O trabalho siginifica estares a matar-te para enriquecer outra pessoa em troca de um salário - proletariado. O trabalho é aceitares a tua condição de escravo e ainda ficares grato. O trabalho é o grande inimigo da família. E a família, meus amigos, é hipocritamente considerado o núcleo fulcral da sociedade, o órgão que sustenta as sociedades e estabiliza-as. Por isso, não compreendo como é que governos que, nos seus planos e discursos, sobrevalorizam muito a família são a favor do trabalho. Contraditório.

O trabalho define-se por um hipotético mínimo de oito horas diárias longe da família (sem contar com o tempo de ida e de vinda), o que gera pais e filhos que se cruzam só aos fins de semanas, maridos e mulheres que vão para a cama juntos só nas férias e nos feriados, porque os horários são incompatíveis, porque têm que ir dormir as duas para acordar as seis; o que se traduz em:
  • filhos com pais presentes constantemente ausentes que manifestam a sua revolta atacando os professores, onde vêem a débil substituição paterna (agressão deslocada);
  • jovens cada vez mais mal educados (não culpabilizo aqui as escolas e intituições de ensino, que como todos sabem não educam, apenas instruem) e cada vez mais drogados e sem norte;
  • estabilidade social cada vez mais fictícia;
  • divórcios em alta escala (esposos que não se vêm acabam por criar maiores laços com colegas de trabalho, sendo aliciante a traição e a ruptura do lar);
  • criminalidade em alta por causa da disparidade de classes sociais.
Eu sei que os pontos que fiz podiam ser acreditados ao sistema económico e não ao trabalho, mas o sistema económico é que dita o modo de trabalho e de recompensa. Eis a dialéctica marxista: abolir a classe, pois essa constante substituição não ajuda: saiu-se da parelha senhor/escravo para feudal/servo da glebe para empresário/empregado, e o que é que mudou? NADA!!!!

Precisamos é de um novo primeiro de Maio, qual o que aconteceu em Chicago não me lembro em que ano, que nos reduziu a pena a estas fingidas 8h/dia, para termos mais horas com a nossa família.

Já perguntaram por que razão o horário escolar é praticamente 8 horas, como os nossos trabalhos? Porque o governo sabe que tem que ocupar os nossos filhos com alguma coisa para que possamos nos dedicar de cabeça fria enquanto tornamos os nossos empregadores mais ricos e potentes. Preocupam-se connosco os governos?, com os nossos filhos?, niente, nothing, rien, nada. Estamos num sistema capitalista, amigos, o que importa são os bancos, não as pessoas.

Ninguém nos vai tirar da escravatura a não sermos nós. Enquanto não tomarmos consciência e passarmos a ensinar os nossos filhos que o trabalho não dignifica, mas ecraviza e a agirmos nesse sentido e não nos deixarmos ser escravizados (pelo menos com a pesada pena que nos impõem agora), tenho pena dos nossos bisnetos, pois continuarão no mesmo inferno que nós.

Há pessoas que trabalham voluntariamente e fazem coisas mais importantes que a maior parte do resto do mundo, mas como não ganham dinheiro ou não produzem lucros, são considerados preguiçosos e "indignos", aliás, a maior vergonha que temos hoje em dia é de nos anunciarmos como desempregados, porque passa a ideia de que somos uns mandriões. As mulheres, por exemplo, que cuidam das suas casa, filhos e família, podem passar o dia todo nisso, mas não são "trabalhadoras", logo, "indignas". E quem são os "dignos" que todo o mundo respeita? São os que ganham rios de dinheiro, mesmo que no processo atropelem toda a ética e condutas morais possíveis.

O que é necessário é valorizar os nossos esforços e reconhecer a nossa dignidade, e pararmos de aceitar que nos vendam patranhas.

18 de março de 2008

BOICOTEMOS AS OLIMPÍADAS?

Não acredito em soluções fáceis para problemas complexos; nem mesmo na ficção, razão porque não gosto de Paulo Coelho, pois com conselhos inconsequentes e impraticáveis pretende que pode mudar o mundo, quando na verdade só muda a sua conta bancária (facto do qual não sou minimamente contra).

A analogia é fraca, mas o que queria com ela era dizer que a resolução dos problemas de Tibete não passa pelo boicote das olimpíadas, pelo menos do meu ponto de vista, o que sustento e fundamento.
Há anos, há muitos, muitos anos, um governador grego (já não me lembro quem, se alguém se lembrar, faça-me saber) instaurou os jogos olímpicos para unificar os povos gregos que andavam em guerra um com o outro. Os jogos eram feitos em honra dos deuses do Olimpo (o que justifica o nome), particularmente, Zeus.

Sabemos que hoje, tudo, por mais pura ideia que tenha sido no início, é usado como máquina de dinheiro ou desculpa para a notoriedade, razão por que os motivos dos jogos olímpicos tornaram-se pervertidos passando a ser uma fonte de rendimento capital, mais do que o conceito unificador dos povos.

A China investiu muito dinheiro e esforço para realizar os jogos, e coube-lhe essa tarefa há sete anos (se não estou em erro), e é certo que se candidatou a ela porque esperava tirar dividendos. Porém, que eu saiba, há mais de 50 anos que a China está no Tibete, mas isso não impediu que há 7 anos lhe tivessem dado o aval para dirigir os jogos; por que razão só agora se levantou a turba para justificar o boicote com os problemas de Tibete? Não vejo outra resposta senão esta: América.

Quero deixar bem claro que não sou a favor de qualquer invasão de um povo pelo outro, aliás eu sou filho de um povo (ex)cravizado e sei como isso funciona e o mal que causa; sou a favor da paz, mas não sou de expor o mal de uns para beneficiar outrem, principalmente quando esse é farinha do mesmo saco.

Está tudo politizado, Dalai Lama está a macular a sua figura fazendo uma espécie de jogo duplo, enquanto banca o Ghandi, os monges vão criando problemas na rua que requeiram intervenção policial; constantemente aparece a dizer que quer dialogar com a China como se esta fosse adversa ao diálogo. Talvez esteja a avaliar mal, mas não vejo senão a hipocrisia política no Dalai Lama desde quando começou a canalizar atenção para ser o Nobel da Paz, fazendo viagens e espalhando santidade, sempre, digo agora eu, com os americanos atrás das cortinas a puxar os cordéis e os cordelinhos.

Mas não tinha vindo aqui para falar do Dalai… A verdade é que a China está a tornar-se um império económico com um sistema social diferente dos americanos, e está a ser uma pedra nos sapatos deste. A América e a UE temem esta ascensão. Actualmente não há produto que não tenha made in China, não há europeu ou americano que não use um made in China, a china está a entrar no mundo e a assustar os americanos. Porém, a UE, menos gananciosa que a primeira, e mais ponderante, não está a favor do boicote.
O boicote dos jogos olímpicos não seria mais nada senão um golpe que desestabilizaria a economia chinesa por algum tempo… mas tempo é dinheiro… aliás, de uma forma ou outra já desestabilizou, porque muitos que antes tinham pensado em ir aos jogos assistir já não irão, porque figuras públicas, como Steven Spielberg (cujo arte admiro, mas esta atitude, arghhh, abomino), são a favor do boicote.

No entanto, pergunto: a América não está no Iraque?, não está no Afeganistão?, não vendem armas que alimentam as guerras no mundo? Por que raio ninguém se lembrou de boicotar os filmes americanos?

Acho que sei a resposta, porque os filmes são para nos distrair e não vamos atentar contra a nossa distracção, pois é-nos essencial. Agora só não entendo porque razão, se não devemos por em causa a nossa diversão, deveremos destruir os sonhos de outras pessoas. Não estou a falar aqui de chineses, mas alguns atletas passaram a vida inteira a prepararem-se para esta competição, podendo ser o seu maior sonho. Já se pensou na frustração deles? Não quero dizer que o povo invadido não se sinta frustrado também e que não devemos pensar nele.

Entretanto, não olhemos para o lado político e económico dos jogos, pensemos antes no espírito da olimpíada e acreditemos que ainda permanece imaculado, e por causa disso e dos atletas, perguntemos: por quê se deve boicotar os jogos olímpicos? Aliás, se a América é o justiceiro do mundo, se invadiu Iraque para fazer cumprir a justiça, por que não invade antes a China?

22 de fevereiro de 2008

O MUNDO E A TV - DISSEMINANDO A INTOLERÂNCIA



Este vai ser a primeira parte de uma série de reflexões de treta.

Fazendo o zapping encalhei na SIC Mulher (oh!, não, não me entendam mal, não sou gay, e como isto aqui é um sítio público e para não quebrar a convenção e passar por intolerante, vou carimbar que não tenho nada contra eles, apesar de não ter gostado do único que conheci, pois fazia-se a mim).

Como estava antes a dizer, encalhei-me ali, porque um homem (bem parecido, por sinal) estava a contar como a sua mãe o apoiara quando descobriu que era gay; fiquei interessado, é sempre bom ver alguém com coragem para assumir a sua posição; e quando vemos como são tratados por serem apenas diferentes sobe-nos um nó para a garganta e um aperto no estômago tão forte que nos deixa a cara a arder. Aliás, eu pensava que era isso que acontecia, até ver a apresentadora (acho que é Tyra) a despedir o homem e depois a chamar uma mulher que não estava de acordo comigo.

Ela chamava-se Ashley qualquer coisa, era advogada e mãe de onze filhos, praticava a religião baptista e tinha um imenso ódio contra os gays, porque, segundo ela, todos eles irão para o Inferno, porque Deus os odeia (isto dá muito pano pra manga).

Primeiro admirei também a coragem da mulher: entrar numa audiência onde se tinha acabado de bater palmas fortes em solidariedade aos gays, e sustentar à viva voz que odiava gays, era algo que chamasse colhões ao assunto. Era provocação máxima, mas era uma mostra de coragem e afirmação. Ela estava acompanhada de duas meninas, suas filhas, e todas elas partilhavam do mesmo credo: ódio aos homossexuais. A justificação: Deus odeia isso.

Esqueci-me de dizer que a Tyra anunciou essas mulheres como semeadoras de ódio, violência e intolerância e durante a entrevista, não deixou de chamar-lhes isso nas suas caras; pensam que elas se zangaram? Não, continuaram ali, impávidas, forçando um sorriso amarelo e melado cada vez que a câmara lhes focava, e não alteravam a postura por minuto algum. Houve um momento em que a Tyra começou a gritar com a mãe: não discutas comigo no meu programa. Eu estava a sentir pena, admiração e nojo dessas mulheres, mas pela forma com a Tyra as atacava, e quando falou isso, e quando depois pôs os figurantes a atacar essas três diabas, enjoei. 

As mulheres queriam aparecer na TV, a Tyra queria subir a audiência, o sacana do gay tinha um programa de auto-ajuda e era músico, estava apenas a publicitar-se. Aquilo tudo começou a feder de hipocrisia; e quando se chamou um ex-skinhead para descascar as três mulheres, passei dos carretos… mas não pensem que mudei de canal. Ainda vi uma menina de 14 anos a dizer que é uma puta porque fodeu já 14 rapazes…

Não posso transcrever aqui os diálogos, mas posso dizer que naquele estúdio não havia uma única pessoa que não fosse intolerante; e eu também me senti intolerante, por momento quis que um kamikaze entrasse de rompante no estúdio. 

Estou com preguiça de pensar e sei que o texto está superficial, mas vou resumir, a raça humana é a pior que existe neste planeta, perdoem-me o cliché. 

30 de agosto de 2007

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA QUEM NUNCA....

Reza a lenda que havia um tipo que era de um calibre tão grande, tão grande, que nem com um burro se comparava, chamava-se Minotauro. E na cidade onde vivia, havia uma santa mulher que costumava ajudar todos os homens. Quando ela ajudou o Minotauro, os homens ficaram com ciúmes, porque julgaram que nunca mais seriam ajudados, e em vez de implicar com o Minotauro, porque ele marrava rijo, resolveram voltar o ódio para a mulher. Quiseram matá-la à pedrada, acusando-a de ser muito filantropo. Então o Minoutaro disse: Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra… Bah, isto está mole e chato, acho que todos vocês já conhecem esta lenda; mas vou continuar… Foi horrível a morte da mulher, ficou enterrada em pedras.


O que me fez lembrar da lenda? Simples… sabem como é?, há sempre aqueles dias em que somos apanhados por coisas que considera ninharia. Hoje apanhou-me a televisão: Dominó, o nome do programa (depois, vou enviar uma carta a SIC a ver se me paga pela publicidade). Li no rodapé: procuradas e mal pagas. Fiquei admirado, vão falar de putaria a esta hora?, pensei. Não sabem que tem putos a ver o programa? (Até que calha bem por sonoridade: putos e putaria). Mas não, não era de putaria que se estava a falar, pelo menos, não da putaria explícita.

Falava-se que as Chaves andam a frequentar festas que são pagas para ir. E acreditem ou não, os convidados estavam tão empolgados a discutir que pensei primeiro que aquelas Chaves de que estavam a falar deviam ser as chaves do cofre do Estado, mas qual! Eram as manas boazudas. Mas isso até que não tinha importância, até a parte em que uma das apresentadoras começar a fazer caretas e a dizer que não concordava que as manas devessem receber e que se elas arranjassem trabalho, não tinham que fazer isso e ganhavam mais ainda.

Filha da puta! (foi o que disse ao ouvi-la). Quer dizer, lá porque as Dianas são mais boas, ou mais extrovertidas (sei lá se são) e são mais apreciadas, é razão para que a tal apresentadora (não lhe sei o nome) se ponha com toda aquela inveja a falar? Quer dizer que aparecer na TV em programas de amolecer a cabeça do povo é mais respeitável do que aparecer pontualmente nas noites para endurecer a outra cabeça dos homens?

Não que seja fã das Chaves, só não gosto de pessoas invejosas. Trabalho é trabalho, seja como prostituta (que é fodida e paga) seja como político (que fode e ainda cobra).

Não gosto de dar explicações, mas se alguém ainda não entender por que me lembrei da lenda, eu vou-lhe contar: porque todos pecamos, mas todos continuamos a julgarmo-nos santos.

16 de maio de 2007

MADDIE vs MARIAS

Arrisco a passar-me por insensível, mas não sou, e tenho amigos que o possam confirmar, entretanto vou falar aqui de um tema muito forte, e tenho impressão de que vou ferir sensibilidades, mas espero que não seja por isso que não deva falar disto.

Bom, cá vou eu. Nos últimos dias em Portugal, não há quem veja TV, ouça rádio ou lê jornais... ou ainda, use net... que não saiba que foi raptada uma menina com nome Madalena (escreve-se em inglês, pois ela é inglesa, mas eu não sei escrever o nome dela bem e não queria arriscar-me a errar). Eu sou contra rapto de qualquer espécie, o que quer dizer que o facto de terem raptado Madaleine (acho que é assim que se escreve) choca-me. Porém, todos os dias, recebo mais de quatro mails com fotos dela, mails de carácter de urgência e outras até com poemas dedicadas. Nos jornais... Enfim, a média está infesta de Maddie (é o diminuitivo dela)... Bom, talvez seja melhor usar outro vocábulo, e dizer as coisas noutro tom, só não sei a forma mais politicamente correcta para dizer isto. Mas vamos lá.

Portugal parece estar em reboliço porque desapareceu Maddie, e isso, acho eu, só porque ela se chama Madeleine, pois se fosse Madalena, ou Maria, não se preocupavam assim tanto. A imprensa estrangeira também está em Portugal, não se sabe se realmente preocupada com a pobre Maddie, ou se para curtir umas férias no Algarve disfarçadas de ordem de trabalho, pois na Inglaterra, na França, na Alemanha, no resto da Europa, parece que desaparecem por ano mais pessoas do que aqui, mas porque é que não fazem todo esse alarido lá? Tem alguma coisa a ver com política o facto de estarem a chover jornalistas cá por causa da Maddie? Será que se quer passar a ideia de um Portugal mais vulnerável para mobilizar fundos e ajudas da UE? Esse não é meu ramo, vou deixar de conjecturas.

Na África estão a morrer de fome, de guerra e males de toda a sorte, crianças que o mundo nega; nos países do terceiro mundo, em geral, crianças são raptadas, violadas, exploradas sexualmente, mas não há tanta imprensa à volta disso, e os internautas portugueses estão em paz de Deus.

Mas, isso é compreensível, pois esses países estão muito longe, e o caso Maddie aconteceu debaixo das nossas barbas (no nosso queixo?).
Mas a questão que se põe é: desaparecem em Portugal muitas Marias que não são faladas porque são Marias, outras que nem se sabe que desapareceram porque são filhas de imigrantes ou filhas de pobres.

Não pensem que sou contra Maddie, Deus me livre disso, mas sou contra essa hipocrisia barata e fodida com que se impregna as coisas para provocar outros efeitos. Parece-me que quem na verdade se está a lixar para Maddie, são os seus pais, familiares e amigos. Para a PJ é só um caso, para a Imprensa, uma notícia, para o povo, motivo de conversa, para o internautas, lixo electrónico.
Na verdade, quem é que olha para a cara de outras pessoas nos sítios públicos para saber o que está essa pessoa a sentir, se está a ter ou não um belo dia, com intuito de ajudá-la (mas vou fazer disto a razão de um próximo post, e vou voltar a Maddie). Sendo as pessoas como são, posso crer que encontraríamos com Maddie dez vezes na rua, apesar de termos recebido mil vezes a sua foto na net, e ainda assim não a reconhecíamos, pelo simples facto de que estamos a lixar-nos para as pessoas com quem nos cruzámos.

O texto já está a alongar demais, quando começo a falar, não consigo parar. Só quero acrescentar mais uma coisa, quando vão mandar fotos da Maddie no vosso próximo mail, não se esqueçam de adicionar as fotos das Marias.

30 de outubro de 2006

NA TERRA DE CEGOS...

É! A minha mãe já me dizia: Quando um burro fala… não o oiças, é burro. Eu sei que ela tem razão, e por isso tento evitar ouvir os burros, principalmente porque, ao contrário do provérbio, quando um burro fala, os outros também o fazem; são como os cães quando ladram.

Bom, deu-se-me começar este texto com o parágrafo acima, porém não sei agora para o que serve isso, não sei continuá-lo e nem sei por quê comecei com ele, pois o que me inspirou a escrever isto foi um livro de Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira. Ainda não li a obra em questão, foi-me recomendada por uma amiga que teve ainda a bondade e gentileza de fazer uma síntese.

Isso fez-me pensar: E nós? Não estamos nós todos cegos? A educação que recebemos, os preconceitos em que somos criados, os dogmas ditos incontestáveis, a proibição de sermos diferentes daquilo que vou chamar de Regra de Conduta do Senso Comum (conforme as diferentes culturas, é claro), todos este factores, e mais outros aqui não nomeados, não nos cegam?

Por exemplo, estamos à mesa e um de nós mete o dedo no nariz à medida que fala com a boca cheia, criticamos logo, mesmo que em silêncio. Mas por quê? Porque houve quem decidiu que isso é má educação. E por quê? Não vou tentar responder para não criar uma cadeia infindável de porquês. Mas será que meter o dedo no nariz torna-nos pior do que somos? Eu… para mim isso tudo são regras criadas pela ceguice das pessoas que se julgam com bons olhos.

Para ilustrar: Mostremos a um invisual – atenção que não digo cegos, porque cego aqui tem um sentido semântico que tende mais para o cérebro do que os olhos… Estava a dizer: mostremos a um invisual o magnífico quadro de Leonardo da Vinci, Monna Lisa (pessoalmente prefiro uma foto de Charlize Theron… e nua, hmmm) e peçamos-lhe a opinião; responder-nos-ia, porque usámos a palavra magnífico: É magnífico! Espectacular! Absoluta e perfeitamente negro.

Sim, que mais podemos esperar de uma pessoa que não vê a luz? No entanto, nem por isso ele deixaria de dar o seu parecer – o ser humano tem um toque especial para criticar. Porém será que não devemos levar em conta a sua opinião só porque ele é invisual? Eu digo que não, porque aí seríamos cegos. Mas já Camus dizia no seu livro, O Mito de Sísifo, qualquer coisa como o homem é um cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim. Porém, não demoremos a raciocinar sobre isso, proponho irmos dar um passeio à famosa Caverna de Platão (julgo que não preciso repetir aqui o conceito) e perguntemos: Afinal quem está na razão? Não estamos todos intrincados num jogo de sombras, iludidos por pessoas que se julgam terem escapado da caverna?

O modo que estou a usar para falar deste tema está a lembrar-me de uma observação de Descartes no seu Discurso do Método, sobre pessoas com espírito medíocre que preferem filosofar com princípios obscuros e que são como cegos (invisuais) que, para lutar com alguém que vê, sem ficar em desvantagem, preferem fazê-lo no escuro. De qualquer forma, avante!

A minha mãe disse-me para não ouvir os burros, mas quem são os burros isso ela não me disse. Tenho livre arbítrio e algum cérebro e devo guiar-me por eles. Entretanto, isto não é tão fácil como é pronunciável, sendo eu um cidadão desta terra de cegos.


Em princípio eu devia ouvir os chamados sábios, porque diz o ditado: Na terra de cegos que tem um olho é rei; porém, tive a infelicidade de perceber que este ditado mente de maneira descarada, pois, na verdade, na terra de cegos, todos são reis e sábios e que tem olho é louco. Imagine uma pessoa a descrever Van Gogh a cegos (nascidos cegos ou cegos por opção – aqui a palavra cego toma uma conotação embaralhada), o primeiro comentário seria: Devemos internar este desgraçado, pois já não diz coisa com coisa.

A minha mãe disse-me e bem: não oiças os burros… pois estando todo o mundo cego, quem guiará a quem?