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4 de agosto de 2019

SOBRE A RESTITUIÇÃO


Cara Europa,


Escrevo-te, daqui, da Guiné-Bissau, com a missão de pôr na tua visão a noção de que temos a perceção da verdadeira intenção das tuas ações.

Europa, escrevo-te esta carta, como um filho da África, em nome da África, mas sei que é uma tática pouco prática, e é uma pândega esta audácia de eu, na minha pobre casca, falar em nome de toda a África, quando nem da minha casa eu sou o representante mais patente, pelo que muito menos posso ser o representante de todo um continente. Por isso, digo-te assim de fronte, só falo em meu próprio nome, mas não penses que é inconsequente este meu atrevimento. 

Europa, queria começar por enviar-te cumprimentos, mas vais ter de perdoar-me, porque neste momento estou em tormentos cujo comprimento é imenso; tormentos tão velhos como este lamento que me risca o peito e me deixa neste leito, desfeito, em trejeito de dores lancinantes que enlaçam as partes que lançam ares salutares nestes esgares que mostram os meus desaires. Pois tu tudo fazes para que tu e a África não sejam pares. Nunca serão comadres, Europa, enquanto desejares que a África continue à tua sombra… sabes…

Ahhhhh… puta que pariu, Europa. Não me fodas. Eu, África, sou muito velha, mas falas de mim como uma tola de uma cachopa, empurrando-me para a popa, enquanto tomas a proa. Mordes-e-assopras e pensas que ninguém te topa? Primeiro apregoas que eu não tenho história, e que só entrei nesta roda, porque tu organizaste a boda toda. Porra!, já me deixaste sem roupa, depenaste-me vezes sem conta e agora apostas nesta moda de mandar bocas de que me vais restituir as coisas que me tinhas tirado à força com a tua tropa odiosa para a qual só o lucro conta. E falas agora como se tivesses muita honra e como se fosses uma filantropa que me está a fazer um favor? Ó, por favor, tenha dó, Europa, tenho cara de tola? Não sou nenhuma tonta.

Primeiro dizes que eu não tenho história, agora queres a mostradora da minha glória? E eu, eu não tenho voz própria para determinar as minhas escolhas, terei de seguir sempre as notas das tuas folhas? Por que está tão interessada em devolver-me as estátuas? É porque já não tens mais espaços no armazém. Pois bem…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Diz-me, caramba, por que estás tão interessa em devolver-me as estátuas, pedaços de pedra e de madeira… mas do ouro, da prata, do marfim, dos diamantes, do silício e da riqueza que custa o suplício do meu povo que vive em sacrifício para que possas manter vivo o teu vício de consumo em nome de bom serviço, sobre isso é só silêncio…

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Falei do ouro, falei da prata, mais ainda não falei dos escravos e das pessoas extraviadas das suas terras e jogadas de repente em contextos alienígenas e de alienação completa, sem aliados e sem alianças, com crises de identidade que ainda hoje de forma indigesta se manifestam nos seus descendentes. E, tu, Europa, que te arrogas e te vestes da defensora dos direitos humanos… humanos, desculpa, queria dizer brancos… como cura da escravatura, indemnizaste os brancos, donos de escravos, por perderem o gado humano africano trazido do outro lado do oceano, pois tu estavas preocupada com reparos justificados. Mas quando te falam de reparos aos africanos feitos escravos, aí, assumes a postura de injustiçada e falas que não deves ser cobrada pelos erros do passado. Sim, é claro, então por que dizes que queres devolver-me as estátuas para pagar pelo erro do passado? Queres pagar pelos erros ou apagar os erros?

Que são minhas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa. Euroooopa! Queres tanto devolver-me as estátuas, tu, ó generosa senhora, porque estás tão preocupada em descolonizar a mente, em descolonizar o conhecimento, em descolonizar a cultura, em descolonizar a puta-que-pariu… hein é isso? Mais fácil colonizas Marte do que descolonizas a mente, porque um colonizador não descoloniza, um colonizador recoloniza, um colonizador se reorganiza para se manter sempre em cima. Quando és tu que desenhas as linhas da descolonização, jogando com maestria a tua filosofia sobre o mundo que te rodeia, não vais mudar as tuas ideias, só vais cobri-las com novas teias, mas elas no fundo continuarão feias, pois a maquilhagem não muda a essência. A qualquer ideia não-europeia, tu colocas um sufixo, por isso, enquanto falas de afro-literatura, etno-literatura ou de etno-filosofias não como literaturas ou filosofias, mas como categorias alternativas, não importa o que digas, vai ser uma coisa pífia, pois não queres descolonizar uma pívia. O teu discurso é sensacional, mas a prática… meh… só mantém tudo como está.

Que são minhas, as estátuas, são minhas. Mas pergunta-me primeiro e eu decido.

Europa, se quiseres devolver-me as minhas estátuas, então larga essa atitude fátua, sua crápula, pára com as fábulas e vamos falar da prática.

Estás preocupada com o meu bem-estar? Ai, que boa, és tão fixe, Europa. És tão boa, tão boa que me afogas com as tuas instituições e as tuas ONGs que só fazem cá a manutenção da pobreza e dos problemas. Dizes que mandas para cá dinheiro, para salvar o povo inteiro, mas não tens uma cheta para pagar uma merda de um bote para retirar do teu mar pessoas a afogar, mas tens 1001 barcos a pescar o meu mar. E pior de tudo, ainda vês se encalabouças aqueles que tiveram a força e a coragem de usar o privilégio e a vantagem para serem humanos de verdade para ajudarem humanos necessitados.

Europa, Europa, Europa. Tu vendes as tuas armas no meu quintal, incitas guerras para me poderes explorar, pois a minha instabilidade é fundamental para que possas continuar a dar cartas e a falar mal de mim, como se eu fosse um débil mental, e achas que o me preocupa são as porras das estátuas?

Que são minhas, são minha. Mas já que daqui as tiraste, e por anos com elas ficaste, considera-as arrendada. Vai ver aquelas que tens às mostras nas tuas montras e faz as contas e manda para cá o dinheiro.

Hey, espera!, se prometeres não mais mandar para cá as tuas as tuas armas, as tuas doenças, o teu desenvolvimento sustentável e o teu capitalismo selvagem, que não me trazem nenhumas vantagens, eu juro-te que te ofereço as todas as estátuas do mundo.

25 de julho de 2017

MACRON E SEUS APÓSTOLOS (CEDEAO)

Há umas semanas o famoso presidente Emmanuel Trump dizia que as mulheres mexicanas tinham muitos filhos… Peço desculpas, tenho que repetir a sentença de forma mais calma, pois ando a confundir muito estas duas figuras.

Estava a dizer, Emmanuel Macron disse que o problema da pobreza na África é as mulheres terem muitos filhos. As mulheres africanas, olhem só!, essas parideiras descerebradas que não sabem fazer nada senão receber esperma e cuspir mais pretinhos para este mundo.

Já era mau por si só se Trump… desculpem, se Macron tivesse dito que os africanos terem muitos filhos é o problema da pobreza na África, mas não, não se trata dos africanos sequer, mas das suas Evas, essas encantadoras de serpentes. Nesta única frase, Macron mostrou as suas cores, é tão oco quanto Trump e tão racista quanto Trump e Le Pen, mas não é tão honesto como estes dois, pois eles ao menos assumem-se como são.

E feminismo à parte, Macron está preocupado com a superpopulação africana porque o destino dos jovens acaba por ser a Europa, e o destino dos jovens migrantes africanos das ex-colónias (?) costuma ser o país ex-colonizador. Estranha dinâmica. Só que em vez de Macron recomendar um muro, recomenda o controlo da natalidade numa base malthusiana idiota.

Sabe Macron qual é a taxa da mortalidade na África? Só sabe que cada mulher chega a ter oito filhos, mas sabe quantos destes sobrevivem de guerras criadas na África por interesses ocidentais, inclusive da própria França? Sabe quantas morrem de doenças ou de medicamentos fora de prazo vendidos por farmacêuticas ocidentais, incluindo as francesas? Sabe Macron quantas pessoas morrem de fome, porque o governo do seu país tem de continuar a pagar à França o direito de usar Franco CFA (ex-Franco de Colónias Francesas Africanas), em vez de lhes fornecer ajuda básica? Sabe Macron quantos desses jovens das suas chamadas ex-colónias têm de fugir do seu país para França iludidos com a ideia de uma vida melhor? Claro que deste último ele sabe e bem, e é o que o procupa.

Mas falemos das ex-colónias. Quando é que as ex-colónias francesas deixaram de ser colónias? Se até hoje França está a colonizar mais territórios. Guiné-Bissau já está lá quase desde que adotámos o Franco CFA e começamos a tornarmo-nos colónia de uma colónia (colónia do Senegal, que é colónia de França). A França quando não consegue controlar, destrói. Quantas ex-colónias francesas estão em Guerra Civil e quantas já enfrentaram golpes de estado quando os seus líderes dizem que não querem alinhar com os interesses franceses? Aliás, o conflito que hoje se vive na Guiné-Bissau não adveio do jogo de influências entre França e Portugal no país?

O discurso de Macron apenas demonstra a aura colonizadora da França e a sua necessidade de controlo. Mas, isso não é sequer estranho, ou não seria Macron um neoliberal, trocado em miúdos, imperialista capitalista. Vejamos só este caso caricato, enquanto algumas ex-colónias africanas estão a pedir compensação monetária pela colonização (por exemplo a Namíbia a pressionar a Alemanha), a França encontra-se nas antípodas continuando as extorquir as ex-colónias, como se estivesse a pedir compensação por deixar de oficialmente as colonizar.

Vamulá, França é França, Macron é Macron, defendem interesses próprios. Só tínhamos de nos irritar com eles e continuarmos a tentar desenhar as nossas próprias soluções. E desta forma esta história seria facilmente varrida para os anais das crónicas de idiotices ocidentais. Mas tal não foi possível, pois eis que, de repente, um grupo de “bons alunos”, que têm a função de empurrar a agenda da França na África, a CEDEAO (gerente do Franco CFA), levanta-se e vem dizer que Macron tem razão e que vão reduzir para três o número máximo de filhos por MULHER.

Lá está de novo, MULHER, quer dizer, um homem pode engravidar dezassete mulheres, sem crise, mas ai da mulher se se engravidar mais de três vezes.

E pelo amor de deus, será que nem Macron nem a CEDEAO sabem que a economia africana não se baseia apenas na medida do PIB? Vais para um sítio onde as pessoas vivem da agricultura e agropecuária e vais medir a riqueza dessas pessoas com um 1 dólar por dia? Consigo entender que Macron não saiba, pois cresceu numa realidade e foi doutrinado com verdades próprias e aplicáveis para o seu meio, mas que os africanos da CEDEAO embarquem nesta cantiga é por demais preocupante.

Uma das razões porque eu não gosto da ideia de comemorar 25 de Maio é mesmo esta: por que comemorar o dia de África, quando a África é tão fracionada e a ideia do pan-africanismo já nem cadáver mais é? Fala-se da África como se fosse um corpo único e com ideais alinhados, quando na verdade, não se trata disso, ainda mantemos as mesmas fronteiras que os nossos senhores criaram e as nossas grandes instituições, como a CEDEAO, por exemplo, ainda dançam sob os cordéis dos interesses europeus.

Queremos uma África desenvolvida, todos falamos de uma África desenvolvida, mas não como uma África de africanos, que tenha em conta a nossa cultura e realidade. Queremos negar o que somos para sermos como os nossos senhores. Deus do céu!, o mais assustador é verificar que mais de sessenta anos depois, Frantz Fanon continua a ter razão, o preto quer ser branco.

A CEDEAO vai controlar a natalidade das mulheres africanas. Mas como? Eu sei que a China tem uma longa prática disso e podemos aprender muito com ela, mas, diabos!, até a China já está a seguir uma direção oposta.

Se a CEDEAO ainda não sabe que o problema da África não se trata da quantidade dos filhos das MULHERES, pois não são muitos filhos que geram a pobreza, mas talvez o oposto, a pobreza (no contexto socioeconómico moderno) é que gera muitos filhos… pois numa sociedade camponesa, muitos filhos significam muitos braços de trabalho e muita comida para a família… Como estava a dizer, se a CEDEAO não sabe que o problema da África não se trata disso, mas de alinhar com interesses ocidentais em detrimento do próprio continente, e também de seguir cegamente essas doutrinas ocidentais que já todos sabemos que não funcionam, então está mais que na hora de reformarem as botas.

Que a França tenha Macron, pode ser bom para a França. Mas que a Guiné-Bissau tenha CEDEAO a tentar decidir por ela, não abona a nosso favor. Espero que o nosso presidente sequer vai tentar embarcar nesta ideia abominavelmente idiota.


15 de maio de 2017

MUNDO NAS MÃOS, O, John Pilger (2002) - o terrorismo capitalista

Entrou para a ordem do dia o terrorismo, desde 2001, e a cada ano que passa tem de acontecer alguma desgraça no mundo civilizado para carimbar esse medo na mente das pessoas. Compreende-se por quê; povos que sempre viveram tranquilos, pelo menos desde depois da Segunda Guerra (embora estejam constantemente a fazer guerras em territórios alheios e a vender armas a grupos suspeitos), de repente se vêem à mão com problemas explosivos, é normal que sejam tomados pelo pânico e assinem abaixo toda e qualquer ordem de retaliação contra o “inimigo”. Com os mais recentes ataques é compreensível que os média se concentrem todos a apregoar eufónica e euforicamente a necessidade de lutar contra o Estado Islâmico (bombardear alguns países muçulmanos, pela geoestratégia e recursos naturais, entenda-se… só que não o podem dizer em voz alta!) Numa Europa dividida pela economia, que melhor cola poderá existir do que um inimigo comum: o medo dos europeus de serem mortos na segurança da Europa?

Este preâmbulo é um tanto longo e parece meio deslocado para este artigo, no entanto, se lerem este livro de John Pilger, O MUNDO NAS MÃOS, com o subtítulo: o que os Média não Dizem sobre os donos do mundo, vão compreender a sua adequação.

John Pilger é um jornalista australiano que coleciona importantes prémios de jornalismo e de televisão pelos seus trabalhos como correspondente de guerra e pelos seus documentários, portanto, nesta sociedade, onde só tem crédito quem aparece na televisão, as suas palavras valem muito. E valeriam ainda mais se ele aparecesse muito mais vezes, mas como ele não escreve de acordo com o que manda a cartilha dos manda-chuvas e donos do mundo, que controlam o dinheiro e a informação, ele não é, consequentemente, muito popular.

O MUNDO NAS MÃOS fala de terrorismo, terrorismo ocidental, institucional e económico, porém limpo, limpo por ser praticado pelos donos do mundo e em nome da economia, do desenvolvimento, da democracia e dos direitos humanos, e por esses exatos motivos, mais aterrorizantes ainda. E se no ocidente só praticam o terrorismo económico, no resto do mundo vão ainda mais fundo.

O MUNDO… começa com a Indonésia, um país violado e destruído em nome da economia global, chamado pelo ocidente económico de “aluno modelo da globalização”. Pilger conta como, em 1967, os gigantes empresariais e económicos ocidentais dividiram entre si as riquezas e os recursos da Indonésia, em troca de apoio ao General Suharto para derrubar o governo existente, o que este fez, acabando por ficar no poder até 1998, com um saldo de mais de 1.000.000 de indonésios mortos, sem falar dos milhares de timorenses levados no processo. E enquanto isso recebia elogios dos média, por ser aquele que modernizou o país (e fê-lo mesmo, transformando-o num gigantesco complexo industrial a operar para os multinacionais ocidentais).

Suharto foi um ditador que matou milhões sem sanção do Banco Mundial ou do FMI, porque estas instituições, conforme relata Pilger, asseguram que não discutem a política de um país, apenas a sua economia.

Apoiaram Suharto, porque o presidente anterior, Sukarno, era considerado comunista. Tinha expulso da Indonésia o Banco Mundial e limitado o poder das grandes companhias petrolíferas e tinha recusado veementemente o empréstimo dos americanos. E assim, a Indonésia, que em tempos não devia nada, foi espoliada do seu ouro, pedras preciosas, madeira, especiarias e outras riquezas naturais pelos seus dominadores e hoje (2002) tem uma dívida de 170% do seu PIB.

Não obstante a extrema industrialização da Indonésia, os seus habitantes vivem na extrema pobreza a ganharem salários miseráveis e a viverem em situações miseráveis para trabalharem nas grandes fábricas e indústrias ocidentais que recorrem à mão-de-obra barata (trabalho de escravo) e trabalho infantil.

O que me revolve o estômago (este sou eu e não Pilger) é ver grandes marcas ocidentais a venderem os seus produtos utilizando slogans e desculpas humanitárias, por exemplo: por cada peça que comprares, 10% vai ser utilizado para a luta contra o trabalho infantil no terceiro mundo ou compra um par de sapatos e damos outro par aos africanos (como se os nossos problemas fossem falta de sapatos). Os inspetores ocidentais (esses fulanos que adoram falar de direito humano) visitam as fábricas indonésias, não com o objetivo de melhorar a vida dos funcionários e de criar condições mais saudáveis de trabalho para eles, mas com o objetivo de verificar a qualidade dos produtos e de cortar os custos de produção se for necessário.


Como esta descrição se estendeu muito, vou rapidamente fechar o artigo.

Pilger fala da propaganda ocidental da luta contra o terrorismo para governar pelo medo e legitimar o ataque a outros países para o benefício das multinacionais que realmente controlam o poder no mundo e controlam também os media, através dos quais nos manipulam. 

Pilger ainda fala do Iraque, do saque americano efetuado nesse país, da destruição do país e da forma de vida dos seus habitantes, numa postura aberta de terrorismo em nome de luta contra os terroristas. Começou com o Bush pai a bombardear iraque com bombas de urânio empobrecido, deixando um rasto de mortes e de crianças com cancro ainda hoje (e o seu clímax seria com o Bush filho, continuando o país débil por causa da avidez das petrolíferas ocidentais).

O livro fecha com o que Pilger chama de apartheid australiano, embora o que os media mostram é uma austrália justa para toda a gente.

O MUNDO NAS MÃOS é uma leitura obrigatória.



Se estás com preguiça de ler o livro, bem... tem o documentário aqui (com legenda):


John Pilger - New Rulers of the World

22 de fevereiro de 2017

TENTANDO ENTENDER... A NACIONALIDADE

Nos últimos anos tenho visto imensa discussão sobre a nacionalidade. E não estou a falar daquela simples "nacionalidade política" que podes adquirir legalmente, de acordo com as leis de cada país. Mas daquela “nacionalidade emocional" que muitos teimam em complicar, levando-a para o lado mais... racional(?). Já vou explicar-me melhor.

Para começar é preciso definir o que é um país. Um país define-se por um território criado por barreiras invisíveis e fictícias, por sobre a qual esvoaça uma bandeira (que tendemos a adorar como se fosse um deus, ou algo qualquer), regida aparentemente por leis próprias, e convencem-nos que a nossa vida é menos importante do que ele, e que é uma grande honra se morrermos por ele.

PARTE UM:
Hoje somos guineenses, e apregoamos isso aos quatro ventos como se fosse um feito nosso… mas não é, nós somos guineenses porque os colonialistas portugueses nos criaram. Eles chegaram, dividiram a África entre si, tomaram aquele pedaço de terra e disseram que é a Guiné-hoje-Bissau, e quando nos sacudimos da colonização (pelo menos a formal), nem sequer nos lembramos que do outro lado da estrada, onde agora é Senegal, vivia antes o nosso irmão, primo ou melhor amigo… não, começamos logo a dizer que nós somos guineenses e ele senegalês, portanto diferente, e que nós amamos melhor aquele pedaço de terra do que ele, e ele do seu lado proclama o mesmo. Mas por que devo amar apenas a terra que vai até à estrada? Quando chove ou faz sol, a natureza trata os dois lados da estrada por igual, por que faço eu a diferença? Lutamos contra o colonialismo, mas quando nos vimos “livres”, não apagamos aquelas divisões que ele criou na África, mantivemos essas fronteiras como ele as desenhou.

Foto de Neto Tonecas Betchiguê
PARTE DOIS:
A Guiné-Bissau é um pedaço de terra, chamado país, e só é país porque foi reconhecido internacionalmente por um conjunto de países, mais propriamente pelas Nações Unidas, se não fosse esse reconhecimento dos outros não seria país.

Vejamos por exemplo a Palestina, é reconhecida pela ONU como país, mas não por Israel e aliados de Israel. Ou mesmo, vejamos a Guiné-Bissau de 1973, era guineense na ONU, mas ainda continuava portuguesa para Portugal e amigos de Portugal. Então, pergunto, o que faz realmente um país ou cria uma nacionalidade? Utilizemos como referência a confusão que é o País Basco (é basco?, é espanhol?, é castelhano? é país? ou apenas uma região de um país?).

Posto isto aproveito para dizer àqueles que gostam de proclamar aos quatro ventos, que têm quatro avós guineenses ou algo assim, de que estão bem enganados. Porque a nacionalidade guineense nasceu em 1974, antes, os que viviam nesse território ou eram portugueses ou eram nada, e tornaram-se depois guineenses (politicamente) de nacionalidade adquirida.

PARTE TRÊS?
De qualquer forma, a Guiné-Bissau já é um país estabelecido com fronteiras, leis, bandeira e problemas próprios. E muitos já podem clamar, exclamar, proclamar, declamar, conclamar, aclamar ou reclamar a nacionalidade guineense. 

Mas o que faz alguém ser guineense? O que é um guineense?
  1. Será aquele que nasceu no território da Guiné-Bissau, podendo ter vivido lá o resto da vida ou mudado para outro país?
  2. Será aquele que viveu lá por algum tempo ou durante toda a sua vida, mesmo não tendo lá nascido?
  3. Será aquele que obteve os papéis legais que confirmem a sua nacionalidade?
  4. Será aquele que ama aquele território, não importando se nasceu lá ou não?
  5. Será aquele que nem sequer conhece aquele país, mas só porque um dos pais nasceu lá, ou ambos os pais nasceram, sente-se guineense?
  6. Será a “guineensedade” genética, que pode ser herdada dos pais, ou apenas uma construção social?
  7. É mais guineense o guineense que nasce, vive e trabalha na Guiné-Bissau do que aquele que vive e trabalha fora? (E quando o guineense que vive e trabalha na Guiné-Bissau é um político que só está a prejudicar o país?)

Guerra Civil, 7 de Maio de 1999, Hospital Simão Mendes
Podia fazer ainda mais questões, mas não quero aborrecer a ninguém. No entanto, faço esta observação sobre os que se dizem guineenses de raiz, gema e nata, só pelo fato de terem lá nascido. Eu conheço, por exemplo, uma pessoa que não nasceu na Guiné-Bissau, Teresa Montenegro, mas vive “o” país, e faz trabalhos extraordinários para a Guiné, será ela menos guineense que os tais políticos já referidos?

Não sei o que faz realmente a "nacionalidade", para mim continua a ser apenas uma questão legal e política, mas a forma como as pessoas se relacionam entre si ou com o território que habitam vai para além desses enquadramentos (legais e políticos). Por exemplo, eu nasci em Sonaco, e apesar de existirem muitos mandingas em Sonaco (e a terra ter um nome mandinga), eu sinto-me fula, mas vão dizer-me que não sou, porque não tenho pais fulas ou não sei falar fula, mas muitos que não viveram em comunidades fulas já podem ser fulas só porque um dos bisavôs foi. Faz sentido?

Não devemos esquecer que a nacionalidade é apenas uma questão política, que a terra, ou a Terra, não nos pertence, pois vamos morrer e ela vai ficar por cá, portanto, não devemos deixar que questões políticas ditem o nosso relacionamento, principalmente quando esta estúpida questão de nacionalidade é apenas a chama que ateia o fogaréu de nacionalismos e cria um dos vários problemas com que a sociedade global tem de lidar.

Em lugar de “guineense”, cada um pode colocar a nacionalidade que quiser para fazer a questão... e no caso dos guineenses, pode ainda colocar o grupo étnico.

24 de junho de 2016

BREXIT - ADVENTO DE UMA CRISE OU REVOLUÇÃO EUROPEIA

Não preciso de avisar que este artigo é altamente especulativo.

Com o BREXIT aprovado, começa um efeito dominó que pode e, de certeza vai, ter um fim imprevisível (ou talvez tudo já tivesse sido planeado adequadamente). O imperialismo anglo-americano ganha assim novo fôlego (falta o Donald Trump ganhar no outro extremo para se relançar com renovado alento). A Libra cai, o Euro vai por arrasto, diminui-se o espaço comercial do Euro e a sua influência, o que vai fazer com o Dólar, que tem estado a perder a supremacia, volte a ganhar força e garantir a sua posição de moeda de tráfico internacional. Pontos para os EUA.

Entretanto, no referendo que tinha sido feito em 2014 sobre a saída da Escócia do Reino Unido, houve ameaças da UE de que se Escócia abandonasse o UK (Reino Unido), seria subsequentemente expulso da UE. Eles escolheram a permanência. Sentindo-se traídos agora, e considerando que a maioria votou a permanência na UE, podem agora decidir a sua saída do UK. Conseguindo isso, vão abrir um precedente que favorecerá grandemente a Catalunha e o País Basco. O que acentuará uma tendência de desintegração em toda a europa.

Se este BREXIT vier a revelar-se apenas como um jogo que o UK fez para chantagear a UE em troca de acordos mais favoráveis, será copiado por vários países, o que inevitavelmente levará a desintegração. Aliás, independentemente do que vier a revelar-se, outros países seguirão os passos do UK.

A desintegração da UE não parece ser má de todo, considerando a sua aparência atual.  A UE tem como o núcleo o capital, em vez de pessoas; subverte as vontades dos estados membros, anula a democracia desses países e governa-os com regras económicas só por ela mesma conhecidas. Quem manda na Europa são pessoas que não são votadas (DITADURA DO CAPITAL). E alguém já se esqueceu do que a UE fez à Grécia? Isso precisa mudar, é preciso alterar o núcleo da UE, e talvez este BREXIT leve a isso, a não ser que queiram deixar tudo nas mãos dos EUA novamente. 

Por isso, se se desintegrar a UE para se reconstruir, ou melhor, se se reconstruir para evitar a desintegração, será mais sólida. Mas enquanto continuar a dizer que a França não se pode sancionar por ser a França, mas Portugal é já sancionável, ou que a Grexit só é mau por causa da estratégia militar, mas o BREXIT é catastrófico, com esses dois pesos e duas medidas, continuará sempre a ser um gigante com pés de barro (pois são os povos que fazem os pés, são os povos que sustentam a política, religião, economia e tudo o mais).

O problema, todavia, é que se a UE se desestabilizar não vão ser apenas os EUA a tentarem rapiná-la, mas também a Rússia, que há muito tempo está a tentar alterar as balanças do poder e acabar com a hegemonia económica dos EUA e com a supremacia do FMI, pretendendo criar através dos BRICS, um novo núcleo de poder económico. Não que a UE ou os EUA estejam a dormir quanto a isso, porque operaram para desestabilizar tanto os BRICS como o MERCOSUL, com a Argentina nas mãos de Macri, o problema com que o Maduro tem lidar na Venezuela e o afastamento de Dilma no Brasil, entregando o poder nas mãos de direitistas pró-liberalismo-esclavagista-capitalista.

BRICS
No entanto, sendo a UE uma grande parceira dos EUA na luta contra a estabilidade da influência económica da Rússia, sob a égide do FMI, se se fragmentar a segunda, neste sistema canibal, como os EUA irão atrás dos despojos e a Rússia também, vamos ser levados a uma mais aberta nova Guerra Fria. Mas, se a UE se recuperar através de uma política menos orientada para o capital, e mais inclusiva, provavelmente sairá mais forte do que antes, pois caso contrário, vai receber um novo PLANO MARSHALL do qual vai levar outra centena de anos a tentar se livrar. Sem dizer que a sua aliança com a NATO, que só por si já é forte, solidificar-se-á ainda mais, deixando-a totalmente entregue nas mão dos senhores da Guerra (olá os EUA).


E nesta crise política e mundial que se avizinha, quem vai sair a ganhar é o FMI e o BM, porque são eles que impõem as sanções, pois são quem controlam o dinheiro, e os países, organizados ou não, vão sempre correr atrás de dinheiro, a não ser que a UE crie outra alternativa bancária, dela mesma e não submissa ao FMI, pois se os BRICS o conseguirem primeiro (e espero que consigam), a UE nunca conseguirá reerguer-se, caso vá abaixo, a não ser, talvez, com o poder militar da NATO.

Eu espero que este BREXIT se consolide numa revolução a favor da democracia e dos povos, e não se venha a verificar que é uma mera estratégia para a recuperação imperialista anglo-americana, como um contragolpe ao neo-imperialismo-germânico.

26 de setembro de 2015

VOTO ÚTIL vs GENTE INÚTIL

Não existe o VOTO ÚTIL, apenas GENTE INÚTIL.
Como se não bastasse o apoio eleitoral sistematicamente efetuado pelos médias, com a constante cobertura das campanhas e dos comentaristas que lavam o cérebro do povo, a favor do PS (Costa) e PSD (Coelho), ainda têm agora a cantiga do VOTO ÚTIL para confundir os preguiçosos, os que não querem pensar e gostam de tudo mastigado.

VOTO ÚTIL não se trata de votos não nulos ou não abstentos, não, trata-se de votar no candidato com a maior probabilidade de ganhar, independentemente se o votante concorda com ele ou não. As sondagens dizem que ou é o Coelho ou é o Costa e que os demais partidos são irrelevantes, portanto, está todo o mundo mediático a apelar ao VOTO ÚTIL.

O que acontece é que milhares de pessoas não votam nos partidos que desejam, enganados pelo voto útil, acabando por fazer com que o partido com o qual simpatizam não tenha muita relevância política no parlamento, asfixiando desta forma o crescimento dos mesmos.

As pessoas, por exemplo, têm medo de austeridade e vão votar no Costa para o Coelho não ganhar, e os que desconfiam do Costa, vão votar no Coelho para o Costa não dar à costa.

Não há VOTO ÚTIL, há GENTE INÚTIL. Uma pessoa inútil é aquela que não consegue agir de acordo com o seu pensamento e só faz o que os outros lhe dizem. Ponderem, votem no partido que vos agrade, não caiam na balela do voto útil, porque só serve para eternizar o ciclo vicioso, sufocando os outros partidos que oferecem outras alternativas.

E basta de estupidez. Acredito que qualquer pessoa que apanhe sempre diarreia ao comer num restaurante muda para outro para evitar essa maleita. Então por que razão depois de muitos anos de diarreia a comer nos dois mesmos restaurantes não querem experimentar os outros? Será que acham que vão acabar por ficar resistentes às más comidas e não mais ser incomodados?

Os que querem votar no PSD, votem no PSD, o que querem votar no PS, votem no PS, os que querem votar nos restantes, votem neles, mas não votem pelo VOTO ÚTIL.

Como já disse, não existe o VOTO ÚTIL, mas PESSOAS INÚTEIS.

10 de julho de 2015

O PESO DAS DÍVIDAS NO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO

O peso da imposição das dívidas da TROIKA, ou Instituições, como agora se chama, é terrível para os povos e para a soberania das nações. Entretanto, não haja dúvidas que o mundo todo salta hoje conforme o FMI puxa os cordelinhos.

Sócrates, não o filósofo, disse uma vez que aprendeu que “pagar a dívida é ideia de criança” e foi ridicularizado, porque não falou conforme manda a cartilha, mas a verdade é que a dívida nunca é paga. 

Um país contrai uma divida de, digamos, 20 €, para pagar em 2 anos, no final do primeiro ano, poderá ter pago 15 €, entretanto os juros nesse período, condicionados pelo aumento de capital, que não devem ficar obsoletos, e por inflações, deflações e toda a sorte de ações que só favorecem aos credores, já ascenderam o valor total para 30 €, e por causa dos prazos apertados, o país, para cumprir o acordo, faz novas dívidas para pagar a anterior, aumentando o tempo da pena e o valor do mesmo. Ao fim de 4 anos, já terá pago o dobro da dívida inicial, continuando no entanto a dever ainda mais aos credores. 

Numa perspectiva de emagrecimento, a dívida de um país passa por esta definição: é o único peso que quanto mais o perdes mais gordo e mais pesado ficas.

No caso europeu, para pagar ao FMI, pede-se dinheiro ao BCE, e depois para pagar ao BCE vai-se ao FMI, ou ao próprio BCE, e fica-se num ciclo vicioso eterno, onde o que só aumenta é a mesma dívida.

Fazer um país vergar-se perante uma dívida da qual a sua população não beneficiou pode levar a ruturas ou revoltas sociais, porém os bancos não se importam com isso, porque venha quem vier, esteja quem estiver no poder, precisará sempre de dinheiro, portanto quem controla o dinheiro controla tudo, portanto, até se arranjar uma alternativa ao dinheiro, ou um sistema paralelo, nada do que se fizer ou revoltas e revoltas serão feitas, o resultado será sempre o mesmo, substituição das classes dualistas: dominada e dominadora, por outra nova classe, mantendo o dualismo.

Há uma frase atribuída a Rothschild: Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importa quem faz as suas leis. Esta é a verdade pura e dura. E neste momento em que as nações são controladas pelos bancos, ao ponto de um primeiro-ministro, Passos Coelho, dizer que foi sensato em simplesmente fazer como os bancos disseram em vez de tentar negociar, mostra o quanto os bancos mandam neste país e como nós somos simples mercadorias. Negociar pelo bem do povo seria trabalhar para o povo, não negociar é trabalhar para os bancos a fingir que o faz pelo povo, simples como isso.

No entanto, tudo o que possa aqui dizer, por mais sensato que seja, não se terá em tanta conta como o que um capitalista dirá, porque o capital controla o mundo, controla o pensamento, controla as universidades, escreve as cartilhas e dita as regras, pessoa alguma que se atreva a fazer ou pensar diferente é abertamente ridicularizada, mesmo nos meios científicos onde o pensamento devia ser mais livre.

Por essa razão, vou transcrever aqui um texto de Keynes, considerando a autoridade científica e económica que lhe é conferido. (Keynes, John Maynard, As Consequências Económicas da Paz).

Pode ser exagero dizer que é impossível aos aliados europeus pagar o capital e os juros que devem em relação a estas dívidas, mas obrigá-los a fazê-lo seria certamente impor um peso esmagador. Pode esperar-se, portanto que eles façam constantes tentativas para se evadirem ou escaparem ao pagamento, e estas tentativas serão uma fonte constante de fricção internacional ou de má vontade durante muitos anos vindouros.
Haverá um grande incentivo para procurar amigos noutras direções, e qualquer rutura futura de relações pacíficas carregará sempre a enorme vantagem de escapar aos pagamentos das dívidas externas. Se, por outro lado, estas grandes dívidas forem perdoadas, será dado um estímulo à solidariedade e verdadeira amizade entre nações recentemente associadas. A existência de grandes dívidas de guerra é uma ameaça à estabilidade financeira em todo o mundo.
Nunca mais nos conseguiremos mexer outra vez, a não ser que livremos os nossos braços e pernas do peso destes papéis. Uma fogueira é uma necessidade tão grande que, a menos que conseguimos fazer dela um assunto ordenado e temperado com boa vontade em que não seja feita nenhuma séria injustiça a ninguém, ela crescerá, quando finalmente vier, para uma conflagração que pode destruir tanto.


Não estamos em guerra, pelo menos não abertamente, mas este texto mostra claramente que a dívida não leva a desenvolvimento nenhum como constantemente nos tentam fazer crer os principais médias. Não podemos fazer muita coisa, porque só votamos, e quando fazemos marchas e greves só servem para a diversão pública e para preencher as grelhas da programação televisiva, porque isso não assusta os políticos, as únicas coisas de que eles têm medo são: as forças armadas e os bancos. 

E para fechar este artigo faço um gesto de pesar em memória de uma desilusão chamada Syriza, este atirar da toalha ao chão de Syriza (ou pelo menos do seu dirigente) vai desestabilizar todas as possibilidades que os partidos de esquerda tinham na Europa de ganhar e mudar qualquer coisa (e transformar um rotundo e volumoso NÃO num SIM ao quadrado é uma traição dos piores tipos). Já vimos quem manda: Os Bancos. E ou reconheçamos os nossos deuses ou finjamos que não existem, mas que eles vão estar sempre lá, vão.

13 de junho de 2015

PESSOAS VS. MERCADOS

Não é incomum ouvir os políticos dizerem: Isto não é bom para os mercados. No entanto, raro é ouvi-los dizer (e alguns nunca o disseram na sua vida política): Isto não é bom para o povo.

E isso por quê? Resposta simples: qualquer político que fale qualquer coisa sobre beneficiar o povo é chamado logo de populista, o que é bastante mau, porque ser chamado de populista é o pior insulto para a classe política.  Vá-se lá entender a razão, pois quando um político fala em nome da democracia (poder do povo), ele chora geme, rasga as vestes e bate no peito, em altos brados e grandes prantos de que está a trabalhar para o povo, pelo povo e com o povo… Porém, não quer ser chamado de populista. Claro que não, visto que isso não é bom para os mercados.

Quando, no entanto, um político fala de mercados, as pessoas menos atentas pensam nos mercados que frequentam no seu dia-a-dia, algumas até julgam que não ser bom para o mercado significa que vai faltar pão, leite ou papel higiênico nos supermercados, e isso assusta-as.  Todavia, o mercado de que os políticos falam é o mercado de ações, o mercado financeiro gerido e controlado por uma elite capitalista de semideuses, onde se divertem a controlar os governos soberanos (ou que se dizem soberanos, mas não o são de verdade). Nesses mercados o povo não entra, nem tem palavra. São os mercados onde a mercadoria é o próprio dinheiro, mercados onde usam o dinheiro para fazer dinheiro, um mercado que parece mais um casino, chamam-no de bolsa de valores, sede em Wall Street, onde os semideuses (ou super-ricos) divertem-se a apostar sobre a estabilidade dos países e das empresas menores para fazerem mais dinheiro ou perderem algum, e aliás até chamam isso de jogar na bolsa - e é mesmo um jogo. E como se sabe, nos casinos a banca ganha sempre, nesses mercados não é diferente, a banca ganha sempre, ou os bancos, para usar um termo mais familiar. Quando os políticos dizem os mercados, eles falam dos bancos, que são os seus gestores.

Os bancos importam, as pessoas não. Vejamos o caso da Grécia: não vão deixar a Grécia servir o seu povo, porque os mercados interessam mais do que o povo grego (e todos os demais), e os média, ao serviço dos seus senhores, aterrorizam as pessoas com presságios macabros e apocalípticos, fazendo-lhes acreditar que a existência dos bancos e da ligação aos principais bancos do mundo (FMI e Banco Mundial) é fundamental para a sua sobrevivência. Vergadas por este terrorismo governamental e institucional as pessoas acabam por voltar-se contra aqueles que as querem beneficiar. O povo grego tem medo de sair da União Europeia ou do Euro Grupo, e esse medo vai acabar por levar-lhe a voltar-se contra o seu governo atual, que tem a infelicidade de ser populista. Os média ocidentais estão a trabalhar para isso. Quando entrevistam os gregos na televisão, os entrevistados acham sempre que o governo deve ceder perante os bancos, porque mostra o bom senso, nunca entrevistam ninguém que pareça entender e explique a manipulação que os bancos estão a fazer sobre os povos, tanto o grego, como europeus e mundiais.

Se o governo grego atual insistir na sua posição até ao ponto de rotura, ou voltar-se para economias como a China ou a Rússia, o cenário mais plausível vai ser uma guerra civil na Grécia. Quem se lembrar do risco da guerra civil que o Verão Quente teve em Portugal decerto sabe que esses capitalistas e os grandes bancos não se importam com os povos e ganham sempre, quer em clima de paz ou de guerra num país. E eles têm este lema: se não podes viver infeliz connosco, não viverás feliz com mais ninguém. Fizeram isso na Indonésia, fizeram em Cuba, fizeram isso até na Rússia Comunista, estão a fazê-lo na Ucrânia… e em muitos outros países do mundo.

As pessoas não importam, os bancos sim. É o lema do governo atual. Estão a vender tudo, a privatizar o país. Até os espaços públicos agora são privados, para andar de carro temos de pagar o imposto de circulação, que é canalizado para empresas privadas que fazem a manutenção das estradas, estradas essas que foram construídas com nossos impostos, e em alguns casos pagamos ainda portagens sobre estadas que construímos e para as quais pagamos a manutenção. Para estacionar na rua tens de pagar a uma empresa qualquer, principalmente nos grandes centros urbanos. Para ter um painel solar em casa tens de pagar não só pelo painel com uma taxa para ter o direito de obter a luz do sol. Não tomas banho e bem bebes água em casa sem pagar por ela (o problema não é pagar pela manutenção da infraestrutura, mas pagar para que os privados tenham dinheiro para irem brincar no casino que chamam de bolsa).

A TAP acabou de ser vendida, porque dava prejuízo ao estado, disseram. Agora que foi vendido vai passar a dar lucro ao estado? Não. Não vai, e não ouvi ninguém a falar disso. O que ouvi foi que era necessário vender a TAP pelo bem da própria TAP, não pelo bem do povo. Temos uma classe política que pensa mais nos mercados do que nas pessoas e continuamos a fazer pouco dos políticos que assumem uma postura populista.

Não vai ser fácil para nenhum partido político ser populista, quando esse partido que ser parabenizado pelos bancos donos da União Europeia como bom aluno e cumpridor, porque a União Europeia não defende o povo, mas interesses privados, aliás é só voltar para sua a origem para verificar isso. A União Europeia sempre foi uma organização privada para interesses privados, ela nasceu como Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, união de empresas específicas, depois mascarou-se em união de países europeus. Agora a União Europeia encontra-se na mão de dois bancos principais e a sua comissão, a TROIKA, que já não gosta deste nome, bancos privados para interesses privados.


Como já pressagiou alguém: vai ser privatizado o país inteiro, até chegar a um ponto onde as pessoas já não aguentem mais serem preteridas, vai acontecer um novo 25 de Abril, onde tudo vai ser nacionalizado de novo, para logo a seguir começar a caminhada das privatizações (mas para isso precisaríamos das Forças Armadas, o único grupo que os politicos temem mais do que os bancos). Afinal se há alguma coisa em que o povo seja mestre é em ter memória curta e preguiça para pensar por si.

1 de novembro de 2014

TENTANDO ENTENDER... A DITADURA


Há uma diferenciação bem simples e explicativa entre os regimes ditatoriais e os regimes democráticos: a separação dos poderes

O estado moderno (e dito democrático) é gerido por três poderes: legislativo, executivo e judiciário. Os três são independentes uns dos outros e controlam-se (ou deviam controlar-se) para não haver corrupção e abuso de poder. Quando esses três poderes funcionam saudavelmente o regime chama-se democrático. E quando não, chama-se ditadura. 

Porém, há ainda outro elemento diferenciador que é a vontade dos governados. Quando é o povo a escolher o governante, dizem que é democracia (poder do povo, entenda-se), quando o governante impõe-se sem consultar o povo é ditadura.

Como disse, a explicação é bem simples e expõe bastante bem as diferenças… ou melhor, podia expor, se na verdade não vivêssemos num mundo extremamente baralhado e sem balizamentos claros.

Há estados modernos ocidentais que se dizem democráticos, mas que são REINOS (ditadura por nascença). A Espanha, o Reino Unido, a Holanda, entre outros, que são monárquicos, têm grupos de pessoas que não precisam de fazer nada senão nascer na família certa para serem consideradas importantes e terem o resto do povo a trabalhar para eles. E influenciam bastante os poderes no estado e são politicamente ativos, sem, no entanto, terem de se preocupar com as mudanças das ideologias políticas, esquerdas e direitas vêm e vão, e eles lá permanecem. Mas não foram votados pela população, ganharam o seu poder há muito tempo e conservaram-no pelas intrigas e força das armas, e hoje, quando confrontados com as mudanças, eles (e os seus adeptos) advogam que tem de se respeitar a tradição, e continuam ali, no pódio… ditatorialmente.


Há ainda estados, defensores da democracia, os EUA e todo o Ocidente rico, que de quatro a quatro anos vão trocando as pessoas que estão no poder, mas que mantém o círculo de poder e de influência, e que mesmo através de uma análise superficial percebe-se que só usam a democracia para trasvestir a… aristocracia?… oligarquia?... capitalocracia.

Esses estados têm os três poderes acima citados, separados uns dos outros, mas eles não são independentes como devia ser. Por exemplo, num caso recente nos EUA, a tal medida chamada OBAMACARE, foi considerada anticonstitucional por um grupo de tribunais de uns estados americanos ao mesmo tempo que foi considerado constitucional por outro grupo. A diferença na avaliação estava no facto de os juízes que o fizeram serem ou democratas ou republicanos, cada um puxando a sardinha para a sua brasa. Consultou-se o povo? Não, o povo é um burro que só é consultado para escolher quem o vai montar. A democracia moderna está desenhada para servir o capital.

No Brasil, recentemente houve eleições, três partidos eram fortes: PT, PSDB, PSB. O PT durante todo o seu mandato esteve envolvido em corrupção, embora dissesse possuir uma política orientada para o povo; o PSDB foi o corrupto antes do PT, e oferecia um governo de estado mínimo todo a favor do capital; o PSB perdia-se ali no meio de um de outro, aparecendo com algo novo e não experimentado. O PSB foi massacrado pela campanha agressiva que os outros dois desenvolveram contra ele. Por quê perdeu?, porque provavelmente não tem ligação com as grandes empresas, que controlam o dinheiro como os dois outros partidos.

Em suma, os partidos vencedores das eleições democráticas são aqueles que investem uma soma milionária na campanha para chegarem ao poder, e que para isso precisarão de investimento dos que na verdade controlam o dinheiro. E como se sabe que uma empresa não investe sem lucro em vista, mesmo quando diz que o faz filantropicamente, é sabido que a seguir vão cobrar ao governo que ajudaram a eleger e será o povo a pagar.
O povo é que escolhe, sim, é claro. Mas quais são as hipóteses que tem para escolher? Na maior parte do mundo acabam por ser só duas as escolhas: democratas ou republicanos nos EUA, Trabalhista ou Conservador no UK, PT ou PSDB no Brasil, PS ou PSD em Portugal. Claro que existem muitos outros partidos em todos esses países, mas não são relevantes. George Carlin dizia algo assim: quando tens de escolher uma coisa séria como quem governa, só te dão duas hipóteses, mas vai ao supermercado e para tudo tens centenas de escolhas.

Como se sabe, pode existir a democracia sem partidos políticos (embora o Ocidente chame a qualquer país com regime desse tipo de ditatorial - mas vejamos o exemplo dos fundadores da democracia), e pode haver eleições com patidos políticos que são puras representações de ditaduras. Por exemplo, conhecem algum deputado independente em Portugal? Quem são os que se podem candidatar-se a deputados senão os que são nomeados pelos partidos? O povo alguma vez indicou alguém para o representar ou apenas escolhe da ementa que lhe é apresentado?

Partidos pobres e sem influências, por melhores ideias que tenham para o povo, não têm chance nenhuma de vencer as eleições, e o mais estranho é que são crucificados pelo próprio povo. Isso acontece principalmente porque as eleições estão desenhadas para serem vencidas por quem tem dinheiro. E como tudo o que é bom para o povo vai contra o capital e vice-versa, percebe-se quem realmente tem o poder. 

O povo não é mais que um joguete. Votamos em quem aparece mais na televisão e em quem os nossos patrões dizem para votarmos, principalmente porque somos egoístas. Voto no partido do meu patrão, porque se ele perder as suas influências eu poderei perder o meu emprego. Voto no partido do meu patrão, porque se contradizer as suas opiniões perderei o meu emprego, e como o ouço todas as vezes sem contrariar e criticar, acabo por simplesmente fazer minhas as suas opiniões.

Tal e qual na missa só levamos com a opinião do padre, sem poder responder, e acabamos evangelizados, com a televisão acontece o mesmo. Quem tem dinheiro para comprar mais tempo de antena, ganha as eleições. Mas isso é durante as campanhas oficiais, e a campanha não se faz apenas nesse período. Passamos quatro anos a ouvir baterias de comentadores na televisão a lavarem-nos o cérebro, e são sempre dos mesmos (agora estou em Portugal), ou são do PS ou do PSD, e para cada comentador de um partido da esquerda, temos quase uma dezena destes dois partidos. Porquê? Por capitalocracia.

Meses atrás estava em debate se a Guiné Equatorial (GE) podia ou devia entrar na CPLP. (Antes de prosseguir, tenho de avisar: não pretendo fazer de advogado do diabo e nem quero enaltecer qualquer tipo de ditadura, o que estou a fazer com este artigo é entender a ditadura.) Os argumentos contra eram que 1) o Presidente da GE é ditador e que está no poder há mais de não-sei-quantos anos e que 2) é nepotista e beneficia os seus filhos e que 3) o país é a favor da pena de morte.

Bem, ponto um: o presidente angolano está no poder há muito tempo, é nepotista, e a sua filha já é dona de boa parte de Portugal, possuindo já poder para influenciar, inclusive, as eleições aqui… e Angola está na CPLP. Ponto dois: O filho de Durão Barroso acaba de ser nomeado para Banco de Portugal sem um concurso público (tal e qual os filhos de muitos outros políticos e poderosos que obtém cadeiras importantes sem precisar de suar, só, porque, como já tinha dito, nasceram na família certa ­ - faço, no entanto, a mesma ressalva que aqui, quando me referi à filha de Clinton). Ponto três: há pena de morte nos EUA, mas nenhum país usaria esse facto para negar uma cooperação com eles.

Falando agora da separação de poder, no caso português, vemos que praticamente não existe. Os casos escandalosos de corrupção que afetam a política e povo nunca são julgados e os julgamentos dão em nada. O caso BPN, por exemplo, e agora o BES, dão em nada, porque na verdade o capital entrelaça e manipula todos os três poderes. Os prevaricadores, nestes casos referidos, continuam com as suas benesses e os seus bens, e o povo vai pagar pelo abuso de poder que fizeram, porque os três poderes que deviam proteger o povo afinal são servis aos primeiros. 

O Caso da Citius, por exemplo, mostra claramente um problema da gestão do poder judicial, afinal é o governo ou os tribunais que deve gerir essa parte da questão?

Outro exemplo, é deste Governo de PSD que apesar de atropelar várias vezes e deliberadamente a constituição não é chamada para o tribunal sob acusação de crime. No meu entendimento a constituição é um documento legal e portanto uma transgressão a um documento legal é passível de julgamento. Por que não se julga o governo? Será que é porque mesmo os constitucionalistas do TC são membros de um dos partidos mais poderosos e trabalham também para o capital. Ainda ontem ouvi o Marinho e Pinto a dizer que há escritórios de advogados (privados) com sócios que são do governo e que recebem milhões em honorários mensais pagos com o dinheiro público; e ainda disse que os advogados agora ajudam os governos e as empresas a fazerem trafulhices explorando as brechas legais. Eis a justiça no seu melhor.

Quando os poderes legislativo e judicial são dominados pelo partido que está no executivo, o que se pode esperar que não seja ditadura? Esta coligação que agora governa só leva as leis para aprovar no parlamento por praxe, porque sabe que as vai aprovar. E as leis que tem sido aprovadas beneficiam em quê o povo? E o que vai acontecer daqui a um ano? Essas leis serão anuladas? Não haverá simplesmente uma troca de cadeiras? E essas cadeiras estão no lombo de quem? Do povo, é claro.

Na ditadura africana as pessoas chegam ao poder com a força das armas e, na maior parte, só de lá saem da mesma forma. Os três poderes (legislativo, executivo e judicial) continuam a existir, pois há nomeados, mas funcionam tão bem quanto na ditadura ocidental, ou seja, só servem a quem está no poder. Mas, se na ditadura africana quem está no poder é quem manda (sabemos quem é), na ocidental, quem está no poder está lá a mando de uns poderosos capitalistas (não sabemos quem são). Essa é a grande força do capitalismo, dissimulação (lê aqui).

Como disse, não estou a lavar a ditadura africana. Estou apenas a comparar as situações. 

A ditadura ocidental, sem falar do capital, centrando-se apenas na política, é mais discreta, mas não deixa de ser ditadura. A vontade pelo poder, o egotismo e o egoísmo dos governantes é o mesmo. Se alguns ditadores do terceiro mundo não têm tempo e nem paciência para chegar ao poder pela manipulação e enriquecer à custa do povo, com o apoio do próprio burro… desculpa, povo… os ditadores do ocidente fazem-no. De Abril de 1974 para cá vão 40 anos, e em 40 anos ainda Mário Soares tem o poder de puxar cordelinhos, embora não esteja ali à frente. E por Mário Soares lê-se Cavacos, Sampaios, Barrosos, entre outros tantos. Ou mesmo vamos ver o caso de Juncker, que foi governante de Luxemburgo por quase 20 anos (sem falar que mandou no dinheiro durante um década - perfazendo quase 30 anos de grande poder) e que agora está a governar a Europa por mais 10 anos. Não será isto ditadura?

O que torna a ditadura política ocidental mais assustadora que a ditadura do terceiro mundo, é que lá pelo menos sabe-se que é uma pessoa apenas a controlar aquilo, e aqui são um grupo de indivíduos que criaram um círculo, no qual se movimenta e do qual não vai sair e que se mantém no poder por muito tempo, criando filhos e sobrinhos políticos e bem distribuídos na esfera do poder para continuarem com o seu legado, uma espécie de monarquia dissimulada (vejamos apenas o caso dos Bush ou da família Clinton).

Vá lá, digam-me lá se isto não é ditadura.


Para deixar claro, sou contra a ditadura, de qualquer tipo e não me perguntem qual é a ditadura preferível, porque é como me perguntarem se prefiro ter SIDA ou CANCRO. Não me peçam para escolher entre a ditadura africana ou ocidental, principalmente porque esta última estende a sua asa e incentiva, abençoa e protege a africana, enquanto os seus interesses vigorarem.

Não falei da ditadura comunista (a histórica da URSS), porque essa todos já conhecem, mas não é diferente da ditadura capitalista, na medida em que tem por finalidade acumular benesses e privilégios a custa do povo. Como disse Orwell: Todos são iguais, mas alguns são mais iguaisAté agora, o que consegui com este exercício de pensamento é achar que todo o regime é ditatorial.