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23 de junho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - parte finalle


THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Adão já está a passar das marcas. Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
 Como soubeste que estavas nu? - perguntou Deus. - Por acaso comeste a fruta proibida?
– Como soubeste então que estavas nu?
 Merda! Não sou cego.
No entanto, fez-se uma luz no cérebro dele, e Deus lembrou-se dos códices, afinal não precisava expulsá-los, sempre havia uma chance.




NOW


A nova no paraíso espalhava-se com uma rapidez que fazia um relâmpago morrer de vergonha. Deus nem acabou mesmo de pensar no códice quando o seu telemóvel tocou. Ele não queria atender, diante das circunstância, mas talvez porque precisasse de ganhar tempo para pensar, ou porque esperava que eu talvez O aconselhasse, achou melhor fazê-lo. Pediu licença e afastou-se do grupo.
- Eloim! Que história é essa dos códices?
- Quais códices? Ah, sim! Os códices sou eu que os faço; era para ser uma desculpa. Decidi remodelar os homens.
- Mas sabes que se remodela-los já não serão as mesmas pessoas, já não se lembrarão de nada, e provavelmente poderão fazer o mesmo erro?
- Poderão se eu deixar a Árvore Morta no mesmo sítio…
- Mas tu não podes destruir a criação…
- Por isso é que vou fazer novos códices.
- Eloim, não podes voltar atrás com a tua palavra. Se fizeres isso, os teus anjos irão perder respeito por ti, acredita em mim. O que podes fazer agora é criar um plano de contenção de maneira a que possas recuperar os homens para o Paraíso…
- Não posso simplesmente expulsá-los, Lúcifer, não estás a ver?
- Mas remodelá-los é o mesmo que destrui-los, porque matarás as suas experiências, já te disse...
- Mas expulsá-los é abandoná-los, e isso não é uma atitude ética. Que tipo de pai eu seria?
- O tipo de pai que não mata e é obrigado a tomar decisões que beneficiem o filho.
- Não, Lúcifer, não. Vou remodelá-los. Expulsá-los é demasiado cruel, eles não estão preparados para se autogovernarem. Vê o estado em que Adão tem o Paraíso, com todas a regalias e facilidades que ponho a seu dispor, imagina o que faria se não tivesse tudo isto.
- Ele aprenderia, Eloim – eu estava desesperado, quase a chorar, precisava que o Eloim não destruísse Adão e Eva -, ele só está assim como está porque nunca lutou para alcançar nada, teve tudo de bandeja. Se tiver que trabalhar para si mesmo, desenvolverá os seus talentos, tu subestimas o potencial dessas duas criaturas.
- Esquece, Lúcifer – Eloim também estava quase em lágrimas, a sua voz tremia de comoção. – Não poderei ficar parado a ver Adão em dificuldades de o expulsar daqui.
- Mas, El, então por que raio puseste as frutas nas árvores?
- Porque tu assim mo aconselhaste… porque eu estava entediado… eu nunca quis expulsar os homens, esperava que Adão fosse mais forte… Sabes, eu queria expulsa-lo mesmo e criar novos homens… Ah, Lúcifer, não sei mesmo… Realmente não sei… - Deus estava a chorar. Ele ama os seus filhos.
- Vamos fazer uma coisa, Eloim. O plano da expulsão foi meu, portanto, podes culpar-me de tudo, mas não destrua Adão e Eva. Expulse-os, culpando-me, e assim, nada te inibirá, ética ou legalmente, de prestar-lhes socorro posteriormente. E, como eu tinha dito, faz um plano de contenção que te permita recuperá-los. Eu prometo ajudá-los também como puder, enquanto eles estiverem fora.



O instante em que Deus deixou a multidão para ir falar comigo e o instante em que voltou estava separado por uns poucos segundos, mas na verdade, demorou muito mais tempo, porque ele teve que traçar todo um plano para recuperar Adão e Eva. Deus tinha esse truque de congelar o tempo e usava-o sempre que precisasse.
- Cavem daqui – gritou Deus, todo vermelho, para Adão e Eva. Tocou a campainha, vieram anjos. – Ponham-me estes dois fora deste sítio – ordenou. Virou-se para Adão: – Não sabes o que fizeste. Eras o chefe disto – abriu os braços indicando o Paraíso –, todos os animais estavam sob a tua alçada. Provocaste a tua expulsão, tens de levá-los contigo...
Enquanto Deus ainda falava, os animais vinham para reclamar. A nova no Paraíso, como eu disse, viajava rápida.
Na dianteira dos animais estava a serpente.
- Que significa isto, pai?
- Cala-te, serpente – ordenou Deus.
- Vamos pagar pelo erro dos homens? Foram eles que comeram a fruta e nós também vamos ser expulsos?
- Eu disse: cala-te, serpente.
A serpente não se calou e os outros animais juntaram a sua voz à dela numa berraria infernal. Cada um reclamava. Não está certo que alguém pague pelo pecado que não cometeu. Onde está a justiça? Adão tinha sempre mais do que todos, abusava em tudo e de todos, fazia o que queria e eles tinham que se resignar, e agora que ele fez merda, por que razão deviam ser eles a comê-la. Adão que comesse sozinho a sua merda.
- Isto não é justo. Não pode ser. É injusto – berravam os animais.
- Estão surdos, não? – gritou Deus. – Disse-vos para calar e não me querem ouvir. Está bem. A partir de agora, como querem fazer-se de surdos, passarão a ser mudos, nunca mais falarão. E tu, serpente resmungona, serás a eterna amiga dos homens, morder-lhe-ás os calcanhares e eles pisar-te-ão a cabeça; e dissecar-te-ão para estudar nos laboratórios, e usarão o teu veneno para fazer antídotos e alguns ate irão comer-te e fazer sapatos com a tua pele. Hás-de ver.
Todos os animais a partir de então emudeceram... bom, não era bem emudecer. Desaprenderam a fala. Abriam a boca, mas apenas sons estranhos saíam dela.
- Pai – apelou Adão, avisado –, não nos ponhas no mesmo mundo com estes brutos. Eles nos odiarão por sermos a culpa da sua expulsão e perda da fala.
- Não te odiarão – disse-lhe Deus –, terão medo de ti. E não exageres na comiseração, da sua expulsão és a razão, mas da perda da fala são eles os culpados.
- Pai, desculpa-nos – suplicou Eva, com lágrimas nos olhos, sacudindo o silêncio de si. Sentindo-se não atendida, acrescentou: – Desculpa, pelo menos, a Adão e a estes animais inocentes, até mesmo a serpente.
- Cala-te, Eva – gritou Adão. – Não vês que é isso que Ele quer, que nos lamentemos e prostremos diante d’Ele como se fosse o centro do mundo?
– Se fosse só por ti... – ameaçou Deus, apontando o dedo a Adão. Virou-se para Eva, tocado pela sensibilidade dela: – Um dia, hoje te prometo, uma mulher vai dar a luz ao vosso passaporte para cá.
- Mas sou a única mulher – admirou-se Eva, com medo de que Adão se transviasse por outra.
Deus sacudiu a cabeça, era difícil explicar a Eva o que queria dizer.
- Fica assim como está. Não tentes sondar os meus mistérios.
Então uma luz forte incidiu verticalmente sobre Adão e Eva, e lentamente o céu começou a abrir, revelando-se uma cúpula. A luz incidente era confusa, não havia certeza se a vinha de cima ou de baixo, porque não fazia sombra. Eis que de repente um espelho surgiu lá de cima, volteando no ar, e no instante seguinte, todos os animais foram arrebatados por ele, aparecendo à frente Adão, Eva e Serpente, a bater na superfície interior dele, a gritar:
- Forquinhas! Forquinhas!

E assim Adão e Eva perderam assim o Paraíso, tendo Deus os mandado para a zona fantasma, quer dizer, Terra. Entretanto, tirando o próprio Deus, Os únicos no Paraíso que ficaram com pena deles foram os que mais Adão chateou, os anjos da DIABO e da SATANAS. Como reclamação, eles abandonaram o Paraíso e vieram se juntar a mim, no Inferno. Não concordaram com a decisão de Deus.




Anos depois, após muito trabalho para construir o novo Paraíso, Adão perguntou a Eva, lembrando-lhe o assunto há muito tempo hibernado. Não falavam disso para não chamar a nostalgia dos tempos passados, quando tinham rádio, televisão, Internet, luz e água canalizada.
- Por que mesmo comeste a fruta, querida?
- Foi a serpente que me enganou, disse que era a fruta do poder.
- Poder? – Adão riu-se, sem graça. – O único poder que ganhámos com isso foi que somos nós a garantirmos agora a nossa sobrevivência e a mandarmos em nós mesmos.
Eva calou-se, não gostou nada de levar com a culpa de tudo. Afinal de contas, Adão comeu a fruta da sua livre vontade, não podia e nem devia atirar as culpas nela e dizer: foi a mulher que me deste. Eva sempre se lembrou disso, nunca o conseguiu esquecer, mas... pronto! Adão que falasse dela o que quisesse, por conseguinte, faria dele o que quisesse.
– Mas como queres que eu soubesse, Adão? A serpente me disse que eu aprenderia a conhecer o belo e o feio, que teria pessoas que tentariam se medir comigo, como tentam medir-se com Deus... e acima de tudo, que ias amar-me.
O Amor, oh!, o amor.


- Que eu ia te amar? – repetiu Adão. – E não é que não amei... Mas, merda! Querida, fizeste isto tudo para seres a número um?
- Não, fi-lo pelo teu amor – respondeu Eva, chateada.
Adão, de repente, começou a berrar, despejando sobre Eva os nervos há anos contidos. Berrou tanto que começou a perder a voz. Eva não pôde suportar e começou a chorar.
- Fiz tudo por ti e é com isso que me pagas.
Eva chorava e gritava, puxando os cabelos e rolando no chão pedregoso, provocando nódoas no próprio corpo. Adão ficou assustado, e pensou que ela estava a enlouquecer.
- Eva! Querida...
- NÃO! NÃO QUERO SABER DE NADA. VAI-TE EMBORA.
- Querida!
- Vai – voltou ela a gritar. Não quero mais te ver.
- Eva, calma! – conseguiu Adão finalmente dizer. Agarrou-a pelos ombros, sacudiu-a para fazer passar aquela onda de histeria que lhe circulava nos neurónios. – Está bem, aceito – disse, pondo-lhe o indicador sobre os lábios, pedindo atenção. – Acredito que tudo o que fizeste foi por me amares, sei que não sabias que isto ia dar para o torto. – Depois de ver que estava a ser ouvido, explicou: - A minha gritaria não era para ti dirigida, acabei de perceber uma coisa: a nossa expulsão foi coisa planeada. Se calhar estávamos a minar o Paraíso.



Eva franziu o sobrolho, muito admirada. Nunca pensara nisso, e não conseguia acreditar no que disse Adão. Se todos os anjos gostavam dela, como podia ela estar a minar o Paraíso? Não perguntou nada, porque Adão explicou o porquê do que disse:
- Disseste que fora a serpente a autora daquele texto que me mostraste daquela vez. Aquilo não podia ser uma coisa vinda dela própria; mesmo eu tive que ir ao dicionário e invocar Cristo para que me ajudasse a compreender o que queriam dizer as palavras dela. Tudo aquilo fora-lhe ensinado, ela não possuía cérebro suficiente para imaginar tantas coisas e conhecer toda aquela filosofia. Só não sei quem a mandou dizer-te aquilo... mas desconfio que tenha sido o pai; pois, quando os animais foram reclamar, a serpente era a porta-voz, toda convencida de importância, e estava também ali esquecendo-se que fora ela mesma que te enganou... e ainda estava a deitar-te as culpas. Talvez seja mesmo o pai que a mandou, visto que lhe tirou a fala para não ser acusado.
Isto foi o que Adão pensou e disse. No entanto, Eva não acreditou nele, porque não conseguia ver nenhum motivo para que o pai os quisesse expulsar do Paraíso. Defendeu o pai, contando a Adão o que nunca lhe tinha dito, que a serpente usava Internet e era por esse meio que falavam, quando ele as proibiu de se encontrarem, e que talvez ela tivesse lido tudo aquilo lá. Adão não ficou convencido, mas deram o assunto por terminado, principalmente porque acusou Eva de desobediência e ela o acusou de tirania, reclamando a liberdade. Nunca mais voltaram a tocar nele.
Adão e Eva viviam entre dificuldades, mas desenrascavam-se bem no viver. Que valia o Paraíso, perguntavam às vezes, se estavam ao lado um do outro?

8 de junho de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - pt. 4


THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Adão já está a passar das marcas. Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
Através de bocas alheias, Adão soube que Eva foi passear no Jardim Proibido e foi vista na companhia da serpente. Desconfiou que algo estava errado, e foi avisar a Deus:
- Pai, a serpente anda muito a falar com Eva, eu vou escamá-la. 


NOW

- Adão, não podes escamar a serpente. Não se pode destruir nenhuma criatura viva.
- Pai, eu já Te disse, se eu vir a serpente de novo a falar com Eva, escamo-a. É melhor que a avises, não quero problemas com ninguém. Que está ela a dizer a Eva? Pataratas apenas. Se as vir juntas de novo, mato-a.
- Por que não matas antes a Eva? - provocou Deus.
- Porque... ora, porque... Por que raio fazes essa pergunta, se acabaste de dizer que não se pode destruir criaturas vivas? Por que queres que eu mate a Eva?
- Eu não quero que a mates, não quero que mates nada. Mas não achas que seria injusto matar só a serpente se ambos prevaricaram?
- Mas prevaricou o quê? Quem falou em prevaricação, só quero a serpente longe da minha fêmea, ela tem a sua, que vá conviver ela.
Adão estava com medo que Deus tivesse alguma intenção oculta, e da forma como desconfiava de tudo ultimamente resolveu não arriscar a descobrir essa intenção e por isso desconversou e foi-se embora. 
Entretanto, por causa do seu aviso, Deus falou com a serpente, avisando-a para não se aproximar de Eva.
- Mas como poderei fazer o meu trabalho, pai, se não posso aproximar-me dela?
- Não sei. Se quiseres fazer o teu trabalho, arranja maneira de o fazeres. Nunca deves desistir por falta de meios, antes pelo contrário. Quem encontrou foi porque buscou.
A serpente, aconselhada, buscou e encontrou. Descobriu que Eva gostava de ir ao cybercafé do arcanjo Gueites para entrar no chat e requisitou um computador para poder manter conversação com Eva.
Foi assim que lhe falou da emancipação da mulher e dos direitos cívicos igualitários para todos os géneros humanos. Rematava assim: a espécie é única, nasceste da costela, para mostrar que és igual ao homem, não superior nem inferior. Blá-blá-blá. O emudecimento da verdade foi quebrado, blá-blá-blá, a verdade já saiu do seu alforge, querendo ser hasteada para que todos a vejam.
Eva não compreendia essa última parte, não lhe via sentido, mas parecia bem construída, portanto tinha de ter algum. Talvez estivesse mesmo a precisar de inteligência se até mesmo a serpente sabia mais do que ela. Raios! Imprimiu tudo e levou para Adão, para que este a ajudasse. Adão leu e releu, nada entendeu, mas deu a Eva uma explicação tosca, que não a convenceu, apenas para não mostrar a sua ignorância. Depois, foi buscar um dicionário, mas nem por isso conseguiu traduzir a ideia. Teve que ir procurar Cristo para este lhe ajudar.

Eva, impressionada pelas palavras da serpente, passou a gastar mais tempo no chat, em conversas com ela. Gostava muito de ouvi-la, inda mais porque era com a mulher da serpente que falava agora, e esta era mais expressiva, uma feminista. Quanto menos compreendia, mais Eva admirava o que lhe era dito: confirmava sempre dizendo que era verdade e mais que certo tudo o que a serpente lhe dizia, não obstante não percebesse patavina.
Adão agora andava sem cuidados, não havia motivos para pensar que Eva tocaria na fruta, pois que desde que lhe ensinou a usar Internet, ela andava colada ao computador. Adão não sabia a verdadeira verdade do perigo, não sabia que a serpente instigava Eva a comer a fruta, incutindo-lhe muitas pataratas na mente. Eva tinha muitas outras coisas para fazer, era claro, já nem mesmo ia passear ao Jardim Colorido; se não estava na cybercafé do arcanjo Gueites, então estava na oficina da DIABO a pedir novas coisas que a divertissem muito como aquele espelho. Adão passara muito tempo a procurar um espelho para Eva, porque ela não lhe contara o nome certo, chamara-o espedo. E aquilo era a única coisa de que Eva não se enfastiava, passava eternidades a mirar-se nele.
O que mais dava paz a Adão, convencendo-o que Eva nunca tocaria na fruta, era o facto dde ter pedido a Cristo para vigiá-la, salvando-a de se perder. No entanto, um dia...
- Adão! - disse Eva, correndo ao seu encontro com uma fruta na mão. - Morde isto, é uma delícia.

- Merda!.. - gritou Adão, sobressaltado, depois de ter reparado na fruta. - Eva, por que foste tocar nessa fruta?
Eva estacou, admirada com a cara furiosa de Adão, e com um trejeito que invocava arrependimento.
- Eu queria experimentar, Adão - justificou.
- Eva, não sabes o que fizeste.
- Sei muito bem, Adão - disse Eva, recuperando a confiança, a sorrir. - A serpente explicou-me tudo, Adão, acabei de ganhar poder igual ao pai. Agora sou até superior, pois poderei negar a sua existência, mas ele não pode negar a minha.
- Acabaste de ganhar poder, o caraças. Acabaste mas é de perder o Éden.
Eva perdeu a confiança.
- Por quê? - perguntou.
- Desobediência, Eva. Desobediência. Não mexer significa não mexer. Não vês aquelas placas onde se escreve não mexer e se desenha uma criança com um pé cortado pela mina? Aquilo é o resultado de mexer onde se diz não mexer. Por que merda fizeste orelhas moucas ao meu aviso?
- Adão, estás a assustar-me - disse Eva, visivelmente aterrorizada.
- A assustar-te? Vês-me zangado, Eva? Eu estou apenas triste. Triste por ti e pelo teu acto. Eras a minha fêmea, eu tinha o dever de proteger-te, mas deitaste tudo a perder.
- Mas, Adão - comecou Eva a chorar -, por que estás a falar no pretérito?
- Será que não entendes, Eva? Vais ser expulsa daqui.
Eva rompeu em pranto. Gritos e mais gritos. Histeria.
- Que posso fazer, Adão? Que posso fazer? - perguntava ela, desesperada.
Adão abraçou-a, movido por um sentimento recém-descoberto. A compaixão era grande dentro dele e uma antecipada saudade de Eva o tinha dominado, pois sabia que os seus destinos iriam se descruzar desde essa altura.
- Se eu soubesse, Eva - respondeu-lhe. - Se eu soubesse.
Eva encostou a cabeça no seu ombro e molhava-lhe o corpo com lágrimas. Adão não gostava, mas era o seu último dia com ela, tinha de aceitar. Pensou um pouco mais que o normal e resolveu:
- Onde está a fruta?
- Está aqui - mostrou Eva.
Adão tomou-a da sua mão. Eva, intrigada, levantou a cabeça para ele.
- Que queres fazer, Adão? - perguntou, sobressaltada.
Adão ficou fascinado pela nova cara que via nela. Cara preocupada, olhos rasados de lágrimas, um pouco inchados, músculos da face distendidos. Era uma beleza. Um outro sentimento que nunca experimentara antes apossou-se dele. Instintivamente, segurou Eva pelo queixo e colou a sua boca à dela. Foi o primeiro beijo do mundo. Beijos e beijos, como animais, começaram a descobrir, um no outro, novos talentos. Quer dizer, Adão descobria, porque Eva parecia mais à vontade, talvez fosse do instinto que tinha comprado a Adão.
Depois da confirmação da sua descoberta, Adão ficou ainda mais resoluto a nunca se afastar de Eva. Afinal era ela o verdadeiro Paraíso.
- Mas não sangraste? – disse ele a Eva.
- Mas tu também não – retorquiu ela. – E por que devia ter sangrado?
- Eu sei lá quem pôs essas palavras na minha boca. Na Bíblia eu não as disse.
Eva não entendeu, acho que nem Adão entendeu o que disse, mas não se preocuparam, porque ultimamente havia muitas coisas que não entendiam. Adão fez uma espécie de saia com folhas de árvore – ainda não tinha vendido o engenho - para cobrir as partes, a partir de então, íntimas dele e de Eva. Estava nisso quando ouviu Deus a assobiar, vindo na sua direcção. Envergonhado com as partes íntimas, empurrou Eva para uma moita, tratando ali de tapá-la e de tapar-se a si mesmo.
- Adão, Adão! - chamou Deus. - Onde estás?
- Estou aqui na moita - respondeu Adão. - Ouvi os teus passos e como estava nu, escondi-me.
- Como soubeste que estavas nu? - perguntou Deus. - Por acaso comeste a fruta proibida?
- Não, não comi - respondeu Adão.
- Como soubeste então que estavas nu?
- Como soube? Merda! Não sou cego. - Deus engoliu em seco, não esperava por isso. - Espera um pouco - pediu Adão -, já venho. É só dar um ajuste nisto. Pronto. Já está.
Adão saiu da moita acompanhado de Eva, com uma saia de folhas que provocou gargalhadas em Deus.
- Pelo menos nós estamos vestidos - disse Adão a Deus, irritado com a gozação.
Deus pôs-se sério então. Sabia que a sua ordem não fora cumprida.
- Um de vós comeu a fruta - acusou.
- Foi Eva... - aprontou-se Adão a responder.
- Foi a serpente que me enganou - justificou Eva, rapidamente, olhando para Adão com uns olhos a dizer: linguarudo.
- Eva comeu a fruta? - exclamou Deus, fingindo-se admirado.
- Estás surdo? - perguntou-lhe Adão. - Não foi o que acabaste de ouvir?
- Sabes o que significa isso, Adão? - perguntou Deus.
- Sei sim.
- Ela vai ser expulsa...
- Já disse que sei - gritou Adão, cortando-lhe a palavra.
Deus olhou para ele dentro dos olhos. Adão perguntou:
- Será que ela não tem perdão?
- Não, Adão. Ela infringiu a primeira regra, obediência, e esta era a fundamental. Quebra-se ela, de nada valem as outras...
- Compreendo, pai. Mas só que...
- Só que... - ecoou Deus.
- Só que, ou ficamos os dois ou saímos daqui juntos.
- Como? - Deus não sabia Adão capaz desse sacrifício, ele que sempre fora bruto com todos, não se importando com ninguém. - Não estou a perceber.
Adão mordeu o resto da fruta, que tinha na mão, para lhe mostrar do que estava a falar.
- Não é esta merda o motivo para cartão vermelho? Expulsa-nos! - Olhou para Deus com desafio e alguma pena de si mesmo, e acrescentou: - Se um dia quiseres saber por que fiz o que vou fazer, lembra-te destas palavras: foi a mulher que me deste.
Deus estava surpreso pela atitude de Adão. Ficou irritado, porque começou a ver que os seus projectos estavam a ir por água abaixo, ou melhor, foram. Adão estava a culpá-Lo, atribuindo o erro ao facto dele lhe ter construído a mulher, visto que não a queria no começo; a mulher culpava a serpente e ele, Deus, culpava-me a mim de tê-lo feito pôr aquelas frutas na Árvore Morta. Queria tirá-las dali, mas como não mudava a sua palavra, isso tornou-se impossível. Contudo, esperava que pudesse reconstruir tudo, incluindo remodelar Adão e Eva, para que a ordem reinasse. Conseguira conter a greve; embora alguns dos anjos tivessem ido comigo para o Inferno, muitos outros ficaram, então decidiu que esses não seriam molestados por Adão. Já não precisava expulsar Adão do Paraíso, nem Eva, e se eles não tivessem tocado na fruta, seriam eternos ali.
No entanto, fez-se uma luz no cérebro dele, e Deus lembrou-se dos códices, afinal não precisava expulsá-los, sempre havia uma chance.

21 de maio de 2011

MEMÓRIAS DE LÚCIFER - ADÃO E EVA - O Mundo Perdido - pt. 3


THEN, on ADÃO E EVA:

Deus sabia que Adão não estava de acordo com a construção da mulher, por isso fê-la uma criatura bela, resplandecente, vistosa e apaixonante.
– Adão já está a passar das marcas. Vou mandar Adão para uma viagem de quinhentos séculos.
– Isso não pega, é apenas uma cura temporária, se me permitis dizer, o mal corta-se pela raiz.  Lembrai-vos daquela árvore do meio do jardim, a Árvore Morta? 
– Meu caro Lúcifer, estarás na mais baixa posição que as minhocas que perfuram a terra.
– Sabes, Eloim, mais vale morar no Inferno do que servir de alvo no céu.
– Adão, não estás a ver as frutas sumarentas, redondinhas e deliciosas naquela árvore? Não vais oferecer-me uma? – perguntou Eva, ao mesmo tempo, convidando.
– Não, não vou, porque esta história não está bem contada. Mas vou tirar o pano a isto.  


NOW

– Pai! Que história é esta daquelas frutas na Árvore Morta?
– São as frutas da ciência, homem. Não comas delas. Estou a avisar-te. As frutas vivas da Árvore Morta fazem a morte.
– Não percebo, pai. O que é a morte?
– A morte, homem... hmmm… quando desligas o computador e ele apaga-se, não funciona desligado e não liga por si, é a mesma coisa a morte. Depois vem até aqui, temos muito que falar.
Desligou.
Adão contou a Eva o que ouviu de Deus.
– Mas isto é pecado! Por que fazer frutas tão vistosas e cunhá-las de maldade. Semear a morte na delícia. O pai está a pedir a nossa desobediência.
Adão ouvia Eva sem dizer palavra, remoía no seu cérebro as palavras de Deus, tentava descortinar a razão daquelas frutas estarem ali. Sentiu que lhe tinham estendido uma armadilha e estava disposto a não tocar nela, mesmo que isso lhe custasse outra costela. Notou que estava sentado na boca de lobo e, portanto, tinha que tomar cuidado, porque mesmo que o tal lobo fosse manso, os seus dentes eram duros.
Adão não conseguiu entender o porquê daquelas frutas. Como a sua própria consciência não lhe ajudava muito na sua procura, bruto, cortou a relação com ela durante duas semanas; quando quis reatar o laço, a consciência, que tinha descido ao inconsciente, não veio toda, estava a curtir mais a onda de ser inconsciência, o que o levou depois a falar quase sempre com o arcanjo Freud, para ver se recuperava as lembranças que foram para a inconsciência.
Depois de Adão ter ido falar com Deus, disse a Eva:
– Por favor, não te aproximes daquela árvore. Tenho um pressentimento negativo.
– Vai ao estúdio, lava-o e vê a fotografia.
– Não estou a brincar, Eva. Não te aproximes da árvore.
– Por quê? Nem para ver?
– Oh, oh! Eva, não sabes o que significa, não te aproximes.
– E se eu me aproximar? – desafiou Eva.
– Eu não perguntei isso a Deus. Limitei-me a obedecer. Por isso, por favor, tenta fazer o mesmo. Mas, para responder a tua questão, se eu te vir a mexer naquela fruta vais saber como sou bruto, vou dar-te uma porrada do caneco.
Acobardada pela ameaça, Eva aceitou imediatamente:
– Está bem, querido. Está bem. Não vou aproximar-me.
Se ele pensa que não vou aproximar-me daquilo, está tremendamente enganado. Não sabe que eu só lhe disse o que ele queria ouvir. Basta desaparecer daqui, vou apanhar sombra naquela árvore... E talvez leve alguns querubins comigo.
Adão: Não acredito nesta ronhosa. Basta virar as costas, ela vai lamber-me a nuca. Não vou afastar-me dela. Aconteça o que acontecer, naquela fruta ela não toca. Porra! Já não se consegue descansar nem no Paraíso.
Adão vigiava a Eva constantemente, não a deixava muito tempo só, com receio que ela fosse mexer na fruta proibida. E Eva, chateada com tanta vigia, acabou mesmo por perder o interesse pela fruta. Que coisa melhor podia fazer para intrujar a vigilância de Adão? Ela já nem passava perto da Árvore Morta, no jardim proibido, e quando Adão aludia ao assunto, bocejava de chatice. Adão começou a acreditar que ela não queria nada com a fruta. Ah, se soubesse...

- Lúcifer... o teu plano é uma merda.
- Credo, Deus! Por quê?
- Adão nem liga à fruta.
- E então, a fruta já tem telefone? - trocei primeiro e depois fiz-me sério. - Mas estás à espera que seja Adão a comer aquilo? Fica descansado, ele é mais inteligente do que Tu...
- Lúcifer, mais respeito.
- Desculpa, mas não acabei. Ele é mais inteligente do que Tu… possas pensar. Quem tocará naquilo não será ele, chama-se Eva.
- Eva?
- Exacto, ela mesma.
- Não pode ser. Adão era apenas um esboço, construí Eva com mais perfeição.
- Excesso de perfeição, excesso de fragilidade e de ambição, e a inteligência não se submete à mediocridade.
- Lúcifer, pela última vez, mais respeito.
- Se quiseres acelerar as coisas tens de dizer a verdade a Adão.
- Eu sempre disse a verdade a Adão. Sabes que não gosto de mentira.
- Oh, Deus! Vai pregar para outra freguesia. Eu estive sempre contigo, os esquissos dos teus projectos foram todos meus, só te limitaste a assinar porque eras o dono do atelier, e ambos sabemos que falsifiquei os dados do relatório da criação de Eva, para manter insuflado o ego do Adão e ele não descobrir que o barro da Eva era bem melhor. Por isso não me venhas com essa de não gostar da mentira.
- Porra! - exclamou Deus, para mudar de conversa. - Todo o meu projecto saiu ao avesso.
- Foi porque não projectaste nada. Além de mais, resolveste fazer tudo em apenas seis dias.
- Mudando do assunto - disse-me, em nova tentativa de desviar a crítica -, como vão por lá, no Inferno?
- Nunca estivemos melhor, Deus. Acredita que sim. Um dia eu Te convido para nos vires ver.
- Ah, não, nunca. Deus me livre.
Rimo-nos ambos da piada.
Deus nunca se ressentiu por eu ter ido criar um outro reino, deixou-me toda a liberdade. Sentia que agora que estávamos a governar cada um a sua parcela deste sistema do Universo, ficámos mais amigos. Agora, divertíamo-nos mais. Há coisas que eu Lhe digo agora, mas que tinha perdido antes a coragem de dizer. Quando conheci Deus, tratava-o por tu, Eloim, mas ele tornou-se arrogante depois d’O Grande Projecto, desenho meu, por acaso, e passei a tratá-lo por Vossa Magnificência; agora voltei ao tu, e recuperámos o espírito de antes. Deus adora-me. Basta sentir-se só para discar os números do Inferno. Eu O diverto à brava.
- Voltando à vaca fria...
- Eh, Deus! Não uses essa expressão, é medonha. Vaca fria é vaca morta.
- Como queiras - riu-se Deus. - Mas, se como dizes, será Eva a comer a fruta, por que raio ainda não a comeu?
- Não sei! Deve estar a ser vigiada por Adão, ou talvez lhe falte a motivação necessária.
- Que raio pode motivá-la?
- Como toda a alma perfeita, o poder. Ela adora o poder.
- O poder!, como não pensei nisso?  
Porque ultimamente já não pensas, disse eu para mim.
– ­Obrigado, Lúcifer. Tu pareces conhecer melhor do que eu as minhas obras.
- Hey, sou eu quem faz os desenhos.
- Convencido! Eu é que digo como fazê-los… Olha, tchau, tenho coisas para pôr em dia ou em eternidade.
- Até depois.

Eva continuava a manter distância da árvore, e Adão acabou por se sentir seguro e deixá-la em paz. Eva não se precipitou em ir tomar sombra debaixo da árvore, para não provocar alarme. Depois de algum tempo de quarentena, diga-se, começou a frequentar o jardim proibido. E foi lá que encontrou a serpente. Ela estava estendida, num recanto, ao sol, secando as escamas. Ao ver Eva, levantou-se de um salto, e deslizando, aproximou-se dela, fez uma saudação [não sei dizer como] e falou:
- Avé Eva, cheia de curvas... quer dizer... de graça, bendita és tu pois não tens rival, nem sogra.
Eva não compreendeu a saudação e ficou zonza a olhar para a serpente.
- Não tenhas medo, ó Eva, vim dar-te uma boa notícia: engravidarás e terás um filho que se chamará Eman... Ops! Desculpa, declamei a frase errada... - cortou a serpente atrapalhada. Refez-se e recomeçou, sob a estupefacção de Eva: - Bom... Não tenhas medo, ó Eva, vim dar-te uma boa notícia: comerás a fruta e ficarás inteligente.
- Queres que te parta as trombas? - disse Eva furiosa à serpente. - Estás a dizer que sou burra. Não sou loira, não. O meu cabelo é oxigenado.
- Ah! Estou a ver - concordou a serpente. - Burrice artificial.
- Queres ter de começar a andar com muletas? - ameaçou Eva. Volta a chamar-me burra e parto-te as pernas.
- Mas eu não tenho pernas.
- Arranjo-tas e parto-tas - explodiu Eva. - E sai perto de mim.
- Mas Eva...
- Sai!
- Olha, Eva, espera só. Deixa-me fazer o meu trabalho. Tenho de falar contigo.
- Falar sobre quê? A inteligência? Quem te disse que não sou inteligente?
- Ninguém me disse. Mas não é bem assim. Deixa-me explicar. Nunca leste a Bíblia?... Estás a ver. Eu também nunca li, mas correm rumores de que na Bíblia a serpente tentou a mulher.
- Estás a faltar-me ao respeito ou quê? Eu sou tua mulher? Vai tentar a tua mulher e deixa-me em paz.
- Eva, não queres a inteligência?
Eva pegou a serpente pelo pescoço e apertou-o até ela tirar a língua. Com as suas unhas compridas, rasgou-lhe a língua deixando-a bífida. Depois atirou-a para o chão. A resmungar afastou-se da Árvore Morta, dizendo:
- Burrice artificial, hem? Já aprendeste. A inteligência? Eu sou inteligente. Já viste, já aprendeste.
A serpente, refeita da dor e pondo em ordem todos os seus sentidos, afastou-se, a resmungar também:
- Bolas! Hoje em dia, já ninguém pode fazer o seu trabalho sem chatice. Estas mulheres de hoje! Julgam que sabem tudo. Mas, pelo menos, ficou claro que isto da inteligência não pega com ela.
Eva já estava farta do Jardim Colorido, o recanto mais bonito do Paraíso, o seu coração. Conhecia de cor a decoração daquele coração, queria que se mudasse aquilo. Sabia onde começavam e acabavam as flores vermelhas, as azuis, amarelas... conhecia a disposição das cores das flores de cor. O prazer que tinha quando se sentava naquele canto para descansar esfumara-se. Já não sentia nada, a contemplação daquele sítio tornara-se monótona e sem alegria, precisava de coisas novas.
O espírito de Eva estava sempre insatisfeito, ela buscava sempre pela perfeição, a decoração do Jardim Colorido já tinha sido mudada trezentas e duas vezes, mas mesmo assim enfastiava-se dela. Decorara todas as mudanças decorativas feitas e só pedia novas mudanças, nunca as que já tinham usado. Por isso é que se dirigiu para a DIABO, para resolver a questão da ornamentação do Jardim Colorido, o seu cantinho preferido. Também queria que trocassem os pássaros daquele local, porque os que lá estavam já lhe pareciam desafinados apesar da sua sinfónica melodia, até mesmo os pássaros mozart e beethoven ela não queria mais ali.
Ao entrar na sede da DIABO, Eva deu de caras com uma mulher, bela que se farta, e pensou: Que mulher bonita! Se Adão a ver, vai deixar-me! Sem olhar de novo para a mulher, exclamou para os arcanjos que viu:
- Que criatura tão horrível! Raios! Como Deus pode permitir que coisa igual esteja no Paraíso?
Eva começou a falar, menosprezando a dita. De repente, um anjo muito jovem, cadete de arcanjo, começou a rir e Eva estranhou.
- Que estás a rir? - perguntou, desconfiada.
- Aquilo ali é um espelho, senhora Eva, aquela não é ninguém, é tua imagem. Tu és tão burra...!
- Ah, sou! Estás despedido - disse Eva, irritada. - E pensas que eu não sabia que aquilo era espedo e que estava a ver a minha imagem?
Eva saiu da DIABO furiosa, esquecendo-se do que a levara lá.
- Estou mesmo despedido? - perguntou o anjo cadete ao arcanjo Loos, novo chefe da DIABO, Olmsted tinha vindo comigo para o Inferno.
- Receio que sim, meu caro anjo.
- Mas não é Adão o dono disto?
- Mas é ela a dona de Adão, o resto é fachada.


Já na rua, um tanto distante da DIABO, Eva sorriu:

- Oh! Como sou bonita! - exclamou. - Vou ter de arranjar um espedo para mim. Cristo!
Um relâmpago acendeu e apagou:
- Chamaste-me, estou aqui - disse uma voz. - Sou o salvador dos homens.
- Não te chamei, apenas exclamei. Mas como já cá estás, eu queria um espedo.
- O que é isso? - perguntou Cristo.
- Uma coisa para ver a minha imagem. Cristo - perguntou Eva -, achas que sou bela?
- Olha, Eva, não sei dizer. Tu és a única mulher, não tenho com quem te comparar. Não sei se és bela.
- Sou - disse Eva. - Deus fez-me perfeita.
- Pode ser perfeitamente feia - atreveu-se Cristo a dizer.
- Cristo, vai-te embora. Já não preciso que me arranjes espedo, Adão arranja.
- Mas eu é que devo - reclamou Cristo. - Sou o salvador dos homens.
- Vai-te congelar, Cristo. Não és salvador de nada.
- Mas já te salvei duas vezes quando estavas a nadar.
- Salvaste-me, sim, mas eu não sou homem, eu sou mulher. Tu não podes ser salvador dos homens porque aqui só há um homem, Adão. Vai, vai-te congelar.
Eva não gostara nada que Cristo lhe tivesse dito que era feia, por isso é que se vingava.

Através de bocas alheias, Adão soube que Eva foi passear no Jardim Proibido e foi vista na companhia da serpente. Desconfiou que algo estava errado, e foi avisar a Deus:
- Pai, a serpente anda muito a falar com Eva, eu vou escamá-la.